O que os distribuidores parecem não se preocupar é em oferecer
qualidade de imagem e de som em excelentes condições ao público pagante -
o que é o mínimo que se pode esperar de uma sala de cinema.
Os cinemas Laura Alvim e os filmes de menor apelo comercial exibidos nos Itaús da praia de Botafogo no Rio de Janeiro são um verdadeiro caso de polícia e de fiscalização pelos órgãos de defesa do consumidor (leia-se PROCON).
Estes cinéfilos não podem ficar reféns da lata de lixo dos distribuidores e os cineastas precisam levantar-se em favor da integridade de suas obras frente à apreciação do público que com este tipo de descaso verão suas obras sistematicamente relegadas às críticas negativas, a um boca-a-boca brochado e o desinteresse das plateias por sua vez já tradicionalmente impermeáveis ao produto nacional diferenciado do beabá televisivo blockbosta e das cinematografias autorais.
O que não pode é a pessoa pagar 30 reais para assistir um filme que ocupa somente 1/3 do telão por que sua definição precária (mesmo neste formato) ficaria escandalosamente deficitária em seus 100%;
é deparar-se com um som pior do que o da televisão caseira (os filmes brasileiros são em sua maioria praticamente inaudíveis por às vezes somado à sua captação incompetente o volume das projeções e o aparelhamento das salas concorrem para este desastre);
e via de regra imaginar quais cores, luzes e quais formas estão ali escamoteadas por aquela 'cortina de voile' que se impõe na frente das imagens exibidas e até mesmo quando as luzes de tela são esquecidas acesas pelos funcionários das salas.
As execráveis cópias de fundo de quintal nas quais as legendas ocupam quase a metade do quadro trapezoidal, resultante do posicionamento indevido dos projetores que fazem o side show daqueles que exibem os blockbostas, completam o quadro dos horrores a que o público pagante atualmente é brindado pelos cinemas caça-níqueis da cidade maravilhosa. Imagino o que não deve estar ocorrendo no interior, onde mal e porcamente existem cinemas.
Pergunto se são estas as condições oferecidas para que os cineastas nativos tenham suas obras espanadas das prateleiras do esquecimento, recolhidas no gargalo dos interesse das majors estrangeiras que mandam no país e oferecidas ao público a que se destinam e ratificam seu processo de existência enquanto produtos culturais.
Este festival de siglas de máquinas e apetrechos informatizados que concorrem para baratear o custo do negócio e nivelar por baixo a manifestação artística são instrumentos que precipitam alguns exibidores e distribuidores atuais a cuspirem no prato em que comeram quando iniciaram seus negócios nos cinemas de arte, formando gerações de cinéfilos que se somaram aos da fase áurea do cinema brasileiro de invenção ao dar ampla visibilidade à variedade das cinematografias do planeta.
....................................................................
