Tendências
Autodestrutivas
Por Ann
Landi, postado na revista eletrônica ARTnews em 24 de Dezembro de 2012
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Seja incendiando, cortando, retalhando, ou
simplesmente jogando-os no lixão, artistas têm várias razões para eliminar seus
próprios trabalhos.
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Em 1967,
Agnes Martin começou a procurar por seus primeiros trabalhos com a intenção de
destrui-los. Isto foi por volta de dez anos depois que ela decidiu dedicar
suas energias a realizar pinturas, desenhos e gravuras baseados em grades quadriculadas
– uma fórmula radical na época que possibilitou sua aclamação no mundo inteiro.
Em alguns casos, as pinturas mais antigas eram trabalhos estudantis de
interesse insignificante, exceto talvez para acadêmicos.
Mas outras
telas nasceram deste seu engajamento de uma década sobre a abstração biomórfica, pinturas
consideradas boas o suficiente para serem exibidas na Galeria Betty Parsons de
Nova Iorque nos anos 50. Mais tarde na vida de Martin, uma de suas estudantes
lamentou a perda de seus trabalhos, dizendo que era importante tê-los à mão
para mostra-los aos “jovens artistas que estão lutando para que haja esperança”.
A artista permaneceu inflexível em seu processo de autoedição. Se colecionadores "os venderem de volta para mim", Martin insistiu, “Eu os queimarei”.
O número
de trabalhos perdidos para a História da Arte, sacrificados pelas mãos dos
próprios artistas, é certamente surpreendente. Claude Monet, para ter só um
exemplo, destruiu uma parte considerável de suas “Water Lilies” antes de uma
exposição em 1909. “Ele esgarçou no mínimo 30 telas, simplesmente cortou-as”
dizia Paul Hayes Tucker, um respeitado estudioso da arte dos séculos 19 e 20 na
Universidade de Machassussets em Boston.
Muitas
vezes a decisão de demolir está ligada a um artista querendo controlar seu
legado antes que a morte o arranque desta opção. Quando Barbara Haskell,
curadora do Whitney Museum estava trabalhando com Georgia O’Keeffe no
planejamento de uma exposição no início dos ano 80, ela se lembra da artista
desejando querer ir até o depósito para destruir algumas pinturas que pensava
não representar o seu nível. “Quando chegou ao fim de sua vida“, diz Haskell, “ela
realmente queria descarta-las para que sua reputação permanecesse forte”.
Um
artista não precisa estar na meia idade ou no fim de uma longa e aclamada carreira
para experimentar a urgência de emendar seu registro. Robert Rauschenberg ainda estava em seus anos 20 e tinha recentemente exibido algumas esculturas de caixas e
outros objetos em Florença em 1953, quando um crítico sugeriu que ele os
jogasse no rio Arno. Rauschenberg agradeceu alegremente.
E quando Gerhard
Richter estava em seus anos 30, atacou com um cortador de caixas várias
pinturas-chave, incluindo um retrato de Adolf Hitler de 1962, uma pintura de um
canguru atacando um homem de 1964, e uma representação de um navio de guerra
atingido por um torpedo, também de 1964. No total, Richter jogou no lixo perto
de 60 trabalhos iniciais e uma publicação em Der Spiegel postou a valoração de 650 milhões na perda. “Cortar as
pinturas sempre foi um ato de libertação”, o artista declarou.
No
outono de 1954, de acordo com o curador Mark Rosenthal, o Jasper Johns de 24
anos, dizimou todas as suas obras sob sua guarda. “Até que ele tivesse controle
sobre sua estética, ele destruiu tudo. Logo após ele começou a trabalhar com a
encaustica”, Rosenthal recordou em uma entrevista não publicada. Leo Steinberg,
em seu livro Other Criteri, dá uma
declaração mais detalhada: “Quando Johns foi dispensado do exército em 1952 e
se estabeleceu em Nova Iorque... começou
a fazer pequenas colagens abstratas com pedaços de papel.
Informado de que elas
se assemelhavam às de Kurt Schwitters, foi conferir as colagens de Schwitters descobrindo
que não pareciam com as suas. Ele havia transgredido e se afastando por um
desvio – para ser diferente.”
(Quando ARTnews pediu a Johns para descrever os
trabalhos de longa data, ele replicou laconicamente: “Acho que eu conseguiria,
mas prefiro que não”. Como ele se livrou
deles? “Eu provavelmente os atirei fora”. E como poderia saber naquela idade
tão jovem que aqueles trabalhos não pudessem
ser interessantes para ele? “Acho que me
desfazer deles atesta isto.”)
A
maioria destes atos de destruição foram levados a cabo na surdina, com pouca
fanfarra, do jeito como um escritor deve condenar suas primeiras anotações para
uma novela ou poema ao triturador. Uma exceção foi John Baldessari, que em 1970
queimou todas as suas pinturas de 1953 até 1966. Parte das cinzas foram
depositadas em caixas em formato de livros e exibidas no Jewish Museum em Nova
Iorque.
Ele assou outras cinzas em biscoitos e as colocou em uma urna. Esta
instalação, intitulada Projeto Cremação,
Corpus Wafers (With Text, Recipe and Documentation), foi
doada ao Smithsonian’s Hirchhorn Museum em Washington, D.C., em 2005; inclui os
biscoitos, uma placa de bronze, as datas de nascimento e destruição das
pinturas, o recipiente dos biscoitos, uma publicação jornalística anunciando a
cremação e fotografias da própria.
