sábado, 20 de agosto de 2011

Deu no JB em 20 de Agôsto de 2011


País - Sociedade Aberta

Milagre, antropogenia e cientificismo

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum
A questão da ciência - seus limites e critérios - está sempre voltando à pauta jornalística. Artigos recentes lembraram a perseguição que cientistas americanos vêm sofrendo por acharem resultados que às vezes contrariam expectativas populares no caso de novas evidências surgidas contra a hipótese do aquecimento global.
Há quem ache que a ciência fará milagres. A tradução deste termo nos remete a múltiplos significados etimológicos. Mas o fato é que sempre que um extraordinário acontece, recorremos à palavra.  O milagre é, provavelmente, muito mais banal que supomos. Seriam as marcas de um acontecimento extraordinário, transcendente? A natureza do milagre, vale dizer, seu propósito, é exatamente forçar-nos a admitir que há algo além, muito adiante da curva do insondável. Talvez o que não dominamos, ou nem sonhamos em conquistar: o inexplicável.  Exatamente tudo aquilo que nestes estertores de pós-modernidade não nos é mais permitido.
Por isso vê-se necessário explicitar a diferença entre atitude científica e cientificismo. Na inquietude científica, encontramos os autênticos elementos de  ética e recato que pesquisas e pesquisadores devem ter: a cadência da humildade, a suavidade mental para admitir que há, inclusive, mais segredos que explicações, o respeito pelo contraditório e inacabado. Enquanto isso, na outra ponta, o cientificismo tornou-se uma seita: adota uma percepção seletiva, determinista, às vezes dogmática e descontextualizada.
O milagre é lugar-comum, porque não é difícil verificar que o comum contém o milagroso.  Acontece bem na soleira das nossas portas ou aqui mesmo, dentro de cada organismo.  A respiração e as trocas gasosas de captação de oxigênio e eliminação de CO2 (gás carbônico) são milagres que acontecem 31 vezes por minuto. A manutenção da temperatura corporal humana de 36,8 graus (em média), mesmo quando há frio e calor excessivo, também poderia figurar nesta categoria. É a homeostasia - uma excepcional constatação do médico fisiologista Walter Bradford Cannon nos anos 30 - a capacidade de nos manter razoavelmente estáveis em um meio altamente instável. Os pequenos milagres, ou sinais de vida, têm uma constância absurda, e faz bem alguma humildade para não atribuir tudo ao acaso.
Afinal, muitas coisas que estamos tentando curar com a tecnociência nossa de cada dia - entre as quais a destruição da biosfera, a desclimatização do planeta, as patologias provocadas por radiações ionizantes, a explosão de moléstias neuro-degenerativas, a farinização e industrialização dos alimentos - são enfermidades artificiais, produzidas por nossas próprias decisões e meios de vida. As modificações que o homem introduz no meio ambiente são conhecidas como antropogenias.
Ao mesmo tempo, deparamos com um avanço das ciências aplicadas, tanto espetacular como perturbador. Há confiança excessiva no domínio frágil, se não perigoso, da própria natureza.  Isso se alastra por todos os cantos, da medicina à astronomia, da física à biologia. Mas essa inflação do papel da ciência nas nossas vidas embute um impasse, já que ele não nos torna automaticamente aptos para assumir, nem a compreensão nem a onisciência prometida.
O inconcebível avanço da tecnociência é um marco da capacidade humana, mas seu uso, e preço, pouco razoáveis. Podemos enxergar o tamanho do exagero? O endosso generalizado e acrítico com que passivamente aceitamos todos esses instrumentos e artefatos?
Escancaramos as porteiras da medicalização da vida e fomos um pouco adiante: a cientifização da existência.
Por isso é salutar provocar com o desconhecido. Acreditemos ou não nele, os  milagres evidenciam desafios. E o desafio não é só seguir adiante num mundo fraturado, com as tradições, todas elas, em frangalhos. Estamos em plena era dos descartes - prematuros e erráticos - das necessidades subjetivas, do mundo interior, da arte e da filosofia como forma de vida (ou de morte).  Mergulhamos no pragmatismo cru, nas hiper-racionalizações que bloqueiam a vida, quando na verdade a vida e a saúde são a regra, as anomalias e as doenças, dolorosas exceções.
O desafio agora é autocrítico, e, eventualmente, considerar retroceder, como fez recentemente a Alemanha ao dizer não às centrais nucleares.  E por que não voltar passos atrás? Diante da extensão do incognoscível precisamos reconhecer a extensão da arrogância e a soberba intelectual que nos possuiu. Possuiu-nos frente ao que não sabemos nem controlamos.  O homem pode produzir milagres - e o fará cada vez mais - assim a ciência demonstra. E é bom que seja assim.
Vibraríamos todos com tetraplegias curadas com elétrodos, e quando nossos recursos tivessem se esgotado seria absolutamente genial acompanhar exércitos de robôs extraindo água de asteroides congelados. O inconcebível é imaginar um domínio arrogante, que despreza os efeitos colaterais das interferências: aí está a sobrenatural empáfia do cientificismo.
Sempre me interessei por robôs, mas também sempre lamentei que eles, ao menos nas ficções, acabem se insurgindo contra seus criadores: foi assim em 2001, Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke, e se repetiu em Eu, robô, de Isaac Asimov. Não é só uma ética duvidosa, em uma palavra, ingratidão, esta das máquinas. As referências são oportunas para mostrar que, tal qual velhos robôs, também podemos nos enganar. É possível até prescindir de atribuir uma autoria ao Cosmos e substituí-la por esse androide mítico chamado tecnologia. Se é essa é a grande revolução do século 21, ficamo-la devendo às próximas gerações.
*Paulo Rosenbaum é médico, Phd. e pós-doutor pela USP, poeta e escritor.

domingo, 14 de agosto de 2011

Excertos do Livro Do Desassossego de Bernardo Soares (Fernando Pessoa)


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Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.                                                 Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular - jardim público ao quase crepúsculo -, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que o cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.


