terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Deu na Folha de São Paulo

joão pereira coutinho

Cartas da Europa

04/12/2012 - 03h01

O amor que não ousa ladrar seu nome

DE SÃO PAULO
Confesso: nunca tive paixões por animais. Falo de paixões românticas, arrebatadoras, sejam platônicas ou mesmo carnais. Nunca perdi a cabeça por um porco, nunca me apaixonei por um cavalo, nunca pensei em constituir família com uma vaca ou uma galinha.
Às vezes penso que a culpa é da minha educação: uma educação repressiva, católica, claramente "especista", para quem os seres humanos eram seres humanos, os animais eram animais. E a arca de Noé não era a casa da mãe Joana. Terei perdido alguma coisa?
Provavelmente. Michael Kiok, líder de um dos principais grupos zoófilos da Alemanha, tem alguns pensamentos sobre o assunto. Aos quatro ou cinco anos, conta Kiok à revista "Der Spiegel", ele olhava para os animais domésticos com uma ternura especial. Nada de alarmante: quem, em juízo perfeito, não gosta de afagar um cachorro ou sentir o doce ronronar de um gato?
Acontece que os sentimentos de Kiok pela bicharada começaram a ganhar outros contornos na adolescência. Contornos eróticos que levaram a atos eróticos.
Para Kiok, que se escusa a esclarecer se hoje mantém relacionamentos monogâmicos ou promíscuos com bípedes ou quadrúpedes, os animais não são animais, muito menos "irracionais". São parceiros de pleno direito, que sabem como expressar a sua afetividade. Mais: segundo palavras do próprio, "os animais são mais fáceis de compreender do que as mulheres".
Sobre este último ponto, e com o devido respeito a Kiok, tenho dúvidas. É um fato que até Freud, no leito da morte, terá confessado uma certa frustração por partir deste mundo sem nunca ter entendido a cabeça feminina.
Mas o mundo evoluiu muito depois de Freud. E existe literatura abundante sobre os sinais românticos que as mulheres gostam de emitir para conquistar um homem. A forma como falam. Como sorriem. Como mexem no cabelo. Como tocam casualmente no braço do potencial parceiro.
Como será o olhar apaixonado de um bode? A disponibilidade sexual de uma cabra? O momento sacramental em que um hamster se rende às evidências, desiste de pedalar a sua roda e está pronto para ser beijado?
Temo bem que todas essas perguntas ficarão agora sem resposta. Isso porque a Alemanha tenciona ilegalizar o bestialismo com multas que podem atingir os 25 mil euros (mais de R$ 65 mil).
A Alemanha está cansada de pertencer ao mesmo clube que a Dinamarca, a Suécia e, claro, a Bélgica, onde o bestialismo é legal (no duplo sentido da palavra). Agora, através da câmara baixa do Parlamento, Berlim quer punir "comportamentos impróprios" com a espécie animal.
Não sei que dizer. Por um lado, entendo a necessidade de proteger os animais indefesos do país, que continuam à mercê dos cerca de 100 mil predadores sexuais que se aproveitam da fraqueza emocional de um pato ou de um esquilo para fazerem o que não têm coragem de fazer com um ouriço.
Mas que fazer nos casos de paixão correspondida? Devemos nós, humanos arrogantes, legislar afetos que não entendemos?
Por outro lado, prevejo dificuldades na aplicação da lei. A primeira, evidente, é saber como detectar casos de assédio e, sobretudo, agressões consumadas.
Partindo do pressuposto de que o testemunho de um animal não tem grande peso na justiça, como detectar o olhar amedrontado de uma ovelha, obrigada a fugir continuamente das investidas do seu pastor? E como agir a tempo e horas quando, em prados ou chiqueiros, canis ou capoeiras, se estiver na iminência de um crime?
Sem falar do óbvio: se o Parlamento alemão deseja punir as "relações impróprias", o que será uma relação apropriada? Onde traçar a linha? Será possível beijar um cachorro? Em caso afirmativo, com língua ou sem língua? E, já agora, língua dele ou língua nossa?
Dúvidas, dúvidas, dúvidas. E, suspeito, o início de uma vida clandestina para amantes como Michael Kiok, condenados a viver as suas histórias nos calabouços da clandestinidade.
Só espero que Michael, e milhares como ele, não desistam dos seus sonhos e sigam em frente. A grande literatura romântica sempre se fez de amores proibidos. Tenho a certeza que a perseguição de hoje será um novo capítulo na história literária de amanhã.
jpcoutinho@folha.com.br

domingo, 4 de novembro de 2012

Hollywood Assassinou Os Filmes?



Deu na Revista The New Republic em 14 de Setembro de 2012

(http://www.tnr.com/article/books-and-arts/magazine/107212/has-hollywood-murdered-the-movies)

Como a riqueza tecnológica conduziu à pobreza da imaginação.
Por David Denby
I.
Mais ou menos seiscentos filmes estreiam nos Estados Unidos a cada ano, incluindo filmes de vários países, documentários, primeiras experiências badaladas em festivais, experimentos, bizarrices e filmes de orçamento zero realizados no apartamento de alguém. Mesmo nas concorridas temporadas de verão, pequenos filmes nunca param de estrear – há sempre algo para ver, algo para resenhar. Recentemente fiquei excitado com dois filmes independentes – o visionário miniépico da Baia da Luisiânia, “Indomável Sonhadora” (Beasts Of The Southern Wild, 2012), e a concisa fábula de alerta moral sobre a autoridade e a obediência chamada “Compliance”, 2012. Mas, a despeito destes prazeres, filmes – os da linha de frente americana – estão com sérios problemas. E isto não é um problema que afeta mais os críticos do que a ninguém: muitos espectadores sentem o mesmo embaraço e desapontamento. 
Quando eu cito frequentadores de cinema, eu me refiro a quem sai de casa para ir ao cinema com a maior frequência que puderem; ou pessoas com crianças que raramente ainda vão aos cinemas apesar dos milhares de DVDs recentes e filmes que podem ser alugados sob demanda. Não estou me referindo aos cinéfilos, os solitários e obsessivos, que desistiram de ir aos cinemas, o nosso “Teatro Nacional” (como Pauline Kael o denominou), para se plantar em casa na frente de telas planas ou de um computador nos quais podem assistir a velhos filmes ou pequenas novidades dos quatro cantos do mundo, blogando e trocando discos com seus amigos. Eles são extraordinários, alguns deles, e seus blogs e sites geram uma massa renovadora de informações e opiniões, um espessamento da densidade das pesquisas e das observações, tweets dóceis e ultrajantes. No entanto é improvável que possam ajudar muito na formação de plateias para os filmes que amam. E diretores ainda precisam de um público considerável para realizar seus próximos filmes apoiados sobre algo mais do que um pequeno boca a boca.
Lembro-me do grande público nacional dos filmes, ou o que sobrou dele. Nos anos 30, aproximadamente oitenta milhões de pessoas iam aos cinemas a cada semana, chegando ao comparecimento semanal de noventa milhões em 1930 e novamente em meio aos anos 1940. Atualmente trinta milhões comparecem, numa população duas vezes e meia maior do que a dos anos 30. Gradualmente, como todo mundo sabe, a televisão, a internet e os jogos eletrônicos destronaram o cinema como uma diversão regular. Nos anos 80, a economia do negócio cinematográfico voltou-se em grande parte para grandes eventos, numa incessante produção de espetáculos e animações sob medida para o afastamento das plateias jovens da frente de seus televisores nos fins de semana. Por anos o gosto da jovem plateia exerceu uma influência sobre a manutenção de suas predileções abrindo um caminho longe da proporção de sua densidade populacional. Nós agora temos uma cultura cinematográfica tão bizarramente fora de forma que se pergunta qual o tipo de futuro que o cinema terá.

Nostalgia é a história filtrada pelos sentimentos. O que é necessário à sobrevivência não é nostalgia, mas a desobediência. Eu enlouqueço com a maneira que agora a estrutura do negócio de cinema está achatando a arte dos filmes. E não compreendo por que as pessoas não piram pelo mesmo assunto. Talvez suas maiores esperanças tenham sido derrotadas; talvez, se elas são jornalistas, não queiram perder seus empregos; talvez estejam muito temerosos de encarnar as feridas reveladoras do que é óbvio, e o fazem meramente recalcando um suspiro, acomodando-se à estranha coisa que o cinema americano se tornou. Um mercado bem sucedido que tem um enorme poder de intimidação para impor a aprovação.
Este ano, “Os Vingadores” (The Avengers”, 2012) que juntou num único filme toda a família dos personagens da Marvel Comics - dos mais antigos Capitão America, Thor, Homem de Aço, e assim  por diante – em poucos meses amealhou uma bilheteria bruta por volta de 1,5 bilhões de dólares.  Este feito extraordinário representa um triunfo do artesanato e do cinismo do marketing: O filme que custou 220 milhões de dólares para ser feito, é razoavelmente divertido durante algum tempo (edificou-se uma auto-ironia nele), mas depois degenerou num achaque digital, numa infindável batalha de pixels exacerbados, a maioria das lutas executadas nos asfixiantes espaços de uma cidade digital. Somente alguns poucos críticos viram algo de bizarro ou fútil a respeito de tanta tecnologia a serviço de tão pouco. Os filmes comerciais americanos agora estão dominados pela instantaneidade monumental, pela insensata repetição de filmes lavados pelo rugido poderoso da publicidade e encardidos num desperdício de semiindiferença poucas semanas depois. “O Besouro Verde” (The Green Hornet,2011)?, “Lanterna Verde” (Green Lantern, 2011)? Eu realmente os vi? “Os Vingadores” será ofuscado rapidamente por um filme ainda maior e do mesmo tipo.

