terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Autoedição

Tendências Autodestrutivas
Por Ann Landi, postado na revista eletrônica ARTnews em 24 de Dezembro de 2012

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Seja incendiando, cortando, retalhando, ou simplesmente jogando-os no lixão, artistas têm várias razões para eliminar seus próprios trabalhos.

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Em 1967, Agnes Martin começou a procurar por seus primeiros trabalhos com a intenção de destrui-los. Isto foi por volta de dez anos depois que ela decidiu dedicar suas energias a realizar pinturas, desenhos e gravuras baseados em grades quadriculadas – uma fórmula radical na época que possibilitou sua aclamação no mundo inteiro. Em alguns casos, as pinturas mais antigas eram trabalhos estudantis de interesse insignificante, exceto talvez para acadêmicos.

Mas outras telas nasceram deste seu engajamento de uma década sobre a abstração biomórfica, pinturas consideradas boas o suficiente para serem exibidas na Galeria Betty Parsons de Nova Iorque nos anos 50. Mais tarde na vida de Martin, uma de suas estudantes lamentou a perda de seus trabalhos, dizendo que era importante tê-los à mão para mostra-los aos “jovens artistas que estão lutando para que haja esperança”. A artista permaneceu inflexível em seu processo de autoedição. Se colecionadores "os venderem de volta para mim", Martin insistiu, “Eu os queimarei”.

O número de trabalhos perdidos para a História da Arte, sacrificados pelas mãos dos próprios artistas, é certamente surpreendente. Claude Monet, para ter só um exemplo, destruiu uma parte considerável de suas “Water Lilies” antes de uma exposição em 1909. “Ele esgarçou no mínimo 30 telas, simplesmente cortou-as” dizia Paul Hayes Tucker, um respeitado estudioso da arte dos séculos 19 e 20 na Universidade de Machassussets em Boston.
Muitas vezes a decisão de demolir está ligada a um artista querendo controlar seu legado antes que a morte o arranque desta opção. Quando Barbara Haskell, curadora do Whitney Museum estava trabalhando com Georgia O’Keeffe no planejamento de uma exposição no início dos ano 80, ela se lembra da artista desejando querer ir até o depósito para destruir algumas pinturas que pensava não representar o seu nível. “Quando chegou ao fim de sua vida“, diz Haskell, “ela realmente queria descarta-las para que sua reputação permanecesse forte”.
Um artista não precisa estar na meia idade ou no fim de uma longa e aclamada carreira para experimentar a urgência de emendar seu registro. Robert Rauschenberg ainda estava em seus anos 20 e tinha recentemente exibido algumas esculturas de caixas e outros objetos em Florença em 1953, quando um crítico sugeriu que ele os jogasse no rio Arno. Rauschenberg agradeceu alegremente. 
E quando Gerhard Richter estava em seus anos 30, atacou com um cortador de caixas várias pinturas-chave, incluindo um retrato de Adolf Hitler de 1962, uma pintura de um canguru atacando um homem de 1964, e uma representação de um navio de guerra atingido por um torpedo, também de 1964. No total, Richter jogou no lixo perto de 60 trabalhos iniciais e uma publicação em Der Spiegel postou a valoração de 650 milhões na perda. “Cortar as pinturas sempre foi um ato de libertação”, o artista declarou.
No outono de 1954, de acordo com o curador Mark Rosenthal, o Jasper Johns de 24 anos, dizimou todas as suas obras sob sua guarda. “Até que ele tivesse controle sobre sua estética, ele destruiu tudo. Logo após ele começou a trabalhar com a encaustica”, Rosenthal recordou em uma entrevista não publicada. Leo Steinberg, em seu livro Other Criteri, dá uma declaração mais detalhada: “Quando Johns foi dispensado do exército em 1952 e se estabeleceu em Nova Iorque...  começou a fazer pequenas colagens abstratas com pedaços de papel. 
Informado de que elas se assemelhavam às de Kurt Schwitters, foi conferir as colagens de Schwitters descobrindo que não pareciam com as suas. Ele havia transgredido e se afastando por um desvio – para ser diferente.”
(Quando ARTnews pediu a Johns para descrever os trabalhos de longa data, ele replicou laconicamente: “Acho que eu conseguiria, mas prefiro que não”.  Como ele se livrou deles? “Eu provavelmente os atirei fora”. E como poderia saber naquela idade tão jovem que aqueles  trabalhos não pudessem ser  interessantes para ele? “Acho que me desfazer deles atesta isto.”)

A maioria destes atos de destruição foram levados a cabo na surdina, com pouca fanfarra, do jeito como um escritor deve condenar suas primeiras anotações para uma novela ou poema ao triturador. Uma exceção foi John Baldessari, que em 1970 queimou todas as suas pinturas de 1953 até 1966. Parte das cinzas foram depositadas em caixas em formato de livros e exibidas no Jewish Museum em Nova Iorque. 
Ele assou outras cinzas em biscoitos e as colocou em uma urna. Esta instalação, intitulada Projeto Cremação, Corpus Wafers (With Text, Recipe and Documentation), foi doada ao Smithsonian’s Hirchhorn Museum em Washington, D.C., em 2005; inclui os biscoitos, uma placa de bronze, as datas de nascimento e destruição das pinturas, o recipiente dos biscoitos, uma publicação jornalística anunciando a cremação e fotografias da própria.
Um par de anos depois, em 1972, a artista americana Susan Hiller, que vive na Inglaterra, começou a colocar as cinzas de suas próprias pinturas queimadas dentro de tubos de ensaio com tampas de borracha, argumentando que o resultado “era tão interessante de ser olhado quanto a experiência com pinturas”. 
Em outra série, ela cortou suas telas e as transformou em livros. “Existia um sentido de finalidade e encerramento em cortar uma pintura fazendo-a um livro” disse.

