segunda-feira, 13 de junho de 2016

Tudo Será Como Antes



O Cinema


 

(Virginia Woolf, 1926)

Dizem que não somos mais selvagens, que estamos no fim da civilização, que tudo já foi dito, e que é muito tarde para se ter ambições. Mas esses filósofos presumivelmente se esqueceram dos filmes. Nunca observaram os selvagens do século XX assistindo a um filme. Nunca se sentaram em frente a um telão pensando, apesar de todas roupas que os vestem e os tapetes sob os pés, na ínfima distância que os separam daqueles homens nus de olhos brilhantes, batendo duas barras de ferro e adivinhando naquela barafunda uma antecipação da música de Mozart.


É lógico que neste caso as barras de ferro são tão ostensivamente elaboradas e cobertas de tantos materiais diferentes que é extremamente difícil escutar qualquer coisa claramente. Tudo são imprecações indistintas, sem direção e o caos. Aproximamo-nos da borda de um caldeirão em que fragmentos de todas as formas e sabores parecem cozinhar lentamente; às vezes uma grande figura se levanta e parece se projetar fora do caos. Mesmo assim a arte cinematográfica parece simples, estúpida até. Mostra o rei cumprimentando um time de futebol; o iate de Sir Thomas Lipton; lá está Jack Horner vencendo a corrida oficial de cavalos. Os olhos lambem tudo isto instantaneamente e o cérebro, estimulado adequadamente, relaxa para assistir  tudo acontecer sem a obrigação de pensar.


Para um olhar comum - o olhar inglês desprovido de estética - é um mecanismo simples que previne o corpo não cair num buraco cheio de carvão, que adula o cérebro com brinquedos e doces para mantê-lo sossegado, e pode ser o responsável por alguém continuar se comportando como uma enfermeira até que a mente chegue à conclusão de que é hora de acordar. Então qual é sua finalidade ao ser despertada de repente de uma deliciosa sonolência para pedir ajuda? O olho está em apuros. O olho pede socorro. O olho diz para o cérebro “Está acontecendo algo que eu não compreendo o mínimo. Preciso de você”. Juntos eles olham para o rei, o iate, o cavalo, e o cérebro percebe imediatamente que adquiriram uma qualidade que não pertence à simples observação de uma fotografia da vida real.


Elas não se tornaram mais bonitas no sentido de como as fotos o são, mas deveríamos chamá-las (nosso vocabulário é miseravelmente insuficiente) mais reais, ou reais com uma realidade diferenciada daquela que nós percebemos na vida diária? Nós os contemplamos como são quando não estamos aqui. Vemos a vida como ela é quando não participamos dela. Enquanto olhamos, parecemos estar apartados da mesquinhez da nossa verdadeira existência. O cavalo não nos vai lançar ao chão. O rei não vai apertar nossas mãos. As ondas não molharão nossos pés. Deste ponto de vista, ao contemplarmos o ridículo de nossa espécie, temos tempo para a compaixão e a diversão, para devanear, para idealizar um homem com as qualidades da raça.


Olhando o barco navegar e as ondas quebrarem, adquirimos tempo para abrir completamente a mente para a beleza e registrar em si uma estranha sensação – esta beleza subsistirá, esta beleza florescerá, possamos nós contemplá-la ou não.  E mais, somos informados que isto aconteceu há dez anos. Observamos um mundo que se foi sob as ondas. Noivas surgem das abadias - agora são mães; porteiros trabalham – agora calmos; mães choram; convidados estão alegres; isto foi ganho e aquilo perdido, tudo acabado. A guerra escancarou seu abismo aos pés de toda esta inocência e ignorância, mas foi deste jeito que dançamos e demos piruetas, engalanados e amados, foi assim que o sol brilhou e as nuvens surgiram no derradeiro final.


