domingo, 21 de agosto de 2011

Cinema "Global"


Veja.com
Coluna de Isabela Boscov

22/07/2011
 às 21:42 \ Cinema

Assalto ao Banco Central

Isabela Boscov fala sobre o filme que tenta reconstituir o maior assalto a um banco brasileiro. ‘Assalto ao Banco Central’ é baseado no episódio  em que R$ 164,7 milhões foram furtados por uma quadrilha em Fortaleza em 2005, sem disparar nenhum tiro. Com: Milhem Cortaz, Hermila Guedes, Lima Duarte, Giulia Gam, Eriberto Leão, Gero Camilo, Cássio Gabus Mendes, Milton Gonçalves, Tonico Pereira, Vinícius de Oliveira e Antônio Abujamra. Direção de: Marcos Paulo

15 Comentários

      Danilo Gomes da Silva - 20/08/2011 às 21:58
      Seu comentário está aguardando moderação
      Todos este filmes macaqueados pela visão “global” de cinema que aqueles diretores de lá têm, são a mais completa tradução da inadimplência criativa e da falta de assunto com recursos de produção no bolso e azeitamento perfeito da caixa registradora. Só que na maioria das vezes o tiro sai pela culatra e quem se vê assaltado é o cinéfilo que ainda procura caminhos consistentes no cinema brasileiro, agora completamente perdido neste formato de novela, de interpretações chapadas e mal ajambradas que se vê no dia-a-dia das tramas folhetinescas. O filme americano citado é muito bom dentro do que se propõe, mas este em questão é uma perda de tempo e desperdício de alguns talentos que ali estão envolvidos, completamente deslocados.
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      Comentário do leitor no site RioShow do Jornal O Globo a respeito do "filme" "Cilada.com"
      neuzinha bezerra da selva 
      nb.zerra@hotmail.com
      18:08h | 18.ago.2011
      E depois dizem que isto é cinema brasileiro
      Perdi meu tempo e dinheiro (se fosse 0,10 centavos já seria uma aberração pagos para esta mixórdia televisiva de oitava categoria) para ver o que há num "filme" que arrecada muito dinheiro em semana de estréia e com o bonequinho dormindo na crítica. Trata-se de uma contrafação do que há de pior do humor desclassificado veiculado na televisão, apelativo à indigência educacional e cultural dos seres mesmerizados que aquele veículo escraviza, somados à falta de talento, expressividade e profissionalismo de José Alvarenga e Bruno Mazzeo, uma súmula desta aberração a que estamos atualmente expostos, este fenômeno caça-níqueis que todos reverenciam em busca do dinheiro fácil e rasteiro chamado Globo Filmes. Muitos se arvoram qualificando isto de boa fase do cinema brasileiro de comédia, mas sinceramente, tudo em "Cilada.com" faz chorar de indignação.
      pedro paulo machado bastos 
      10:53h | 13.jul.2011
      Decepcionante
      Assisto o Cilada desde a sua fase inicial, em 2006, ainda no Multishow, onde o seriado conseguiu obter reconhecimento pelo seu humor inteligente e cosmopolita. Vibrei com o sucesso do Bruno Mazzeo, com o lançamento dos DVDs, o quadro no Fantástico e com o filme... Mas... Confesso que fiquei decepcionado com o filme. O roteiro abordado foi totalmente de encontro com o que a série tinha de melhor, que era fazer rir sem, necessariamente, apelar. Todas as piadas de Cilada.com envolvem sexo, sacanagem, pornografia, palavrões e cenas de humor duvidoso, como o nu de Serjão Loroza. Mesmo que engraçado em algumas poucas partes, Cilada.com é muito apelativo e clichê, voltado para o público teen e/ou o masculino entre 25 e 40 anos. No cinema em que assisti (Kinoplex Leblon), casais de idosos saíam constrangidos no meio do filme justamente pela falta de equilíbrio entre piada e baixaria. Bruno Mazzeo e seus roteiristas parecem ter resolvido focar no retorno financeiro das bilheterias em detrimento da qualidade de produção que tanto 
      leoparente 
      leopmsantos@yahoo.com.br
      16:43h | 08.jul.2011
      MEDÍOCRIDADE
      O filme é muito ruim. Nosso país atualmente só produz estas porcarias. Peço que os produrores, diretor e atores vejam mais filmes dos nossos hermanos. O cinema argentino dá um banho neste "cinema novo". Vejam por favor estes filmes argentinos: ABUTRES, O HOMEM DO LADO E SEM RETORNO. Parem de produzir filmes como esta porcaria.com. Esse Bruno Mazeo é MEDÍOCRE!!!!!!! 

