sábado, 3 de setembro de 2011

Adoro Filme-Pipoca!

Convenci a duras penas Bernardo Soares assistir comigo "Planeta Dos Macacos: A Origem" (de Rupert Wyatt, USA 2010).
Afirmava que não se sujeitaria a tamanho desprospósito - o que, imagine-se, dirão seus fiéis admiradores auferidos a custo, trabalho árduo e duras penas, ou  mesmo com que roupa? E também, que mania é esta de pagar para sonhar de olhos abertos quando a natureza nos legou a ancestralidade de fazê-lo espontaneamente dentro do mais absoluto livre-arbítrio ou mesmo induzido por alguma reflexão, criação ou ingênuo projeto de utopia revolucionária? E grátis! 
Mas, para atender ao meu pedido insistente de devoto e inconteste amigo, cedeu.

Depois da sessão, que assistiu de olhos arregalados, respiração entrecortada e alguma taquicardia, Surpresa! Acaso! ou - mãe de todas as disposições controversas do destino, Epifania! - não conseguiu conter o impulso de registrar algumas impressões advindas do tal despropósito, que a seguir reuni alguns fragmentos salvando-os de um longo e-mail que me enviou dois dias depois:

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(...) mas que a humanidade sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não é mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, parece-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fico, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

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Muitos têm definido o homem, e em geral o têm definido em contraste com os animais. Por isso, nas definições do homem, é frequente o uso da frase "o homem é um animal..." e um adjetivo, ou "o homem é um animal que ..." e se diz o que. "O homem é um animal doente" disse Rousseau, e em parte é verdade. "O homem é um animal racional" diz a Igreja, e em parte é verdade. "O homem é um animal que usa de ferramenta", diz Carlyle, e em parte é verdade. Mas estas definições e outras como elas, são sempre imperfeitas e laterais. E a razão é muito simples: não é fácil distinguir o homem dos animais, não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. As vidas humanas decorrem na mesma íntima inconsciência que as vidas dos animais. As mesmas leis profundas, que regem de fora os instintos dos animais, regem, também, de fora, a inteligência do homem, que parece não ser mais que um instinto em formação, tão inconsciente como todo instinto, menos perfeito porque ainda não formado.
"Tudo vem da sem-razão", diz-se na Antologia Grega. E, na verdade, tudo vem da sem-razão. Fora da matemática que não tem que ver senão com números mortos e fórmulas vazias, e por isso pode ser perfeitamente lógica, a ciência não é senão um jogo de crianças no crepúsculo, um querer apanhar sombras de aves e parar sombras de ervas ao vento.
E é curioso e estranho que, não sendo fácil encontrar palavras com que verdadeiramente se defina o homem como distinto dos animais, é todavia fácil encontrar maneira de diferençar o homem superior do homem vulgar.
Nunca me esqueceu aquela frase de Haeckel, o biologista, que li na infância da inteligência, quando se lêem as divulgações científicas e as razões contra a religião. A frase é esta, ou quase esta: que muito mais longe está o homem superior (um Kant ou um Goethe, cerio que diz) do homem vulgar que o homem vulgar do macaco. Nunca esqueci a frase porque ela é verdadeira. Enre mim, que pouco sou na ordem dos que pensam, e um camponês de Loures vai, sem dúvida, maior distância que entre este camponês e, já não digo um macaco, mas um gato ou um cão. Nenhum de nós, desde o gato até mim, conduz de fato a vida que lhe é imposta, ou o destino que lhe é dado; todos somos igualmente derivados de não sei quê, sombras de gestos feitos por outrem, efeitos encarnados, consequências que sentem. Mas entre mim e o camponês há uma diferença de qualidade, proveniente da existência em mim do pensamento abstracto e da emoção desinteressada; e entre ele e o gato não há, no espírito, mais que uma diferença de grau.
O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse "sei só que nada sei", e o estádio marcado por Sanches, quando disse "nem sei se nada sei". O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.
Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse "Conhece-te" propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que a Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscientemente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registro consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica da sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.
Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isso que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.
Ergo-me da cadeira de onde, fincado distraidamente contra a mesa, me entretive a narrar para mim estas impressões irregulares. Ergo-me, ergo o corpo nele mesmo, e vou até à janela, alta acima dos telhados, de onde posso ver a cidade ir a dormir num começo lento de silêncio. A lua, grande e de um branco branco, elucida tristemente as diferenças socalcadas da casaria. E o luar parece iluminar algidamente todo o mistério do mundo. Parece mostrar tudo, e tudo é sombras com misturas de luz má, intervalos falsos, desniveladamente absurdos, incoerências do visível. Não há brisa, e parece que o mistério é maior. Tenho náuseas no pensamento abstracto. Nunca escreverei uma página que me revele ou que revele alguma coisa. Uma nuvem muito leve paira vaga acima da lua, como um esconderijo. Ignoro como estes telhados. Falhei, como a natureza inteira.