Este texto foi publicado no Facebook comentando o post de Marcelo França Mendes (publicado na página de um amigo) a seguir:
"Acabei de enviar questões objetivas sobre a digitalização dos cinemas para a Ancine. É uma parte da nossa contribuição na chamada pública sobre a questão. Como há muitos membros da Comissão entre os meus amigos e o tempo é curto, pois há uma reunião hoje, coloco aqui esses pontos:
1) OBRIGATORIEDADE DE DIGITALIZAÇÃO DCI EM TODO O COMPLEXO
Pelas regras atuais, um cinema que optar em usar o VPF terá obrigatoriamente que digitalizar todas as salas do complexo até DEZ/2014. Mas há inúmeras salas no Brasil que funcionam com diversos sistemas digitais, do DVD ao INFO3, passando por BluRay, Equinox e Auwe. Por que OBRIGAR essas salas a instalarem projetores DCI em todas as cabines? Um pequeno complexo de duas salas, por exemplo, pode optar em ter um projetor DCI e um sistema alternativo, já que já será difícil para salas como essa conseguir VPFs suficientes para pagar 01 projetor, ter que pagar dois pode colocar a sobrevivência da sala em risco. É certo que tais modelos não são o ideal. Mas a opção de migrar para o DCI deve ser de cada sala, de acordo com suas possibilidades financeiras e sua necessidade de programação;
2) OBRIGATORIEDADE DE COMUNICAR "PROGRAMAÇÃO ALTERNATIVA" COM 30 DIAS
Chega a ser absurda a exigência. Que filmes são programados com tanto tempo de antecedência? Que eventos? Obviamente, os lançamentos "major", as finais de campeonatos de futebol, de tênis, ou seja, a programação dos grandes complexos. Isso não acontece com salas alternativas, com "produtos" alternativos. Essa exigência inviabiliza uma programação mais criativa, antenada com a atualidade;
3) CUSTO
O menor dos projetores DCI para a menor das salas custará a esse cinema aproximadamente 60 mil dólares. Mas o cinema ainda terá que gastar com som e instalações outros XX mil reais, que não são cobertos pelo projeto. Uma boa sala de 100 lugares pode ter uma média de 1.000 espectadores por semana. A grande maioria das salas com essa capacidade não chega a tanto mas vamos considerar, a título de exemplo, um modelo assim:
4.000 espectadores por mês
PMI R$ 11,00
Renda Bruta: R$ 44.000,00
Filme (50%): R$ 22.000,00
Aluguel (15%): R$ 6.600,00
Outros (20%): R$ 8.800,00
Lucro (15%): R$ 6.600,00
Mesmo considerando como corretos os dados acima (15% de margem de lucro é quase impossível de se obter em cinema), temos um cenário onde sobra apenas seis mil reais por mês para o dono do cinema viver. Se ele não tiver VPFs que cubram o custo projetor, como pagará o financiamento?
4) OBRIGATORIEDADE DE RECEBIMENTO DE FILMES EM DCP FECHADO
A justificativa é o controle automático do cinema a distância, para que o integrador possa aferir o conteúdo exibido de forma automática. Ok, mas pode ser feito da mesmíssima forma com o DCP aberto. Além disso, sistemas alternativos como o INFO3 também são capazes de fazer o mesmo e há informações de que um outro sistema alternativo está em desenvolvimento na Paraíba. Além disso, é notório que a chave gera diversos problemas nas primeiras sessões do primeiro dia de programação. Não é raro o cancelamento de sessões por causa da chave. Então por que a obrigação se ela só encarece, dificulta e traz prejuízos?
Para o pequeno distribuidor:
1) OBRIGATORIEDADE DE DCP FECHADO (com chave)
Hoje praticamente nenhuma distribuidora pequena usa DCP FECHADO. E mesmo médias e grandes como Imagem e Califórnia preferem assim quando o produtor autoriza - o que é SEMPRE em se tratando de filmes europeus e nacionais não-blockbusters. Isso porque além de inútil em termos de segurança - pois todos os filmes podem ser encontrados ao alcance de um download ilegal - a logística de fornecimento de chaves para os cinema é custosa, um funcionário, que seja, destacado para fazer isso é um custo desnecessário para uma distribuidora pequena. Além disso, em muitos casos esse custo inviabiliza a marcação, pois é grande o número de filmes que estreiam com apenas uma sessão diária e têm público reduzido. Muitos cinemas exibem filmes assim por opção cultural e não financeira e estão dispostos a oferecer essa opção de programação ao público. Só no Rio de janeiro há algumas salas assim: Estação Botafogo 2, Cine Santa, Jóia, Ponto Cine, entre outros. Por que tornar mais difícil a programação dessas salas e desses filmes? Quem ganha com isso?