Mas os cineastas parecem frustrados com estas óbvias fontes de interesse tais como a passagem do tempo e a sugestão da realidade. Desprezam o voo das gaivotas, os navios no Tâmisa, o Príncipe de Gales, Mile End Road e Picadilly Circus. Querem aperfeiçoar, alterar, fazer uma arte de sua autoria – naturalmente por que tudo parece estar ao seu alcance. Muitas artes parecem estar a postos para contribuir. Por exemplo, a literatura. Todos os grandes novelistas do mundo, com seus personagens e cenas famosas, até parecem implorar para aparecerem nos filmes. O que poderia ser mais simples ou mais fácil? O cinema se precipitou sobre suas preces com grande voracidade e por enquanto subsiste fartamente no corpo destas pobres vítimas.


Mas os resultados são desastrosos para ambos. A conjunção não é natural. Olho e cérebro são esmigalhados impiedosamente ao tentar trabalhar juntos em vão. O olho diz “Aqui está Ana Karenina”: uma voluptuosa mulher em veludo preto, ornada com pérolas, aparece na nossa frente. Mas o cérebro diz: “Essa não é mais Ana Karenina do que a rainha Vitória”. É porque o cérebro conhece Anna quase que inteiramente através de sua mente – seu charme, sua paixão, seu desespero - e toda a ênfase é comunicada pelo cinema através de seus dentes, pérolas e seu veludo. Então “Anna se apaixona por Vronsky” – o que significa a mulher de veludo negro caída nos braços de um cavalheiro uniformizado, beijando-se suculentamente, com total consentimento e infindável coreografia sobre o sofá de uma biblioteca extremamente bem decorada enquanto um jardineiro incidentalmente corta a grama lá fora. 

Aqui somos capturados e sucumbimos através das mais famosas novelas do mundo. E atestamos tudo com palavras monossilábicas, escritas, também, com rabiscos de um aluno analfabeto. Um beijo é amor. Uma xícara quebrada é ciúme. Um sorriso é felicidade. Morte é um carro funerário. Nenhumas dessas coisas têm a mínima conexão com a novela que Tolstoy escreveu,  e é só quando desistimos de tentar conectar as imagens com o livro, que descobrimos em alguma cena acidental – tal como a do jardineiro cortando a grama – o que o cinema pode fazer se voltado somente às suas próprias ferramentas.


Mas então quais são estas ferramentas? Se deixasse de ser um parasita, como poderia o cinema seguir em frente de cabeça erguida? Atualmente só através de pouquíssimas migalhas que podemos elaborar alguma conjectura. Por exemplo, outro dia durante a projeção de “O Gabinete do Dr. Caligari”, de repente uma sombra com formato de sapo apareceu num dos cantos da tela. Desenvolveu-se até um tamanho imenso, estremecendo, inchada, e afundou-se novamente em sua nulidade. Por um momento parecia encarnar alguma imaginação doentia de um cérebro lunático. Por um momento parecia como se quisesse ser entendida mais efetivamente pela forma do que pelas palavras. O monstruoso sapo convulsivo parecia ter medo de si, e não a afirmação “estou com medo”. Na verdade a sombra foi incidental e o efeito não intencional.


Mas se uma sombra pode sugerir muito mais do que verdadeiros gestos e palavras de homens e mulheres amedrontados, fica claro que o cinema tem a seu alcance inumeráveis símbolos para emoções que até então não conseguiram encontrar suas expressões. O terror tem, a par de suas formas ordinárias, o aspecto de um sapo que nasce, incha, estremece e desaparece. A raiva não é simplesmente algo discutível ou retórico, faces ruborizadas e punhos cerrados. Talvez seja uma linha negra se contorcendo numa folha em branco. Anna e Vronsky já não precisam mais de carrancas e caretas. Eles estão no comando – mas do que? 