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(...) A vida seria insuportável se tomássemos consciência dela. Felizmente o não fazemos. Vivemos com a mesma inconsciência que os animais, do mesmo modo fútil e inútil, e se antecipamos a morte, que é de supor, sem que seja certo, que eles não antecipam, antecipamo-la através de tantos esquecimentos, de tantas distracções e desvios, que mal podemos dizer que pensamos nela.
Assim, se vive e é pouco para nos julgarmos superiores aos animais. A nossa diferença deles consiste no pormenor puramente externo de falarmos e escrevermos, de termos inteligência abstracta para nos distrairmos de a ter concreta, e de imaginar coisas impossíveis. Tudo isso, porém, são acidentes do nosso organismo fundamental. O falar e escrever nada fazem de novo no nosso instinto primordial de viver sem saber como. A nossa inteligência abstracta não serve senão par fazer sistemas, ou ideias meio-sistemas, do que nos animais é estar ao sol. A nossa imaginação do impossível não é porventura própria, pois já vi gatos olhar para lua, e não sei se não a quereriam.
Todo mundo, toda a vida, é um vasto sistema de inconsciências operando através de consciências individuais. Assim como dois gases, passando por eles uma corrente eléctrica, se faz um líquido, assim como duas consciências - a do nosso ser concreto e a do nosso ser abstracto - se faz, passando por elas a vida e o mundo, uma inconsciência superior.
Feliz, pois, o que não pensa, porque realiza por instinto e destino orgânico o que todos nós temos que realizar por desvio ou destino inorgânico ou social. Feliz oque mais se assemelha aos brutos, porque é sem esforço o que todos nós somos com trabalho imposto; porque sabe o caminho de casa, que nós outros não encontramos senão por atalhos de ficção e regresso; porque, enraizado como uma árvore, é parte da paisagem e portanto da beleza, e não, como nós, mitos da passagem, figurantes de trajo vivo da inutilidade e do esquecimento.


domingo, 21 de agosto de 2011

Cinema "Global"


Veja.com
Coluna de Isabela Boscov

22/07/2011
 às 21:42 \ Cinema

Assalto ao Banco Central

Isabela Boscov fala sobre o filme que tenta reconstituir o maior assalto a um banco brasileiro. ‘Assalto ao Banco Central’ é baseado no episódio  em que R$ 164,7 milhões foram furtados por uma quadrilha em Fortaleza em 2005, sem disparar nenhum tiro. Com: Milhem Cortaz, Hermila Guedes, Lima Duarte, Giulia Gam, Eriberto Leão, Gero Camilo, Cássio Gabus Mendes, Milton Gonçalves, Tonico Pereira, Vinícius de Oliveira e Antônio Abujamra. Direção de: Marcos Paulo