sábado, 20 de agosto de 2011

Deu no JB em 20 de Agôsto de 2011


País - Sociedade Aberta

Milagre, antropogenia e cientificismo

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum
A questão da ciência - seus limites e critérios - está sempre voltando à pauta jornalística. Artigos recentes lembraram a perseguição que cientistas americanos vêm sofrendo por acharem resultados que às vezes contrariam expectativas populares no caso de novas evidências surgidas contra a hipótese do aquecimento global.
Há quem ache que a ciência fará milagres. A tradução deste termo nos remete a múltiplos significados etimológicos. Mas o fato é que sempre que um extraordinário acontece, recorremos à palavra.  O milagre é, provavelmente, muito mais banal que supomos. Seriam as marcas de um acontecimento extraordinário, transcendente? A natureza do milagre, vale dizer, seu propósito, é exatamente forçar-nos a admitir que há algo além, muito adiante da curva do insondável. Talvez o que não dominamos, ou nem sonhamos em conquistar: o inexplicável.  Exatamente tudo aquilo que nestes estertores de pós-modernidade não nos é mais permitido.
Por isso vê-se necessário explicitar a diferença entre atitude científica e cientificismo. Na inquietude científica, encontramos os autênticos elementos de  ética e recato que pesquisas e pesquisadores devem ter: a cadência da humildade, a suavidade mental para admitir que há, inclusive, mais segredos que explicações, o respeito pelo contraditório e inacabado. Enquanto isso, na outra ponta, o cientificismo tornou-se uma seita: adota uma percepção seletiva, determinista, às vezes dogmática e descontextualizada.
O milagre é lugar-comum, porque não é difícil verificar que o comum contém o milagroso.  Acontece bem na soleira das nossas portas ou aqui mesmo, dentro de cada organismo.  A respiração e as trocas gasosas de captação de oxigênio e eliminação de CO2 (gás carbônico) são milagres que acontecem 31 vezes por minuto. A manutenção da temperatura corporal humana de 36,8 graus (em média), mesmo quando há frio e calor excessivo, também poderia figurar nesta categoria. É a homeostasia - uma excepcional constatação do médico fisiologista Walter Bradford Cannon nos anos 30 - a capacidade de nos manter razoavelmente estáveis em um meio altamente instável. Os pequenos milagres, ou sinais de vida, têm uma constância absurda, e faz bem alguma humildade para não atribuir tudo ao acaso.
Afinal, muitas coisas que estamos tentando curar com a tecnociência nossa de cada dia - entre as quais a destruição da biosfera, a desclimatização do planeta, as patologias provocadas por radiações ionizantes, a explosão de moléstias neuro-degenerativas, a farinização e industrialização dos alimentos - são enfermidades artificiais, produzidas por nossas próprias decisões e meios de vida. As modificações que o homem introduz no meio ambiente são conhecidas como antropogenias.
Ao mesmo tempo, deparamos com um avanço das ciências aplicadas, tanto espetacular como perturbador. Há confiança excessiva no domínio frágil, se não perigoso, da própria natureza.  Isso se alastra por todos os cantos, da medicina à astronomia, da física à biologia. Mas essa inflação do papel da ciência nas nossas vidas embute um impasse, já que ele não nos torna automaticamente aptos para assumir, nem a compreensão nem a onisciência prometida.
O inconcebível avanço da tecnociência é um marco da capacidade humana, mas seu uso, e preço, pouco razoáveis. Podemos enxergar o tamanho do exagero? O endosso generalizado e acrítico com que passivamente aceitamos todos esses instrumentos e artefatos?
Escancaramos as porteiras da medicalização da vida e fomos um pouco adiante: a cientifização da existência.
Por isso é salutar provocar com o desconhecido. Acreditemos ou não nele, os  milagres evidenciam desafios. E o desafio não é só seguir adiante num mundo fraturado, com as tradições, todas elas, em frangalhos. Estamos em plena era dos descartes - prematuros e erráticos - das necessidades subjetivas, do mundo interior, da arte e da filosofia como forma de vida (ou de morte).  Mergulhamos no pragmatismo cru, nas hiper-racionalizações que bloqueiam a vida, quando na verdade a vida e a saúde são a regra, as anomalias e as doenças, dolorosas exceções.
O desafio agora é autocrítico, e, eventualmente, considerar retroceder, como fez recentemente a Alemanha ao dizer não às centrais nucleares.  E por que não voltar passos atrás? Diante da extensão do incognoscível precisamos reconhecer a extensão da arrogância e a soberba intelectual que nos possuiu. Possuiu-nos frente ao que não sabemos nem controlamos.  O homem pode produzir milagres - e o fará cada vez mais - assim a ciência demonstra. E é bom que seja assim.
Vibraríamos todos com tetraplegias curadas com elétrodos, e quando nossos recursos tivessem se esgotado seria absolutamente genial acompanhar exércitos de robôs extraindo água de asteroides congelados. O inconcebível é imaginar um domínio arrogante, que despreza os efeitos colaterais das interferências: aí está a sobrenatural empáfia do cientificismo.
Sempre me interessei por robôs, mas também sempre lamentei que eles, ao menos nas ficções, acabem se insurgindo contra seus criadores: foi assim em 2001, Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke, e se repetiu em Eu, robô, de Isaac Asimov. Não é só uma ética duvidosa, em uma palavra, ingratidão, esta das máquinas. As referências são oportunas para mostrar que, tal qual velhos robôs, também podemos nos enganar. É possível até prescindir de atribuir uma autoria ao Cosmos e substituí-la por esse androide mítico chamado tecnologia. Se é essa é a grande revolução do século 21, ficamo-la devendo às próximas gerações.
*Paulo Rosenbaum é médico, Phd. e pós-doutor pela USP, poeta e escritor.

domingo, 14 de agosto de 2011

Excertos do Livro Do Desassossego de Bernardo Soares (Fernando Pessoa)


100


Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.                                                 Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular - jardim público ao quase crepúsculo -, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que o cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.