139


Há muito tempo não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.                                
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.                              
Há muito tempo que não existo. 
Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passante, e vejo que, sobre a encosta do castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.             Há muito que não sou eu.


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Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos outros para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso.                
Estamos todos habituados a considerar-nos como primordialmente realistas mentais, e aos outros directamente como realidades físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos dos outros; vagamente consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os outros têm sobretudo alma, como para nós. Perco-me por isso numa espécie de imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é minha voz, que tipo de figura deixo escrito na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. 
Era preciso outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de saber o que sou do lado de lá, pois queira o que queira, grave-se o que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos de minha consciência de mim. Não sei se os outros serão assim, se a ciência da vida não consistirá essencialmente em ser tão alheio a si mesmo que instintivamente se consegue um alheamento e se pode participar da vida como estranho à consciência; ou se os outros, mais ensimesmados do que eu, não serão de todo a bruteza de não serem senão eles, vivendo exteriormente por aquele milagre pelo qual as abelhas formam sociedades mais organizadas que qualquer nação, e as formigas comunicam entre si com uma fala de antenas mínimas que excede nos resultados a nossa complexa ausência de nos entendermos.                  
A geografia da consciência da realidade é de uma grande complexidade de costas, acidentadíssima de montanhas e lagos e tudo me parece, se medito de mais, uma espécie de mapa como o do "Pays du Tendre" ou das "Viagens de Gulliver", brincadeira da exactidão inscrita num livro irônico ou fantasista para gáudio de entes superiores, que sabem onde é que as terras são terras. Tudo é complexo para quem pensa, e sem dúvida o pensamento o torna mais complexo por volúpia própria. Mas quem pensa tem a necessidade de justificar sua abdicação com um vasto programa de compreender, exposto, como as razões dos que mentem, com todos os pormenores excessivos que descobrem, com o espalhar da terra, a raiz da mentira.           
Tudo é complexo, ou sou eu que o sou. Mas, de qualquer modo, não importa porque, de qualquer modo nada importa. Tudo isto, todas estas considerações da rua larga, vegeta nos quitais dos deuses exclusos como trepadeiras longe das paredes. E, sorrio, na noite na noite em que concluo sem fim estas considerações em engrenagem, da ironia vital que as faz surgir de uma alma humana, órfã, de antes dos astros, das grandes razões do Destino.


407

Deus crou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez, que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa unem-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.


58


O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria e esta expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a intersecção de três linhas, e essas linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo como a interpretamos, e o ambiente em que está. Esta mesa, a que estou escrevendo, é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste quarto. A minha impressão desta mesa, se a quiser trancrever, terá de ser composta das noções de que ela é de madeira, de que eu chamo àquilo uma mesa e lhe atribuo certos usos e fins, e de que nela se reflectem, nela se inserem, e a transformam, os objetos em cuja justaposição ela tem alma externa, o que lhe está posto em cima. E a própria cor que lhe foi dada, o desbotamento dessa cor, as nódoas e partidos que tem - tudo isso, repare-se, lhe veio de fora, e é isso que, mais que a sua essência de madeira, lhe dá a alma. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora, que é a personalidade.
Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir almas às coisas que chamamos inanimadas. Ser uma coisa é ser objeto de uma atribuição. Pode ser falso dizer que uma árvore sente, que um rio "corre", que um poente é magoado ou o mar calmo (azul pelo céu que não tem) é sorridente (pelo sol que lhe está fora). Mas igual erro é atribuir beleza a qualquer coisa Igual erro é atribuir cor, porventura até ser, a qualquer coisa. Este mar é água salgada. Este poente é começar a faltar a luz do sol nesta latitude e longitude. Esta criança, que brinca diante de mim, é um amontoado intelectual de células - mais, é uma relojoaria de movimentos subatómicos, estranha conglomeração de milhões de sistemas solares em miniatura mínima.
Tudo vem da fora e a mesma alma não é porventura o mesmo raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.
Nestas considerações está porventura toda uma filosofia, para quem pudesse ter a força de tirar conclusões. Não a tenho eu, surgem-me atentos pensamentos vagos, de possibilidades lógicas, e tudo se me esbate numa visão de um raio de sol dourando estrume como palha escura humildemente amachucada, no  chão quase negro ao pé de um muro de pedregulhos.
Assim sou. Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha alma, fico de repente parado, esquecido, no começo do espiral da escdada profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva o aglomerado difuso dos telhados.    


sábado, 30 de julho de 2011

Deu no Bobo


Arte, democracia e a censura a 'A Serbian Film'