Haverá, perguntamos, alguma linguagem secreta que intuimos e enxergamos, mas nunca falamos, e se o fizermos poderia ser perceptível aos olhos? Haverá alguma característica que o pensamento possui que possa ser materializada visivelmente sem o apoio de palavras? Existe a velocidade e a lentidão como o lançamento de dardos e rodeios vaporosos. Mas também há, especialmente em momentos de emoção, o poder da construção dos filmes, a necessidade de alçar sua chama a um novo patamar; estabelecer as imagens lado a lado, correndo juntas.


A imagem do pensamento é por alguma razão mais bonita, mais compreensível, mais palpável do que o pensamento em si. 

Como todos sabem, em Shakespeare as ideias mais complexas formam correntes de imagens às quais organizamos, mudando e torcendo, até encontrarmos a luz do dia. Mas obviamente as imagens de um poeta não existem para serem esculpidas em bronze ou traçadas pelo pincel. São amálgamas de mil sugestões em que o visual é o que há de mais óbvio e superficial. Mesmo a imagem mais simples “'My luve's like a red, red rose, that's newly-sprung in June´(“Meu amor é como uma vermelha / vermelha rosa / recém brotada em Junho”) nos agracia com sensações de umidade e calor, o brilho da púrpura e a suavidade das pétalas inextricavelmente misturados e amarrados na elevação do ritmo, que é em si a voz da paixão e da hesitação do amante. 

Tudo isto, que é acessível às palavras, e somente a elas, o cinema deve evitar.


Mesmo que muito de nosso pensar e sentir esteja conectado com o ver, algum resíduo de emoção visual que não é típico nem do pintor nem do poeta, ainda deve aguardar pelo cinema. Esses símbolos serão muito diferentes dos objetos reais que vemos à nossa frente, altamente prováveis. São coisas abstratas, que se movem com uma arte controlada e conscienciosa, que só recorrem à menor ajuda das palavras ou da música para se fazer inteligíveis, mesmo que o façam com subserviência – desses movimentos e abstrações os filmes do futuro deverão ser feitos.


Então, com efeito, quando algum símbolo para expressar pensamentos é descoberto, um cineasta ganha um grande recurso a seu comando. A exatidão da realidade e seu surpreendente poder de sugestão são coisas a serem submetidas à investigação. As Annas e Vronskys lá estão em carne e osso. Se nesta realidade eles pudessem exalar emoções, pudessem animar a forma perfeita com o pensamento, então este legado poderia ser palpável de uma mão à outra. Então quando uma nuvem se derramasse do Vesúvio, deveríamos ser capazes de abstrair ideias em sua selvageria, em sua beleza, em sua estranheza, como se precipitadas por homens acotovelados sobre a mesa; por mulheres com bolsinhas pendendo ao chão. Deveríamos ver estas emoções misturando e contagiando-se.  Deveríamos ver as violentas mudanças emocionais produzidas por esta colisão. Os contrastes mais fantásticos poderiam piscar à nossa frente com uma velocidade que um escritor só conseguiria se esfalfar em vão para alcançá-la. A arquitetura de sonho de arcadas e ameias, de cascatas caindo e fontes jorrando que algumas vezes nos perseguem em sonhos ou se avizinham em salas mal iluminadas, poderiam ser materializados na frente de nossos olhos despertos. Nenhuma fantasia poderia ser mais extravagante ou imaterial. O passado poderia ser revisitado, as distâncias encurtadas, e os recursos que dão ritmo às novelas (quando, por exemplo, Tolstoy precisa passar de Levin para Anna, e fazendo assim muda de repente a cadência da história para conquistar nossa empatia) poderiam ser suavizados por um pano de fundo semelhante ou pela repetição de alguma cena.


Como tudo isto pode ser tentado ou alcançado, ninguém no momento pode nos afirmar. Somente pressentimos no caos das ruas, talvez, quando uma momentânea conjunção de cores, sons e movimentos sugerem que ali está uma cena esperando uma nova arte para transfixá-la.  E algumas vezes no cinema, em meio à suas grandes destreza e proficiência técnica, a cortina se abre e experimentamos, longe dali, uma beleza desconhecida e inesperada. Mas é somente por um instante.


