O desespero de uma civilização esgotada em seu potencial, que não tem mais de onde tirar seu substrato vendido, trocado, às voltas com a sobrevivência a duras penas através de um individualismo calamitoso, vampirizando qualquer sopro de lucidez ou criatividade alheios.
Vergonha!
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Deu no Estadão em 19 de Março de 2012:
Em busca da ética digital
19 de março de 2012 | 3h 06
Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
Que o leitor me perdoe. Nada mais chato do que
jornalista escrevendo de olho no próprio umbigo. Se me permitem a
indulgência, vou contar uma novidade que afeta modestamente nosso
ofício, mas que considero simbólica de um impulso geral civilizador. É
uma tentativa de estabelecer uma etiqueta básica sobre a agregação do
conteúdo alheio.
Você acha correto chegar a um jantar, encher um contêiner com pratos
do bufê, voltar para casa e cobrar ingresso por um jantar servido com a
comida que levou da cozinha dos outros? Bem-vindo ao selvagem
capitalismo digital.
A AOL nunca teria pago US$ 309 milhões pelo Huffington Post se a
pioneira Arianna não estufasse sua bolsa com quentinhas recolhidas nas
redações alheias. O modelo de negócio do Huff Post, durante seus
primeiros cinco anos, foi publicar conteúdo escrito de graça por
desconhecidos e celebridades e "agregar" reportagens de empresas que
pagam salário a jornalistas, como o New York Times, Washington Post, a
revista Time e inúmeros outros, publicando um link para o site original,
mas, de fato, copiando tanto conteúdo que o internauta acabava
estacionado no site da Arianna e atraindo publicidade.
Este tempo já passou, dirão alguns. Ao encontrar seu pote de ouro no
fim do arco-íris, Arianna, a deusa grega da cara de pau, começou a
tilintar suas ofertas polpudas para jornalistas da velha mídia, que
empacotaram seus laptops e sua credibilidade e se debandaram para o Huff
Post.
O faroeste está longe de ser coisa do passado. Mas um basta dado por
um jornalista que cobre mídia para a Advertising Age, em 2011, inspirou o
nascente Council on Ethical Blogging and Aggregation (Conselho de
Blogging Ético e Agregação). Simon Dumenco, o jornalista da Advertising
Age, me telefona entusiasmado de Austin, Texas, onde divulgou sua
iniciativa para os participantes da badalada SXSW. Uma coluna de David
Carr no New York Times, sobre os planos do Conselho, já havia despertado
adesões e escárnio, como a manchete do Gawker:
Não Precisamos de Nenhum Fedorento Selo de Aprovação da Polícia do Blog.
Como jornalista, acho que revistas como New York, Esquire, The
Atlantic, Columbia Journalism Review e o pioneiro site Slate exalam um
aroma muito melhor do que o sensacionalista Gawker. E eles já estão a
bordo. O selo de aprovação, no caso, não existe, mas é uma comparação
com um conhecido selo da revista de consumo Good Housekeeping que, há
mais de cem anos, empresta seu prestígio a produtos que considera de
qualidade.
O Conselho de Blogging Ético e Agregação deve se tornar uma entidade
sem fins lucrativos em abril. Simon Dumenco está reunindo um comitê que
inclui os editores chefes das cheirosas publicações acima e outros, uma
mistura de jornalistas com a mão na massa e professores de escolas de
jornalismo. "Os bloggers vão continuar roubando", diz Dumenco, e deixa
claro que não pensa em ir atrás dos escribas de mão leve, como fez com o
Huff Post no ano passado, num episódio de "agregação" que levou Peter
Goodman, recém-chegado do New York Times, a se desmanchar em desculpas e
punir, naturalmente, o elo mais fraco da corrente, a blogger
inexperiente.
Nos planos do Conselho está um sistema de atribuição justa de conteúdo alheio e publicação de links para o material original.
"O nosso interesse é, em parte, educativo", diz Dumenco. "Começamos
com a adesão de empresas conhecidas, que contribuem com seus manuais de
redação, e vamos recomendar regras de comportamento para usar o material
apurado por outros. Sei que o leitor, de maneira geral, não se importa
se o que leu é original ou foi copiado de outros repórteres."
Se um número expressivo de empresas de mídia aderirem ao manual de
etiqueta imaginado por Dumenco, quem sabe, o tolerável de hoje será o
vergonhoso de amanhã.
Afinal, como disse o colunista David Carr, a agregação indecente é
como a pornografia. Você reconhece quando se depara com ela. Mas não foi
Carr quem cunhou a expressão. Foi o juiz da Suprema Corte Potter
Stewart, quando examinava um processo, em 1964.
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