MAPAS PARA AS ESTRELAS
(“Maps to the Stars” de David Cronemberg - Estados Unidos, 2014)
O filme que passa no telão é uma versão de algo em torno de Douglas Sirk, Robert Altman ou Billy Wilder, só que destituído de qualquer emoção. É um partido tomado acintosa e deliberadamente com a finalidade de afetar uma estranheza mais conveniente às narrativas fantásticas dos filmes de terror. Esta postura é um esforço de mediação do mundo real em que habitamos nós os espectadores, através do que involuntariamente convivemos com o que há de mais punk e nocivo à nossa volta e as possibilidades esgotadas dos manuais da indústria do entretenimento. Hollywood é uma fábrica de pesadelos muito mais horripilantes do que os filmes hardcore que produz, e seus personagens, tanto no celuloide quanto nas ruas da cidade, nunca estiveram tão amalgamados em função da esterilidade emocional quanto o Sr. Cronemberg tenta demonstrar.
(“Maps to the Stars” de David Cronemberg - Estados Unidos, 2014)
O filme que passa no telão é uma versão de algo em torno de Douglas Sirk, Robert Altman ou Billy Wilder, só que destituído de qualquer emoção. É um partido tomado acintosa e deliberadamente com a finalidade de afetar uma estranheza mais conveniente às narrativas fantásticas dos filmes de terror. Esta postura é um esforço de mediação do mundo real em que habitamos nós os espectadores, através do que involuntariamente convivemos com o que há de mais punk e nocivo à nossa volta e as possibilidades esgotadas dos manuais da indústria do entretenimento. Hollywood é uma fábrica de pesadelos muito mais horripilantes do que os filmes hardcore que produz, e seus personagens, tanto no celuloide quanto nas ruas da cidade, nunca estiveram tão amalgamados em função da esterilidade emocional quanto o Sr. Cronemberg tenta demonstrar.
O
coeficiente Morfeu pisca alerta em várias cenas, todas esmeradas em
dialogar perversidades, traições, assédios morais, preconceitos, toda
uma súmula que não faria feio na pior novela das oito da TV brasileira. É
um desfile freak de duendes diabólicos, ninfas incendiárias perversas e
assassinas, irmãos incestuosos e cafetões de almas cotejados passo a
passo como numa procissão caminhando irreversível e inexoravelmente rumo
ao inferno das regiões mais sombrias das mentes desavisadas da plateia.
Mas com grife:
1- Com os olhos visivelmente plastificados e condenados à leitura em branco das emoções de John Cuzak;
2- com o physic du rôle do menino Evan Bird (a cara cuspida e escarrada de Paul Eluard por volta de 1930), assustador na elocução de suas falas em registro muito além das de um velho ancião malvado dentro de um corpitxo de lagartixa;
3- com as cicatrizes mal elaboradas do personagem de Mia Wasikowska e sua infundada e irrelevante cosmogonia bicho-grilo recalcitrante;
4- com o desperdício da citação reiterada do magnífico poema “Liberdade” de Paul Éluard - (...) “Grifo teu nome / Em toda carne acordada / Na fronte dos meus amigos / Em cada mão que me afaga “ (...);
5- com Robert Pattinson agora rebaixado ao lugar do motorista da limusine que o conduzia arrogante em "Cosmópolis" - um daqueles filmes "estranhos" em que aqui se refere à obra do diretor do metafilme numa tentativa mais narcísica do que a autocrítica pretendida;
6- ou com Julianne Moore escrachada, falando palavrão, obscena, prestando-se ao trabalho sujo de convencer dramaticamente que aquela mulher aterrorizada por fantasmas e escravizada às drogas (uma entre quase todos que rezam a mesma cartilha neste filme) não é uma mera projeção profissional de si mesma, mas um trampolim para sua glória. Resultado: prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.
Três estrelas por ela ter-me conseguido engambelar tão bem; senão solamente duas. Se tanto.
Mas com grife:
1- Com os olhos visivelmente plastificados e condenados à leitura em branco das emoções de John Cuzak;
2- com o physic du rôle do menino Evan Bird (a cara cuspida e escarrada de Paul Eluard por volta de 1930), assustador na elocução de suas falas em registro muito além das de um velho ancião malvado dentro de um corpitxo de lagartixa;
3- com as cicatrizes mal elaboradas do personagem de Mia Wasikowska e sua infundada e irrelevante cosmogonia bicho-grilo recalcitrante;
4- com o desperdício da citação reiterada do magnífico poema “Liberdade” de Paul Éluard - (...) “Grifo teu nome / Em toda carne acordada / Na fronte dos meus amigos / Em cada mão que me afaga “ (...);
5- com Robert Pattinson agora rebaixado ao lugar do motorista da limusine que o conduzia arrogante em "Cosmópolis" - um daqueles filmes "estranhos" em que aqui se refere à obra do diretor do metafilme numa tentativa mais narcísica do que a autocrítica pretendida;
6- ou com Julianne Moore escrachada, falando palavrão, obscena, prestando-se ao trabalho sujo de convencer dramaticamente que aquela mulher aterrorizada por fantasmas e escravizada às drogas (uma entre quase todos que rezam a mesma cartilha neste filme) não é uma mera projeção profissional de si mesma, mas um trampolim para sua glória. Resultado: prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.
Três estrelas por ela ter-me conseguido engambelar tão bem; senão solamente duas. Se tanto.