15 Comentários

      Danilo Gomes da Silva - 20/08/2011 às 21:58
      Seu comentário está aguardando moderação
      Todos este filmes macaqueados pela visão “global” de cinema que aqueles diretores de lá têm, são a mais completa tradução da inadimplência criativa e da falta de assunto com recursos de produção no bolso e azeitamento perfeito da caixa registradora. Só que na maioria das vezes o tiro sai pela culatra e quem se vê assaltado é o cinéfilo que ainda procura caminhos consistentes no cinema brasileiro, agora completamente perdido neste formato de novela, de interpretações chapadas e mal ajambradas que se vê no dia-a-dia das tramas folhetinescas. O filme americano citado é muito bom dentro do que se propõe, mas este em questão é uma perda de tempo e desperdício de alguns talentos que ali estão envolvidos, completamente deslocados.
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      Comentário do leitor no site RioShow do Jornal O Globo a respeito do "filme" "Cilada.com"
      neuzinha bezerra da selva 
      nb.zerra@hotmail.com
      18:08h | 18.ago.2011
      E depois dizem que isto é cinema brasileiro
      Perdi meu tempo e dinheiro (se fosse 0,10 centavos já seria uma aberração pagos para esta mixórdia televisiva de oitava categoria) para ver o que há num "filme" que arrecada muito dinheiro em semana de estréia e com o bonequinho dormindo na crítica. Trata-se de uma contrafação do que há de pior do humor desclassificado veiculado na televisão, apelativo à indigência educacional e cultural dos seres mesmerizados que aquele veículo escraviza, somados à falta de talento, expressividade e profissionalismo de José Alvarenga e Bruno Mazzeo, uma súmula desta aberração a que estamos atualmente expostos, este fenômeno caça-níqueis que todos reverenciam em busca do dinheiro fácil e rasteiro chamado Globo Filmes. Muitos se arvoram qualificando isto de boa fase do cinema brasileiro de comédia, mas sinceramente, tudo em "Cilada.com" faz chorar de indignação.
      pedro paulo machado bastos 
      10:53h | 13.jul.2011
      Decepcionante
      Assisto o Cilada desde a sua fase inicial, em 2006, ainda no Multishow, onde o seriado conseguiu obter reconhecimento pelo seu humor inteligente e cosmopolita. Vibrei com o sucesso do Bruno Mazzeo, com o lançamento dos DVDs, o quadro no Fantástico e com o filme... Mas... Confesso que fiquei decepcionado com o filme. O roteiro abordado foi totalmente de encontro com o que a série tinha de melhor, que era fazer rir sem, necessariamente, apelar. Todas as piadas de Cilada.com envolvem sexo, sacanagem, pornografia, palavrões e cenas de humor duvidoso, como o nu de Serjão Loroza. Mesmo que engraçado em algumas poucas partes, Cilada.com é muito apelativo e clichê, voltado para o público teen e/ou o masculino entre 25 e 40 anos. No cinema em que assisti (Kinoplex Leblon), casais de idosos saíam constrangidos no meio do filme justamente pela falta de equilíbrio entre piada e baixaria. Bruno Mazzeo e seus roteiristas parecem ter resolvido focar no retorno financeiro das bilheterias em detrimento da qualidade de produção que tanto 
      leoparente 
      leopmsantos@yahoo.com.br
      16:43h | 08.jul.2011
      MEDÍOCRIDADE
      O filme é muito ruim. Nosso país atualmente só produz estas porcarias. Peço que os produrores, diretor e atores vejam mais filmes dos nossos hermanos. O cinema argentino dá um banho neste "cinema novo". Vejam por favor estes filmes argentinos: ABUTRES, O HOMEM DO LADO E SEM RETORNO. Parem de produzir filmes como esta porcaria.com. Esse Bruno Mazeo é MEDÍOCRE!!!!!!! 