Por algo estranho que se passa – enquanto todas as artes nascem nuas, esta, a mais nova de todas, nasceu totalmente vestida. Pode falar tudo antes que tenha algo a dizer. É como se a tribo selvagem, apesar de ter descoberto duas barras para bater, tivesse encontrado violinos dispersos à beira do mar, flautas, saxofones, trompetes, grandes pianos Erard ou Bechstein, e começasse com inacreditável energia, e sem saber qualquer nota musical, a martelar e bater em todos eles ao mesmo tempo.


Leia o original: <http://www.woolfonline.com/timepasses/?q=print/book/export/html/1007>

domingo, 28 de setembro de 2014

MAPAS PARA AS ESTRELAS (“Maps to the Stars” de David Cronemberg - Estados Unidos, 2014)

MAPAS PARA AS ESTRELAS
(“Maps to the Stars” de David Cronemberg - Estados Unidos, 2014)

O filme que passa no telão é uma versão de algo em torno de Douglas Sirk, Robert Altman ou Billy Wilder, só que destituído de qualquer emoção. É um partido tomado acintosa e deliberadamente com a finalidade de afetar uma estranheza mais conveniente às narrativas fantásticas dos filmes de terror. Esta postura é um esforço de mediação do mundo real em que habitamos nós os espectadores, através do que involuntariamente convivemos com o que há de mais punk e nocivo à nossa volta e as possibilidades esgotadas dos manuais da indústria do entretenimento. Hollywood é uma fábrica de pesadelos muito mais horripilantes do que os filmes hardcore que produz, e seus personagens, tanto no celuloide quanto nas ruas da cidade, nunca estiveram tão amalgamados em função da esterilidade emocional quanto o Sr. Cronemberg tenta demonstrar.
O coeficiente Morfeu pisca alerta em várias cenas, todas esmeradas em dialogar perversidades, traições, assédios morais, preconceitos, toda uma súmula que não faria feio na pior novela das oito da TV brasileira. É um desfile freak de duendes diabólicos, ninfas incendiárias perversas e assassinas, irmãos incestuosos e cafetões de almas cotejados passo a passo como numa procissão caminhando irreversível e inexoravelmente rumo ao inferno das regiões mais sombrias das mentes desavisadas da plateia.
Mas com grife:
1- Com os olhos visivelmente plastificados e condenados à leitura em branco das emoções de John Cuzak;
2- com o physic du rôle do menino Evan Bird (a cara cuspida e escarrada de Paul Eluard por volta de 1930), assustador na elocução de suas falas em registro muito além das de um velho ancião malvado dentro de um corpitxo de lagartixa;
3- com as cicatrizes mal elaboradas do personagem de Mia Wasikowska e sua infundada e irrelevante cosmogonia bicho-grilo recalcitrante;
4- com o desperdício da citação reiterada do magnífico poema “Liberdade” de Paul Éluard - (...) “Grifo teu nome / Em toda carne acordada / Na fronte dos meus amigos / Em cada mão que me afaga “ (...);
5- com Robert Pattinson agora rebaixado ao lugar do motorista da limusine que o conduzia arrogante em "Cosmópolis" - um daqueles filmes "estranhos" em que aqui se refere à obra do diretor do metafilme numa tentativa mais narcísica do que a autocrítica pretendida;
6- ou com Julianne Moore escrachada, falando palavrão, obscena, prestando-se ao trabalho sujo de convencer dramaticamente que aquela mulher aterrorizada por fantasmas e escravizada às drogas (uma entre quase todos que rezam a mesma cartilha neste filme) não é uma mera projeção profissional de si mesma, mas um trampolim para sua glória. Resultado: prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.

Três estrelas por ela ter-me conseguido engambelar tão bem; senão solamente duas. Se tanto.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

As Projeções Digitais nos Cinemas do Rio de Janeiro

O que os distribuidores parecem não se preocupar é em oferecer qualidade de imagem e de som em excelentes condições ao público pagante - o que é o mínimo que se pode esperar de uma sala de cinema.

