Convenci a duras penas Bernardo Soares assistir comigo "Planeta Dos Macacos: A Origem" (de Rupert Wyatt, USA 2010).
Afirmava que não se sujeitaria a tamanho desprospósito - o que, imagine-se, dirão seus fiéis admiradores auferidos a custo, trabalho árduo e duras penas, ou mesmo com que roupa? E também, que mania é esta de pagar para sonhar de olhos abertos quando a natureza nos legou a ancestralidade de fazê-lo espontaneamente dentro do mais absoluto livre-arbítrio ou mesmo induzido por alguma reflexão, criação ou ingênuo projeto de utopia revolucionária? E grátis!
Afirmava que não se sujeitaria a tamanho desprospósito - o que, imagine-se, dirão seus fiéis admiradores auferidos a custo, trabalho árduo e duras penas, ou mesmo com que roupa? E também, que mania é esta de pagar para sonhar de olhos abertos quando a natureza nos legou a ancestralidade de fazê-lo espontaneamente dentro do mais absoluto livre-arbítrio ou mesmo induzido por alguma reflexão, criação ou ingênuo projeto de utopia revolucionária? E grátis!
Mas, para atender ao meu pedido insistente de devoto e inconteste amigo, cedeu.
Depois da sessão, que assistiu de olhos arregalados, respiração entrecortada e alguma taquicardia, Surpresa! Acaso! ou - mãe de todas as disposições controversas do destino, Epifania! - não conseguiu conter o impulso de registrar algumas impressões advindas do tal despropósito, que a seguir reuni alguns fragmentos salvando-os de um longo e-mail que me enviou dois dias depois:
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(...) mas que a humanidade sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não é mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, parece-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fico, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.
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Muitos têm definido o homem, e em geral o têm definido em contraste com os animais. Por isso, nas definições do homem, é frequente o uso da frase "o homem é um animal..." e um adjetivo, ou "o homem é um animal que ..." e se diz o que. "O homem é um animal doente" disse Rousseau, e em parte é verdade. "O homem é um animal racional" diz a Igreja, e em parte é verdade. "O homem é um animal que usa de ferramenta", diz Carlyle, e em parte é verdade. Mas estas definições e outras como elas, são sempre imperfeitas e laterais. E a razão é muito simples: não é fácil distinguir o homem dos animais, não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. As vidas humanas decorrem na mesma íntima inconsciência que as vidas dos animais. As mesmas leis profundas, que regem de fora os instintos dos animais, regem, também, de fora, a inteligência do homem, que parece não ser mais que um instinto em formação, tão inconsciente como todo instinto, menos perfeito porque ainda não formado.
"Tudo vem da sem-razão", diz-se na Antologia Grega. E, na verdade, tudo vem da sem-razão. Fora da matemática que não tem que ver senão com números mortos e fórmulas vazias, e por isso pode ser perfeitamente lógica, a ciência não é senão um jogo de crianças no crepúsculo, um querer apanhar sombras de aves e parar sombras de ervas ao vento.
E é curioso e estranho que, não sendo fácil encontrar palavras com que verdadeiramente se defina o homem como distinto dos animais, é todavia fácil encontrar maneira de diferençar o homem superior do homem vulgar.
Nunca me esqueceu aquela frase de Haeckel, o biologista, que li na infância da inteligência, quando se lêem as divulgações científicas e as razões contra a religião. A frase é esta, ou quase esta: que muito mais longe está o homem superior (um Kant ou um Goethe, cerio que diz) do homem vulgar que o homem vulgar do macaco. Nunca esqueci a frase porque ela é verdadeira. Enre mim, que pouco sou na ordem dos que pensam, e um camponês de Loures vai, sem dúvida, maior distância que entre este camponês e, já não digo um macaco, mas um gato ou um cão. Nenhum de nós, desde o gato até mim, conduz de fato a vida que lhe é imposta, ou o destino que lhe é dado; todos somos igualmente derivados de não sei quê, sombras de gestos feitos por outrem, efeitos encarnados, consequências que sentem. Mas entre mim e o camponês há uma diferença de qualidade, proveniente da existência em mim do pensamento abstracto e da emoção desinteressada; e entre ele e o gato não há, no espírito, mais que uma diferença de grau.
O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse "sei só que nada sei", e o estádio marcado por Sanches, quando disse "nem sei se nada sei". O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.
Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse "Conhece-te" propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que a Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscientemente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registro consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica da sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.
Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isso que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.
Ergo-me da cadeira de onde, fincado distraidamente contra a mesa, me entretive a narrar para mim estas impressões irregulares. Ergo-me, ergo o corpo nele mesmo, e vou até à janela, alta acima dos telhados, de onde posso ver a cidade ir a dormir num começo lento de silêncio. A lua, grande e de um branco branco, elucida tristemente as diferenças socalcadas da casaria. E o luar parece iluminar algidamente todo o mistério do mundo. Parece mostrar tudo, e tudo é sombras com misturas de luz má, intervalos falsos, desniveladamente absurdos, incoerências do visível. Não há brisa, e parece que o mistério é maior. Tenho náuseas no pensamento abstracto. Nunca escreverei uma página que me revele ou que revele alguma coisa. Uma nuvem muito leve paira vaga acima da lua, como um esconderijo. Ignoro como estes telhados. Falhei, como a natureza inteira.
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(...) A vida seria insuportável se tomássemos consciência dela. Felizmente o não fazemos. Vivemos com a mesma inconsciência que os animais, do mesmo modo fútil e inútil, e se antecipamos a morte, que é de supor, sem que seja certo, que eles não antecipam, antecipamo-la através de tantos esquecimentos, de tantas distracções e desvios, que mal podemos dizer que pensamos nela.
Assim, se vive e é pouco para nos julgarmos superiores aos animais. A nossa diferença deles consiste no pormenor puramente externo de falarmos e escrevermos, de termos inteligência abstracta para nos distrairmos de a ter concreta, e de imaginar coisas impossíveis. Tudo isso, porém, são acidentes do nosso organismo fundamental. O falar e escrever nada fazem de novo no nosso instinto primordial de viver sem saber como. A nossa inteligência abstracta não serve senão par fazer sistemas, ou ideias meio-sistemas, do que nos animais é estar ao sol. A nossa imaginação do impossível não é porventura própria, pois já vi gatos olhar para lua, e não sei se não a quereriam.
Todo mundo, toda a vida, é um vasto sistema de inconsciências operando através de consciências individuais. Assim como dois gases, passando por eles uma corrente eléctrica, se faz um líquido, assim como duas consciências - a do nosso ser concreto e a do nosso ser abstracto - se faz, passando por elas a vida e o mundo, uma inconsciência superior.
Feliz, pois, o que não pensa, porque realiza por instinto e destino orgânico o que todos nós temos que realizar por desvio ou destino inorgânico ou social. Feliz oque mais se assemelha aos brutos, porque é sem esforço o que todos nós somos com trabalho imposto; porque sabe o caminho de casa, que nós outros não encontramos senão por atalhos de ficção e regresso; porque, enraizado como uma árvore, é parte da paisagem e portanto da beleza, e não, como nós, mitos da passagem, figurantes de trajo vivo da inutilidade e do esquecimento.

Obrigada Danilowsky querido! beijo e carinho, Lili
ResponderExcluirA razão é o que nos diferencia dos animais?
ResponderExcluirE a alma: será que os animais também não a têm? E que tipo de alma teriam os animais?
Eles possuem razão ou são, ao contrário, autômatos biológicos? Têm direitos em relação a nós ou simplesmente temos deveres em relação a eles?
A razão pode não ser o ser do universo como apregoam, mas ao contrário, apenas o ser do cérebro humano.Parece também ser a essência do pensamento humano; pior ainda, a essência de apenas uma tendência do pensamento humano.
A razão é a essência de um certo domínio do pensamento humano.
Não dá para desconfiar que seres humanos, uma bela e considerável parcela da vida humana,
para se qualificar como decodificadores da essência de Deus ... precisem estudar tanto?
Se houvesse uma posição da qual a razão pudesse atacar e destronar a si mesma, ela já teria ocupado essa posição.De outra maneira não seria total.
Nos velhos tempos, a voz do homem, elevando-se à altura da razão, confrontava-se com o rugir do leão, com o mugir do touro.O homem guerreou o leão e o touro, e, depois de muitas gerações, venceu definitivamente essa guerra.
Hoje essas criaturas não têm mais poder.
Aos animais só restou seu SILÊNCIO para nos confrontar.Geração após geração, heroicamente, nossos cativos se recusaram a falar conosco.
Mas continuamos a compartilhar a vida, nas qualidades de estar e de ser.