sábado, 20 de agosto de 2011

Deu no JB em 20 de Agôsto de 2011


País - Sociedade Aberta

Milagre, antropogenia e cientificismo

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum
A questão da ciência - seus limites e critérios - está sempre voltando à pauta jornalística. Artigos recentes lembraram a perseguição que cientistas americanos vêm sofrendo por acharem resultados que às vezes contrariam expectativas populares no caso de novas evidências surgidas contra a hipótese do aquecimento global.
Há quem ache que a ciência fará milagres. A tradução deste termo nos remete a múltiplos significados etimológicos. Mas o fato é que sempre que um extraordinário acontece, recorremos à palavra.  O milagre é, provavelmente, muito mais banal que supomos. Seriam as marcas de um acontecimento extraordinário, transcendente? A natureza do milagre, vale dizer, seu propósito, é exatamente forçar-nos a admitir que há algo além, muito adiante da curva do insondável. Talvez o que não dominamos, ou nem sonhamos em conquistar: o inexplicável.  Exatamente tudo aquilo que nestes estertores de pós-modernidade não nos é mais permitido.
Por isso vê-se necessário explicitar a diferença entre atitude científica e cientificismo. Na inquietude científica, encontramos os autênticos elementos de  ética e recato que pesquisas e pesquisadores devem ter: a cadência da humildade, a suavidade mental para admitir que há, inclusive, mais segredos que explicações, o respeito pelo contraditório e inacabado. Enquanto isso, na outra ponta, o cientificismo tornou-se uma seita: adota uma percepção seletiva, determinista, às vezes dogmática e descontextualizada.
O milagre é lugar-comum, porque não é difícil verificar que o comum contém o milagroso.  Acontece bem na soleira das nossas portas ou aqui mesmo, dentro de cada organismo.  A respiração e as trocas gasosas de captação de oxigênio e eliminação de CO2 (gás carbônico) são milagres que acontecem 31 vezes por minuto. A manutenção da temperatura corporal humana de 36,8 graus (em média), mesmo quando há frio e calor excessivo, também poderia figurar nesta categoria. É a homeostasia - uma excepcional constatação do médico fisiologista Walter Bradford Cannon nos anos 30 - a capacidade de nos manter razoavelmente estáveis em um meio altamente instável. Os pequenos milagres, ou sinais de vida, têm uma constância absurda, e faz bem alguma humildade para não atribuir tudo ao acaso.
Afinal, muitas coisas que estamos tentando curar com a tecnociência nossa de cada dia - entre as quais a destruição da biosfera, a desclimatização do planeta, as patologias provocadas por radiações ionizantes, a explosão de moléstias neuro-degenerativas, a farinização e industrialização dos alimentos - são enfermidades artificiais, produzidas por nossas próprias decisões e meios de vida. As modificações que o homem introduz no meio ambiente são conhecidas como antropogenias.
Ao mesmo tempo, deparamos com um avanço das ciências aplicadas, tanto espetacular como perturbador. Há confiança excessiva no domínio frágil, se não perigoso, da própria natureza.  Isso se alastra por todos os cantos, da medicina à astronomia, da física à biologia. Mas essa inflação do papel da ciência nas nossas vidas embute um impasse, já que ele não nos torna automaticamente aptos para assumir, nem a compreensão nem a onisciência prometida.
O inconcebível avanço da tecnociência é um marco da capacidade humana, mas seu uso, e preço, pouco razoáveis. Podemos enxergar o tamanho do exagero? O endosso generalizado e acrítico com que passivamente aceitamos todos esses instrumentos e artefatos?
Escancaramos as porteiras da medicalização da vida e fomos um pouco adiante: a cientifização da existência.
Por isso é salutar provocar com o desconhecido. Acreditemos ou não nele, os  milagres evidenciam desafios. E o desafio não é só seguir adiante num mundo fraturado, com as tradições, todas elas, em frangalhos. Estamos em plena era dos descartes - prematuros e erráticos - das necessidades subjetivas, do mundo interior, da arte e da filosofia como forma de vida (ou de morte).  Mergulhamos no pragmatismo cru, nas hiper-racionalizações que bloqueiam a vida, quando na verdade a vida e a saúde são a regra, as anomalias e as doenças, dolorosas exceções.
O desafio agora é autocrítico, e, eventualmente, considerar retroceder, como fez recentemente a Alemanha ao dizer não às centrais nucleares.  E por que não voltar passos atrás? Diante da extensão do incognoscível precisamos reconhecer a extensão da arrogância e a soberba intelectual que nos possuiu. Possuiu-nos frente ao que não sabemos nem controlamos.  O homem pode produzir milagres - e o fará cada vez mais - assim a ciência demonstra. E é bom que seja assim.
Vibraríamos todos com tetraplegias curadas com elétrodos, e quando nossos recursos tivessem se esgotado seria absolutamente genial acompanhar exércitos de robôs extraindo água de asteroides congelados. O inconcebível é imaginar um domínio arrogante, que despreza os efeitos colaterais das interferências: aí está a sobrenatural empáfia do cientificismo.
Sempre me interessei por robôs, mas também sempre lamentei que eles, ao menos nas ficções, acabem se insurgindo contra seus criadores: foi assim em 2001, Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke, e se repetiu em Eu, robô, de Isaac Asimov. Não é só uma ética duvidosa, em uma palavra, ingratidão, esta das máquinas. As referências são oportunas para mostrar que, tal qual velhos robôs, também podemos nos enganar. É possível até prescindir de atribuir uma autoria ao Cosmos e substituí-la por esse androide mítico chamado tecnologia. Se é essa é a grande revolução do século 21, ficamo-la devendo às próximas gerações.
*Paulo Rosenbaum é médico, Phd. e pós-doutor pela USP, poeta e escritor.

domingo, 14 de agosto de 2011

Excertos do Livro Do Desassossego de Bernardo Soares (Fernando Pessoa)


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Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.                                                 Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular - jardim público ao quase crepúsculo -, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que o cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.


