Publicado na página editorial do New York Times em 08 de Outubro de 2021
A INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA QUER MANTER SEU STATUS?
ENTÃO APAGUE-A.
(por Alex Pass)
Em 2015, Cutter
Ray Palacios, ator do Texas, mudou-se para Los Angeles. Enquanto fazia
testes de elenco, acabou trabalhando incialmente como assistente de produção
(A.P.), trabalho que consiste tanto em levar e trazer atores para o set de
filmagem quanto recados para produtores e outros membros da equipe.
A maioria dos A.P.
não são sindicalizados. São das pessoas mais mal pagas na indústria
televisiva e cinematográfica. Sr. Palacios recebia pagamento ínfimo e por um
momento não tinha onde morar e vivia em seu carro.
“A um A.P. não é
permitido sentar”, ele me disse. Sr. Palacios se considera sortudo porque é considerado
“membro dafamília”. Mas também diz que costuma “ligar para o 10-1” — código para
usar o banheiro – para “poder sentar na privada por alguns minutos”.
Depois de um ano foi abordado por um colega para se filiar à Aliança
Internacional dos Empregados do Palco Teatral (I.A.T.S.E., em inglês). O
sindicato representa membros “informais” das equipes - cameramen, eletricistas,
cabeleireiros, figurinistas e montadores cujos trabalhos são críticos para as
produções mesmo sem destaque na propaganda dos filmes. Sr. Palacios contou que “A
pessoa que me abordou disse, “Você realiza um trabalho altamente ético. O que você
acha de ganhar melhor e com benefícios?"
Então filiou-se na sede 80 do I.A.T.S.E. Começou trabalhando como assistente
de profissionais específicos no set. Salários mais altos e benefícios sofreram
um bom ajuste em relação aos seus tempos de A.P., mas houve uma desvantagem: passou
de uma pessoa com vida social para só ter amigos no ambiente de trabalho. “Quando
você está escalado para um próximo filme eles não são mais seus amigos, por que
você vai para outro emprego”, disse.
Se a produção se
atrasa no set acarreta extensão nos dias de trabalho. Às sextas-feiras mudanças podem continuar até aos sábados, levando aos “dias quebrados” como são conhecidos na
indústria audiovisual americana. E produtores podem convocar os trabalhadores
de volta às duas horas da manhã na segunda-feira. Doze ou quatorze horas trabalhadas
diariamente são comuns e dias de vinte horas não são novidade; os estúdios
podem escolher pagar aditivos de alimentação para empregados ao invés das
pausas para almoço. Muitos trabalhadores temem adormecer ao volante na volta
para casa. Estas condições de trabalho estafantes agora estão sendo negociadas enquanto o sindicato de Palacios se prepara para uma possível greve.
Em 04 de Outubro a
sede 36 do I.A.T.S.E. , que inclui 60.000 pessoas, alcançou 99% dos votos a favor da autorização
de uma greve caso a mesa de negociações se torne inviável, com 90% de membros
elegíveis das cédulas. A resolução é resultado de meses de negociações com a
Aliança dos Produtores da Imagem Animada e dos Produtores de Televisão (AMPTP,
em inglês) para um novo contrato de três anos, depois da expiração do último em
10 de Setembro passado.
Algumas sedes
individuais do I.A.T.S.E. já fizeram greve antes, mas agora com a participação de tantas outras, esta deve ser a maior ação deste tipo no setor privado desde a
greve de 74.00 pessoas na General Motors em 2007. A produção de cinema e televisão poderá sofrer um apagão em todo o
país.
Um fator que está
criando pressão adicional para membros das equipes é a revolução do streaming.
Amazon Prime, Netflix, Apple e Disney+ vêm trilhando um longo caminho desde 2009 quando
a AMPTP, que os representa, fez o primeiro acordo com a I.A.T.S.E. Naquela
época as propriedades da “nova media” ainda eram experimentos de uma economia “incerta”
necessitada de “grande flexibilidade” nos termos e condições de emprego, conforme
colocado no acordo. Hoje o valor de mercado da Netflix é de 281 bilhões de
dólares.
