RF
A primeira vez que vi RF frente a frente foi na antiga Globo Tijuca, uma ocupação da TV Globo dos estúdios Herbert Richers. Suas fotos divulgadas na imprensa inspiravam-me um certo tesão inconsequente, sem punhetas. Ali Paulo Afonso Grisolli implantou um núcleo de excelência na produção de teledramaturgia, responsável por vários produtos de sucesso de audiência muito além do padrão das novelas do período. Era o início dos anos 1980 e eu, recém-saído das Artes Cênicas FEFIERJ - hoje UNIRIO - tive a chance de dar minhas pintas iniciais em cenografia televisiva. Meu núcleo era o das “Quartas Nobres”, um formato dramatúrgico compacto que se resolvia em um só episódio dividido em três partes, escritos, dirigidos e estrelados pela nata da criação dramatúrgica da época. RF foi meu diretor em algo intitulado “O Outro Lado do Horizonte”, uma história de ciganos cuja mocinha era uma adolescente gordinha e tímida que atendia pelo nome de Fernanda Torres. Confesso que ele nem deu pela minha presença no set: vinha da presidência da Embrafilme; tinha dirigido “Pra Frente Brasil”, os filmes do Roberto Carlos; tinha acabado de chegar do júri de um Festival de Cannes; era um homem muito respeitado entre seus pares e parecia que embarcou naquela canoa pelo outro lado da proa. Trafegava olimpicamente em meio aos gimbas com o aplomb de um Jacynto de Thormes socialista de cartaz de cinema, mesmo assim ma non tropo. Logo após, durante outra produção, “Carmen”, em que Cristiane Torloni fazia a voluntariosa e perigosa dita cuja, idealizei, detalhei, produzi e montei o cenário de um cabaré da Praça Mauá que ocupava toda a extensão do maior estudo daquela produtora, e ali conheci na prática o modo suis-generis com que todos os Farias - pais, filhos, irmãos e sobrinhos que tiveram a oportunidade de dirigir um audiovisual (99% deles) – exercitavam seus ofícios. Suas cartilhas impunham uma decupagem geográfica rígida e seu entendimento do espaço cênico se restringia basicamente à arquitetura. De fatura radicalmente realista, seus produtos, mesmo os mais chegados ao lúdico, ao cômico e ao delírio, carregavam na vida como ela é com mão de ferro. Em “Carmen”, a despeito da dinheirama dispendida, do precioso tempo tomado às mais diversas pessoas envolvidas, Maurício Farias, o assistente do papai, fez o favor de desmagnetizar - não sei como nem por que (naquela altura minha antena estava fora da área de cobertura) - todas as fitas gravadas e o episódio não foi ao ar. Em Hollywood, certamente não se criariam tipos semelhantes, mas em Bananal, onde determinados feudos germinam até mesmo através de um resfriado, parece que estas linhagens estão asseguradas ad eternum. E na Boba vários deles sempre tiveram seus quinhões preservados em alguma ca(r)pi(n)tan(r)ia hereditária.
Volta-e-meia eis que topava com RF de tocaia em alguma quebrada: fui destacado para desenhar uma cidade cenográfica para o filme “Os Trapalhões e o Auto da Compadecida”, de sua fatura, o que um belo dia me levou à Refefê, a empresa dos Farinhas do Mesmo Saco em Laranjeiras. Lá estava Fernanda Torres, já mais crescidinha, menos rechonchuda e oligofrênica, ciscando no jardim, certamente caçando um dote naquela família quase que exclusivamente masculina e pipocada de galãs, na desculpa de caitituar o papel da virgem o mesmo que sua mãe todapoderosa viria a encarnar em uma futura minissérie globeleza (em que este aqui nestas maltraçadas realizou toda a pesquisa iconográfica e desenhou o trono em que a santinha do pau oco iria sentar), exatamente no mesmo registro com que faria, por exemplo, Norma Suely. Poder é isto; dizem que foder é outra coisa, mas às vezes embola o meio de campo de modo que puta e santa se refletem no mesmo espelho, uma retocando a maquiagem da outra. Na Refefê esqueci meus óculos de sol lindo, dourado, maravilhoso, de Amsterdã, no banheiro, após fazer cocô na latrina da família. Quando me dei conta e voltei para pegá-lo havia desaparecido, merda. Não me dei ao trabalho de ir procurá-lo no outro lado do horizonte. Tchan-tchan-tchan-tchan.