Por Cezar Migliorin
Fomos surpreendidos semana passada com a proibição de exibição do filme de ficção “A Serbian Film — Terror sem limites”, de Srdjan Spasojevic, um filme ao qual eu não dedicaria nenhuma linha, não fosse esse evento. A proibição nos joga para uma época em que cabia aos mais diversos poderes — os mais ricos, mais fortes, mais velhos — definir as imagens que poderiam fazer parte da comunidade e aquelas que não poderiam. A escolha das “boas imagens” visava proteger a comunidade impedindo que certas ideias circulassem. Para que esses poderes pudessem assim operar, eles deveriam partir de um desequilíbrio essencial entre aqueles que sabiam julgar as imagens — religiosos, juízes, políticos — e a massa incapaz de fazer uso das imagens. O filósofo francês Jacques Rancière chamou esse tipo de inscrição das imagens na comunidade de um regime ético das imagens. Nesse regime, a noção de arte, criação, invenção não poderia existir ou, pelo menos, não poderia ter nenhuma relevância posto que a pertinência das imagens não se fazia em relação à sua capacidade inventiva ou representacional, mas em relação às crenças da comunidade, ao ethos. Sem a ficção, a imagem é um duplo do evento, ou seja, o evento novamente. Fica claro que nesse regime, sem a ficção, toda imagem que esteja em desacordo com o que desejam os poderes instalados deve ser eliminada.
Em nossa comunidade — Brasil, século XXI — nos organizamos de forma diferente. Trabalhamos com a noção de arte e de ficção, fazendo com que não existam mais os temas que podem ou não fazer parte da criação artística, os assuntos que podem ser representados e os que não podem. Se isso não está claro para o senso comum, está explicito na Constituição. No inciso IX do artigo 5 lemos o seguinte: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Rancière poderia dizer que a constituição brasileira se filia a um regime estético das imagens.
No campo estético, imagem é uma forma de reflexão sobre o real

Do regime ético à forma que entendemos as imagens hoje há a introdução da variável ficcional e estética, operando uma mudança decisiva. A imagem deixa de ser a coisa em si, para ser uma forma de reflexão da sociedade sobre o que nela existe. Sejamos contra ou a favor, não podemos impedir que a ficção exista nesses termos, com essa liberdade.
Nossa comunidade, entretanto, proíbe certas práticas: assassinatos, roubos, pornografia infantil, etc. Sendo assim, a proibição do longa-metragem de ficção da Sérvia só poderia ser feita caso ele fosse em si um crime. Caso, por exemplo, houvesse uma cena real de pedofilia, o que não é o caso. Entretanto, o filme foi proibido.
Dizendo-se apoiado no Estatuto da Criança e do Adolescente, o advogado do DEM fez uma leitura do Estatuto como se vivêssemos em um regime em que os poderes devessem julgar as imagens que servem e as que não servem para a comunidade. Como se o partido fosse responsável pela proteção dos incultos indefesos que não têm condições de julgar o que veem e ouvem. A desembargadora de plantão construiu seu parecer dentro do mesmo pressuposto e, rompendo um princípio fundamental da democracia que diz que todos têm igualdade de condições para entender e criticar o mundo, impediu a exibição do filme.
Segundo o Art. 241-C do ECA, é proibido “Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual.” Se ignorarmos que as representações visuais fazem parte de uma comunidade em que existe arte e ficção, poderíamos facilmente interpretá-lo como fez a desembargadora e o DEM. Mas é certo que para entender a noção de simulação que está no Estatuto não podemos abandonar a própria comunidade em que o Estatuto foi feito, o Brasil e a sua Constituição.
Nesse sentido, um outro trabalho de interpretação parece necessário. A simulação incide aqui sobre a ideia de parecer real o que é montado, ou seja, dar a impressão de verdade onde há ficção, efetuando, pela montagem, uma falsa impressão de que um crime existiu. No registro ficcional, simular que alguém presenciou um determinado evento é um artifício amplamente utilizado, entretanto algo antecede essa simulação, que é o pacto com o espectador de que aquilo não existiu. No pacto ficcional não há simulação, no sentido de fingimento, apenas uma insinuação sem que o crime se efetive e sem que se possa ter a impressão de que houve crime. No filme em questão, não só não houve crime como a impressão de ter havido crime é restrita ao universo da ficção. Na ficção, a montagem não simula para apagar os limites entre o que é construído como ficção e o que se efetiva na realidade. O estatuto da ficção antecede a impressão de que a criança participou da cena e qualquer público adulto é capaz de compartilhar esse regime de imagens. Entendemos que quando alguém morre em um filme ele não morreu na vida real.
Justiça e DEM querem decidir o que deve ou não ser visto por nós

Chegamos assim ao ponto central de meu argumento. Como sabemos que nenhuma criança foi exposta a situações que a aviltasse, não é tarefa da lei julgar se alguns indivíduos têm ou não a capacidade de lidar com imagens que insinuem pedofilia, como fez a desembargadora ao dizer: “Não se pode admitir e permitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive, utilizando recém natos, sejam levadas ao grande público, vez que possam provocar reações adversas, às vezes em cadeia, em pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado para suportar tais evidências de desumanidade.”
O texto da desembargadora evidencia um neoplatonismo em que as paixões e as emoções são afetos grandes demais para ficarem nas mãos de artistas e espectadores, por isso devem ser controlados por quem entende o que é bom para a sociedade: a Justiça e o DEM. Trata-se de uma decisão que pode ser ótima para uma comunidade em que as imagens devem guardar continuidade com a vida religiosa ou cívica, mas não para o Brasil. Aqui a liberdade artística é parte do princípio democrático, não somente porque para a arte não há limites entre o que pode ou não ser abordado pelas obras, como não autorizamos nenhum poder a decidir quais são as imagens que devem circular.
Pedofilia, no final das contas, não está em questão nesse caso, mas uma tentativa autoritária em que alguns pretendem dizer o que deve e o que não deve ser visto por nós, pobre massa indefesa. Isso tem um nome: censura. Não, obrigado.
CEZAR MIGLIORIN é professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Chico Buarque descobrindo pela internet que também é odiado. Deu no Estadão