O streaming
levou a indústria na direção de um modelo de gratificação instantânea para os
consumidores, o que só é possível com uma força de trabalho sempre disponível e
ágil, capaz de atender à demanda. Os produtores moem os trabalhadores enquanto acenam
com cada vez mais conteúdo para alimentação da besta do streaming. Mas os trabalhadores
não podem ser facilmente substituídos ou automatizados. Já faz tempo que
desfrutaram de padrões que não os aniquilavam. Realmente o acordo de 2009 rezava que
quando uma produção para streaming se torna “economicamente viável”, ambas as partes
deveriam reconhecer bilateralmente o fato em acordos futuros e elevar os
padrões de trabalho e benefícios alinhando-os aos das produções
tradicionais.
Nos primeiros
meses da pandemia, quando muito do mundo do entretenimento parou, membros de
equipes desfrutaram uma vida livre dos cronogramas extenuantes da indústria, muitos
com tempo para se devotar à família, amigos e leitura. Então em Junho de 2020, as
produções retomaram com novos protocolos de segurança sanitária nos sets. Tudo
voltou ao que sempre foi enquanto a indústria tentava maquiar o tempo perdido.
Uma conta do
Instagram, #ia_stories, ilustra a extensão do problema compartilhando um fluxo
constante de anedotas anônimas. Em um post, uma segunda assistente de câmera pediu
ao médico uma dose extra de antibióticos para tratar uma infecção do trato
urinário que sofreu por não ter tempo para usar o banheiro no set. Outro mostra
a foto de um carro lotado pilotado por um membro da equipe aparentemente entre o
sono e a vigília.
Recentemente
alguns produtores pressionaram ainda mais duramente as equipes para uma greve
potencial. Trabalhadores frustrados aguardam cargas horárias ainda maiores.
Práticas
condenáveis de carga horária podem não parecer o problema mais urgente
enfrentado pelo trabalhador americano – baixo salário e planos de saúde continuam
as maiores preocupações das pessoas num país que não tem aumento de salário-mínimo
federal desde 2009 – mas horas extras obrigatórias e cargas horárias
impraticáveis tornaram-se duas das questões trabalhistas mais alardeadas este
ano.
As recentes
greves nas fábricas de Frito-Lay e Nabisco resultaram nessas questões. Na
Nabisco, semanas de trabalho que podem se estender por oitenta horas contribuíram
para uma greve interestadual. Na destilaria Heaven Hill baseada em Kentucky
trabalhadores entraram em greve por um mês provocados pela ampliação dos turnos para os fins de semana na empresa.
No último fim
de semana trabalhadores das fábricas de cereais Kellogg em quatro Estados deixaram o trabalho impulsionados em parte pelo fato de alguns deles trabalharem
12 a 16 horas diárias, sete dias por semana.
Apesar das
evidências de impactos nocivos do excesso de trabalho na saúde e na qualidade
do trabalho, alguns empregadores confrontados com um mercado de trabalho mais exíguo do que o usual estão se obrigando a adotar horas extras para contornar
os custos de encontrar novos trabalhadores. Pagar horas extras é caro. Ao invés
de investir no recrutamento e treinamento de novos profissionais além de dotá-los com
benefícios, muitas vezes é mais barato sobrecarregar mais os
existentes.
Considerando
que a União Europeia limita as horas extras, as poucas regulações que existem
nos Estados Unidos dizem respeito a trabalhadores como caminhoneiros e
enfermeiros. Na América, um contrato sindical forte pode ser a melhor proteção
dos trabalhadores.
Anunciando o
resultado dos votos a favor da autorização da greve, o presidente da I.A.T.S.E.,
Matthew Loeb, disse: “Nosso povo tem necessidades humanas básicas como hora
para se alimentar, dormir adequadamente, e um fim de semana. Aqueles na base
da escala dos pagamentos merecem nada mais do que um salário que acomode suas
vidas”.
A AMTPT disse
que “permanece comprometida a alcançar um acordo que mantenha a indústria funcionando”.
As negociações foram retomadas na última terça-feira.
Se os membros
da I.A.T.S.E. garantirem períodos de descanso razoáveis — e salários mais altos
para trabalhadores com salários mais baixos, para que não precisem mais se
submeter a horas extras — será um golpe significativo para o status quo do
excesso de trabalho e do planejamento abusivo.
Oito horas
diárias de trabalho sempre estiveram entre as primeiras lutas do movimento
sindical trabalhista americano.
"Por mais que eu ame meu trabalho, estou percebendo que não vale a pena a minha vida", disse Palacios. "Não é saudável quando toda a sua vida está ligada a um trabalho forçado. Você não percebe o quão ruim isso é até que seja tarde demais”.