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Há muito tempo não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.                                
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.                              
Há muito tempo que não existo. 
Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passante, e vejo que, sobre a encosta do castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.             Há muito que não sou eu.


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Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos outros para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso.                
Estamos todos habituados a considerar-nos como primordialmente realistas mentais, e aos outros directamente como realidades físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos dos outros; vagamente consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os outros têm sobretudo alma, como para nós. Perco-me por isso numa espécie de imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é minha voz, que tipo de figura deixo escrito na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. 
Era preciso outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de saber o que sou do lado de lá, pois queira o que queira, grave-se o que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos de minha consciência de mim. Não sei se os outros serão assim, se a ciência da vida não consistirá essencialmente em ser tão alheio a si mesmo que instintivamente se consegue um alheamento e se pode participar da vida como estranho à consciência; ou se os outros, mais ensimesmados do que eu, não serão de todo a bruteza de não serem senão eles, vivendo exteriormente por aquele milagre pelo qual as abelhas formam sociedades mais organizadas que qualquer nação, e as formigas comunicam entre si com uma fala de antenas mínimas que excede nos resultados a nossa complexa ausência de nos entendermos.                  
A geografia da consciência da realidade é de uma grande complexidade de costas, acidentadíssima de montanhas e lagos e tudo me parece, se medito de mais, uma espécie de mapa como o do "Pays du Tendre" ou das "Viagens de Gulliver", brincadeira da exactidão inscrita num livro irônico ou fantasista para gáudio de entes superiores, que sabem onde é que as terras são terras. Tudo é complexo para quem pensa, e sem dúvida o pensamento o torna mais complexo por volúpia própria. Mas quem pensa tem a necessidade de justificar sua abdicação com um vasto programa de compreender, exposto, como as razões dos que mentem, com todos os pormenores excessivos que descobrem, com o espalhar da terra, a raiz da mentira.           
Tudo é complexo, ou sou eu que o sou. Mas, de qualquer modo, não importa porque, de qualquer modo nada importa. Tudo isto, todas estas considerações da rua larga, vegeta nos quitais dos deuses exclusos como trepadeiras longe das paredes. E, sorrio, na noite na noite em que concluo sem fim estas considerações em engrenagem, da ironia vital que as faz surgir de uma alma humana, órfã, de antes dos astros, das grandes razões do Destino.


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Deus crou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez, que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa unem-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.


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O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria e esta expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a intersecção de três linhas, e essas linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo como a interpretamos, e o ambiente em que está. Esta mesa, a que estou escrevendo, é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste quarto. A minha impressão desta mesa, se a quiser trancrever, terá de ser composta das noções de que ela é de madeira, de que eu chamo àquilo uma mesa e lhe atribuo certos usos e fins, e de que nela se reflectem, nela se inserem, e a transformam, os objetos em cuja justaposição ela tem alma externa, o que lhe está posto em cima. E a própria cor que lhe foi dada, o desbotamento dessa cor, as nódoas e partidos que tem - tudo isso, repare-se, lhe veio de fora, e é isso que, mais que a sua essência de madeira, lhe dá a alma. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora, que é a personalidade.
Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir almas às coisas que chamamos inanimadas. Ser uma coisa é ser objeto de uma atribuição. Pode ser falso dizer que uma árvore sente, que um rio "corre", que um poente é magoado ou o mar calmo (azul pelo céu que não tem) é sorridente (pelo sol que lhe está fora). Mas igual erro é atribuir beleza a qualquer coisa Igual erro é atribuir cor, porventura até ser, a qualquer coisa. Este mar é água salgada. Este poente é começar a faltar a luz do sol nesta latitude e longitude. Esta criança, que brinca diante de mim, é um amontoado intelectual de células - mais, é uma relojoaria de movimentos subatómicos, estranha conglomeração de milhões de sistemas solares em miniatura mínima.
Tudo vem da fora e a mesma alma não é porventura o mesmo raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.
Nestas considerações está porventura toda uma filosofia, para quem pudesse ter a força de tirar conclusões. Não a tenho eu, surgem-me atentos pensamentos vagos, de possibilidades lógicas, e tudo se me esbate numa visão de um raio de sol dourando estrume como palha escura humildemente amachucada, no  chão quase negro ao pé de um muro de pedregulhos.
Assim sou. Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha alma, fico de repente parado, esquecido, no começo do espiral da escdada profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva o aglomerado difuso dos telhados.    