Rio, 24 de Março de 2012, quase um ano depois.
Surpreendente os acessos a este post, que ratificam sua atualidade: a igrejinha buarca escandalizada e revoltada com tamanho rombo em sua burra unanimidade. 
O primeiro irmão da cultura também não engana 100% 
e seus prêmios atravessados politicamente refletem as mazelas do circuitinho oficioso desta mesmice atual que  atende como mpb: mumias ressequidas e robôs teleguiados amorfos.

01/07/2011 - 10:35
Enviado por: Danilo Gomes da Silva
Chato demais. 
Sempre pareceu velho cantando, mesmo quando era moço, aquela vozinha de velha coroca igual à do Caetano Veloso. Eu escutava aquilo, comparava com os antigos discos do meu pai e me perguntava se o ouvinte brasileiro estava condenado a ser sempre jeca daquele jeito. Só fez copiar os músicos que vieram antes dele. Em plena era da eclosão do rock deflagrando uma revolução musical e comportamental no planeta, foi um retrocesso o aparecimento de um jovem como aquele, engomadinho, com cara de elite, cantando aquelas musiquinhas batidas e aquelas poesias conformistas e cafonas. O público, como sempre, se acostumou àquilo, mas parece que ele deve ter começado a beber e aí, sim, tentou uma guinada contestadora. Mas suas bases intelectuais sempre foram elitistas e nunca o permitiram tirar o pé da lama enfeitada que o sustentou. Suas comunistices são todas de fachada, assim como costumam ser todos os brasileiros desta falange, que só fizeram exercer a repressão cultural sobre a juventude de forma a mantê-la sob o cabresto ideológico que os permitiram tirar dividendos e fazer proselitismo de suas diatribes contra a ditadura. No fundo são todos farinhas do mesmo saco jogando a mesma partida, um sustentando o outro, e todos na corrida do ouro. Até hoje. E vamos continuar escutando estas lamúrias cada vez mais anêmicas, amorfas, em forma de música. As solteironas, as psicólogas, intelectuais sem praia na pele, sem suingue nas cadeiras, as mal-amadas, as mal-casadas e todas as correligionárias, agradecem este alento. Haja saco. A ala das múmias do Museu Nacional está se preparando para a chegada de grande quantidade de compositores da MPB que em breve abarrotarão aqueles sinistros aposentos. E já terão ido tarde.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Revista Cult : Do Jeito Que Você Gosta

Do jeito que você gosta

Representação sexual, cross-dressing e intersexualidade
Marcia Tiburi
Do Jeito que Você Gosta é a peça de William Shakespeare atualmente encenada em São Paulo pela Companhia Elevador de Teatro Panorâmico. Assistir a ela é uma grande oportunidade de reflexão sobre a amizade e o amor e a relação entre natureza e cultura.
Mais ainda, Do Jeito que Você Gosta pode ser lida como um forte ensinamento sobre diferenças de gênero. A protagonista da peça é Rosalinda, uma garota que, fugindo do tio autoritário, precisa travestir-se de homem. É travestida de Ganimedes que ela brincará de seduzir seu amado Orlando.
Não se aproveita bem a brincadeira de Shakespeare sem levar em conta que, naqueles tempos, mulheres não podiam fazer teatro. A encenação dessa peça constituía uma complexa banda projetiva: para representar Rosalinda, um homem se vestia de mulher.
Convencendo como mulher, ele devia, dentro da peça, vestir-se de homem e, desse modo, ser um homem que encena que é uma mulher fingindo que é um homem. Rosalinda vestida de Ganimedes brinca de ser Rosalinda na intenção de testar o amor de Orlando. Se Rosalinda é a personagem mais rica da história quando a vemos encenada por uma mulher (Carolina Fabri, na versão da Companhia Elevador), tanto mais complexa se torna ao ser representada por um ator homem que, no processo de atuação devia, em um complexo jogo de camadas, mostrar que tudo são representações.
Fácil é inscrever Rosalinda na tradição da donzela guerreira junto de Atalanta, Mulan, Joana d’Arc, Iansã, Diadorim e tantas outras. Contudo, indo mais além, o que vemos em Rosalinda é a intuição de que gênero é mais um modo de vestir e de gesticular do que um modo de ser, é mais uma medida cênica do que uma condição natural.
Travestir-se
A ideia de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, diz respeito a esse caráter teatral do gênero. Quando o cartunista Laerte Coutinho resolve aparecer vestido de mulher, é o fato da representação que nos confunde. Cross-dressing é um movimento com adeptos em diversos países justamente porque a “verdade” sobre a relação entre sexo e gênero já não tem mais validade cultural. Gênero é questão cênica. É apenas figurino. E, desse modo, fantasia que deve
importar a quem a escolhe. O que acontece com o sexo, por sua vez, não é diferente. Sexo é construção ideológica baseada no padrão binário (homem e mulher) inventada pela ciência e pela lei. É um padrão que o travestimento vem questionar no ato mesmo em que, confundindo as pessoas, põe em xeque a diferença sexual.
Entra em cena a precariedade do padrão desde que o binário cedeu lugar às múltiplas combinações. Intersexualidade é a categoria que surge quando homem e mulher como grau zero, como identidades naturais, tornam-se insustentáveis. Assim, em primeiro lugar, é preciso rever o ponto de vista sobre gênero: se um homem pode vestir-se de mulher, uma mulher também pode vestir-se de mulher. Uma mulher, por sua vez, pode vestir-se de homem, como um homem pode vestir-se de homem.Só que, em lugar da natureza, é a representação que surge como prática concreta dos indivíduos. Roupas são apenas representações: debaixo delas restam indivíduos singulares que não se encaixam em padrões senão por esforços discursivos e práticos que negam a realidade do particular.
Em segundo lugar, é preciso pensar a intersexualidade, nome amplo para a diversidade sexual de nossos tempos que é em si mesma a prova de que a ideia de uma natureza sexual já não se sustenta mais. O hermafroditismo tão ocultado entre nós é uma das formas de intersexualidade. Desde que a medicina criou técnicas cirúrgicas e hormonais de “correção” das sexualidades não binárias, quem nasce com um sexo “inadequado” ou “fora da norma” é sumariamente “consertado”. Mas o que a intersexualidade nos faz pensar é que não podemos mais considerar a existência de “erro” na ordem sexual. Certo é que os corpos são marcados por discursos científicos, jurídicos e essencialistas que definem sexo e gênero com base em um padrão binário.
Não há como sustentar que a anatomia de um hermafrodita seja menos “natural” do que a de outros indivíduos. A diferença é que, enquanto as anatomias bipolares são identidades construídas, o amplo campo que abriga a corporeidade hermafrodita é colocado sempre no lugar da não identidade. E quem não tem identidade não tem grupo, e quem não tem grupo é excluído quando o padrão que rege a vida em sociedade é a identidade. Quem troca de sexo usa a medicina num ato de inversão da norma.
Por essa lógica, parece bem mais razoável afirmar que todos somos intersexuais: assim como não há um rosto comum, mas apenas semelhante, os corpos e as genitálias humanas não são uniformes, jamais serão idênticos. Derivar daí uma “roupa de mulher” ou “de homem” prova apenas o caráter ideológico das representações. Contra a ideologia, a liberdade é a inversão do jogo: vestir-se “do jeito que você gosta”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Deu No JB em 14 de Abril de 2011