RF tinha um terreno em Jacarepaguá e foi lá que construíram a tal cidade cenográfica, da qual não acompanhei nem montagem, acabamento ou filmagem, atolado que estava num show de outro Roberto, o rei, no Canecão - “Apocalipse” - que rezava entre outras pérolas que “só vai ficar o que presta”. Naqueles bastidores pude conferir sua majestade no auge do seu TOC de estimação, benzendo todas as portas pelas quais deveria passar secundado por um séquito de cativos absolutamente fiéis e crédulos. A cidade cenográfica bateu como uma bosta no telão; fosse um filme de Carlos Diegues ninguém reparava. Outra vez foi em um “Você Decide”, a primeira atração global interativa em que os espectadores telefonavam para escolher um desfecho através de duas opções oferecidas pelo roteiro (ou texto, como se diz na televisão). Aquele episódio era flagrantemente chupado do filme “Reservoir Dogs” de Quentin Tarantino. Ao ler o texto fiquei com a pulga atrás da orelha, uma sensação de deja vu que começava no cu e pairava na atmosfera viciada e sufocante da sala de reuniões. Talvez a maconha não tivesse me deixado alcançar porque aquela história era-me familiar e aquilo me assombrava sem eu saber porque, não me dava conta daquele limbo gasoso, como se estivesse sob a influência da reza forte daquele rei transtornado, sem conseguir tresandar minha dúvida para acabar de infectar o ambiente por motivo de força maior. Foi um produtor que trouxe à tona a chanchada perpetrada por Antônio Carlos Fontoura, o roteirista. A única novidade era que RF não tinha assistido ao filme e nem sabia quem era Tarantino, já naquela altura um auteur consolidado. Em meio à produção, por força de circunstâncias afeitas ao meu métier na adequação das locações à história, RF foi levado a fazer algumas modificações pontuais no roteiro original para dar mais plausibilidade e acrescentar peripécias à história. Animado por estas pequenas interferências inspiradas por dados técnicos sugeridos, tomou uma liberdade que até então eu nunca tinha visto na subserviente postura dos diretores da Boba em relação aos autores: acrescentou um conflito altamente explosivo para embaralhar o julgamento do telespectador no momento de decidir qual seria o desfecho da história: a inédita questão da dor de corno. O resultado quase empatou a foda novamente, tanto dos personagens – uma pena – quanto a do programa - um feito. Ali, forçosamente, Pai Bob deu por mim no set, tanto que logo após, na preparação da minissérie “Memorial de Maria Moura”, declarou em ocasião que não presenciei, que eu era ótimo segundo me revelou a anta do chefe que me explorou durante os por volta de 30 anos em que trabalhei duramente naquela casa de tolerância: uma bichona velha, esticada e careta que atendia pelo nome de Mario Monteiro, que nunca conseguiu me superar em talento, informação, cultura ou putaria.
Desta vez Bob Farinha parece que exagerou dirigindo uma cena de estupro protagonizada por Glória Pires fazendo a personagem-título que, pelo que ficou acordado após este evento traumático na interpretação e na vida real da moça, só aceitou ser dirigida posteriormente por Denise Saraceni, uma diretora que fazia parte do time das várias frentes do produto. E eu que estava em todas menos naquele dia mais animadinho, que pena, que pe-e-na... (e esta já é a segunda vez aqui que não vi, com esses olhos que a terra há de comer ou que o fogo há de torrar, algo com que minha satisfação iria se locupletar) mas fatal e automaticamente tomei conhecimento do ocorrido pela Rádio Corredor que milagrosamente estava pegando naquele dia, espalhando que a atriz - não bastasse a comoção da cena dificílima para todas que exercem seu ofício - talvez excetuando Lucélia Santos aos berros de "me fode, Negão" em "Bonitinha, Mas Ordinária" adaptado do grande Nelson Rodrigues por Braz Chediak, em que se percebe estar bem à vontade - Glorinha foi tão assediada pela mão pesada do diretor na encenação que caiu em pranto convulsivo e quase sucumbiu à sanha diabólica de sua majestade, o rei. Mas, pensando bem, qual deles: o assim chamado, cantado e reverenciado perna de pau? Aquele que se achava sentado numa latrina dourada por sua própria imaginação atrás das câmeras? Ou o que foi plantado na barriga de Maria Moura por um bandido? Tchan-tchan-tchan-tchan. Se RF desse bobeira na minha frente naquela época, eu pegava.