A franquia “Vingadores” foi um fenômeno cuidadosamente construído. Voltemos uns dois anos e coletemos uma pequena amostra do que nos levou a ele. Consideremos um dos seus predecessores, “O Homem de Ferro 2” (The Iron Man 2, 2010) começou sua carreira nos Estados Unidos em 7 de Maio de 2010, em 4.380 cinemas. Isto é só o número de cinemas: Multiplexes geralmente exibem novos filmes em duas ou três, ou mesmo cinco ou seis salas do complexo, o que perfaz um número muito maior – por volta de 6.000 telas. A receita bruta do primeiro fim de semana de estreia foi de 128 milhões de dólares. E estas não foram as primeiras receitas do filme. De forma a desencorajar o pirateamento e a venda barata nas ruas de outros países, o distribuidor, Paramount Pictures, estreou “O Homem de Ferro 2” uma semana antes em muitos países do mundo. Em 9 de Maio, o fim de semana em que o filme estreou na America, seu rendimento bruto acumulado no mundo inteiro era 324 milhões de dólares. Ao fim de sua carreira, o cumulativo total foi maior do que 622 milhões. Vamos encarar isto: grandes cifras impressionam, não importando o que as produziu.

O rendimento bruto de “Iron Man 2” nos cinemas pelo mundo serviu como o inicio de uma operação para as vendas posteriores do filme como transmissão, TV a cabo e licenciamento em lojas de varejo para aluguel e compra de DVD. “Iron Man 2” era em si parte de uma bem desenvolvida franquia (o primeiro “Iron Man” surgiu em 2008). O herói, Tony Stark, um playboy industrial bilionário, apareceu primeiramente em um gibi da Marvel em 1963 e ainda está em novos gibis daquela marca. Em 2010, bisbilhotando lojas e shoppings em todo mundo, encontrava-se também os videogames Iron Man, os álbuns da trilha sonora, brinquedos, bonecas, kits de cenários para montagem, louças, travesseiros, pijamas, capacetes, camisetas e calças sociais. Havia um hambúrguer encontrado nas lanchonetes Burger King batizado de Mickey Rourke, o ator protagonista. Empresas como Audi, LG Mobile, 7-Eleven, Dr. Pepper, Oracle, Royal Purple Motor Oil e o antivírus Norton da Symantec sinalizavam como “parceiros promocionais”, em seus produtos com o logotipo de “Iron Man” impressos em algum lugar deles ou em suas publicidades. Como efeito, todo o comercio americano estava vendendo a franquia. Todo o comercio americano vende cada franquia.

Os filmes do Homem de Ferro têm um apelo mais suave do que muitos dos equivalentes arrasa-quarteirões – por exemplo, os tonitruantes filmes “Transformers”, que são baseados em brinquedos de plástico, nos quais um redemoinho de massas digitais navegam umas dentro das outras ou desobstroem seus caminhos através de edifícios, cidades e pessoas, e nos quais os frequentadores dos cinemas sentados na sala, sentem-se como se suas cabeças estivessem sendo socadas repetidamente contra uma parede. Os filmes do “Homem de Ferro” foram forjados sobre o temperamento de sua estrela autodestrutiva, Robert Downey Jr., um ator que manobra para transmitir, em meio a uma superprodução de 200 milhões de dólares, sua própria ideia de diversão. Distanciando-se ligeiramente do contexto, este charmoso pervertido oferece às plateias em idade de crescimento um sentido de cumplicidade que o salva da baixa autoestima. Como tantos grandes filmes digitais, “Iron Man” se engaja num ousado jogo de toma-lá-dá-cá com sua própria inconsequência: A desproporção do tamanho da produção entre seus portentosos cenários, suas batalhas digitais e a pequenez de qualquer significado que se possa extrair dele pode fazer parte do prazer frívolo que a plateia tem em assisti-lo.

Muitos megafilmes (não só os baseados nos quadrinhos da Marvel) agora estão atolados no que só pode ser denominado ironia corporativa, uma louca discrepância entre tamanho e significado – por exemplo o largamente aclamado “A Origem” (Inception, 2010) de Cristopher Nolan que construiu uma extraordinária estrutura a serviço de quase nada ao contrário de seus próprios trabalhos. A despeito de seus níveis de sonhos, o filme não tem nada a ver com sonhos – a ação que se vê na tela não se parece nada com sonhos. Um industrial contrata experts para invadir a mente sonhadora de outro industrial com o propósito de plantar emoções que farão aquela mente mudar planos corporativos. Ou algo assim; o argumento é um pouco vago. De qualquer forma, e nós com isso? O que está em jogo?

Suponho que você diria que o filme é sobre diferentes níveis de representação, e então refinaria sua observação alegando que as diferenças entre ficção e realidade, entre objetividade e subjetividade não existem – que o que Nolan criou é algo análogo a nossa vida numa sociedade pósmoderna, em que a imagem e o real, o simulacro e o original, para muita gente assumiram o mesmo peso. (O teórico da mídia e da literatura Fredric Jameson fez um estudo similar sobre o filme). Você pode alegar tudo isso, mas ainda não estabeleceu por que tal exercício acadêmico espetacular procede enquanto análise de um trabalho de arte narrativa ou no quanto ela é emocionalmente válida.

O filme de Nolan foi uma nulidade lunática e superarticulada – um portentoso relógio de fantasia que mostra todas as rodas e engrenagens, mas falha em marcar a hora. “A Origem” é nada mais do que o produto lógico de um padrão recente no qual grandes filmes estão sendo progressivamente esvaziados de sentido. Apesar de que agora dois terços da bilheteria destes filmes vêm do exterior, os estúdios parecem ter concluído que se um filme for atualmente sobre algo, ele deve ofender boa parte do publico mundo afora. Disseminados em Bankok e Bagalore tanto quanto em Bangor, nossos grandes filmes estão desprovidos de caráter, humor, psicologia e cor local.

Eu não odeio todos os trabalhos digitais em grande escala. “Deus trabalha tão devagar” disse Ian McKellen em “X-Men: O Filme” (X-Men, 2000), interpretando Magneto, que pode produzir mutações no ambiente assim como os diretores de filmes digitais, que interpretam Deus à vontade. Fazer um filme digital é a arte da transformação, e nas mãos de poucas pessoas imaginativas produziram grandes sequências de terror adoráveis e convulsivos – os literalmente seres mercuriais reconstituídos em  “O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final” (Terminator 2, 1991), as batalhas flutuantes altamente estilizadas de “Matrix” (The Matrix, 1999). E amei a luxuriante beleza colorida de “Avatar” (Idem, 2009), mas Avatar é hors concours na escala da qualidade visual, assim como “Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban” (Harry Potter And The Prisioner Of Azkaban, 2004), o melhor da franquia.

Longe destes filmes e de alguns outros, entretanto, muitos de nós temos dispendido horas mortas assistindo superheróis jogando pessoas contra as paredes, carros batendo-se dentro de túneis, brinquedos gigantescos e dragões horripilantes destruindo Chicago e simpáticos adolescentes saltitando à volta de castelos. O que vemos em maus filmes digitais de ação tem as propriedades antinewtônicas de um desenho animado, mas realizados com seres humanos. Apressados, atolados, quebrados e sobrecarregados, atualmente as ações produzem uma sensação temporária em detrimento da emoção e do aprofundamento. Posteriormente estas sequências dissolvem-se em borrões, diferentes desfocagens misturando-se umas com as outras – uma vaga memória de ter sido brevemente excitado em vez da satisfação duradoura de cenas que se repetem numa cabeça.

A falta de gravidade em superdimensão deixa a pessoa anestesiada, derrotada. Certamente a raiva parece uma resposta excessiva para filmes tão enormemente triviais ainda que o padrão normal seja furioso. A fantasia está se alastrando por todos os tipos de filmes românticos e de aventuras; as viagens no tempo se tornaram lugar comum. Neste ponto o fantástico está perseguindo o temperamento humano e o destino – aquilo que chamamos drama – dos filmes. O trivialmente humano foi transcendido. E se a ilusão da realidade física é instável, o enquadramento emocional dos filmes mudou, também, e para pior. Em pouco tempo – muito pouco tempo – o fantástico, e não a ilusão da realidade, deve tornar-se o aspecto básico do cinema.

Sim, é claro, os estúdios com maior ou menor grau de entusiasmo, fazem outras coisas paralelas aos thrillers espetaculares e filmes de horror - peruas rebolativas e romances adolescentes; comedias com Adam Sandler, Will Ferrell, Jennifer Aniston, Katherine Heigl e Cameron Diaz; fraternas ressacas burlescas e seus equivalentes femininos; animações para as famílias. Todos estes filmes têm assegurada uma audiência (ou uma audiência assegurada em seu limite), e poucos deles, especialmente as animações da Pixar, são muito bons. Os estúdios também distribuirão um filme interessante se seus parceiros financeiros bancarem a sua maior parte. E no final do ano, sob a influência do Oscar, eles distribuem filmes sem aventuras, mas espertamente escritos e interpretados, assim como “O Lutador” (The Fighter, 2010), que são inteiramente produzidos por outras pessoas. Cada vez mais estes filmes “sérios” conquistam honrarias, mas na maior parte, os estúdios - exceto enquanto distribuidores - se negam a envolver-se com eles. Por que não? Por que eles são “dependentes da execução”, - isto é, com o propósito de ser bem sucedidos, precisam ser bons. Chegamos a este ponto: um estúdio cinematográfico não pode se arriscar a fazer bons filmes. O modelo do seu negócio depende do público assegurado e do arrasa-quarteirão. Foi sempre feito assim e continuará desse jeito por muitos anos. Nada deterá o sucesso de “Os Vingadores” ao ter sido preterido pelo cinema enquanto forma de arte. A enorme receita de filmes como este raramente será canalizada para projetos mais aventureiros; elas são empregadas na nova sequência ou em nova franquia. Fingir o contrário é pura negação.