Enfim uma luz nas trevas

O bullying é a gênese da crueldade

É possível tirar uma lição de um crime bárbaro como o assassinato das 12 crianças na escola municipal de Realengo, no Rio?
Sim, claro que é. Esse ato hediondo e insano é um aviso para que pais e professores passem a combater o bullying, a primeira forma de segregação, de aparthaid.
Pode ser raro um louco se vingar das sacanagens que sofreu matando garotinhas numa sala de aula, mas muita gente que nunca vai dar tiro em ninguém sofre pelo resto da vida os efeitos da discriminação e das ofensas que ouviu na infância.
Antes que me acusem de estar justificando a chacina, deixo claro que nada justifica o crime ou absolve o criminoso. No entanto, se a cultura do bullying não for combatida, outros loucos vão se vingar das sacanagens que lhe fizeram matando inocentes. E nem é só isso. Devemos combater o bullying porque trata-se do primeiro degrau da intolerância, do exame de admissão das crianças para o mundo cruel dos adultos.
Já participei de bullying, evidentemente. Quem nunca gozou um colega? Toda turma tem o "pele", aquele em quem os outros descontam suas frustrações. Só quem nunca foi ao colégio pode atirar a primeira pedra.
Mas o fato é que aquilo logo me incomodava.
Nunca gostei de covardia, e o bullying nada mais é do que um ajuntamento de forças contra o mais fraco. O alvo pode ser o gorducho, o estrábico, a feiosa, o magrelo, o negro, o judeu, o mais pobre... não importa muito o que o distingue dos outros. Importa sim a quantidade de frustração que a turma precisa descarregar em cima de alguém.
Na maioria das vezes, eu tomava as dores do segregado. Não estou me gabando, eu sou assim. Na quinta série, soube que estavam fazendo um abaixo-assinado para que um garoto fosse transferido para outra sala. Ele era vesgo, grandão e desajeitado. Nem preciso dizer que me tornei o melhor amigo dele.
Bullying entre crianças é algo normal, faz parte do aprendizado da fraternidade. Crianças estão aí para errar e aprender mesmo. Cabe à escola e aos pais desenvolver nos alunos valores como a compaixão e a empatia. O bullying é a primeira institucionalização do egoísmo, do individualismo. Por isso deve ser combatido.
É um erro pensar que o bullying é coisa só de criança. Muitos adultos não aprenderam a ver a perversidade desse ato. Carregam o espírito de porco pela vida afora, praticando todas as derivações daquela neurose infantil. Tornaram-se segregadores sênior.
O bullying está na essência do capitalismo. O que é o cartel econômico senão o bullying entre empresas. "Vamos nos juntar para levar aquele concorrente à falência".
O bullying está na gênese do racismo. "Nossa pele é branca, a dele é negra. Pau nele!". E do nazismo: "Morte aos judeus!".
Na homofobia, também está o bullying, assim como nas agressões covardes ao torcedor do time adversário. Quando esse deputado fascista ataca gays e negros, nada mais faz do que mostrar que é um velho que ainda não saiu do jardim da infância. E que continua perseguindo os diferentes como um cachorro que corre atrás do próprio rabo.
Até na imprensa há bullying, porque quando a mídia quer destruir um político, simplesmente o boicota, ignora. E uma das piores formas de bullying é o gêlo. É de cortar o coração quando um grupo se recusa a falar com uma pessoa, condenando-a pela indiferença. A mídia faz isso como ninguém.
Quem não consegue enxergar a crueldade do bullying ainda na infância, se transforma num desses adultos desprezíveis que não se importam com ninguém e com nada. Essa gente que só pensa em si e que segrega e discrimina até o próprio planeta em que vive, destruindo a natureza e usando seus recursos como se não hovesse amanhã. A Terra é vítima de bullying e nossos descendentes também!
O governo deveria fazer uma campanha nacional para educar as crianças e adolescentes quanto ao bullying, para que eles não carreguem essa atitude, esse espírito, pelo resto da vida.
Não acredito naquele ditado que diz que "pau que nasce torto morre torto". Acho que o pau que morre torto é o que não foi educado na infância.
Gente que rumina intolerância desde pequena faz coisas desse tipo quando cresce:

Comentários

delulu ignatius pt<luluignatius@gmail.com>
para
ccogo.danilo@gmail.com
data16 de abril de 2011 20:19
assuntoFwd: The Killer At Brazil School
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---------- Forwarded message ----------
From: eva angelica de jesus <evangelicque@hotmail.com>
Date: 2011/4/8
Subject: The Killer At Brazil School
To: jeff.fick@dowjones.comjohn.lyons@wsj.com


This is a product of many years of hegemony of violence and sex meddling among novels and TV shows of TV Globo enslaving an entire nation since the era of military dictatorship, supported by the USA through the CIA, who threw the Brazilian citizens in a whirlwind of violence by takeover of local mafias set at all levels of the monstrous state bureaucracy that houses the families of offenders so-called elites. 
The people live poorly and kept in ignorance and disease in a systematic way, and despite many speeches and promises, the authorities do nothing to reverse this situation by maintaining as they are interested in this picture of stagnation in order to keep their power over the weaked masses. 
Gradually, citizens are beginning to become aware by the globalization through the web and the most immediate result is this kind of unusual action in the country, a revolt and narcissistic criminal who soon will be repeated more properly against the authorities and families in long-established command of the national robbery.
The president who once fought against this state of things today makes alliances with her former enemies to keep the governance but just until the point of having a well stocked bank account 
and a hefty retirement (or two, like her predecessor) to satisfy her "policy" and "power" design
as much as her coreligionists.
andré angelo enviou em 14/04/2011 as 15:59:
"O governo deveria fazer uma campanha nacional para educar as crianças e adolescentes quanto ao bullying" Há algum tempo, não muito, passou na tv, não muitas vezes um bonito filme, uma campanha. O 'esperto', caminhando com seus falsos amigos no corredor do colégio, de propósito dá um tranco num garoto e derruba todo o seu material no chão. Outro aluno vê o lance e chega junto, abaixa e ajuda a vítima a recolher as coisas lhe perguntando se está tudo bem. Ao final o locutor manda a mensagem: "Caráter, passe essa idéia adiante".
Helio enviou em 14/04/2011 as 16:06:
Não há solução mágica para o que ocorreu em Realengo. A maneira de evitar que isso se repita depende de prevenção, que necessariamente passa pela qualificação dos profissionais envolvidos, pela identificação de estudantes que possuam qualquer tipo de desvio, pelo encaminhamento correto a profissionais que o tratem, e principalmente, pela continuidade do tratamento. Mas isso custa MUITO CARO, demora muito, e principalmente, NÃO DÁ VOTO. O governo quer aproveitar para ressuscitar uma questão que já foi enterrada, e vai levar outra derrota política. Detalhe que apesar de ter perdido o último plebiscito, o governo manteve regras tão rígidas para quem tem registro de arma (ou seja, ter arma somente em sua residência), que na prática fica inviável. Até parece que a arma comprada pelo assassino era arma quente. A saída é de fato a mais demorada e mais trabalhosa - qualificar os profissionais de ensino e manter psicólogos preparados para lidar com esse tipo de situação. E quanto ao bullying - não podemos ser radicais - é verdade que existe um limite tênue daquilo que é brincadeira para aquilo que é bulling, mas quem lida com as crianças tem que saber identificar o bulling, e principalmente, o bulling agressivo, traumatizante, proteger o agredido, e de todas as maneiras inibir o comportamento de quem o faz.
andré angelo enviou em 14/04/2011 as 16:25:
Excelente texto, muito rico. Contrasta com a pobreza de espírito do monsto do vídeo que podia ter cegado o cara. É impossível não julgar, desculpem-me...Provavelmente não havia nenhuma 'pendenga' entre eles, aparentemente nem se conheciam, do contrário, o agredido não estaria relaxado.
Antonio Carlos Souza enviou em 14/04/2011 as 17:09:
Marcelo, parabéns, comatraso, pela edição especial de 120 anos do Jb. Todos os profissionais envolvidos e entrevistados, também merecem aplausos. A fenomenologia que você fêz do bullying está muito rica, em forma e conteúdo. Como fenômeno, faz parte , de fato, do processo de amadurecimento, do rito de passagem para esse nada doce mundo, dos adultos. Como citado, é tênue a fronteira entre a encarnação de um colega, um tanto diferente de nós, do bullying, altamente traumatizante para quem o sofre. À destacar em seu texto, a evolução desse perverso fenômeno, em outras fases da vida das pessoas. Todas as situações enfocadas, caracterizam-no. Corroboro sua colocação de que, raramente, a vítima de bullying, torna-se assassino, como o protagonista da chacina de Realengo. Aduzo que, dependendo de diversas variáveis, como resiliência individual, apoio