segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Como Se Libertar De Um Vício





Nada como perceber e aproveitar as oportunidades oferecidas pelo acaso. Mesmo assim ainda tentamos ressuscitar velhos condicionamentos arraigados.
A liberdade tarda mas não falha. 
Troque sua televisão por um livro, ou quem sabe, uma criança pobre. 

Crueldade Com Os Animais

Cenas do filme "Stroszek" de Werner Herzog, 1977, em que animais expostos à curiosidade pública são impelidos a dançar sob o efeito de descargas elétricas mecanicamente infligidas. Onde? In the USA, of course, indeed. Estão acostumados a fazer isto com o resto do mundo; com os animais então... Esta é uma modalidade, digamos, industrial deste tipo de suplício, que tem em nossas rinhas de galos (e ao redor do mundo idem) um parente próximo mais selvagem, primitivo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Deu no NYT em 26 de Janeiro de 2011

A Idade de Ouro Dos Filmes Estrangeiros
(Em Sua Maior Parte Invisíveis).
publicado por A.O.Scott no New York Times em 26 de Janeiro de 2011


Uma das surpresas no Globo de Ouro há duas semanas - você será perdoado se já esqueceu aquela transmissãozinha estranha - foi o prêmio dado a "Carlos", do diretor francês Olivier Assayas, uma reconstrução de cinco horas da vida e da carreira do famoso terrorista dos anos 1970 e 80, Carlos, o Chacal. O prêmio representou o ponto alto do cosmopolitismo num evento paroquial previsível:
11 línguas faladas na tela; dezenas de localidades na Europa e no Oriente Médio, um elenco poliglota liderado por uma estrela da Venezuela, Edgar Ramirez, com potencial para se tornar um símbolo sexual internacional .
Que mais se poderia querer de um filme estrangeiro?
Só que "Carlos" não foi nomeado para o Globo de Ouro nessa categoria (o vencedor foi "Em um Mundo Melhor", da Dinamarca): ele foi feito para e exibido pela primeira vez na televisão francesa, fato que também o tornava inelegível como língua estrangeira ou qualquer outro tipo de filme pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences,  que anunciou seus candidatos na última terça.
A vitória de Assayas para melhor minissérie ou filme feito para a televisão foi o azarão no Globo de Ouro, o que é bastante justo dadas suas origens. Assim "Carlos" encontrou seu público norte-americano da maneira que mais e mais filmes estrangeiros estão fazendo atualmente: um punhado de salas de cinema nas grandes cidades, na TV a cabo e vídeo streaming.
Pesando estes motivos, sua exclusão do Oscar parece um tanto arbitrária.
Assim acontece com tudo na forma como a Academia lida com os filmes do resto do mundo. Um misterioso e elaborado processo de seleção elimina milhares de potenciais candidatos para cinco.
Este ano, eles são "Dogtooth" da Grécia ", Incendies" do Canadá, "Biutiful" do México, "Fora da Lei", da Argélia e "Em um Mundo Melhor", que pode ser considerado o favorito, se você assumir o Globo de Ouro como sinalizador. "Dogtooth" foi e voltou em algumas telas americanas na última primavera, e "Fora da Lei" teve uma breve carreira em Dezembro (e pode retornar em breve), mas apenas "Biutiful", cuja estrela mundialmente famosa, Javier Bardem, foi nomeada para melhor ator, é provável que esteja passando agora num cinema perto de você. Os outros serão lançados no final do Inverno ou início da Primavera, na esperança de ganhar algum alento na bilheteria.
O handicap da pré-nomeação - angariar opinião crítica e o peso do sentimento popular -
não se aplica a estes filmes, que poderiam, em princípio, terem suas escolhas menos comprometidas,
mas na prática só serve para torná-las mais confusas. Por exemplo, "Of Gods and Men", o drama do deslocamento forçado de um grupo de monges franceses tentando sobreviver e honrar a sua fé na Argélia,
durante uma época de terror e da guerra civil, dirigido por Xavier Beauvois também foi esnobado pela Academia.  É claro que filmes dignos vão e vêm o tempo todo, mas este tipo de quebra-cabeça e caprichosa negligência que tantas vezes acontece pode ser tomada como um lembrete anual da marginalização sistemática à criação de grande parte do cinema mundial empreendida pelo stablishment do cinema americano. Por alguma razão, a Academia insiste numa regra de um-filme-por-país, que coloca uma grande parte do processo decisório nas mãos da indústria cinematográfica, pelo menos tão corrompidos e tendenciosos quanto nossas inclinações pessoais.
Por que "Of Gods and Men" foi filmado só na França? E afinal, o que determina a nacionalidade de um filme?
Por que o "Fora da Lei" de Rachid Bouchareb é tão argelino quanto um filme francês, uma vez que seu diretor é cidadão francês e foi feito principalmente com financiamento francês e, portanto, dentro dos estatutos legais que regem a produção cinematográfica deste país? E o que faz de "Biutiful", rodado em Barcelona com um elenco espanhol, um filme mexicano?
Meu foco não é realmente demonizar a Academia, nem mistificar leitores com informações sobre filmes que podem nunca ter ouvido falar e muito provavelmente não terão a oportunidade de assistir.
Meu protesto é sobre a irrelevância peculiar e crescente do cinema mundial na cultura do cinema americano que os prémios da Academia ajudam a perpetuar.
Existem certamente exemplos da última década de filmes legendados, nominados ou não, que atingiram um certo grau de popularidade: "Crouching Tiger, Hidden Dragon", "O Labirinto do Fauno", "A Vida dos Outros", "The Girl With the Dragon Tattoo". Mas esses sucessos parecem cada vez mais como exceções. Uma modesta bilheteria bruta americana de cerca de US$ 1 milhão está fora do alcance até mesmo dos premiados em Cannes ou de obras-primas de auteurs aclamados internacionalmente, cujos nomes em sua maioria permanecem desconhecidos mesmo para os cinéfilos.