II

Em 30 de Abril de 2010, uma semana depois que “Homem de Ferro 2” fez seu debut americano, um filme independente chamado “Sentimento de Culpa” (Please Give, 2010), escrito e dirigido por Nicole Holofcener e estrelando Catherine Keener, Rebeca Hall e Oliver Platt, estreou em cinco cinemas nos Estados Unidos. A receita bruta nos cinemas para o primeiro fim de semana foi 118.000 dólares. O filme de Holofcener é modesto e formalmente conservador, mas também uma comédia cortante e focada em um grupo de vizinhos de Manhattan – um “filme de relacionamento” (no jargão hollywoodiano) conformado segundo este tema e a ambiguidade moral da benevolência e a vexatória e inescapável necessidade da lealdade familiar. Como uma boa contadora de histórias curtas, Holofcener tem um toque preciso e suave; momentos do filme se alongam nas afeições das pessoas que o assistiram. Não estou dizendo que “Sentimento de Culpa” é algo grande – mas demonstra a dureza dos desafios para fazer a mínima impressão no mercado. Este filme custou 3 milhões de dólares, e sua exibição ao redor do mundo redeu brutos 4,300 milhões. Uma vez que os mercados auxiliares são somados, o filme, numa escala menor, será também um sucesso financeiro. Mas no máximo 500 mil pessoas o viram nos cinemas. Por volta de 83 milhões viram “O Homem de Ferro 2” nos cinemas. Talvez 175 milhões tenham visto “Transformers 3”. No mínimo 250 milhões de pessoas viram “Os Vingadores”.

A maioria dos grandes diretores pós-Griffith, Chaplin, Murnau, Renoir, Lang, Ford, Hawks, Hitchcock, Welles, Rossellini, De Sica, Mizoguchi, Kurosawa, Bergman, os jovens Coppola, Scorsese e Altman e muitos outros – não imaginavam que eles faziam filmes para público reduzido, nem que estivessem fazendo “filmes de arte”, mesmo que trabalhassem com um alto grau de consciência artística. (O truculento John Ford teria faiscando seu olho destapado em sua direção se você usasse o termo “arte” em sua presença). Pensavam estar fazendo filmes para todos, ou no mínimo para alguém com espírito, o que é um bocado de gente. Mas pelos últimos vinte anos, se você olha para trás e analisa a cena cinematográfica americana, verá a poderosa cultura de massa, cada vez mais triunfante através do resistente trabalho digital, temperada pela autoironia e tomando cada canto disponível do espaço público; e os frágeis e moralmente inquisitivos “filmes de relacionamento”, cavando seus modestos caminhos por um publico limitado. O cinema debochado e o cinema sério. O cinema de shopping e o das salas de filmes de arte.

Posso escutar as réplicas. Se estes filmes baratos como “Sentimento de Culpa” ou “Inverno Da Alma” (Winter’s Bone), lançado em 2010, ou “Adorável Sonhadora” (Beasts Of The Southern Wild”, 2012) continuam sendo realizados, e têm uma audiência apreciativa, apesar de pequena; se diretores como Martin Scorcese e Steven Sorderbergh e David O. Russel e Katrhyn Bigelow e Noah Baumbach e David Fincher e Wes Anderson estão fazendo coisas interessantes dentro do sistema; se Terrence Malick pode fazer uma obra prima como “A Árvore da Vida“ (The Tree Of Life, 2011); se as margens da indústria estão saudavelmente vivas, mesmo que o centro seja principalmente um algoritmo para ganhar dinheiro – se tudo isso é assim, então por que incensar as franquias do “Homem de Ferro” e dos “Transformers”?

A razão é esta: Nem tudo que um filme artístico quer dizer pode ser dito com 3 milhões de dólares. Artistas que querem trabalhar com, digamos, 30 milhões (mesmo assim uma quantia moderada de dinheiro para os padrões de Hollywood) frequentemente têm impossibilidade de tempo para fazer seus filmes. Ilustrando estas palavras, Paul Thomas Anderson (“Sangue Negro” – There Will Be Blood, 2007), um dos homens mais talentosos de Hollywood, terminou seu filme sobre a Cientologia, “The Master”, 2012, mas levou anos suplicando para obter o dinheiro necessário para realizá-lo (uma herdeira veio em seu socorro). Depois de fazer “Capote” (Capote, 2005) Bennett Miller ficou ocioso por seis anos até fazer “O Homem Que Mudou O Jogo” (Moneyball, 2011). Alexander Payne teve que esperar sete anos (depois de “Sideways: Entre Umas e Outras” – Sideways, 2004) antes de fazer “Os Descendentes” (The Descendants, 2011). Alfonso Cuarón não realizou um filme desde o brilhante “Filhos da Esperança” (“Children Of Men”) em 2006. Guillermo del Toro o talentoso homem que fez “O Labirinto do Fauno” (The Pan’s Labyrinth, 2006) também enfrenta problemas para obter dinheiro para seus projetos. Pelos padrões dos estúdios, não há uma grande audiência para seus filmes: eles podem trabalhar se quiserem, mas só com orçamentos muito pequenos. Você pode não lamentar um projeto irrealizado, mas pode sentir sua falta durante um longo tempo de temporadas fúteis.

Por que não há uma big audiência para a arte? Considere que em anos recentes as majors literalmente tomaram o sistema. Garotos americanos no mínimo jogam videogames, leem quadrinhos e graphic novels. Para aprisionar esta tendência a Disney comprou a Marvel Comics por 4 bilhões de dólares, o que lhe dá o direito de transpor os personagens superheróicos das histórias em quadrinhos da Marvel para o cinema. A Paramount fez o seu próprio acordo com a Marvel para o personagem do Capitão America e outros. A Time Warner agora é dona da DC Comics, e a Warner Bros. produzirá um infindável fluxo de filmes baseados nos personagens da DC Comics (Superman, Batman, e Besouro Verde são apenas o início). Através dos anos todos os estúdios tentaram adaptar videogames para o cinema, muitas vezes com resultados desastrosos. Então a Warner Bros. deu o lógico passo adiante: Comprou uma companhia de videogames que está desenvolvendo os novos jogos que os estúdios mais tarde transformarão em filmes.

“Deem-me a criança antes que faça sete anos e qualquer um pode tê-los mais tarde”, Francisco Xavier, um dos primeiros jesuítas, parece que escreveu. Os estúdios pegam garotos quando estão com sete, oito ou nove anos, conquistam um canto de seus corações e os seguram com sequências de franquias e produtos conexos durante quinze anos. A série “Twilight”, filmes de vampiros adolescentes, que deliciosamente vende sexo sem os perigos do sexo não romântico e sem trepada – capturou garotas da mesma forma numa idade ligeiramente mais velha. A franquia “Jogos Vorazes” (The Hunger Games, 2012) estará conosco por muitos anos. Em breve os estúdios não estarão somente ditando os gostos do público jovem; estarão também continuamente criando o público para o qual querem vender (empenharam suas fortunas nas taxas de natalidade). Com efeito surge uma questão inevitável: Estas novas plateias constantemente elaboradas, surgindo da infância com suas faculdades intactas, mas com suas expectativas definidas a priori – estes potenciais frequentadores de cinemas desenvolverão um gosto pela narrativa, pelo personagem, pelo suspense, pela interpretação, pela ironia, pelo charme, pelo drama? Não seria possível que estarão tão viciados na sensação de que qualquer coisa sem ação extrema ou fantasia possa parecer amorfa ou morta para eles?

Fora daquela dolorosa estação de final de outono (o holocausto, casamentos problemáticos, famílias iradas, autoaniquilação de artistas), o cinema americano durante o resto do ano abandona descaradamente as plateias adultas, deixando-os a vagar como trabalhadores encostados. Muitos retiram-se para a televisão onde escritores/produtores como David Chase, Aaron Sorkin, David Simon e David Milch agora desfrutam da mesma liberdade e status, na HBO, que a geração Coppola/Scorcese de diretores cinematográficos tinham quarenta anos atrás. A televisão a cabo certamente abriu um espaço para o realismo sombrio como “A Escuta” (The Wire, 2002/08) e o realismo satírico como “Inventando Verdades” (Mad Men, 2007) ou a depressiva série sobre o tédio urbano intitulada “Girls”, 2012 de Lena Dunham. Mas a televisão não pode ser a resposta para o que aflige o cinema. Fui capturado em anos recentes por coisa possíveis somente em filmes – “Sangue Negro” (There Will Be Blood, 2007) de Paul Thomas Anderson, “O Escafandro E A Borboleta” (The Diving Bell And The Buttrefly, 2007) de Julian Schnabel e “A Arvore da Vida” (The Tree Of Life, 2011) de Terrence Malick - que remobiliaram a esfarrapada linguagem dos filmes. Estes filmes como “Sideways: Entre Umas E Outras” (Sideways, 2004), “A Ostra E A Baleia” (The Squid And The Whale, 2005) e “Capote” (Idem, 2005) têm uma finesse, um subtexto cheio de nuances, que apareceriam desajeitadamente na televisão. Adoraria que houvesse mais deles.