Um par
de anos depois, em 1972, a artista americana Susan Hiller, que vive na
Inglaterra, começou a colocar as cinzas de suas próprias pinturas queimadas dentro de tubos de ensaio com tampas de borracha, argumentando que o resultado “era
tão interessante de ser olhado quanto a experiência com pinturas”.
Em outra série,
ela cortou suas telas e as transformou em livros. “Existia um sentido de
finalidade e encerramento em cortar uma pintura fazendo-a um livro” disse.
Muito
mais lugar comum que aquelas ações quase públicas são os artistas que editam
suas criações como parte do processo. “Quando eu penso não estar bom o
suficiente para exibi-lo naquele momento eu faço isto, enrolo e ponho de lado”,
diz Pat Steir. “Eu o guardo por dez anos e então o desenrolo, olho para ele e
decido se estava errada. Ou corto-o em pequenos pedaços e atiro longe”. A evisceração de trabalhos antigos de Steir é
muitas vezes prática e protetora. “Uma vez joguei fora uma pintura e ele
terminou de volta ao mercado”, diz. (Imagina que pediu a um estagiário que a descartasse, mas ela acabou na calçada.) “Agnes
Martin me disse em 1971, se você não gosta de um trabalho, jogue-o fora da
mesma forma que você descarta uma péssima amizade”.
Ursula
von Rydingsvard mantém um “cemitério” em um enorme armazém ao norte da área
metropolitana de Nova York onde guarda as esculturas com as quais “não consegue
lidar”. Estima que tenha se livrado de 20% das peças que elaborou. “Periodicamente
eu vou lá e percebo alguma coisa para a qual ainda há esperança (...) mas nunca é a peça inteira. Normalmente são partes que
podem servir como trampolim para outros trabalhos”.
Recentemente,
Petah Coyne decidiu tirar todos os seus trabalhos incompletos da armazenagem e
os admirou por uns dois meses. Ela e seus assistentes “destruíram provavelmente
70% deles (...) Eu tento fazer um ‘descarte de imperfeições’ de trabalhos não concluídos
a cada cinco a sete anos. Também me sinto compelida a reinventá-los - como se
estivesse em débito com eles – ou descartá-los completamente. Conhecer a diferença
entre aqueles dois sempre foi evidente para mim”. Quando examina uma peça
Coyne se pergunta “Eu ficaria emocionada ao vê-lo no MoMA? Se não, vai embora.”
Escultores e pintores não são os únicos a dar sumiço em
trabalhos que não correspondem aos seus padrões. Anne Wilker Tucker, curadora
de fotografia do Museu de Belas Artes em Houston, conta a história de Robert
Frank que deu um tempo na casa do fotógrafo Wayne miller em meio às fotografias
do que seria “The Americans”. Frank “revelava os negativos que havia feito até
então (...) e naquela primeira apreciação ele cortava e jogava alguns no lixo, preservando
outros”.
Mais tarde Frank se tornou um cineasta que desancava
seu passado fotográfico na nova mídia. “Existe uma famosa imagem em um dos
filmes de Robert Frank onde um amigo está perfurando uma pilha de suas fotografias.
Frank estava tentando deixar 'The Americans' para trás” diz a curadora. “É duro
quando as primeiras séries que se faz continuam a ser lembradas como seu
trabalho mais importante; isto pode não ser o que você quer”.
Igualmente, completa,
quando Edward Steichen abandonou a pintura para sempre adotando uma câmera, ele “queimou
suas pinturas iniciais na França”.
Dado que
muito da arte contemporânea é efêmera por
sua natureza – tubarões que apodrecem, instalações que serão desmontadas, performances
que devem ou não se repetir – talvez a solução sensível para alguns artistas
seja planejar o desmantelamento final de seus trabalhos. Karlis Rekevics, um
escultor que descreve-se como estando em diálogo com o meio ambiente”, diz que
muitas das peças exibidas em seu site não existem mais. Embora seus trabalhos imensos
moldados em gesso tenham sido exibidos em locais badalados de Nova Yorque como
MoMA, Ps1 e Sculpture Center, Rekevics fisicamente
os esmagou com uma marreta, cortando-os, recolhendo-os com um guindaste e
jogando-os em um lixão” depois que as mostras terminavam. Talvez por sua bagagem
anterior na forma da arte cenográfica temporária para teatro, ele acha o processo da
criação “mais interessante do que o produto acabado”.
O que
foi perdido para a História da Arte através da destruição daquelas “Water
Lilies” e de tantos trabalhos de figuras importantes é, claro, incalculável. Mas curadores e acadêmicos serão sempre os primeiros a defender o direito de
um artista a autoeditar-se. “Existem alguns artistas cuja reputação sairia
arranhada por eles terem tanta arte no mundo, onde o mercado e o preço dos
trabalhos, de ambas alta e média qualidades, saturaram nossa experiência”, diz
Haskell.
Por
outro lado, “Artistas não devem ser os melhores juízes do que deveria ser seu legado
permanente“, Paul Hayes Tucker assevera. “É uma história perdida, e precisamos vivê-la”.
Ann Landi é editora contribuinte
de ARTnews.
















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