quarta-feira, 4 de setembro de 2013

"Meu Bem"





"Spring Love", 2010



A princípio Beatriz Milhazes foi para mim uma cabeça privilegiada que traçava uma ponte entre o construtivismo e a arte barroca brasileira. Por mais que seus trabalhos daquela época evocassem à primeira vista esta asserção, ali já se escamoteava uma soma de alusões a procedimentos e disciplinas de muitas escolas da arte contemporânea que certamente uma visão mais acurada poderia vislumbrar, já naqueles anos 90, os desdobramentos que inevitavelmente seu trabalho viria a concretizar posteriormente.

Inevitável deixar-se emaranhar nessa espiral de cores e formas que provoca uma certa suspensão por parte de quem a observa, lançando-nos numa viagem daquele tipo que as gerações jovens dos anos 60 celebravam como escapismo.

Hoje a evasão do real intencionalmente calculada pelas pinturas, esculturas e gravuras desta artista nos coloca frente a uma passagem que se de um lado nos aviva as sensações óticas, por outro consegue provocar um tipo de euforia estupefaciente pelo acúmulo de tantos dados nesta catedral de mandalas, símbolos, rosáceas, listras e outros geometrismos, gerando uma espécie de overdose na mão contrária daquelas duas palavrinhas simples estampadas na fachada do prédio.

As pinturas têm uma fatura, digamos, informal; as gravuras, algumas mistas de xilo e serigrafia, dado o rigor conferido pelo meios mecânicos de sua execução perdem um pouco desta espontaneidade, mas guardam um mistério provocativo ao não deixar traços de onde começa uma técnica e termina a outra.

Para variar no Paço Imperial são proibidas fotografias das obras, com ou sem flash, um tipo de determinação obscurantista e careta contra uma prática que os artistas e a instituição só têm a ganhar com. 
 
Mas consegui fazer estes pouquíssimos registros à revelia. 
 
A pintura "Spring Love" mede somente 300 x 450 cm.                     Os móbiles calculei por volta de 900cm.
(Não existem indicações das dimensões das obras na exposição, um pecado da curadoria

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Parada de Sucessos

A M.P.B. reconfigurada, sacodida, conscientizada, cantada pelo povo na rua.
Rio de Janeiro, 22 de Agôsto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cenografia: Favela




















Como todo mundo sabe passei quase toda a minha vida profissional fazendo cenários na TV Globo. Um deles foi essa Favela, para um fiasco de novela chamado “Pátria Minha”, mas um sucesso de cenografia - a única coisa que deu certo na novela segundo Gilberto Braga, agradecendo-me diretamente. 
Na verdade a coisa começou a chamar atenção antes mesmo da estreia, uma vez que as novelas de Gilberto Braga eram sempre voltadas pra um high society ou algo equivalente em Terras Brasilis. 
O rebuliço foi tanto que meu chefe, Mario Monteiro, uma das jararacas das mais escrotas e felpudas do Projac, resolveu que eu estava demissionário para avançar sobre o trabalho que eu havia edificado. Felizmente sua artimanha não deu certo por que ele não tinha o cacife suficiente para desmandar conforme sua presunção e eu pude terminar a obra. 
Algumas fotos foram feitas após a avalanche, uma chuva torrencial que destruía a favela na história. 
Uma perfeita alegoria dos egos e tratores que pululam naquele ofidiário.

Postado no Facebook em 04 de Agôsto de 2013


Cenografia: Casa Açoriana










Emoção Atrás das Câmeras

Engana-se quem pensa que a adrenalina corre solta só naquilo que o telão ou a telinha mostra. Muitas vezes para se chegar a um resultado eficiente, a veracidade do que se está mostrando atravessou um longo processo de preparação até cristalizar-se nestas imagens.
Não há trâmite técnico algum que escamoteie o artificialismo, a pose, a ignorância ou o olho posto na caixa registradora: Este resultado é sempre constrangedor para o público e os macetes revelam-se inevitavelmente.
O ofício técnico da cenografia é um campo de prova nesta matéria. A mera ilustração da cena muitas vezes acaba por torná-la incompreensível, como nas novelas onde as famosas ‘casas de pobre’ são a mentira mais deslavada, mantenedoras de um padrão de qualidade artificial que as casas de 90% dos brasileiros não apresenta nem nas pesquisas fraudadas do IDH.
Por conseguinte esta prática se dissemina por outras mídias conquanto repetição de um vocabulário ajustado ao gosto médio das plateias gestadas na iconografia emburrecedora e balizada por baixo na ‘integração nacional’, o achatamento das características regionais diversificadas, que num país como o Brasil, conforma-se num autêntico desastre cultural.
No início da década de 1980 tive a sorte de trabalhar num projeto que ampliou minha visão estreita do ofício cenográfico. No seriado “O Tempo e o Vento” reconstruí, numa mistura de antropologia, história, arquitetura rústica e até mesmo um tanto arqueologicamente a ‘Casa Açoriana’, as primeiras residências que os colonos das ilhas trouxeram para o sul do Brasil.
Não fosse a intervenção do diretor e verdadeiro mestre Paulo José, este set se tornaria mais um amontoado de macetes cenográficos e eu não teria vislumbrado um horizonte mais amplo que alavancaria meu trabalho muitos passos à frente.
A construção desta casa mobilizou quase todas as categorias (direção, cenografia, produção de arte, figurino, caracterização e até elenco) da produção além dos diretamente ligados na construção, meu batalhão. Foram semanas coletando barro na beira da lagoa em formas de madeira, os ‘torrões’ que, empilhados, amalgamavam-se na base do porrete, tal como nossos antepassados faziam, lembro-me bem, sob a batuta do velho Camacuã.
Que terá sido feito dessas pessoas que atravessaram minha vida profissional e depois se perderam na poeira das coxilhas?
Depois da casa pronta, cumeeira forrada com couro de boi, telhado de folhas de palmeiras, forno de cupim, tudo funcionando como nos anos 1700, uma vida antiga ali se instalou. As paredes vicejaram gramas, flores, vivas, térmicas, isolando o ambiente dos rigores do clima exterior, um ambiente propício para o morar. E quando por força da história contada tudo se destruiu num incêndio, lágrimas desinibidas rolaram nas faces de muita gente ali.
Não raro toda essa odisseia é empreendida para ser posta abaixo. Quantos milhões de dólares da época, quantos detalhes desenhados, sets construídos, quantos profissionais envolvidos pintando, adereçando, envelhecendo, foram dispendidos para que depois de algumas cenas a Atlanta de “E O Vento Levou” ardesse num incêndio? Mesmo a Favela de “Pátria Minha” que já postei aqui, destruída numa enxurrada de efeitos especiais após tantos trâmites, politicagens e derrubadas?
Paulo José também me ensinou a abraçar árvores e desde então sempre que me enamoro por uma, corro a abraçá-las para externar meu amor e um pouco em sua homenagem também.
A arquitetura de cena é uma arte efêmera que ilude mesmo os seus criadores. Aquela casa, aquele palácio, aquele barraco, aquela cidade, são fenômenos palpáveis levados a cabo num tempo inacreditável - numa aceleração do tempo, digamos - transformando numa quimera a nossa relação com o produto acabado.
In Memorian: Jacque Monteiro, maquiador.


Publicado no Facebook em 08 de Agôsto de 2013