A mudança intencional na produção em grande escala de filmes distanciados dos adultos é uma traição triste mas uma catástrofe menor. Entre outras coisas, assassinou grande parte da cultura dos filmes. Por cultura eu não me refiro a festivais, revistas de filmes, sites e blogs de cinéfilos na internet, tudo isto está em franco desenvolvimento. Eu falo daquele abençoado estado de saturação mental de frequentar cinemas, meio sonhando, meio crítico, talvez divertido, mas também admirado, que insufla a forma de viver a arte. Ir aos cinemas é tanto um privado quanto um sociável caso de estranhos-num-churrasco, uma festa-coquetel, a moeda comum das conversações do dia a dia. No outono deve ter um bom número de coisas boas para ver, e então, para as plateias adultas, o hábito deve florescer novamente. Se você viu um dos cinco filmes interessantes em cartaz, então precisa ver os outros quatro para que se junte à conversação do jantar. Se houver só um, como acontece durante o ano inteiro, você pode decliná-lo sem a sensação de que está perdendo muito.

Estas observações irritam muita gente, incluindo algumas daquelas pessoas mais antenadas que conheço, particularmente homens nos finais dos seus quarenta anos ou um pouco mais jovens que cresceram com a cultura pop dominada pelos conglomerados e não conhecem nada mais. Eles não discordam, exatamente, mas acham tudo isso cansativo e fora de foco. Aceitam os filmes como um tipo de meio ambiente, um fluxo constante. Como sabemos os filmes existem, filmes sempre e para sempre, e claro que muitos deles não são inspirados - mas sempre haverão. Críticos escrevendo cotações em um quadro negro pensam nos filmes americanos em grande escala elaborando um sistema no qual poucas pessoas talentosas, capazes de fazer algo de boa qualidade, lutam contra o desencorajamento ou a sedução; mas para esses meus próprios amigos mais antenados da mídia, esta visão é puro melodrama. Eles veem os filmes não como um campo de batalha estética ou moral, mas como um jogo midiático que pode ser jogado tanto estupida quanto astuciosamente. Para eles não há diferença entre fazer uma obra barulhenta, exagerada, uma simulação digital niilista de maus bofes por 200 milhões de dólares e um filme pessoal independente de 2 milhões. Não estão procurando por arte e não querem ser associados com a falência comercial; isto os irrita: sentem-se perdedores. Se eu digo que estes grandes orçamentos e lucros estão emporcalhando a estética cinematográfica, mudando as plateias, queimando outros filmes, olham para mim com um sorriso tênue e dizem coisas como: “Existe um mercado para este tipo de material. Pessoas estão comparecendo. Suas necessidades estão sendo satisfeitas. Se não gostam desses filmes, não deveriam ir”.

Mas quem sabe se as necessidades estão sendo satisfeitas? A audiência comparece por que os filmes estão lá, não por que alguém necessariamente os ama. As atitudes de meus amigos são tão completamente definidas pelos filmes do mercado atual que não precisam escutar que filmes, nos primeiros dos oitenta anos de sua existência, foram essencialmente feitos para adultos. Certo, haverá sempre filmes para a família e as crianças, mas, em sua maior parte, na idade de dez anos ou adolescentes as pessoas são carregados por seus pais para o que os pais querem ver, e isto foi verdade bem antes da televisão reduzir o tamanho do público adulto. As crianças assistiram e meio que entenderam uma sátira como “Dr. Fantástico” (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), um drama sério como “O Sol É Para Todos” (To Kill a Mockingbird, 1962), um filme-desastre tolo como “Aeroporto” (Airport, 1970), e aquele processo de meia-interpretação, metade não, deve ter feito parte de seus crescimentos; também estendeu um chão para suas próprias satisfações como espectadores de cinema anos depois. Não estavam programados para permanecer em um estado de euforia pateta até aos trinta e cinco anos. Meus amigos acham que a atual situação é normal. Acreditam que críticos sejam falastrões ingênuos, mas são eles os ingênuos.

III

A linguagem do orçamento exagerado e filmes dirigidos para o mercado – os elementos da filmagem, da edição, roteiro e caracterização – começaram a se desintegrar lá pelos anos 80, mas tudo isso se cristalizou para mim uma década atrás, no verão de 2001, quando o desmazelo do que eu estava assistindo aquele ano, mesmo no oscarizado “Gladiador” (Gladiator, 2000), me bateu mal. As cenas de ação em “Gladiador” eram em sua maior parte o desfoque de um turbilhão de movimentos filmados bem de perto – um membro cortado que voa, um jorro de sangue, um átimo das rodas de uma carruagem. Quem verdadeiramente poderia ver alguma coisa? No entanto quase ninguém pareceu objetar. O velho ideal da ação como algo encenado limpa e realisticamente no espaço aberto foi destruído pela pura falsidade e a “magia” digital - repetidos cortes do movimento em pequenos pedaços que são então montados na edição computadorizada explodindo pequenos itens. Aquilo que vimos em “Gladiador” e outros filmes não foram falhas artísticas individuais e crassas estratégias comerciais, mas uma nova e terrível ideia de como edificar um filme.

Setenta anos atrás a feição de um filme de determinado estúdio refletia as ambições e as fantasias dos homens que os comandavam, assim como o gênero de filmes que cultivavam e os escritores, diretores e artesãos que contratavam. Mas por volta de 1980, enquanto os estúdios se tornaram apenas uma parte – nem sempre a parte mais rentável – de enormes corporações, a direção das divisões de filmes foram os principais responsáveis pelo fluxo da receita que agradaria aos membros do conselho, acionistas e analistas de ações. Olhando à sua volta ele via divisões de seu conglomerado que davam maior receita do que a sua própria – videogames, por exemplo. Imitar essas formas de sucesso comercial não poderia diminuí-lo frente às pessoas a quem precisava agradar. Sob esta pressão, o estilo rapidamente desapareceu. Excetuando alguns trabalhos de animação, agora é impossível diferenciar os filmes de um estúdio do outro. Todos os estúdios são regidos pelo que eu chamaria de estética corporativa.

A frase cai desconfortavelmente no ouvido, então eu prefiro dizer que não me refiro ao empilhamento em carroças de cada grande filme corporativo recentemente produzido. Eu imagino que a “estética corporativa” tem um ressaibo submarxista reverberando nela assim como a fala de um professor assistente fomentando os preconceitos de uma conferência acadêmica. Ingenuidade é uma desculpa pobre para o falso moralismo, tanto para mim quanto para o professor, e então eu deveria imediatamente acrescentar que ambos sabemos que Hollywood quase se tornou um jogo envolvendo grandes somas de dinheiro e que dinheiro é o sangue da vida na larga escala da produção de filmes. (O livro “The Whole Equation de David Thomson, editado em 2004, apresenta uma fascinante contabilidade das relações entre arte e dinheiro nas diferentes épocas da história de Hollywood). O desejo de ser rentável não elabora, em si mesmo, um estilo ou outro. Atualmente o horror de tantos grandes filmes não pode ser dissipado da maneira em que os estúdios usaram para realizá-los; eles pensam que podem. Eles escolheram este estilo.

Naquele verão de 2001 a forma da estética corporativa podia ser vista no jargão narrativo do filme de aventuras ultraestufado de criaturas e vilões, “O Retorno Da Mumia” (The Mummy Returns, 2001); e poderia ser conferida no frenético pastiche musical de Baz Luhrman “Moulin Rouge” (Idem, 2001) com seus personagens descaradamente emprestados de outros filmes, suas canções recriadas de tantas outras canções – músicas que remetiam à história pop ao invés de arriscarem-se ao parto doloroso da beleza de uma nova melodia. A corporação estética se conforma na reciclagem e no clichê. Desdenha a originalidade e recua longe de alguma coisa muito individualizada, definida com clareza – mesmo uma forte personalidade. (Angelina Jolie não foi recrutada para ser uma personalidade nos filmes de Lara Croft – foi por pura atitude. Ewan MacGregor em “Stars Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma” (The Phantom Menace, 1999) nem mesmo tinha atitude). O único protagonista genuíno de um megafilme daquele período foi o Jeffrey Wigand de Russel Crowe em “O Informante” (The Insider, 1999) de Michael Mann, e aquele filme afundou comercialmente. Em Hollywood a lição foi aprendida: Sem protagonistas complexos a menos que seja uma figura histórica conhecida como Howard Hughes, John Nash (“Uma Mente Brilhante” – A Beautifull Mind, 2001), J. Edgar Hoover ou equivalentes. Enquanto os esquemas visuais ganham evolução elaborada, o material humano se torna desnutrido, pálido, apologético, ausente – ou tão estilizado que você só o aprecia ironicamente (Angelina Jolie como uma esbelta e glamurosa supermatadora).

Movimentos incessantes e incoerentes, estratégias de velocidade editada, caracterização deficiente, pastiche e colagens infelizes – estes são os elementos da estética corporativa. Há algo mais do que a péssima realização nesta coleção de fraudes escandalosas. Cada vez mais tenho a impressão de que os realizadores estão tentando distanciar propositalmente o público do material – para evitar que os frequentadores de cinemas sintam algo diferente da excitação, para frustrar qualquer tipo de significação do filme.