Os cinemas Laura Alvim e os filmes de menor apelo comercial exibidos nos Itaús da praia de Botafogo no Rio de Janeiro são um verdadeiro caso de polícia e de fiscalização pelos órgãos de defesa do consumidor (leia-se PROCON).

Estes cinéfilos não podem ficar reféns da lata de lixo dos distribuidores e os cineastas precisam levantar-se em favor da integridade de suas obras frente à apreciação do público que com este tipo de descaso verão suas obras sistematicamente relegadas às críticas negativas, a um boca-a-boca brochado e o desinteresse das plateias por sua vez já tradicionalmente impermeáveis ao produto nacional diferenciado do beabá televisivo blockbosta e das cinematografias autorais.

O que não pode é a pessoa pagar 30 reais para assistir um filme que ocupa somente 1/3 do telão por que sua definição precária (mesmo neste formato) ficaria escandalosamente deficitária em seus 100%;
é deparar-se com um som pior do que o da televisão caseira (os filmes brasileiros são em sua maioria praticamente inaudíveis por às vezes somado à sua captação incompetente o volume das projeções e o aparelhamento das salas concorrem para este desastre);
e via de regra imaginar quais cores, luzes e quais formas estão ali escamoteadas por aquela 'cortina de voile' que se impõe na frente das imagens exibidas e até mesmo quando as luzes de tela são esquecidas acesas pelos funcionários das salas.

As execráveis cópias de fundo de quintal nas quais as legendas ocupam quase a metade do quadro trapezoidal, resultante do posicionamento indevido dos projetores que fazem o side show daqueles que exibem os blockbostas, completam o quadro dos horrores a que o público pagante atualmente é brindado pelos cinemas caça-níqueis da cidade maravilhosa. Imagino o que não deve estar ocorrendo no interior, onde mal e porcamente existem cinemas.

Pergunto se são estas as condições oferecidas para que os cineastas nativos tenham suas obras espanadas das prateleiras do esquecimento, recolhidas no gargalo dos interesse das majors estrangeiras que mandam no país e oferecidas ao público a que se destinam e ratificam seu processo de existência enquanto produtos culturais.

Este festival de siglas de máquinas e apetrechos informatizados que concorrem para baratear o custo do negócio e nivelar por baixo a manifestação artística são instrumentos que precipitam alguns exibidores e distribuidores atuais a cuspirem no prato em que comeram quando iniciaram seus negócios nos cinemas de arte, formando gerações de cinéfilos que se somaram aos da fase áurea do cinema brasileiro de invenção ao dar ampla visibilidade à variedade das cinematografias do planeta.

....................................................................

Este texto foi publicado no Facebook comentando o post de Marcelo França Mendes (publicado na página de um amigo) a seguir:

"Acabei de enviar questões objetivas sobre a digitalização dos cinemas para a Ancine. É uma parte da nossa contribuição na chamada pública sobre a questão. Como há muitos membros da Comissão entre os meus amigos e o tempo é curto, pois há uma reunião hoje, coloco aqui esses pontos:

1) OBRIGATORIEDADE DE DIGITALIZAÇÃO DCI EM TODO O COMPLEXO
Pelas regras atuais, um cinema que optar em usar o VPF terá obrigatoriamente que digitalizar todas as salas do complexo até DEZ/2014. Mas há inúmeras salas no Brasil que funcionam com diversos sistemas digitais, do DVD ao INFO3, passando por BluRay, Equinox e Auwe. Por que OBRIGAR essas salas a instalarem projetores DCI em todas as cabines? Um pequeno complexo de duas salas, por exemplo, pode optar em ter um projetor DCI e um sistema alternativo, já que já será difícil para salas como essa conseguir VPFs suficientes para pagar 01 projetor, ter que pagar dois pode colocar a sobrevivência da sala em risco. É certo que tais modelos não são o ideal. Mas a opção de migrar para o DCI deve ser de cada sala, de acordo com suas possibilidades financeiras e sua necessidade de programação;