Muito mais lugar comum que aquelas ações quase públicas são os artistas que editam suas criações como parte do processo. “Quando eu penso não estar bom o suficiente para exibi-lo naquele momento eu faço isto, enrolo e ponho de lado”, diz Pat Steir. “Eu o guardo por dez anos e então o desenrolo, olho para ele e decido se estava errada. Ou corto-o em pequenos pedaços e atiro longe”.  A evisceração de trabalhos antigos de Steir é muitas vezes prática e protetora. “Uma vez joguei fora uma pintura e ele terminou de volta ao mercado”, diz.  (Imagina que pediu a um estagiário que a descartasse, mas ela acabou na calçada.) “Agnes Martin me disse em 1971, se você não gosta de um trabalho, jogue-o fora da mesma forma que você descarta uma péssima amizade”.
Ursula von Rydingsvard mantém um “cemitério” em um enorme armazém ao norte da área metropolitana de Nova York onde guarda as esculturas com as quais “não consegue lidar”. Estima que tenha se livrado de 20% das peças que elaborou. “Periodicamente eu vou lá e percebo alguma coisa para a qual ainda há esperança (...) mas nunca é a peça inteira. Normalmente são partes que podem servir como trampolim para outros trabalhos”.
Recentemente, Petah Coyne decidiu tirar todos os seus trabalhos incompletos da armazenagem e os admirou por uns dois meses. Ela e seus assistentes “destruíram provavelmente 70% deles (...) Eu tento fazer um ‘descarte de imperfeições’ de trabalhos não concluídos a cada cinco a sete anos. Também me sinto compelida a reinventá-los - como se estivesse em débito com eles – ou descartá-los completamente. Conhecer a diferença entre aqueles dois sempre foi evidente para mim”. Quando examina uma peça Coyne se pergunta “Eu ficaria emocionada ao vê-lo no MoMA? Se não, vai embora.” 


Escultores e pintores não são os únicos a dar sumiço em trabalhos que não correspondem aos seus padrões. Anne Wilker Tucker, curadora de fotografia do Museu de Belas Artes em Houston, conta a história de Robert Frank que deu um tempo na casa do fotógrafo Wayne miller em meio às fotografias do que seria “The Americans”. Frank “revelava os negativos que havia feito até então (...) e naquela primeira apreciação ele cortava e jogava alguns no lixo, preservando outros”.
Mais tarde Frank se tornou um cineasta que desancava seu passado fotográfico na nova mídia. “Existe uma famosa imagem em um dos filmes de Robert Frank onde um amigo está perfurando uma pilha de suas fotografias. Frank estava tentando deixar 'The Americans' para trás” diz a curadora. “É duro quando as primeiras séries que se faz continuam a ser lembradas como seu trabalho mais importante;  isto pode não ser o que você quer”.
Igualmente, completa, quando Edward Steichen abandonou a pintura para sempre adotando uma câmera, ele “queimou suas pinturas iniciais na França”.

Dado que muito da arte contemporânea é efêmera por sua natureza – tubarões que apodrecem, instalações que serão desmontadas, performances que devem ou não se repetir – talvez a solução sensível para alguns artistas seja planejar o desmantelamento final de seus trabalhos. Karlis Rekevics, um escultor que descreve-se como estando em diálogo com o meio ambiente”, diz que muitas das peças exibidas em seu site não existem mais. Embora seus trabalhos imensos moldados em gesso tenham sido exibidos em locais badalados de Nova Yorque como MoMA, Ps1 e Sculpture Center, Rekevics  fisicamente os esmagou com uma marreta, cortando-os, recolhendo-os com um guindaste e jogando-os em um lixão” depois que as mostras terminavam. Talvez por sua bagagem anterior na forma da arte cenográfica  temporária para teatro, ele acha o processo da criação “mais interessante do que o produto acabado”.

O que foi perdido para a História da Arte através da destruição daquelas “Water Lilies” e de tantos trabalhos de figuras importantes é, claro, incalculável. Mas curadores e acadêmicos serão sempre os primeiros a defender o direito de um artista a autoeditar-se. “Existem alguns artistas cuja reputação sairia arranhada por eles terem tanta arte no mundo, onde o mercado e o preço dos trabalhos, de ambas alta e média qualidades, saturaram nossa experiência”, diz Haskell.

Por outro lado, “Artistas não devem ser os melhores juízes do que deveria ser seu legado permanente“, Paul Hayes Tucker assevera. “É uma história perdida, e precisamos vivê-la”.

Ann Landi é editora contribuinte de ARTnews.




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