Isso é menos uma mudança radical do que a continuação de uma tendência de 30 anos. Ao contrário da moda, dos jogos, da música pop, mídias sociais e tudo mais que se mesclou para reduzir as disparidades do mundo e fazer a ponte entre as culturas e os gostos, o público do cinema americano parece se apegar a uma abordagem de entretenimento cautelosa e isolacionista. E o Oscar reforça isso, freqüentemente ignorando os filmes acessívis e de entretenimento realizados em outros países e fixando-se com freqüência numa lista aparentemente aleatória de finalistas.
Todos os anos, o mundo volta sua atenção para Hollywood, e Hollywood continua a ser, de acordo com uma longa tradição, um lugar acolhedor para os talentos distantes.
Sempre há espaço - trabalho, dinheiro e mesmo um tanto de glória - para os atores britânicos e australianos,
símbolos sexuais intercontinentais e diretores imigrantes em busca da liberdade ou de fortuna.
Sr. Bardem, um surpreendente candidato a melhor ator este ano, já ganhou um papel de coadjuvante em um filme em inglês (em 2008, para "No Country for Old Men"), e outros artistas de língua não-inglesa são momentaneamente colocados sob os holofotes. Pedro Almodóvar ganhou o prêmio de melhor roteiro original em 2003, e Marion Cotillard levou o prêmio de melhor atriz, cinco anos depois com sua performance como Edith Piaf em "La Vie en Rose". Ela também ganhou a oportunidade de interpretar com seus exóticos olhos arregalados, amores sérios e interesses subscritos de Johnny Depp (em "Public Enemies") e Leonardo DiCaprio (em "Inception"). 
O apetite voraz de Hollywood - o seu poder incomparável para sugar a ambição e a arte de todo o mundo - faz parte de sua lenda e grandeza. Mas também lança uma grande sombra sobre o resto do mundo, que luta por visibilidade. No passado (principalmente na França dos anos 80 e início dos anos 90), houve protestos contra o imperialismo cultural americano que parecem ter diminuído recentemente. Se isto é porque a nossa hegemonia imperialista tem sobrecarregado a possibilidade de resistência, mesmo retórica, ou porque, ao contrário, o império não é tão forte como costumava ser, é um assunto para outro dia.
Minha preocupação aqui é mais com o protecionismo cultural - o  impulso não para conquistar o resto do mundo, mas sim excluí-lo. Eu não quero repreender o público americano por não comprar ingressos para os filmes legendados. Não hoje, de qualquer maneira. A indiferença do público (ou ignorância), para além dos filmes de Hollywood ou suas províncias "indie"  é rotineiramente invocada pela razão de que esses filmes não estão amplamente disponíveis. E assim o cinema desaparece  num círculo vicioso no qual o seu status marginal é imediatamente assumido e assegurado.
Mas na periferia do mainstream comercial, nos temíveis cinemas de arte e ao alcance majoritário do espectro da televisão a cabo, talvez haja mais variedade e vitalidade do que nunca. Sim, é voz corrente em alguns círculos lamentar os velhos tempos, quando estrelas e diretores estrangeiros - em sua maioria europeus e japoneses - eram nomes badalados em muitas das mesmas casas que abrigavam best-seller de livros de culinária francesa, italiana e asiática. Mas em termos de volume e distinção, nos últimos 15 anos também se qualificam como uma Era do Ouro. O que mudou é o sentimento de prestígio cultural e moeda de troca social. Este fenômeno pode ser ele próprio um produto da superabundância. Novas tecnologias e tradições proliferam e tem uma polinização cruzada tão rápida que até mesmo um habituê permanente do circuito internacional de festivais de música teria dificuldade para manter-se a par de tudo.
A lista dos filmes de diversas nacionalidades para assistir parece crescer a cada ano, de modo que até mesmo numa avaliação cinematográfica superficial deste estado de coisas pode exigir uma tomada de consciência a cada minuto do que está acontecendo na Coréia do Sul, na Sérvia, Cazaquistão, África do Sul, Tailândia e numa dúzia de outros lugares.
Novas ondas de criatividade inundam a Europa Oriental, o Sudeste Asiático e a América Latina? A Rússia está enfrentando, talvez o mais excepcional impulso da indústria cinematográfica desde 1960.
França, Itália e Alemanha se recusam a serem ignorados. E depois há a Grécia. Suas lembranças nebulosas de Melina Mercouri ou Zorba (se você as tiver) não vai ajudar muito a fazer sentido no "Dogtooth" de Giorgos Lanthimos, um assustador, engraçado e elegante tiro alegórico de algo muito estranho na natureza humana(Língua? Poder? Sexo, Família?). Sr. Lanthimos faz parte de uma geração de cineastas gregos, cujo trabalho é iconoclasta, formalmente audacioso e às vezes agressivos.
Esses diretores, por sua vez, são parte de uma tênue rede que se espalha por grande parte do mundo, ligados pelas promessas de exposição em festivais e o desafio de levantar o dinheiro num clima econômico mundial de recessão. Seus trabalhos são quase invisível aqui, apesar de demandarem uma quantidade justa de atenção na ala florescente e controversa da blogosfera cinéfila. Não obstante, está disponível para qualquer pessoa com a curiosidade e a paciência para navegar nos novos sites em rápida evolução de vídeos, em  VOD e streaming.
A Academia, por vezes, toma conhecimento - na maioria das vezes não toma -, mas todo um mundo de filmes está lá fora esperando para ser descoberto.