A primeira vez que vi RF frente a frente foi na antiga Globo Tijuca, uma ocupação da TV Globo dos estúdios Herbert Richers. Suas fotos divulgadas na imprensa inspiravam-me um certo tesão inconsequente, sem punhetas. Ali Paulo Afonso Grisolli implantou um núcleo de excelência na produção de teledramaturgia, responsável por vários produtos de sucesso de audiência muito além do padrão das novelas do período. Era o início dos anos 1980 e eu, recém-saído das Artes Cênicas FEFIERJ - hoje UNIRIO - tive a chance de dar minhas pintas iniciais em cenografia televisiva. Meu núcleo era o das “Quartas Nobres”, um formato dramatúrgico compacto que se resolvia em um só episódio dividido em três partes, escritos, dirigidos e estrelados pela nata da criação dramatúrgica da época. RF foi meu diretor em algo intitulado “O Outro Lado do Horizonte”, uma história de ciganos cuja mocinha era uma adolescente gordinha e tímida que atendia pelo nome de Fernanda Torres. Confesso que ele nem deu pela minha presença no set: vinha da presidência da Embrafilme; tinha dirigido “Pra Frente Brasil”, os filmes do Roberto Carlos; tinha acabado de chegar do júri de um Festival de Cannes; era um homem muito respeitado entre seus pares e parecia que embarcou naquela canoa pelo outro lado da proa. Trafegava olimpicamente em meio aos gimbas com o aplomb de um Jacynto de Thormes socialista de cartaz de cinema, mesmo assim ma non tropo. Logo após, durante outra produção, “Carmen”, em que Cristiane Torloni fazia a voluntariosa e perigosa dita cuja, idealizei, detalhei, produzi e montei o cenário de um cabaré da Praça Mauá que ocupava toda a extensão do maior estudo daquela produtora, e ali conheci na prática o modo suis-generis com que todos os Farias - pais, filhos, irmãos e sobrinhos que tiveram a oportunidade de dirigir um audiovisual (99% deles) – exercitavam seus ofícios. Suas cartilhas impunham uma decupagem geográfica rígida e seu entendimento do espaço cênico se restringia basicamente à arquitetura. De fatura radicalmente realista, seus produtos, mesmo os mais chegados ao lúdico, ao cômico e ao delírio, carregavam na vida como ela é com mão de ferro. Em “Carmen”, a despeito da dinheirama dispendida, do precioso tempo tomado às mais diversas pessoas envolvidas, Maurício Farias, o assistente do papai, fez o favor de desmagnetizar - não sei como nem por que (naquela altura minha antena estava fora da área de cobertura) - todas as fitas gravadas e o episódio não foi ao ar. Em Hollywood, certamente não se criariam tipos semelhantes, mas em Bananal, onde determinados feudos germinam até mesmo através de um resfriado, parece que estas linhagens estão asseguradas ad eternum. E na Boba vários deles sempre tiveram seus quinhões preservados em alguma ca(r)pi(n)tan(r)ia hereditária.
Volta-e-meia eis que topava com RF de tocaia em alguma quebrada: fui destacado para desenhar uma cidade cenográfica para o filme “Os Trapalhões e o Auto da Compadecida”, de sua fatura, o que um belo dia me levou à Refefê, a empresa dos Farinhas do Mesmo Saco em Laranjeiras. Lá estava Fernanda Torres, já mais crescidinha, menos rechonchuda e oligofrênica, ciscando no jardim, certamente caçando um dote naquela família quase que exclusivamente masculina e pipocada de galãs, na desculpa de caitituar o papel da virgem o mesmo que sua mãe todapoderosa viria a encarnar em uma futura minissérie globeleza (em que este aqui nestas maltraçadas realizou toda a pesquisa iconográfica e desenhou o trono em que a santinha do pau oco iria sentar), exatamente no mesmo registro com que faria, por exemplo, Norma Suely. Poder é isto; dizem que foder é outra coisa, mas às vezes embola o meio de campo de modo que puta e santa se refletem no mesmo espelho, uma retocando a maquiagem da outra. Na Refefê esqueci meus óculos de sol lindo, dourado, maravilhoso, de Amsterdã, no banheiro, após fazer cocô na latrina da família. Quando me dei conta e voltei para pegá-lo havia desaparecido, merda. Não me dei ao trabalho de ir procurá-lo no outro lado do horizonte. Tchan-tchan-tchan-tchan.