Considere uma simples cena de um dos mais proeminentes fiascos artísticos dos anos recentes, o “Pearl Harbor” (Idem, 2001) de Michael Bay. Esqueça a recusa de Ben Affleck em dormir com Kate Beckinsale na noite anterior à partida para a batalha; esqueça o resto da assustadora e nobre história de amor. Olhe as sequências de ação do filme, as cenas que muitos críticos inexplicavelmente elogiaram. Aqui tem um momento: Os japoneses chegaram, despejaram seus arsenais e foram embora. Então o almirante Kimmel (Colm Feore), comandante da frota do Pacífico, em barco aberto inspeciona no porto o que sobreviveu do desastre. Nós vimos Kimmel antes: Não como um personagem de ponta, mas como uma presença definida. Antes de 7 de Dezembro, ele foi avisado de que um ataque poderia estar a caminho, mas não havia informação suficiente para formar um quadro coerente. Ele não agiu e agora sente o desgosto mais profundo. Vestido em branco naval e rodeado de jovens oficiais também de branco, ele passa vagarosamente através de navios destroçados ainda queimando, navios cujas tripulações, em alguns casos, continuam presas em baixo da água.

A viagem do barco do almirante poderia render uma passagem de amarga eloquência poética cinematográfica. Imagine o que John Ford ou David Lean teriam feito com isso! Nós só vemos corpos enegrecidos pelo fogo, a pele dos homens destacando-se, queimadas. Intencionalmente ou não, a propalada brancura vestida pelos oficiais tornou-se um símbolo excruciante da complacência da Marinha antes do ataque. Toda a significação do filme de Bay poderia ter sido capturada naquele único plano se fosse construído numa sequência sustentável. E este plano, ainda para nossa estupefação, não dura mais do que poucos segundos. Depois de muitos cortes, Bay e seus editores retornam à cena, desta vez em um ângulo diferente, e aquele plano também não durou. Bay e sua equipe de editores abandonaram sua própria criação, tal como mais cedo neste filme negligenciaram um extraordinário plano de enfermeiras metralhadas enquanto corriam pela praça aberta em frente ao hospital de base.

Pessoas que sabem com se fazem estes filmes me contaram que os diretores não poderiam segurar estes planos por muito tempo por que o público descobriria tratar-se de uma falsidade digital. A questão (se verdadeira) deveria elucidar que algo está seriamente errado. Se você não pode sustentar um plano no momento crucial do seu filme, por que fazer espetáculos absolutamente violentos? Daí que dirigir filmes digitalmente falsos pode na verdade derrubar um espetáculo quando ele é supostamente ambientado no mundo real. A solução é cada vez mais criar mais e mais cidades digitalizadas, casas, castelos, planetas. Megafilmes perderam o contato com o toque da realidade física fotografada que oferece um encantamento muito maior do que a fantasia.

É claro que ninguém que nunca apreciou um filme idiota e hipercontrolado diria que um pequeno aceno com a falta de significado acabaria com o seu dia ou o arruinaria enquanto arte. Todos apreciam trabalhar com o aqui e agora e a velocidade em si não é uma inimiga. Como muitos frequentadores de cinemas, fiquei deslumbrado pelo produto de Paul Greengrass (e do cinematógrafo Oliver Wood) “A Supremacia Bourne” (The Bourne Supremacy, 2004) e “O Ultimato Bourne” (The Bourne Ultimatum, 2007). O método de Greengrass naqueles thrillers, em que Matt Damon é perseguido nas húmidas e hostis cidades de Berlin e Moscou, é filmar a ação em pequenos fragmentos reunidos em uma coerente impressão de movimento rápido. Até a destruidora e infindável perseguição de carros em “The Bourne Supremacy” foi tão bem feita que ninguém se sentiu enganado. Podemos aceitar que perseguições automobilísticas sejam ultraeditadas para pura excitação.
O problema é que muitas cenas ordinárias na maioria dos megafilmes são editadas como perseguições automobilísticas. Uma das tendências da estética corporativa é substituir tanto quanto possível a ação e o drama por meros movimentos. A estética corporativa requer dúzias de epifanias destrutivas (explosões, transformações, ressurreições) substituindo o arco de um puro e simples clímax visual; o trabalho de capturar o grande público na estreia de sexta-feira – o pivô do sistema comercial – destruiu a ação na tela sobrecarregando-a com o fardo da inteira responsabilidade do prazer do filme. Nos filmes do Batman de Cristopher Nolan, “Batman: O Cavalheiro Das Trevas” (The Dark Knight, 2008) e “Batman: O Cavalheiro Das Trevas Ressurge” (The Dark Knight Rises, 2012), a sensação foi levada ao ponto de um descarado e belo niilismo, no qual a atmosfera ”negra” fashion de expectativa e desastre suplanta qualquer interesse lógico na trama, ou sequência, ou personagem. Você sai do cinema vibrando, mas um dia depois não sente nada. O público ficou condicionado a descobrir a ausência do prazer da emoção.

IV

Para entender o que é tão estranho nos grandes filmes agora, precisa-se lembrar um pouco do que os filmes foram uma vez e o que o publico queria deles – como as histórias eram contadas em épocas diferentes, como os filmes eram construídos. Estamos agora capturados por uma ironia exasperante: Empregando todos os devastadores meios disponíveis, os filmes retornaram em alguns casos às suas mais cruas origens e estão determinados, talvez, a ficar lá para sempre, ou no mínimo até quando as bilheterias e o filão dos mercados auxiliares persistirem.

Há muito tempo atrás, em uma universidade longínqua, eu lecionei cinema, e fiz o que muitos professores sem dúvida fizeram antes e desde então: Tentei desenvolver a estética dos filmes para os estudantes como uma progressão histórica em função da narrativa. Afinal de contas, muitos dos primeiros filmes de 1890 não tinham histórias em sua totalidade, mas somente visões de acontecimentos – um trem chegando na estação, uma onda quebrando na direção da câmera. Esses espantos traziam o público boquiaberto ou escondendo-se em baixo das poltronas para se proteger (ou como assim reza a lenda preservada recentemente em “A Invenção De Hugo Cabret” - Hugo, 2011 - de Scorcese). Eu queria que meus alunos também ficassem espantados apreciando a evolução das técnicas de filmagem como um triunfo artístico e conscientização técnica. Trabalhei na ordem cronológica direta, partindo daquelas primeiras “visões” até as experiências de sequenciamento linear de Edwin S. Poter, 1903, em filmes como “Life Of An American Fireman” e “The Great Train Robbery” e depois, anos mais tarde, através da consolidação de uma sintaxe atualizada por D. W. Griffith – planos longos e médios, close-ups, flash-backs, edição paralela, e tudo mais.

Mas agora eu acho que havia algo meramente conveniente em lecionar daquela maneira. A implicação do meu plano de aula foi que o método constituído de sequências se tornou uma realização de si mesma, descobrindo naqueles verdes anos –de 1895 a 1915 – a sua própria natureza incorporada dentro de sua tecnologia: o frondoso carvalho da narrativa representado dentro da castanha do celuloide. É uma visão teológica e provavelmente falsa. Na verdade, não há nada inerente ao processo da exposição de tiras de filmes através da luz em dezesseis ou dezoito quadros por segundo (mais tarde vinte e quatro) que interfira na maneira de contar uma história.

No começo, após as visões de trens e oceanos, o cinema oferecia esquetes burlescos ou excertos de peças teatrais, mas ainda não histórias. Um filme concluído era, muitas vezes, apenas um plano único, fixo e duradouro. De acordo com o que David Bordwell, Janet Staiger e Kristin Thompson explicaram no livro “The Classical Hollywood Cinema: Film Style & Mode of Production to 1960”, a narrativa emergiu menos da natureza inerente do filme do que da influência das formas mais antigas – novelas e contos e peças. E também da pressão para criar trabalhos com maior apelo para atrair mais e mais clientes.

Se criar ficções não está codificado no DNA dos filmes, então o que está acontecendo agora tem um tipo de lógica terrível para eles. Enquanto a narrativa e as ferramentas dramáticas do cinema caem em suspensão, e muitos megafilmes se voltam para espetáculos reiterativos, com só uma passagem teórica na trama ou na caracterização, nós estamos retornando, com muito mais poder, para as alcaparras e as cotovias que originalmente cantavam inocentemente. O tipo de perseguição primitiva, por exemplo, que em 1905 dependia de algum fator acidental ou travessura em vez de baseados em personagens ou em uma trama, foi sucedida pelo interminável vôo no ar das lutas digitais. A cena em 1905 tinham uma relaxamento imprudente, charmoso; as cenas de ação destrutivas dos filmes atuais são colocadas com uma espécie de alegria triste, sem rosto, uma exultação da energia e da massa: Podemos fazê-lo, e por conseguinte o faremos, e nossa habilidade de fazê-lo é o seu significado, e mesmo se você não se impressiona, ainda vão te atropelar.

O neoprimitivismo é uma das grandes estratégias da arte moderna – Picasso e suas máscaras africanas; Bartók reciclando materiais folclóricos em sua música de vanguarda; Chuck Berry baseando-se em ritmos "caipiras" para suas próprias canções supercarregadas. O neoprimitivismo varreu a poeira da fleuma vienense ou eduardiana, o perfume e a palidez dos salões de arte em Paris e a suavidade de brilhantina do rock no início dos anos 60. No cinema uma grande quantidade de poeira também foi varrida (a tirania da beleza que arruinou tantas famílias de filmes nos anos 40; o acanhamento físico, verbal e sexual dos anos 50). Mas a incessante produção de produtos corporativos grosseiros dirigidos aos jovens removeu muito mais também - os mistérios da personalidade, os diálogos sofisticados, algum tipo de vida elegante e esperta, e, frequentemente, emoções femininas (lembrem Katherine Hepburn, Bette Davies, Joan Crawford) do centro de um filme. Os estúdios se devotaram à sistemática desculturalização dos filmes e à conversão de todos os tipos de astúcia dramática laboriosamente construída ao longo das décadas.