2) DATA DE MAIOR OCUPAÇÃO
Talvez o principal problema do modelo para o distribuidor. Um filme pagará VPF por três semanas em cartaz a partir da "data de maior ocupação", ou seja, após o lançamento. As semanas anteriores são consideradas pré-estreias e pagam VPF. O problema que isso só funciona para lançamentos nacionais. Imaginemos o seguinte cenário: o filme "X" estreia com 1 sala no Rio de janeiro. A distribuidora paga, portanto o VPF a essa sala. Após três semanas, uma pequena sala pede o filme e, como não terá que pagar mais VPF, a distribuidora aceita a marcação. Acontece que na sexta semana, por exemplo, o filme estreia em SP com duas salas. Esta data, a oitava semana, passará a ser a "data de maior ocupação" e a distribuidora terá que pagar VPF para aquela sala pequena no Rio que exibiu o filme na quarta semana. Ou seja, se não fizer um lancamento nacional, a distribuidora pagará VPF toda vez que estrear em alguma praça - a não ser que SEMPRE mantenha o mesmo número de salas desde o lançamento, nunca amplie o circuito. Ou seja, o modelo limita o alcance do filme que não se alinha com o modelo;
3) VALOR DE VPF MAIS ALTO QUE O DAS MAJORS
O modelo adotado pelo Brasil para digitalizar suas salas é baseado no sistema americano, criado entre distribuidores e exibidores americanos. O que está sendo dito é que as distribuidoras QUE NÃO ASSINAREM o contrato de VPF com um integrador pagarão um valor mais alto de VPF. Ou seja, uma empresa brasileira que optar em não assinar um contrato criado para empresas americanas pagará mais caro para exibir um filme, muitas vezes brasileiro, quando na realidade é ela que está financiando o mesmo modelo através do CONDECINE, uma vez que 65% dos filmes lançados no Brasil são de empresas assim. Não faz o menor sentido;
4) VALOR POR SESSÃO MAIS ALTO QUE O VPF PARA UMA SEMANA
Não é preciso dizer muito. Se uma distribuidora opta em programar dois filmes por dia numa mesma sala, pagará mais caro que o "X-MEN" , por exemplo. Isto porque o preço unitário por sessão multiplicado por 4 (número de sessões) é maior do que o de um filme com 4 sessões. Por que?
5) ALTA ROTATIVIDADE DE FILMES
Como o cinema só recebe VPF nas três primeiras semanas de exibição, é fácil concluir que ele procurará um novo lançamento do que continuar com um filme em cartaz. Novamente, tudo bem para os blockbusters e os cinemas comerciais, pois essas produções invadem o mercado com vultosas somos em marketing, pois devem ser consumidas rapidamente para dar lugar a outro do gênero. Mas o que acontecerá com os filmes pequenos, muitas vezes lançados confiando numa boa crítica e no boca a boca apenas? Eles precisam de tempo de exposição para serem descobertos. Não é raro que filmes assim fiquem meses em cartaz, pois vão construindo sua carreira pouco a pouco. Com esse modelo isso acaba. Logo, a distribuidoras vão trazer menos filmes, o que fará com que as salas alternativas tenham menos opções. Num segundo e imediato momento essas salas vão ter que migrar para uma programação mais comercial mas elas não vão resistir a concorrência com as grandes salas. O resultado é o fechamento dessas salas e dessas distribuidoras no médio prazo.
O modelo VPF é um bom modelo para parte substancial do mercado, todo mundo ganha. Mas não pode ser levado para todas as distribuidoras e cinemas sob pena de acabar com a diversidade de filmes e com cinemas que não se adequarem ao modelo. O que o governo está fazendo, através da Ancine e do BNDES pode ser entendido por uma simples metáfora: imaginem um lugar onde exista uma seca radical, onde o pequeno e o médio agricultor estejam com dificuldade. O Governo vai ao socorro construindo reservatórios de água para todos. O problema é que ficam longe, só é possível retirar a água com carros pipa. O pequeno agricultor, criador, não tem recursos para o carro pipa e acaba usando parte da sua criação para transportar água, mas esta nunca em quantidade suficiente. Ele tem que diminuir suas poucas cabeças de gado, já bem magros. E aí fica mais difícil obter água. Ele acaba fechando, seco.
Escrevi esse texto com base nas inúmeras informações colidas pelo Bruno Sa, desbravador desse complexo mundo digital. Só não digo que ele assina comigo porque não o perguntei mas esse texto é dele também, certamente".