139


Há muito tempo não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.                                
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.                              
Há muito tempo que não existo. 
Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passante, e vejo que, sobre a encosta do castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.             Há muito que não sou eu.


338


Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos outros para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso.                
Estamos todos habituados a considerar-nos como primordialmente realistas mentais, e aos outros directamente como realidades físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos dos outros; vagamente consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os outros têm sobretudo alma, como para nós. Perco-me por isso numa espécie de imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é minha voz, que tipo de figura deixo escrito na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. 
Era preciso outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de saber o que sou do lado de lá, pois queira o que queira, grave-se o que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos de minha consciência de mim. Não sei se os outros serão assim, se a ciência da vida não consistirá essencialmente em ser tão alheio a si mesmo que instintivamente se consegue um alheamento e se pode participar da vida como estranho à consciência; ou se os outros, mais ensimesmados do que eu, não serão de todo a bruteza de não serem senão eles, vivendo exteriormente por aquele milagre pelo qual as abelhas formam sociedades mais organizadas que qualquer nação, e as formigas comunicam entre si com uma fala de antenas mínimas que excede nos resultados a nossa complexa ausência de nos entendermos.                  
A geografia da consciência da realidade é de uma grande complexidade de costas, acidentadíssima de montanhas e lagos e tudo me parece, se medito de mais, uma espécie de mapa como o do "Pays du Tendre" ou das "Viagens de Gulliver", brincadeira da exactidão inscrita num livro irônico ou fantasista para gáudio de entes superiores, que sabem onde é que as terras são terras. Tudo é complexo para quem pensa, e sem dúvida o pensamento o torna mais complexo por volúpia própria. Mas quem pensa tem a necessidade de justificar sua abdicação com um vasto programa de compreender, exposto, como as razões dos que mentem, com todos os pormenores excessivos que descobrem, com o espalhar da terra, a raiz da mentira.           
Tudo é complexo, ou sou eu que o sou. Mas, de qualquer modo, não importa porque, de qualquer modo nada importa. Tudo isto, todas estas considerações da rua larga, vegeta nos quitais dos deuses exclusos como trepadeiras longe das paredes. E, sorrio, na noite na noite em que concluo sem fim estas considerações em engrenagem, da ironia vital que as faz surgir de uma alma humana, órfã, de antes dos astros, das grandes razões do Destino.


407

Deus crou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez, que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa unem-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.


58


O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria e esta expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a intersecção de três linhas, e essas linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo como a interpretamos, e o ambiente em que está. Esta mesa, a que estou escrevendo, é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste quarto. A minha impressão desta mesa, se a quiser trancrever, terá de ser composta das noções de que ela é de madeira, de que eu chamo àquilo uma mesa e lhe atribuo certos usos e fins, e de que nela se reflectem, nela se inserem, e a transformam, os objetos em cuja justaposição ela tem alma externa, o que lhe está posto em cima. E a própria cor que lhe foi dada, o desbotamento dessa cor, as nódoas e partidos que tem - tudo isso, repare-se, lhe veio de fora, e é isso que, mais que a sua essência de madeira, lhe dá a alma. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora, que é a personalidade.
Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir almas às coisas que chamamos inanimadas. Ser uma coisa é ser objeto de uma atribuição. Pode ser falso dizer que uma árvore sente, que um rio "corre", que um poente é magoado ou o mar calmo (azul pelo céu que não tem) é sorridente (pelo sol que lhe está fora). Mas igual erro é atribuir beleza a qualquer coisa Igual erro é atribuir cor, porventura até ser, a qualquer coisa. Este mar é água salgada. Este poente é começar a faltar a luz do sol nesta latitude e longitude. Esta criança, que brinca diante de mim, é um amontoado intelectual de células - mais, é uma relojoaria de movimentos subatómicos, estranha conglomeração de milhões de sistemas solares em miniatura mínima.
Tudo vem da fora e a mesma alma não é porventura o mesmo raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.
Nestas considerações está porventura toda uma filosofia, para quem pudesse ter a força de tirar conclusões. Não a tenho eu, surgem-me atentos pensamentos vagos, de possibilidades lógicas, e tudo se me esbate numa visão de um raio de sol dourando estrume como palha escura humildemente amachucada, no  chão quase negro ao pé de um muro de pedregulhos.
Assim sou. Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha alma, fico de repente parado, esquecido, no começo do espiral da escdada profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva o aglomerado difuso dos telhados.