Provocados talvez pela ausência do som, os realizadores desenvolveram as possibilidades visuais do filme muito rapidamente, e ao final da primeira guerra mundial o vocabulário, a edição e as demais estratégias de produção de Hollywood já estavam assentados. O celuloide talvez não tenha carregado a escritura de uma história em seus gens, mas, como David Bordwell colocou, “contar uma história é o princípio básico formal que faz um estúdio cinematográfico recender como o escritório de um monastério, o lugar da transcrição e transmissão de incontáveis narrativas”. No escritório, uma regra não enunciada é repetida diariamente: o público tem necessidade de se envolver emocionalmente com a história para se divertir. A ideia é tão óbvia que parece absurdo repeti-la. Em anos recentes esse postulado e tudo que o acompanha, começou a enfraquecer e mesmo desaparecer.

É chocante ser lembrado de algumas coisas agora afastadas: Aquilo que de alguma forma é introduzido numa fábula tem que significar algo, e esta coisa única deveria inevitavelmente conduzir para uma outra; estes eventos são antecipados e em seguida ecoados, e aquela tensão emerge constantemente através de uma série de clímaces menores para o grande clímax final; aquela musica deve ser composta não só para sublinhar um tipo de humor, mas como o signo externo de uma lógica emocional ou narrativa; aquelas caracterizações deveriam ser consistentes; aquele destino do personagem supõe um significado moral ou espiritual – o mal castigado, a virtude recompensada ou pelo menos santificada. É um mundo ficcional com total prestação de contas.

Por décadas, as regras do escritório significaram “Hollywood” em ambos os sentidos, desdenhoso e honorífico - um sistema denegrido pela falta de humor e pela falta de prazer enquanto “cinema burguês”, mas também apreciado por milhares em todo o mundo e enaltecidos em majestosos termos por críticos, mais notadamente por André Bazin. Olhando para trás, para o final dos anos 1930, até mais ou menos uma dúzia de anos mais tarde, e julgando precisamente estas convenções, Bazin anunciou que “revendo atualmente filmes como “Jezebel” (Idem, 1938) de William Wyler, “No Tempo Das Diligências” (Stagecoach, 1939) de John Ford ou “Trágico Amanhecer” (Le Jour Se Lève, 1939) de Marcel Carné, tem-se a impressão de que neles uma arte descobriu seu perfeito equilíbrio, sua forma ideal de expressão, e reciprocamente os admiramos pelos temas dramáticos e morais pelos quais o cinema, apesar de não poder criá-los, dotou–os de uma grandeza e de uma validade artística que não poderiam ter adquirido por outro meio. Em resumo, aqui estão todas as características da maturação de uma arte clássica”.

A maturação de uma arte clássica. As palavras são emocionantes, mas nesta altura quase embaraçosas. O que, neste planeta, Bazin quis dizer? Não importa que “Le Jour Se Lève” seja impossível de compreender sem evocar tradições literárias e filosóficas francesas. E sobre os filmes americanos que Bazin mencionou? O que há nestes filmes? Que satisfação eles oferecem? E seria a nostalgia de uma alma enfraquecida o que faz com que alguém deseje um equivalente para eles agora?

Em “Jezebel”, de 1938, tudo gira em tono de um personagem central extraordinariamente perverso. Julie Marsden, interpretada por Bette Davies é uma beldade rica na New Orleans pré-guerra civil. Sua situação é paradoxal: Ela usufrui da maior liberdade possível dentro do confinamento de uma tradição social que condena as mulheres a nenhum horizonte além da coquetterie. Tensa e emocionalmente superreprimida – ela demanda aprovação categórica ou rejeição – Julie valoriza a predominância de si própria em detrimento do amor, mais do que à sociedade, mais do que a tudo. Em outras palavras, ela é admirável, egocêntrica e louca. Atormenta seu nobre e elegante pretendente vestindo um vestido vermelho em um baile da sociedade onde as mulheres solteiras tradicionalmente vestem branco, sabendo claramente que este ato deve comprometer seu noivo e destruir sua própria posição social.

À volta deste incidente central – que a princípio passa como trivial, e então fica mais e mais tormentoso – um retrato da sociedade sulista pré-guerra civil, tanto nobre quanto selvagemente inadequada, desdobra-se com poderosa surpresa. O carisma de Bette Davies domina o filme. Todos os outros personagens orbitam à sua volta ou afastam-se dela envergonhados; fazem alarde antes de suas entradas e enrustem-se à sua saída. William Wyler frequentemente diz que usou uma técnica “invisível”, que significa, neste caso, que a câmera desliza, gira, eleva-se, vai onde tem que ir, conduzindo o olhar de um plano para o outro em continuidade direta, iluminando uma história essencialmente psicológica e social. O estilo é dedicado ao momento decisivo: A face insolente, o instante da autodefinição, a rápida concentração do espanto e do escândalo projetando-se através de uma sala, enquanto a mulher jovem entra encarando ao seu redor em atitude de desobediência. Todos os detalhes físicos são firmemente dispostos em torno da figura central ultrajante, hipnotizante.

Em “Jezebel” uma sociedade rigidamente estruturada está entrando em decadência. Na outra escolha de Bazin, “Stagecoach” uma nova sociedade está tomando corpo – o oeste como caravana da democracia americana. O filme talvez seja o mais popular e mais conhecido faroeste de todos os tempos, e assistindo-o novamente ainda ficamos tocados com seu arejamento - como é muito engraçado e agudamente afiado, como surpreende decisiva e rapidamente. Um mundo inteiro volátil está indo para o oeste: Um tipo de grande dama da Virginia, um decaído cavalheiro sulista, um médico alcoólatra, um banqueiro hipocondríaco, uma prostituta de bom coração – todos estes tipos e mais uma inefável, relaxada e jovem beldade masculina, John Wayne. Todos vão para Lordsburg, mas também seguem em direção aos seus futuros. Em “Stagecoach” não temos uma questão de dominação individual, mas de um grupo em evolução. Através de toda a viagem, o roteirista Dudle Nichols, e o diretor, John Ford, deixam claro que cada uma dessas altamente forjadas personagens importam-se umas com as outras. Em partes, todos acabam compreendendo que o médico alcoólatra não é nada mais do que um exuberante irresponsável, que o jogador sulista assassino está sufocado pela própria mágoa e que há uma genuína ternura nele, e assim por diante. Aparte toda a diversão e excitação que gera, “Stagecoach” é um drama de percepção.

É também um drama de espaço. O que o público sente pelos personagens na tela é provavelmente afetado, mais do que a maioria de nós supõe, pelo modo com que o espaço à volta dos personagens é esculpido e recombinado. Em John Ford, o sentido geográfico é muito forte – a poética consciência do céu, da paisagem e do movimento dos cavalos, mas também a atenção para detalhes do modo como pessoas são dispostas em uma mesa grande como indicação de casta social (a prostituta numa extremidade, a lady na outra). O melhor uso do espaço não é só uma efetiva disposição da atividade no telão, é o significado emocional da atividade no telão.

Diretores costumam tomar grande cuidado com essas coisas: Integridade espacial foi uma outra parte do contrato não não articulado com o público, um código para a doutrina narrativa do escritório. Permitiu plateias compreender, falar, quanto perigo um homem está enfrentando quando aponta sua cabeça acima de uma pedra em um duelo, ou onde dois amantes secretos estão sentados em relação aos seus inimigos ciumentos durante um jantar. O espaço pode ser analisado e quebrado em close-ups e planos de reações ou equivalentes, mas então precisa ser reunificado de modo que defina a experiência inteira na cabeça de um espectador – de forma que, em “Jezebel” sentimos fisicamente o que Bette Davies sofreu quando casais escandalizados viraram as costas para ela no salão de baile. Se a plateia não experimentar esta emoção, o filme não terá lançado o seu feitiço.

Isto parece um prosaico senso comum. Quem possivelmente poderia contestá-lo? Mas a integridade espacial está para ser banida dos megafilmes. O que Wyler e seus editores fizeram – conjugando movimentos corporais de um plano para outro – é raramente intentado agora. Dificilmente alguém acha que seja importante. O método mais comum de edição dos grandes filmes da atualidade é sobrepor um plano furiosamente ativo empilhado sobre o próximo e quase sempre com apenas uma relação geral do espaço ou movimento corporal entre os dois. O continuo redemoinho de movimentos nos distrai da percepção do ajuste incerto e desastrado entre os planos. A câmera se move, os atores idem: Em “Moulin Rouge”, a câmera balança descontrolada sobre a massa de homens no night club; Nicole Kidman se joga em seu boudoir como uma boneca de pano. A luta digital ao final de “Os Vingadores” acontece em um meio ambiente completamente artificial, um vácuo no qual a gravidade foi abandonada; a continuidade nem mesmo é uma questão. Se a constante bufonaria de ação em todos os tipos de big filmes deixam-nos tanto superestimulados quanto insatisfeitos – enganados não se sabe por que – então parte da razão é que o terreno não foi bem costurado. Você foi privado daquela amada propriedade íntima dos filmes que faz com que você os exiba várias vezes na sua cabeça.