Os cinemas Laura Alvim e os filmes de menor apelo comercial exibidos nos Itaús da praia de Botafogo no Rio de Janeiro são um verdadeiro caso de polícia e de fiscalização pelos órgãos de defesa do consumidor (leia-se PROCON).
Estes cinéfilos não podem ficar reféns da lata de lixo dos distribuidores e os cineastas precisam levantar-se em favor da integridade de suas obras frente à apreciação do público que com este tipo de descaso verão suas obras sistematicamente relegadas às críticas negativas, a um boca-a-boca brochado e o desinteresse das plateias por sua vez já tradicionalmente impermeáveis ao produto nacional diferenciado do beabá televisivo blockbosta e das cinematografias autorais.
O que não pode é a pessoa pagar 30 reais para assistir um filme que ocupa somente 1/3 do telão por que sua definição precária (mesmo neste formato) ficaria escandalosamente deficitária em seus 100%;
é deparar-se com um som pior do que o da televisão caseira (os filmes brasileiros são em sua maioria praticamente inaudíveis por às vezes somado à sua captação incompetente o volume das projeções e o aparelhamento das salas concorrem para este desastre);
e via de regra imaginar quais cores, luzes e quais formas estão ali escamoteadas por aquela 'cortina de voile' que se impõe na frente das imagens exibidas e até mesmo quando as luzes de tela são esquecidas acesas pelos funcionários das salas.
As execráveis cópias de fundo de quintal nas quais as legendas ocupam quase a metade do quadro trapezoidal, resultante do posicionamento indevido dos projetores que fazem o side show daqueles que exibem os blockbostas, completam o quadro dos horrores a que o público pagante atualmente é brindado pelos cinemas caça-níqueis da cidade maravilhosa. Imagino o que não deve estar ocorrendo no interior, onde mal e porcamente existem cinemas.
Pergunto se são estas as condições oferecidas para que os cineastas nativos tenham suas obras espanadas das prateleiras do esquecimento, recolhidas no gargalo dos interesse das majors estrangeiras que mandam no país e oferecidas ao público a que se destinam e ratificam seu processo de existência enquanto produtos culturais.
Este festival de siglas de máquinas e apetrechos informatizados que concorrem para baratear o custo do negócio e nivelar por baixo a manifestação artística são instrumentos que precipitam alguns exibidores e distribuidores atuais a cuspirem no prato em que comeram quando iniciaram seus negócios nos cinemas de arte, formando gerações de cinéfilos que se somaram aos da fase áurea do cinema brasileiro de invenção ao dar ampla visibilidade à variedade das cinematografias do planeta.
....................................................................
Este texto foi publicado no Facebook comentando o post de Marcelo França Mendes (publicado na página de um amigo) a seguir:
"Acabei de enviar questões objetivas sobre a digitalização dos cinemas para a Ancine. É uma parte da nossa contribuição na chamada pública sobre a questão. Como há muitos membros da Comissão entre os meus amigos e o tempo é curto, pois há uma reunião hoje, coloco aqui esses pontos:
1) OBRIGATORIEDADE DE DIGITALIZAÇÃO DCI EM TODO O COMPLEXO