psicoterápico e familial, rede relacional, etc, essa vítima, poderá, em extremo, suicidar-se, que também, raramente ocorre. A Educação, em amplo espectro, é sim, o melhor caminho para humanização do tempo em que vivemos, prevenindo, não apenas, bullying, como outras formas desestruturantes, de relações intersubjetivas, nos diversos palcos onde ocorrem. No fenômeno-tema, reitero posição já expressa, nesse e em outros blogs e canais de comunicação com o leitor, a inilúdivel presença do profissional de Psicologia, em todas as escolas municipais e estaduais, vez que, as particulares, em grande número, contam com esse profissional em seus quadros. Atuando em campo, interagindo com alunos , professores e demais funcionários da escola em que atua, sem muita dificuldade, podemos perceber diferenças, as vêzes, nada sutis, da criança ou adolescente, tímido ou esquisito, do ESQUIZÓIDE, que necessita de atendimento individual e familiar. Ademais, bullying e outros comportamentos grupais assemelhados, podem ser refletidos em grupo, sistematica e preventivamente, minimizando a possibilidade de eclosão de fatos como os da escola de Realengo. Mágicas , em Saúde, Educação e Segurança, certamente, não há, mas o trabalho interdisciplinar e preventivo, pode, sim, ser arquitetura de um mundo melhor.
Uatu enviou em 14/04/2011 as 17:23:
Troque umas idéias com a Tania Melo.
William Blak enviou em 14/04/2011 as 17:29:
A vida hoje é, com mais frequência, um exercício de perdas do que de ganhos.... pratique o desapego. Ao invés de fugir da perda, encare-a de frente. Mostre a ela que você pode viver muito bem sem aquilo que lhe tiraram. Se não pode viver muito bem, mostre apenas que pode viver. Seu aliado é o destino, que tem uma imaginação pra lá de fértil e certamente vai lhe apresentar outras possibilidades de continuar vivendo com motivação e alegria. -serve bem aos algozes e às vítimas de bullyng. -por: Migliaccio.
danilo gomes da silva enviou em 14/04/2011 as 17:39:
E também há o assédio moral praticado entre "amigos", "cônjuges" e "colegas" de trabalho, quase sempre com a aprovação das diretorias das empresas que se valem disso para manter o clima de competitividade na arena trabalhista. Que se cuidem as festas da patota, o aniversário do neném e a repartição.
Eduardo enviou em 14/04/2011 as 17:57:
Isso que chamam hoje de bullyng sempre aconteceu, não e porque hoje em dia esta em voga que vai passar a acontecer seguidamente chacinas como a de realengo, o que tem hoje em dia é o fechamento de manicomios, onde essses doentes deveriam estar. Que tal uma campanha de reabertura das instituições de internação de doentes mentais.
ACantal enviou em 14/04/2011 as 18:27:
Por mais que eu concorde com a sua opiniao sobre o bullying, nao concordo com o ponto de que a chacina de Realengo tenha a ver com o que o cara sofreu na infancia. Muita gente sofre com bullying e pouca gente reage assim, e contra pessoas que nao tinham nada que ver com isso. Outra coisa, apesar de ser absolutamente contra qualquer violencia ou constrangimento de outras pessoas, mesmo verbal, eu acho que esse negocio de bullying esta tomando proporcoes meio perigosas: tirando a violencia fisica, que eh inadmissivel, as pessoas deveriam ter mais protecao "emocional" contra o bullying, e isso depende principalmente dos pais. Auto-estima se aprende em casa e eh o melhor remedio anti-bullying. A vida eh dura mesmo, nao adianta reclamar, e o negocio eh criar uma "casca grossa" e nao se chatear com besteira e com quem nao merece a satisfacao de te irritar...so pra constar, ja fui vitima de bullying e ja quase apanhei de um sujeitao por defender outra pessoa...mas, claro, nao fiquei traumatizada nem nada. Hoje em dia tudo vira trauma!
Yves Rangel enviou em 14/04/2011 as 19:14:
Eu tinha seis anos e me matricularam em colégio de freira que tinha duas alas a da ricas que pagavam e das pobres que estudavam de graça. Eu pertencia a ala das pobres. Um dia a professora me mandou ler. Quando eu terminei a leitura ela debochou de mim dizendo que eu tinha vóz de padre. Figuei muito triste mas não contei para minha mãe para que ela não ficasse triste tambem. Mais tarde quando estava no Grupo Escolar (era assim que se chamava) o Diretor da Escola, que era um babaca disse que eu tinha cara de mosquito, perante toda turma. Um tal de Mingote que era gordo e balofo fazia bullying comigo na saida do colégio: Mosquito, mosquito... Hoje eu acho engraçado, mas na época em sofri muito. Mais tarde já no quarto ano ginasial, no internato de freira, tambem sofri bullying. Este foi do gelo. Confesso que tambem participei de um bullying. Entrou uma novata no ginasio. Seu nome era Mercia. Era linda mesmo. Uma pele muito branca e os cabelos loiros, bem claros, naturais. Contrastava com a turma que não tinha nada de especial. Na saida da aula nós "as babacas" iamos atras dela debochando e nos divertindo com a agonia dela. Tenho remorso de ter participado daquilo. No fundo era pura inveja. Ela era diferente não porque tivesse algum defeito fisico. Ela era perfeita!