Um indivíduo dominador, um grupo dinâmico em evolução – o cinema clássico americano foi sempre centrado em personagens de um jeito ou de outro. Foi um ideal, mas dificilmente o único ideal, e estou certamente sugerindo um retorno a 1939. Muitos filmes daquele ano, é claro, não eram nada perto de “Jezebel” e de “Stagecoach”, e os piores filmes clássicos de Hollywood eram envoltos em melosos sentimentos e autocomiseração.
Depois de tudo, foi um tempo de fechar as cortinas. Bazin e também James Agee amaram os neorrealistas italianos dos 1940-1950 que produziram a imagem mais simples e o tom moral mais duro que Hollywood nunca conseguiu; e se Bazin tivesse vivido depois de 1958, quando Truffaut, Godard, Chabrol, Rivette e todos os outros estavam só começado, ele teria amado a fluidez, os ritmos abertos e o sabor literário fora de moda na nova onda. Na America a televisão e outras mídias entraram na arena conquistando plateias à distância e as velhas práticas foram esgarçadas ou quebradas em novas formas.

Nomearei umas poucas mais famosas: O ponto de vista da câmera e o corte chocante em Hitchcock; a iluminação expressionista e as câmeras de eco dos estúdios de radio em Orson Welles; a arquitetura dinâmica da tela larga em David Lean; os deslumbrantes e profundamente comoventes planos de rastreamento em Max Ophüls; os tableaux frios e desconectados de Stanley Kubrik; a selvageria tanto humana quanto inumana em Akira Kurozawa e Sam Peckinpah; o denso realismo operístico nos dois primeiros filmes do “Chefão” em Coppola; o diálogo em camadas, ricamente alusivo e azedo da melancolia de “MASH” (M*A*S*H, 1972) em Robert Altman; a manipulação visualmente excêntrica dos arquétipos pop em Steven Spielberg; o descontínuo esquema do tempo em Quentin Tarantino e muitos, muitos outros. Às vezes diretores roubam elementos convencionais da velha sintaxe; às vezes sobrecarregam a mídia recusando uma gorjeta emocional enquanto procuram uma emoção mais pura e intensa através do exagero de um elemento simples na filmagem – isto é, a sustentação dos monólogos que cicatrizam as lentes em Ingmar Bergman, revelando a alma de um ator tão poderosamente que expõem a alma do espectador (para ele próprio) também.

O publico já não está mais envolvido com o cinema da mesma forma familiar; às vezes mesmo os principais filmes comerciais nos afrontam ou violentam. Em geral isto é bom.  Expor-se à feiura e ao horror, ser perturbado em vez de confortado, sobrecarregado em vez de mimado, ainda não magoa um espectador e faz muitos de nós felizes por não ter tudo preparado e estofado para nós. Elementos abruptos na forma de, digamos, cortes descontinuos em “Acossado” (A Bout de Souffle, 1960) ou as quebras de continuidade em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (Annie Hall, 1977) e dúzias de outros filmes injetam pequenos jatos de energia em uma cena. Nestas instâncias não estamos irmanados pelas descontinuidades de um plano para outro - não quando as sequências funcionam dentro da concepção de um contexto geral onde as continuidades são intelectuais e emocionais e não físicas. 

Depois da guerra, os realizadores modernistas também descobriram ser impossivel acreditar num mundo moral coerente, e suas narrativas logo abandonaram punições e recompensas à moda dos antigos guardalivros de Burbank. O realismo moral caiu ao nível de como observávamos nossas vidas, onde raramente somos heróis e nossas poucas expectativas de indignação ou confiança nunca são contempladas pela justiça.
A glória do modernismo foi atrelar a franqueza e o anseio espiritual junto aos experimentos da forma. Mas ao fazer estas mudanças, realizadores foram duramente abandonando o público. A segurança deve ter acabado, mas não a emoção. As muitas alterações na velha sintaxe estabelecida ainda honram nossos contratos. O ignorante, sofredor e moralmente vazio Jack LaMotta de “Touro Indomável” (The Raging Bull, 1980) foi um protagonista à altura de Julie Marsden. O moroso “Nashville” (Idem, 1975) foi tão incisivo enquanto retrato de um grupo nacional quanto o esperançoso “Stagecoach”. Enquanto elíptica ou rude ou adstringente, a emoção do cinema modernista foi uma presença forte, não uma ausência.

A estrutura da indústria cinematográfica – a forma das produções decididas pelo mercado – retrocedeu e mandou a linguagem do cinema para o inferno. Mas a estrutura do negócio não está operando sozinha. O filme, um meio digital e fotográfico, talvez seja mais vulnerável do que qualquer outra arte para os hábitos pós-modernos de reciclagem e cotação. Imitação, pastiche e colagem tornaram-se estratégias dominantes e há um paradoxo excruciante nesse desenvolvimento: Duas das formas de mídias mais energéticas que derivaram do cinema – os comerciais e os videoclips – começaram a dominar o cinema. A arte experimentou um caso de retrocesso.

Como todo mundo sabe, podemos ler uma imagem muito mais rapidamente do que alguém pensava ser possível a quarenta anos atrás, e em anos recentes comerciais têm sido editados mais e mais rapidamente. Os realizadores sabem que não estamos recebendo tanta informação quanto absorvendo uma impressão visual, uma emoção, um desejo. Um comercial verdadeiramente de ponta não tem óbvias conexões com o produto sendo vendido, embora vender seja o seu objetivo. O que, então, está sendo vendido em um grande filme editado da mesma forma? A experiência de ir ao cinema em si, a sensação de estar sendo empurrado, enganado e oprimido pelas imagens. Michael Bay não estava interessado no que aconteceu em Pearl Harbor. Estava interessado em sua ruidosa fantasia do evento. Nada importante acontece em “Os Vingadores”. Como na metade desses megafilmes, o mundo está para terminar por causa de uma força invasora; mas o mundo está para acabar nos espetáculos digitais, e quando tudo está em jogo, nada está em jogo. Quanto maior o filme, mais o conteúdo se torna incidental, mesmo dispensável.

Recentemente alguns dos jovens diretores de cinema vieram da publicidade e da MTV. Se um diretor está só começando na feitura de um filme, ele não deve ser muito bem pago, e os estúdios podem empurrá-lo um roteiro com o propósito de que o filme, e nada mais, deve ter um grande “visual”. Ele já produziu este “visual” em seus comerciais ou vídeos, que registrou em filme e então finalizou digitalmente – adicionando ou subtraindo cores, mudando o céu, acrescentado chamas ou brumas, retardando ou acelerando o movimento. No comercial de um novo carro, as ruas azuladas ecoam e racham, árvores abandonam suas raízes e o carro esportivo prateado, frio como um pepino de titânio, rola sobre as fissuras esfumaçantes. Uau! Que diretor! Os executivos dos estúdios ou produtores-executivos que recebem financiamento dos estúdios não dão instruções para um diretor iniciante como este para cortar um produto muito rapidamente e acrescentar uma enormidade de suspenses, por que para seus big filmes só contratam um tipo de pessoa que cortará rápido e acrescentará suspense. Aquele jovem que nunca trabalhou com uma estrutura dramática séria, ou mesmo com atores, não pode ser considerado responsável.

Os resultados estão aí para ser conferidos.  Arriscando-se à obviedade: Técnicos que seguram seu olhar num comercial ou vídeo não estão habilitados a contar histórias ou construir tensão dramática. Em filmes de longa metragem imagens concebidas daquele jeito começam a se anular reciprocamente ou fogem para fora da tela; os personagens são tipos ou apenas pontos de movimentos. As conexões com a ficção e o teatro foi destruída. O ponto central já não se mantém; a mera anarquia toma conta da tela; o filme é arrebatado por uma bagunça.

Então, os filmes americanos estão acabados, uma irrelevância cultural? A despeito de quase tudo, não penso que o jogo tenha terminado, não em todas as formas. Existem diretores talentosos que lutam para continuar trabalhando mesmo dentro do sistema ou apenas à sua margem. Alguns filmes independentes foram bem sucedidos, contra as probabilidades, na obtenção de financiamento e em uma mínima tração nos cinemas são sinais óbvios de esperança. Terrence Malick está vivo e trabalhando duro. O sistema digital está ainda em sua infância, e se estiver disponível nas mãos de pessoas mais imaginativas e com um sentido mais delicado do espetáculo, desabrochará em dúzias de novos caminhos. Os filmes de microorçamentos feitos nas ruas ou em apartamentos também devem decolar se desistirem das idéias subcassavetianas de improvisação e aceitar a necessidade de um roteiro. Há talentos suficientes chapinhando por aí na barca problemática dos filmes americanos para manter viva esta forma de arte. Mas o problema é real, e se avolumou por mais de vinte e cinco anos. O que se vê agora é uma cansativa, emburrecedora e furiosa mesmice no ciclo das realizações americanas anos após anos. Na maior parte do tempo adultos não podem achar nada para assistir. E esta única razão é suficiente para nos esclarecer que os filmes americanos atravessam uma crise terrível que não vai terminar nem tão cedo.
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David Denby é crítico cinematográfico da revista The New Yorker e autor do livro “Do the Movies Have a Future?” (Simon & Schuster). Este artigo foi publicado na edição da revista em 4 de Outubro de 2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Filmes Tentam Escapar da Irrelevância Cultural



Deu no NYT:
 
Filmes Tentam Escapar da Irrelevância Cultural
Por Michael Cieply

Los Angeles – Em 24 de Fevereiro Hollywood se voltará para o Oscar. Mas parece estar se sentindo como se fosse “A Última Sessão de Cinema” (The Last Picture Show,1971).