RF tinha um terreno em Jacarepaguá e foi lá que construíram a tal cidade cenográfica, da qual não acompanhei nem montagem, acabamento ou filmagem, atolado que estava num show de outro Roberto, o rei, no Canecão - “Apocalipse” - que rezava entre outras pérolas que “só vai ficar o que presta”. Naqueles bastidores pude conferir sua majestade no auge do seu TOC de estimação, benzendo todas as portas pelas quais deveria passar secundado por um séquito de cativos absolutamente fiéis e crédulos. A cidade cenográfica bateu como uma bosta no telão; fosse um filme de Carlos Diegues ninguém reparava. Outra vez foi em um “Você Decide”, a primeira atração global interativa em que os espectadores telefonavam para escolher um desfecho através de duas opções oferecidas pelo roteiro (ou texto, como se diz na televisão). Aquele episódio era flagrantemente chupado do filme “Reservoir Dogs” de Quentin Tarantino. Ao ler o texto fiquei com a pulga atrás da orelha, uma sensação de deja vu que começava no cu e pairava na atmosfera viciada e sufocante da sala de reuniões. Talvez a maconha não tivesse me deixado alcançar porque aquela história era-me familiar e aquilo me assombrava sem eu saber porque, não me dava conta daquele limbo gasoso, como se estivesse sob a influência da reza forte daquele rei transtornado, sem conseguir tresandar minha dúvida para acabar de infectar o ambiente por motivo de força maior. Foi um produtor que trouxe à tona a chanchada perpetrada por Antônio Carlos Fontoura, o roteirista. A única novidade era que RF não tinha assistido ao filme e nem sabia quem era Tarantino, já naquela altura um auteur consolidado. Em meio à produção, por força de circunstâncias afeitas ao meu métier na adequação das locações à história, RF foi levado a fazer algumas modificações pontuais no roteiro original para dar mais plausibilidade e acrescentar peripécias à história. Animado por estas pequenas interferências inspiradas por dados técnicos sugeridos, tomou uma liberdade que até então eu nunca tinha visto na subserviente postura dos diretores da Boba em relação aos autores: acrescentou um conflito altamente explosivo para embaralhar o julgamento do telespectador no momento de decidir qual seria o desfecho da história: a inédita questão da dor de corno. O resultado quase empatou a foda novamente, tanto dos personagens – uma pena – quanto a do programa - um feito. Ali, forçosamente, Pai Bob deu por mim no set, tanto que logo após, na preparação da minissérie “Memorial de Maria Moura”, declarou em ocasião que não presenciei, que eu era ótimo segundo me revelou a anta do chefe que me explorou durante os por volta de 30 anos em que trabalhei duramente naquela casa de tolerância: uma bichona velha, esticada e careta que atendia pelo nome de Mario Monteiro, que nunca conseguiu me superar em talento, informação, cultura ou putaria.
Desta vez Bob Farinha parece que exagerou dirigindo uma cena de estupro protagonizada por Glória Pires fazendo a personagem-título que, pelo que ficou acordado após este evento traumático na interpretação e na vida real da moça, só aceitou ser dirigida posteriormente por Denise Saraceni, uma diretora que fazia parte do time das várias frentes do produto. E eu que estava em todas menos naquele dia mais animadinho, que pena, que pe-e-na... (e esta já é a segunda vez aqui que não vi, com esses olhos que a terra há de comer ou que o fogo há de torrar, algo com que minha satisfação iria se locupletar) mas fatal e automaticamente tomei conhecimento do ocorrido pela Rádio Corredor que milagrosamente estava pegando naquele dia, espalhando que a atriz - não bastasse a comoção da cena dificílima para todas que exercem seu ofício - talvez excetuando Lucélia Santos aos berros de "me fode, Negão" em "Bonitinha, Mas Ordinária" adaptado do grande Nelson Rodrigues por Braz Chediak, em que se percebe estar bem à vontade - Glorinha foi tão assediada pela mão pesada do diretor na encenação que caiu em pranto convulsivo e quase sucumbiu à sanha diabólica de sua majestade, o rei. Mas, pensando bem, qual deles: o assim chamado, cantado e reverenciado perna de pau? Aquele que se achava sentado numa latrina dourada por sua própria imaginação atrás das câmeras? Ou o que foi plantado na barriga de Maria Moura por um bandido? Tchan-tchan-tchan-tchan. Se RF desse bobeira na minha frente naquela época, eu pegava.

Gosto muito das histórias de bastidores . Mandou muito bem!!!!
ResponderExcluirEsquece o Mário, ninguém mais lembra dele 🤣🤣🤣🤣🤣
Brasil, mostra sua cara ! Merci.
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