Exemplo doque configura a nacionalidade de um filme estrangeiro segundo a academia de Hollywood

Brasil não leva Oscar se "Lixo Extraordinário" ganhar

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FERNANDA EZABELLA
DE LOS ANGELES
Metade do filme foi feito com dinheiro público brasileiro, rodado em solo brasileiro, com equipe brasileira e sobre um artista brasileiro. Ainda assim, se "Lixo Extraordinário" ganhar o Oscar de melhor documentário no próximo dia 27, a estatueta deve ir para longe do Brasil.
Na sexta, a Academia de Cinema dos EUA incluiu o nome da empresa de Fernando Meirelles, a O2 Filmes, nos créditos do longa no site do Oscar, ao lado da produtora britânica Almega Projects.
Porém os nomes dos indicados continuam iguais: dois britânicos, a diretora Lucy Walker e o produtor Angus Aynsley, idealizador do projeto e colecionador de arte.
"Lixo Extraordinário" segue o trabalho de Vik Muniz no maior aterro sanitário da América Latina, no Rio.
Meirelles e Andrea Barata Ribeiro, da O2, ficaram "surpresos" pela ausência da produtora nos créditos, mas não ficou claro se eles se manifestavam também por um lugar nas indicações.

Divulgação

Cena do documentário "Lixo Extraordinário", de Lucy Walker, que concorre ao Oscar
Cena do documentário "Lixo Extraordinário", de Lucy Walker, que concorre ao Oscar
"Conversei com Angus Aynsley nesta manhã [quinta], ele confirmou a O2 como coprodutora. Faremos as mudanças em nossos arquivos", disse a coordenadora de prêmios da Academia, Torene Svitil, explicando que só duas pessoas, produtor e/ou diretor, podem ser indicadas. "Os únicos indicados são os dois listados no site."
Aynsley e Ribeiro afirmam que o erro foi da distribuidora americana, Arthouse Films, que, por sua vez, apenas comentou: "Todo mundo assinou os formulários", disse uma assessora.
O próprio Aynsley afirma que o filme é "brasileiríssimo". "Muito engraçado acharem que é britânico. Os britânicos acham que o filme é brasileiro", diz, por e-mail. "Somos todos refugiados do mundo maravilhoso do cinema internacional."
A direção também foi bem dividida. De acordo com os produtores locais, Walker filmou apenas uma pequena parte em Nova York e a primeira ida de Muniz ao aterro.
Ela abandonou o projeto para se dedicar ao documentário "Countdown to Zero", sobre armas nucleares, e voltou ao final para montar.
O diretor brasileiro João Jardim fez seis meses de filmagens, achou personagens e gravou em Londres. Há também uma terceira diretora, Karen Harley. Os dois são codiretores do filme.
"Apesar de termos produzido o filme, nunca a encontrei [Walker] nem falei com ela", disse Meirelles.
"A codireção foi contratual e estava já prevista. Não houve má fé de nenhum dos lados", explicou Ribeiro.
A reportagem trocou mais de dez e-mails com o assessor de Walker, mas a diretora se recusou a dar entrevista.
Aynsley conheceu Muniz em 2003, quando o artista fez retratos de chocolate de seus filhos. O britânico fez um curta sobre o artista em 2006. Depois, chamou Walker para filmar um longa, em 2007.
A parceria com a O2 veio no mesmo ano, em maio, quando Aynsley conheceu Ribeiro em Cannes.