A próxima cerimônia de premiação da Academia - a 85ª desde 1029 – se afogará numa piscina de angustia em relação aos filmes e ao que parece ser sua escassa atual conexão com a cultura popular.
Depois do choque do declínio de ingressos vendidos no mercado doméstico no ano passado, 28 bilhões, o mais baixo desde 1995 (e a tendência é só um pouco melhor este ano) o pessoal da indústria do cinema têm lutado silenciosamente para corrigir oque publicamente pode parecer uma falência.
O que significa o controle de Hollywood sobre a imaginação popular, particularmente quando voltada para filmes mais sofisticados nos quais orbita a temporada das premiações.
Vários grupos da indústria, incluindo a Academy Of Motion Pictures Arts And Sciences que premia com o Oscar, e a não comercial American Film Institute, que patrocina o cinema, estão queimando os neurônios em particular, empenhadas no lançamento de campanhas públicas para convencer o público que cinema ainda é relevante.
Isto se evidenciou apenas poucos anos atrás. Mas o clima recrudesceu quando as pessoas da indústria se conscientizaram das mudanças nos caminhos da televisão. Mesmo a maior noite do cinema seguirá aquele padrão: a Academia escalou Seth MacFarlane, um poderoso escritor/produtor de televisão para mestre de cerimônias do Oscar.
“Shakespeare escreveu seus sonetos muito depois desta forma de poema ter saido da moda”, escreveu James Schamus, um roteirista e produtor que também é executivo da Focus Filmes, num email semana passada.
George Stevens Jr., o fundador do American Film Institute, disse que ele nunca deveria se rebaixar “como Cassandra”, numa exposição para membros da Academia de Cinema, ao aceitar seu Oscar honorário no banquete do Governor Awards em 1º de Dezembro.
“Acho que os filmes acharão seu caminho, mas este é um tempo de grandes mudanças”, disse o Sr. Stevens. Ele falou por telefone na semana passada da sua preocupação a respeito da pressão constante sobre exibição em celulares e tablets que estariam embotando o espírito dos filmes. No passado, ele disse – citando “O Homem Que Não Vendeu Sua Alma” (A Man For All Seasons”, 1966, “8 ½” (idem, 1963) e “Rastros de Ódio” (The Searchers, 1956) – havia uma grandeza nos filmes que veiculavam longas histórias sobre as grandes telas.
Mas a prospecção de que um filme vai incorporar-se na consciência cultural e histórica do publico americano na maneira de “E O Vento Levou” (Gone With The Wind, 1939) ou da série “O Poderoso Chefão” (The Godfather, 1972/90) parece enormemente enfraquecida numa época em que o conteúdo em fatias mais finas e os filmes consumidos em grande escala sempre carecem de profundidade.
Enquanto a temporada dos prêmios não se inaugura, os filmes ficam cada vez menores. “The Master”, 2012, um estudo de personagem em 70 mm. muito elogiado pelos críticos, foi assistido por 1,9 milhões e espectadores. Isto é muito menor do que a audiência de um único episódio de programas de TV a cabo como “Mad Men” ou “The Walking Dead”.
“Argo”, 2012, outro competidor do Oscar, teve 7,6 milhões de espectadores durante o fim de semana. Se o interesse do público continuar ele poderá eventualmente empatar                 com a audiência de uma única noite de um episódio de “Glee”.
A fraqueza dos filmes têm múltiplas raízes.
Filmes, enquanto nas salas e exibição, sobrevivem atrás de uma bilheteria; televisão é grátis depois que a assinatura é paga a cada mês. E pelo menos desde a sofisticada série de TV “Os Sopranos” (The Sopranos), as demais aprenderam a segurar os espectadores em longas temporadas de desenvolvimento de seus personagens; filmes fazem o mesmo em franquias de fantasia como a série “Twilight”.
E o colapso das receitas de home vídeo, em parte por causa da pirataria, diminuíram os salários no cinema.                        A televisão, enquanto isso aumentou seus pagamentos, atraindo estrelas do cinema como Al Pacino, Dustin Hoffman, Laura Linney, Claire Danes e Sigourney Weaver.
A venda de ingressos para filmes de gênero como “Busca Implacável 2” (Taken 2, 2012) ou a comédia popular “Ted”, (Idem, 2012), do Sr. MacFarlane continua forte. E um novo público internacional, particularmente da China, deu novo fôlego à visibilidade de blockbusters como o “Os Vingadores” (Avengers, 2012) da Marvel ou “Batman, O Cavalheiro Das Trevas Ressurge”(Dark Knight Rises, 2012).
Mas o número de filmes realizados pelas divisões especiais dos principais estúdios, que apoiaram vencedores do Oscar como “Quem Quer Ser Um Milionário” (Slumdog Millionaire, 2008) da Fox Searchlight, caíram para 37 filmes no ano passado, 55% a menos que os 82 filmes de 2002 de acordo com a Motion Picture Association of America.
Este declínio deixa muitos espectadores desapontados.
“Eles ficam intrigados”, disse o crítico David Denby. “Estão um pouco perplexos”. Ele estava se referindo àqueles que aplaudiram seu argumento – ambos feitos num ensaio da revista New Republic, “Hollywood Matou Os Filmes?” (Has Hollywood Killed The Films?) e em um novo livro, “Os Filmes Têm Futuro?” (Do The Movies Have a Future?) – que a sobrevivência da força dos filmes dependerá da volta dos estúdios às produções mais modestas, mas poderosas em relevância cultural.
“Se não construírem seus futuros, cavarão suas próprias sepulturas”, o Sr. Denby disse.
Sr. MacFarlane; os produtores do Oscar, Craig Zadan e Neil Meron; e o presidente da Academia, Hawk Koch, declinaram através de uma portavoz da Academia, discutir os desafios de celebrar os filmes.
Alguns membros da Academia disseram privadamente que ficaram surpreendidos com a escolha do Sr. MacFarlane para mestre de cerimônias, no que parece ser um aceno aos telespectadores que se aglomeraram em torno do seus sucessos televisivos, notadamente “The Family Guy”.
Mas Henry Schafer, um vice-presidente executivo da Q-Scores Company, que mede a estatística popularidade das celebridades, disse que “Se a ideia é atrair o público jovem, eu penso que eles tomaram a medida correta”.
Ainda, Daniel Tosh, o âncora de “Tosh. O”, uma série de sucesso da Comedy Central apresentando vídeos toscos da internet e ridicularizando seus participantes, deu voz aos céticos: Depois de mostrar um clip de dois homens russos jogando uma granada ao redor de seu próprio barco e explodindo-a o Sr. Tosh sentenciou “É uma ideia melhor do que ter o Sr. MacFarlane como mestre de cerimônias do Oscar”.
A questão em torno do Sr. MacFarlane que dirigiu e emprestou sua voz à boca suja do ursinho “Ted”, (Idem, 2012) - sua principal contribuição ao filme - deixou a Academia coçando-se à procura de caminhos que tragam o público de volta para o tipo de filmes que ela tradicionalmente exalta. Seus membros, por exemplo, têm observado a possibilidade de angariar diretores que tenham realizados filmes ganhadores de prêmios de melhor filme para juntar-se à promoção de uma campanha nos cinemas. Em Los Angeles a Academia também está construindo um Museu do Cinema, uma vitrine para a mídia.
Separadamente, a National Association Of Theatre Owners (Associação Nacional dos Donos de Cinemas) recentemente fez uma enquete com relações públicas e consultores de propaganda para apresentar proposta de um projeto similar.
Membros do Conselho do Film Institute também têm procurado caminhos para promover um novo interesse nos filmes, disse Bob Gazzale, seu presidente. Sr. Gazzale disse ser muito cedo para discutir detalhes, mas outra pessoa elencada na iniciativa disse que o grupo tem considerado fatores tão distantes como aproximarem-se de políticos proeminentes – disse, Bill e Hillary Rodham Clinton – como supervisores de programas para premiações de filmes. A meta seria restabelecer a conexão com espectadores que mudaram suas direções culturais.
Em uma discussão na Colorado State University este mês, Allison Style, uma estudante de jornalismo, sugeriu que a Academia ajudou a quebrar a conexão entre sua geração e grandes os filmes em 2011 quando escolheu “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, 2010) que olhava para trás, ao invés de “A Rede Social” (The Social Network, 2010), que olhava para frente.
“Então, o que aquilo significa para nós enquanto cultura?” A Sra. Style alertou para o vácuo que pode ocorrer se os melhores filmes forem embora.
O buraco, disse o Sr. Gazzale para quem a pergunta foi formulada, deve ser dos maiores.
“Os filmes nos recordam de nossos batimentos cardíacos comuns”, falou.
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Brooks Barnes contributed reporting.
Correction: October 30, 2012
Because of an editing error, an article on Monday about Hollywood’s efforts to restore cultural relevance to the movies described incorrectly the decline at the domestic box office last year. The decrease was in tickets sold, to 1.28 billion; it was not a decline in ticket sales revenue to $1.28 billion.
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Para quem quiser ler o original:
http://www.nytimes.com/2012/10/29/movies/hollywood-seeks-to-slow-cultural-shift-to-tv.html?src=dayp