Pelas regras atuais, um cinema que optar em usar o VPF terá obrigatoriamente que digitalizar todas as salas do complexo até DEZ/2014. Mas há inúmeras salas no Brasil que funcionam com diversos sistemas digitais, do DVD ao INFO3, passando por BluRay, Equinox e Auwe. Por que OBRIGAR essas salas a instalarem projetores DCI em todas as cabines? Um pequeno complexo de duas salas, por exemplo, pode optar em ter um projetor DCI e um sistema alternativo, já que já será difícil para salas como essa conseguir VPFs suficientes para pagar 01 projetor, ter que pagar dois pode colocar a sobrevivência da sala em risco. É certo que tais modelos não são o ideal. Mas a opção de migrar para o DCI deve ser de cada sala, de acordo com suas possibilidades financeiras e sua necessidade de programação;
2) OBRIGATORIEDADE DE COMUNICAR "PROGRAMAÇÃO ALTERNATIVA" COM 30 DIAS
Chega a ser absurda a exigência. Que filmes são programados com tanto tempo de antecedência? Que eventos? Obviamente, os lançamentos "major", as finais de campeonatos de futebol, de tênis, ou seja, a programação dos grandes complexos. Isso não acontece com salas alternativas, com "produtos" alternativos. Essa exigência inviabiliza uma programação mais criativa, antenada com a atualidade;
3) CUSTO
O menor dos projetores DCI para a menor das salas custará a esse cinema aproximadamente 60 mil dólares. Mas o cinema ainda terá que gastar com som e instalações outros XX mil reais, que não são cobertos pelo projeto. Uma boa sala de 100 lugares pode ter uma média de 1.000 espectadores por semana. A grande maioria das salas com essa capacidade não chega a tanto mas vamos considerar, a título de exemplo, um modelo assim:
4.000 espectadores por mês
PMI R$ 11,00
Renda Bruta: R$ 44.000,00
Filme (50%): R$ 22.000,00
Aluguel (15%): R$ 6.600,00
Outros (20%): R$ 8.800,00
Lucro (15%): R$ 6.600,00
Mesmo considerando como corretos os dados acima (15% de margem de lucro é quase impossível de se obter em cinema), temos um cenário onde sobra apenas seis mil reais por mês para o dono do cinema viver. Se ele não tiver VPFs que cubram o custo projetor, como pagará o financiamento?
4) OBRIGATORIEDADE DE RECEBIMENTO DE FILMES EM DCP FECHADO
A justificativa é o controle automático do cinema a distância, para que o integrador possa aferir o conteúdo exibido de forma automática. Ok, mas pode ser feito da mesmíssima forma com o DCP aberto. Além disso, sistemas alternativos como o INFO3 também são capazes de fazer o mesmo e há informações de que um outro sistema alternativo está em desenvolvimento na Paraíba. Além disso, é notório que a chave gera diversos problemas nas primeiras sessões do primeiro dia de programação. Não é raro o cancelamento de sessões por causa da chave. Então por que a obrigação se ela só encarece, dificulta e traz prejuízos?
Para o pequeno distribuidor:
1) OBRIGATORIEDADE DE DCP FECHADO (com chave)
Hoje praticamente nenhuma distribuidora pequena usa DCP FECHADO. E mesmo médias e grandes como Imagem e Califórnia preferem assim quando o produtor autoriza - o que é SEMPRE em se tratando de filmes europeus e nacionais não-blockbusters. Isso porque além de inútil em termos de segurança - pois todos os filmes podem ser encontrados ao alcance de um download ilegal - a logística de fornecimento de chaves para os cinema é custosa, um funcionário, que seja, destacado para fazer isso é um custo desnecessário para uma distribuidora pequena. Além disso, em muitos casos esse custo inviabiliza a marcação, pois é grande o número de filmes que estreiam com apenas uma sessão diária e têm público reduzido. Muitos cinemas exibem filmes assim por opção cultural e não financeira e estão dispostos a oferecer essa opção de programação ao público. Só no Rio de janeiro há algumas salas assim: Estação Botafogo 2, Cine Santa, Jóia, Ponto Cine, entre outros. Por que tornar mais difícil a programação dessas salas e desses filmes? Quem ganha com isso?