sábado, 30 de julho de 2011

Deu no Bobo


Arte, democracia e a censura a 'A Serbian Film'

Por Cezar Migliorin
Fomos surpreendidos semana passada com a proibição de exibição do filme de ficção “A Serbian Film — Terror sem limites”, de Srdjan Spasojevic, um filme ao qual eu não dedicaria nenhuma linha, não fosse esse evento. A proibição nos joga para uma época em que cabia aos mais diversos poderes — os mais ricos, mais fortes, mais velhos — definir as imagens que poderiam fazer parte da comunidade e aquelas que não poderiam. A escolha das “boas imagens” visava proteger a comunidade impedindo que certas ideias circulassem. Para que esses poderes pudessem assim operar, eles deveriam partir de um desequilíbrio essencial entre aqueles que sabiam julgar as imagens — religiosos, juízes, políticos — e a massa incapaz de fazer uso das imagens. O filósofo francês Jacques Rancière chamou esse tipo de inscrição das imagens na comunidade de um regime ético das imagens. Nesse regime, a noção de arte, criação, invenção não poderia existir ou, pelo menos, não poderia ter nenhuma relevância posto que a pertinência das imagens não se fazia em relação à sua capacidade inventiva ou representacional, mas em relação às crenças da comunidade, ao ethos. Sem a ficção, a imagem é um duplo do evento, ou seja, o evento novamente. Fica claro que nesse regime, sem a ficção, toda imagem que esteja em desacordo com o que desejam os poderes instalados deve ser eliminada.
Em nossa comunidade — Brasil, século XXI — nos organizamos de forma diferente. Trabalhamos com a noção de arte e de ficção, fazendo com que não existam mais os temas que podem ou não fazer parte da criação artística, os assuntos que podem ser representados e os que não podem. Se isso não está claro para o senso comum, está explicito na Constituição. No inciso IX do artigo 5 lemos o seguinte: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Rancière poderia dizer que a constituição brasileira se filia a um regime estético das imagens.
No campo estético, imagem é uma forma de reflexão sobre o real

Do regime ético à forma que entendemos as imagens hoje há a introdução da variável ficcional e estética, operando uma mudança decisiva. A imagem deixa de ser a coisa em si, para ser uma forma de reflexão da sociedade sobre o que nela existe. Sejamos contra ou a favor, não podemos impedir que a ficção exista nesses termos, com essa liberdade.
Nossa comunidade, entretanto, proíbe certas práticas: assassinatos, roubos, pornografia infantil, etc. Sendo assim, a proibição do longa-metragem de ficção da Sérvia só poderia ser feita caso ele fosse em si um crime. Caso, por exemplo, houvesse uma cena real de pedofilia, o que não é o caso. Entretanto, o filme foi proibido.
Dizendo-se apoiado no Estatuto da Criança e do Adolescente, o advogado do DEM fez uma leitura do Estatuto como se vivêssemos em um regime em que os poderes devessem julgar as imagens que servem e as que não servem para a comunidade. Como se o partido fosse responsável pela proteção dos incultos indefesos que não têm condições de julgar o que veem e ouvem. A desembargadora de plantão construiu seu parecer dentro do mesmo pressuposto e, rompendo um princípio fundamental da democracia que diz que todos têm igualdade de condições para entender e criticar o mundo, impediu a exibição do filme.
Segundo o Art. 241-C do ECA, é proibido “Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual.” Se ignorarmos que as representações visuais fazem parte de uma comunidade em que existe arte e ficção, poderíamos facilmente interpretá-lo como fez a desembargadora e o DEM. Mas é certo que para entender a noção de simulação que está no Estatuto não podemos abandonar a própria comunidade em que o Estatuto foi feito, o Brasil e a sua Constituição.
Nesse sentido, um outro trabalho de interpretação parece necessário. A simulação incide aqui sobre a ideia de parecer real o que é montado, ou seja, dar a impressão de verdade onde há ficção, efetuando, pela montagem, uma falsa impressão de que um crime existiu. No registro ficcional, simular que alguém presenciou um determinado evento é um artifício amplamente utilizado, entretanto algo antecede essa simulação, que é o pacto com o espectador de que aquilo não existiu. No pacto ficcional não há simulação, no sentido de fingimento, apenas uma insinuação sem que o crime se efetive e sem que se possa ter a impressão de que houve crime. No filme em questão, não só não houve crime como a impressão de ter havido crime é restrita ao universo da ficção. Na ficção, a montagem não simula para apagar os limites entre o que é construído como ficção e o que se efetiva na realidade. O estatuto da ficção antecede a impressão de que a criança participou da cena e qualquer público adulto é capaz de compartilhar esse regime de imagens. Entendemos que quando alguém morre em um filme ele não morreu na vida real.
Justiça e DEM querem decidir o que deve ou não ser visto por nós