2) OBRIGATORIEDADE DE COMUNICAR "PROGRAMAÇÃO ALTERNATIVA" COM 30 DIAS
Chega a ser absurda a exigência. Que filmes são programados com tanto tempo de antecedência? Que eventos? Obviamente, os lançamentos "major", as finais de campeonatos de futebol, de tênis, ou seja, a programação dos grandes complexos. Isso não acontece com salas alternativas, com "produtos" alternativos. Essa exigência inviabiliza uma programação mais criativa, antenada com a atualidade;

3) CUSTO
O menor dos projetores DCI para a menor das salas custará a esse cinema aproximadamente 60 mil dólares. Mas o cinema ainda terá que gastar com som e instalações outros XX mil reais, que não são cobertos pelo projeto. Uma boa sala de 100 lugares pode ter uma média de 1.000 espectadores por semana. A grande maioria das salas com essa capacidade não chega a tanto mas vamos considerar, a título de exemplo, um modelo assim:

4.000 espectadores por mês
PMI R$ 11,00
Renda Bruta: R$ 44.000,00
Filme (50%): R$ 22.000,00
Aluguel (15%): R$ 6.600,00
Outros (20%): R$ 8.800,00
Lucro (15%): R$ 6.600,00

Mesmo considerando como corretos os dados acima (15% de margem de lucro é quase impossível de se obter em cinema), temos um cenário onde sobra apenas seis mil reais por mês para o dono do cinema viver. Se ele não tiver VPFs que cubram o custo projetor, como pagará o financiamento?

4) OBRIGATORIEDADE DE RECEBIMENTO DE FILMES EM DCP FECHADO
A justificativa é o controle automático do cinema a distância, para que o integrador possa aferir o conteúdo exibido de forma automática. Ok, mas pode ser feito da mesmíssima forma com o DCP aberto. Além disso, sistemas alternativos como o INFO3 também são capazes de fazer o mesmo e há informações de que um outro sistema alternativo está em desenvolvimento na Paraíba. Além disso, é notório que a chave gera diversos problemas nas primeiras sessões do primeiro dia de programação. Não é raro o cancelamento de sessões por causa da chave. Então por que a obrigação se ela só encarece, dificulta e traz prejuízos?

Para o pequeno distribuidor:

1) OBRIGATORIEDADE DE DCP FECHADO (com chave)
Hoje praticamente nenhuma distribuidora pequena usa DCP FECHADO. E mesmo médias e grandes como Imagem e Califórnia preferem assim quando o produtor autoriza - o que é SEMPRE em se tratando de filmes europeus e nacionais não-blockbusters. Isso porque além de inútil em termos de segurança - pois todos os filmes podem ser encontrados ao alcance de um download ilegal - a logística de fornecimento de chaves para os cinema é custosa, um funcionário, que seja, destacado para fazer isso é um custo desnecessário para uma distribuidora pequena. Além disso, em muitos casos esse custo inviabiliza a marcação, pois é grande o número de filmes que estreiam com apenas uma sessão diária e têm público reduzido. Muitos cinemas exibem filmes assim por opção cultural e não financeira e estão dispostos a oferecer essa opção de programação ao público. Só no Rio de janeiro há algumas salas assim: Estação Botafogo 2, Cine Santa, Jóia, Ponto Cine, entre outros. Por que tornar mais difícil a programação dessas salas e desses filmes? Quem ganha com isso?