2) DATA DE MAIOR OCUPAÇÃO
Talvez o principal problema do modelo para o distribuidor. Um filme pagará VPF por três semanas em cartaz a partir da "data de maior ocupação", ou seja, após o lançamento. As semanas anteriores são consideradas pré-estreias e pagam VPF. O problema que isso só funciona para lançamentos nacionais. Imaginemos o seguinte cenário: o filme "X" estreia com 1 sala no Rio de janeiro. A distribuidora paga, portanto o VPF a essa sala. Após três semanas, uma pequena sala pede o filme e, como não terá que pagar mais VPF, a distribuidora aceita a marcação. Acontece que na sexta semana, por exemplo, o filme estreia em SP com duas salas. Esta data, a oitava semana, passará a ser a "data de maior ocupação" e a distribuidora terá que pagar VPF para aquela sala pequena no Rio que exibiu o filme na quarta semana. Ou seja, se não fizer um lancamento nacional, a distribuidora pagará VPF toda vez que estrear em alguma praça - a não ser que SEMPRE mantenha o mesmo número de salas desde o lançamento, nunca amplie o circuito. Ou seja, o modelo limita o alcance do filme que não se alinha com o modelo;
3) VALOR DE VPF MAIS ALTO QUE O DAS MAJORS
O modelo adotado pelo Brasil para digitalizar suas salas é baseado no sistema americano, criado entre distribuidores e exibidores americanos. O que está sendo dito é que as distribuidoras QUE NÃO ASSINAREM o contrato de VPF com um integrador pagarão um valor mais alto de VPF. Ou seja, uma empresa brasileira que optar em não assinar um contrato criado para empresas americanas pagará mais caro para exibir um filme, muitas vezes brasileiro, quando na realidade é ela que está financiando o mesmo modelo através do CONDECINE, uma vez que 65% dos filmes lançados no Brasil são de empresas assim. Não faz o menor sentido;
4) VALOR POR SESSÃO MAIS ALTO QUE O VPF PARA UMA SEMANA
Não é preciso dizer muito. Se uma distribuidora opta em programar dois filmes por dia numa mesma sala, pagará mais caro que o "X-MEN" , por exemplo. Isto porque o preço unitário por sessão multiplicado por 4 (número de sessões) é maior do que o de um filme com 4 sessões. Por que?
5) ALTA ROTATIVIDADE DE FILMES
Como o cinema só recebe VPF nas três primeiras semanas de exibição, é fácil concluir que ele procurará um novo lançamento do que continuar com um filme em cartaz. Novamente, tudo bem para os blockbusters e os cinemas comerciais, pois essas produções invadem o mercado com vultosas somos em marketing, pois devem ser consumidas rapidamente para dar lugar a outro do gênero. Mas o que acontecerá com os filmes pequenos, muitas vezes lançados confiando numa boa crítica e no boca a boca apenas? Eles precisam de tempo de exposição para serem descobertos. Não é raro que filmes assim fiquem meses em cartaz, pois vão construindo sua carreira pouco a pouco. Com esse modelo isso acaba. Logo, a distribuidoras vão trazer menos filmes, o que fará com que as salas alternativas tenham menos opções. Num segundo e imediato momento essas salas vão ter que migrar para uma programação mais comercial mas elas não vão resistir a concorrência com as grandes salas. O resultado é o fechamento dessas salas e dessas distribuidoras no médio prazo.
O modelo VPF é um bom modelo para parte substancial do mercado, todo mundo ganha. Mas não pode ser levado para todas as distribuidoras e cinemas sob pena de acabar com a diversidade de filmes e com cinemas que não se adequarem ao modelo. O que o governo está fazendo, através da Ancine e do BNDES pode ser entendido por uma simples metáfora: imaginem um lugar onde exista uma seca radical, onde o pequeno e o médio agricultor estejam com dificuldade. O Governo vai ao socorro construindo reservatórios de água para todos. O problema é que ficam longe, só é possível retirar a água com carros pipa. O pequeno agricultor, criador, não tem recursos para o carro pipa e acaba usando parte da sua criação para transportar água, mas esta nunca em quantidade suficiente. Ele tem que diminuir suas poucas cabeças de gado, já bem magros. E aí fica mais difícil obter água. Ele acaba fechando, seco.
Escrevi esse texto com base nas inúmeras informações colidas pelo Bruno Sa, desbravador desse complexo mundo digital. Só não digo que ele assina comigo porque não o perguntei mas esse texto é dele também, certamente".