Cacilda Monteiro Gomes enviou em 14/04/2011 as 19:48:
Que texto hein Marcelo!!! Clareza, conhecimento de causa, sensibilidade! E como gera polêmica esse "bullying"! A começar pela forma a "la EUA", o nome poderia ser ameaça, intimidação, ou, mesmo, assédio moral. Enfim, mais um americanizado. Eu gostava muito daquela campanha citada no primeiro comentário, achava linda. Vejo que tudo é uma questão de "ser" emocionalmente. Cada pessoa é única com as suas particularidades. Às vezes sinto que estou ouvindo um barulho incômodo e a pessoa que está bem pertinho de mim, não está ouvindo nenhum ruído. Será que ela não está sendo importunada por outra coisa que a minha sensibilidade também não percebe? E, pior ainda, são aqueles que dizem "os incomodados que se mudem". Aí o "ser" já passar a ser "respeitar". O "educar", o "criar", o "ensinar" não muda o aspecto emocional da individualidade, ninguém consegue moldar a alma do outro. O caráter sim, é construído a partir da educação, dos ensinamentos. Eu costumo dizer que, prá mim, é muito fácil ir ao ginecologista, mas é dificílimo ir ao psiquiatra, ao psicólogo. Desnudar a alma só é possível para Deus. Há pessoas que necessitam de um pastor, ou um padre, ou um pai de santo para se fortalecer diante da vida, enquanto há outras que já são verdadeiras fortalezas. Está tão em evidência "conviver com as diferenças" e só conseguimos fazer isso respeitando uns aos outros. Sentimento é coisa muita séria. Mais uma vez, parabéns pelo texto.
Amarildo Amancio enviou em 14/04/2011 as 20:03:
Parabéns pela excelente matéria, Marcelo! O Bullying é uma atitude sombria e maligna, e geralmente, como neste caso, os extrovertidos que assim procederam ainda tentam se justificar dizendo que FOI TUDO APENAS UMA BRINCADEIRA.... Brincadeira.... colocar a cabeça do infeliz psicopata dentro do vaso sanitário, lançar o infeliz psicopata dentro de uma caçamba de lixo... Brincadeira....?!?!?!
anarquista enviou em 14/04/2011 as 20:04:
Revoltante. Prisão em flagrante por agressão gravíssima e em seguida, classe média-alta que é, liberado. Se fosse negro com quatro trouxas de maconha e 200 reais no bolso, como a lei é subjetiva, poderia ficar preso por meses ou até ser condenado por tráfico.
EXILADO enviou em 14/04/2011 as 20:13:
Migliaccio, me permita discordar da sua linha de pensamento. Acho que no caso da escola do Realengo aquele bandido usou o bullying como desculpa para aflorar o que de pior existia nele. Teve um toque de arrogância, veja os vídeos deixados por ele, se não matasse as crianças iria cometer outro tipo de crime para justificar a sua alma déspota e atitude tirana. Todos nós em algum momento da vida escolar sofremos alguma forma de constrangimento e nem por isso saímos matando gente. Assim como o assassino da escola do Realengo existem vários outros que tiveram uma criação desastrosa, egoísta, com baixa auto-estima, sem regras, sem limites. Os pais modernos estão perdidos sem um norte educacional. Não é a toa que os chamados guias para pais são os livros que mais crescem em vendas e que supostamente ajudam os pais a educar os filhos. Tenho certeza de que os seus pais seguiram o “manual” da família Migliaccio e por isso você virou gente do bem. O ECA veio para corrigir excessos só que acabou por criar distorções ainda maiores. O nosso ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, que é uma adaptação de uma lei cubana, só piorou as coisas. Ou você acha legal um menor matar e ficar três anos preso e depois sair para matar mais?Diante do Princípio Constitucional da Igualdade, por que os menores não têm punição exemplar como aconteciam antigamente, como nossos pais faziam; estabelecendo regras desde muito cedo, de maneira clara e direta, para não criar filhos egoístas e tiranos?O Eca só faz valer os direitos, não os DEVERES, FAZENDO O MAL ENDOSSANDO OS QUE O FAZEM?
Antonio Carlos Souza enviou em 14/04/2011 as 20:14:
Continuando postagem anterior, O autor da chacina de Realengo, certamente, não foi motivado, unicamente, pelo bullying sofrido, O rapaz, sem dúvidas, era PSICÒTICO, mais especificamente, sofria de ESQIZOFRENIA PARANÒIDE, o que, potencialisou seu comportamento destrutivo. Essa conduta, fique claro, não é comum entre PSICÒTICOS, ocorrendo raramente. Pessoas com transtornos mentais raramente cometem crimes, ainda que , surtados. Esse foi um dos raros casos. Menos raro, embora não corriqueiro, é o suicídio cometido por essas pessoas. Tratamento adequado permite convivência em família e em sociedade, como deve ser. Já não admite-se enclausurar essas pessoas em hospitais ou clínicas psquiátricas, que , lenta, mas progressivamente, estão sendo fechadas. Estamos no século 21 e defender a segregação de portadores de transtornos mentais, é regridir à IDADE MÈDIA.

sexta-feira, 8 de abril de 2011