Chegamos assim ao ponto central de meu argumento. Como sabemos que nenhuma criança foi exposta a situações que a aviltasse, não é tarefa da lei julgar se alguns indivíduos têm ou não a capacidade de lidar com imagens que insinuem pedofilia, como fez a desembargadora ao dizer: “Não se pode admitir e permitir que, em nome da liberdade de expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive, utilizando recém natos, sejam levadas ao grande público, vez que possam provocar reações adversas, às vezes em cadeia, em pessoas sem equilíbrio emocional e psíquico adequado para suportar tais evidências de desumanidade.”
O texto da desembargadora evidencia um neoplatonismo em que as paixões e as emoções são afetos grandes demais para ficarem nas mãos de artistas e espectadores, por isso devem ser controlados por quem entende o que é bom para a sociedade: a Justiça e o DEM. Trata-se de uma decisão que pode ser ótima para uma comunidade em que as imagens devem guardar continuidade com a vida religiosa ou cívica, mas não para o Brasil. Aqui a liberdade artística é parte do princípio democrático, não somente porque para a arte não há limites entre o que pode ou não ser abordado pelas obras, como não autorizamos nenhum poder a decidir quais são as imagens que devem circular.
Pedofilia, no final das contas, não está em questão nesse caso, mas uma tentativa autoritária em que alguns pretendem dizer o que deve e o que não deve ser visto por nós, pobre massa indefesa. Isso tem um nome: censura. Não, obrigado.
CEZAR MIGLIORIN é professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Chico Buarque descobrindo pela internet que também é odiado. Deu no Estadão

Rio, 24 de Março de 2012, quase um ano depois.
Surpreendente os acessos a este post, que ratificam sua atualidade: a igrejinha buarca escandalizada e revoltada com tamanho rombo em sua burra unanimidade. 
O primeiro irmão da cultura também não engana 100% 
e seus prêmios atravessados politicamente refletem as mazelas do circuitinho oficioso desta mesmice atual que  atende como mpb: mumias ressequidas e robôs teleguiados amorfos.

01/07/2011 - 10:35
Enviado por: Danilo Gomes da Silva
Chato demais. 
Sempre pareceu velho cantando, mesmo quando era moço, aquela vozinha de velha coroca igual à do Caetano Veloso. Eu escutava aquilo, comparava com os antigos discos do meu pai e me perguntava se o ouvinte brasileiro estava condenado a ser sempre jeca daquele jeito. Só fez copiar os músicos que vieram antes dele. Em plena era da eclosão do rock deflagrando uma revolução musical e comportamental no planeta, foi um retrocesso o aparecimento de um jovem como aquele, engomadinho, com cara de elite, cantando aquelas musiquinhas batidas e aquelas poesias conformistas e cafonas. O público, como sempre, se acostumou àquilo, mas parece que ele deve ter começado a beber e aí, sim, tentou uma guinada contestadora. Mas suas bases intelectuais sempre foram elitistas e nunca o permitiram tirar o pé da lama enfeitada que o sustentou. Suas comunistices são todas de fachada, assim como costumam ser todos os brasileiros desta falange, que só fizeram exercer a repressão cultural sobre a juventude de forma a mantê-la sob o cabresto ideológico que os permitiram tirar dividendos e fazer proselitismo de suas diatribes contra a ditadura. No fundo são todos farinhas do mesmo saco jogando a mesma partida, um sustentando o outro, e todos na corrida do ouro. Até hoje. E vamos continuar escutando estas lamúrias cada vez mais anêmicas, amorfas, em forma de música. As solteironas, as psicólogas, intelectuais sem praia na pele, sem suingue nas cadeiras, as mal-amadas, as mal-casadas e todas as correligionárias, agradecem este alento. Haja saco. A ala das múmias do Museu Nacional está se preparando para a chegada de grande quantidade de compositores da MPB que em breve abarrotarão aqueles sinistros aposentos. E já terão ido tarde.