2) DATA DE MAIOR OCUPAÇÃO
Talvez o principal problema do modelo para o distribuidor. Um filme pagará VPF por três semanas em cartaz a partir da "data de maior ocupação", ou seja, após o lançamento. As semanas anteriores são consideradas pré-estreias e pagam VPF. O problema que isso só funciona para lançamentos nacionais. Imaginemos o seguinte cenário: o filme "X" estreia com 1 sala no Rio de janeiro. A distribuidora paga, portanto o VPF a essa sala. Após três semanas, uma pequena sala pede o filme e, como não terá que pagar mais VPF, a distribuidora aceita a marcação. Acontece que na sexta semana, por exemplo, o filme estreia em SP com duas salas. Esta data, a oitava semana, passará a ser a "data de maior ocupação" e a distribuidora terá que pagar VPF para aquela sala pequena no Rio que exibiu o filme na quarta semana. Ou seja, se não fizer um lancamento nacional, a distribuidora pagará VPF toda vez que estrear em alguma praça - a não ser que SEMPRE mantenha o mesmo número de salas desde o lançamento, nunca amplie o circuito. Ou seja, o modelo limita o alcance do filme que não se alinha com o modelo;

3) VALOR DE VPF MAIS ALTO QUE O DAS MAJORS
O modelo adotado pelo Brasil para digitalizar suas salas é baseado no sistema americano, criado entre distribuidores e exibidores americanos. O que está sendo dito é que as distribuidoras QUE NÃO ASSINAREM o contrato de VPF com um integrador pagarão um valor mais alto de VPF. Ou seja, uma empresa brasileira que optar em não assinar um contrato criado para empresas americanas pagará mais caro para exibir um filme, muitas vezes brasileiro, quando na realidade é ela que está financiando o mesmo modelo através do CONDECINE, uma vez que 65% dos filmes lançados no Brasil são de empresas assim. Não faz o menor sentido;

4) VALOR POR SESSÃO MAIS ALTO QUE O VPF PARA UMA SEMANA
Não é preciso dizer muito. Se uma distribuidora opta em programar dois filmes por dia numa mesma sala, pagará mais caro que o "X-MEN" , por exemplo. Isto porque o preço unitário por sessão multiplicado por 4 (número de sessões) é maior do que o de um filme com 4 sessões. Por que?

5) ALTA ROTATIVIDADE DE FILMES
Como o cinema só recebe VPF nas três primeiras semanas de exibição, é fácil concluir que ele procurará um novo lançamento do que continuar com um filme em cartaz. Novamente, tudo bem para os blockbusters e os cinemas comerciais, pois essas produções invadem o mercado com vultosas somos em marketing, pois devem ser consumidas rapidamente para dar lugar a outro do gênero. Mas o que acontecerá com os filmes pequenos, muitas vezes lançados confiando numa boa crítica e no boca a boca apenas? Eles precisam de tempo de exposição para serem descobertos. Não é raro que filmes assim fiquem meses em cartaz, pois vão construindo sua carreira pouco a pouco. Com esse modelo isso acaba. Logo, a distribuidoras vão trazer menos filmes, o que fará com que as salas alternativas tenham menos opções. Num segundo e imediato momento essas salas vão ter que migrar para uma programação mais comercial mas elas não vão resistir a concorrência com as grandes salas. O resultado é o fechamento dessas salas e dessas distribuidoras no médio prazo.

O modelo VPF é um bom modelo para parte substancial do mercado, todo mundo ganha. Mas não pode ser levado para todas as distribuidoras e cinemas sob pena de acabar com a diversidade de filmes e com cinemas que não se adequarem ao modelo. O que o governo está fazendo, através da Ancine e do BNDES pode ser entendido por uma simples metáfora: imaginem um lugar onde exista uma seca radical, onde o pequeno e o médio agricultor estejam com dificuldade. O Governo vai ao socorro construindo reservatórios de água para todos. O problema é que ficam longe, só é possível retirar a água com carros pipa. O pequeno agricultor, criador, não tem recursos para o carro pipa e acaba usando parte da sua criação para transportar água, mas esta nunca em quantidade suficiente. Ele tem que diminuir suas poucas cabeças de gado, já bem magros. E aí fica mais difícil obter água. Ele acaba fechando, seco.

Escrevi esse texto com base nas inúmeras informações colidas pelo Bruno Sa, desbravador desse complexo mundo digital. Só não digo que ele assina comigo porque não o perguntei mas esse texto é dele também, certamente".


 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Terra Prometida/ Promised Land (Gus Van Saint)



Filme de Gus Van Saint

(Estados Unidos, 2012)



Existem riquezas subjacentes ao convívio humano que nenhuma força multimilionária é capaz de destruir, assim como aquelas que o planeta provê para a subsistência das espécies guardadas com muito zelo pela mãe natureza em suas profundezas que, apesar de todas as tentativas inócuas de suas explorações comerciais, continuam desafiando a engenhosidade destruidora do capital face à sua grandeza e inesgotável capacidade de resguardar-se nas entranhas do planeta.

Esta crença, base da esperança de pessoas que dependem da terra como instrumento e provedora de sua razão de existir, procriar, alimentar-se e produzir bens de consumo é o alicerce deste filme cuja receita de bolo é tão assumidamente bem levada a cabo, que não nos resta outra opção que saboreá-lo como uma iguaria prosaica, consumida com o prazer de um reencontro de certezas há muito enraizadas em nossas papilas gustativas que rendem homenagem à sua delícia e seu acabamento.

Tudo o que esperamos de um filme americano - os conflitos em vários níveis, coletivos e pessoais, a ação do elemento desagregador e sua redenção final, a pitada de romantismo simpático, delicado e cativante, as intepretações naturalistas sem afetações ou estrelismos, a pincelada social e política para situar o plot - tudo está sob medida, pesado, misturado com parcimônia e assado na temperatura exata de um bolo a ser degustado na sessão da tarde acompanhado por uma limonada de 25 centavos.

As imagens idílicas do interior da América, um sensação do tempo estancado ao longo das gerações que se sucedem no cultivo e exploração das fazendas agrícolas e a simplicidade das gentes em seus costumes fazem deste filme uma adorável experiência aquecedora de corações e mentes.

Direção segura, decupagem inventiva (até o ponto em que o roteiro muito bem amarrado suporta), fotografia sem artifícios como supõe o trato com a ambientação proposta, direção de arte “invisível” (a melhor), e elenco cativante são os pontos decisivos que fazem esta “Terra” oferecer mais do que promete.

4 from the 5 stars

There are underlying human coexistence riches no multi-million dollar strength is able to destroy, as well as those that the planet provides to the subsistence of the species kept with much zeal by mother nature into its depths that, despite all attempts to harm their commercial holdings, continue challenging the destroying engineering of capital in the face of his greatness and inexhaustible capacity to protect themselves in the bowels of the planet.

This belief, based on the hope of people who depend on the land as a tool and provider of their reason to exist, breed, feed and produce consumer goods is the foundation of this movie whose cake recipe is so unapologetically well carried out, that we have no choice but to relish it as a prosaic delicacy, consumed with the pleasure of a reunion of certainties long time rooted in our taste buds, rendering homage to their delight and its finish.

Everything that's expected of an american movie - conflicts on several levels (collective and personal), the action of the disintegrating element and his final redemption, the hint of nice romanticism, delicate and captivating, the naturalistic interpretations without stars affectation, the social and political stroke to situate the plot - everything is tailored, weighed, mixed with parsimony and roasted in the exact temperature of a cake to be tasted in the afternoon accompanied by a 25 cents lemonade.

The idyllic images of America country landscapes, a feeling of time controlled over the generations that succeed one another in the cultivation and exploitation of agricultural farms, and the simplicity of the people in their natural habitats make this film a lovely warming experience for hearts and minds.

The safe direction that plays with inventive matches (to the extent that the screenplay nicely tied bears), photography without artifices as if assuming a deal with the proposal, "invisible" art direction  (the best), and captivating cast, are decisive points that make this "Earth" offer more than promises.