Por exemplo, ser um morcego vivo é estar cheio de ser.Ser plenamente morcego é igual a ser plenamente humano, o que quer dizer estar cheio de ser.Estar cheio de ser é viver como corpo-alma.
Nosso nome para a experiência de ser pleno é ALEGRIA.
Estar vivo é ser uma alma viva.
Um animal - e somos todos animais - é uma alma inserida num corpo.
Ao ato de pensar, à cogitação, precisamos opor a plenitude, a corporalidade, a sensação de ser
- não uma consciência de si mesmo como uma espécie de fantasmagórica máquina raciocinante pensando pensamentos - mas, ao contrário, a sensação - uma sensação pesadamente afetiva - de ser um corpo com membros que têm uma extensão no espaço,de se estar vivo no mundo.
Prezado sr. danilogo:
ResponderExcluirEstando aqui confortavelmente instalado além deste seu insensato mundo, ao lado de colegas que aqui inevitavelmente vieram juntar-se a mim, eis que a presidenta do Brasil, Dilma Roussef, mandou, a título de experiência e para aprovação e posterior distribuição nas escolas públicas daquele país, várias caixas de tablets lá fabricados com incentivos fiscais nunca dantes navegados. Através dessas simpáticas tabuletas eletrônicas tomei conhecimento do seu tão concorrido blog deparando-me com grande susto, como na minha pregressa vida terrena frente a um espelho, com as divagações deste seu amigo português Bernardo Soares, incontestavelmente inspiradas em alguns conceitos filosóficos registrados por mim no final dos anos 1500 da comédia da humanidade, a saber:
DA DESIGUALDADE QUE EXISTE ENTRE NÓS
Plutarco diz em algum lugar que não observa entre um animal e outro distância tão grande como encontra entre um homem e outro. Está falando da capacidade (do valor) da alma e de qualidades (faculdades boas ou más) interiores. Na verdade, observo tanta distância de Epaminondas, como a imagino, até alguém que conheço, quero dizer capaz de senso comum, que de bom grado eu iria além de Plutarco e diria que há mais distância entre tal e tal homem do que há entre tal homem e tal animal, ou seja, o mais excelente animal está mais próximo do homem da mais baixa escala do que esse homem está próximo de um outro homem grande e excelente. Mas (...)
E que há tantos graus de espíritos quantas braças há daqui ao céu, e igualmente inumeráveis.
Mas, a propósito da avaliação dos homens, é espantoso que, EXCETO NÓS, todas as coisas sejam avaliadas tão-somente por suas qualidades. Elogiamos um cavalo porque é vigoroso e ágil (...) e não pelos arreios; um galgo por sua velocidade, não pela coleira; um pássaro pela envergadura e não por suas correias e sinetas. Por que da mesma forma não avaialmos um homem pelo que é propriamente seu? Ele tem um alto trem de vida, um belo palácio, tanto de crédito, tanto de renda: tudo isto está ao redor dele e não NELE. Não comprais nabos em saco. Se negociais um cavalo, vós lhe retirais o arreamento, o olhais nu e a descoberto.; ou, se estiver coberto, como outrora eram apresentados aos príncipes para venda, é nas partes menos necessárias, para não vos distrairdes com a beleza de seu pelo ou a largura de suas ancas e vos deterdes principalmente em examinar as pernas, os olhos e a pata, que são os membros mais úteis.
(...)
Por que ao avaliar um homem, o avaliais totalmente recoberto e empacotado? Ele nos exibe apenas as partes que não são suas, e oculta-nos as únicas pelas quais podemos realmente julgar sobre sua valia. O que buscais é o valor da espada, não da bainha; talvez não désseis um vintém por ele, se o tivésseis desnudado. É preciso julgá-lo por si mesmo, não por seus adereços. E como diz muito jocosamente um antigo: "Sabeis por que o julgais grande? Estás incluindo a altura de seus sapatos". O pedestal não é a estátua. Medi-o sem suas andas: que ele ponha de lado suas riquezas e honrarias, que se apresente de camisa. Tem ele o corpo adequado para as suas funções, sadio e alegre? Que alma tem ele? É bela, capaz e prefeitamente provida de todas as suas partes? É rica do que é seu ou do de outrem? A fortuna tem a ver? Se ela espera de olhos abertos as espadas desembainhadas; se não lhe importa por onde lhe foge a vida, pela boca ou pela garganta; se é calma, estável e contente: é isso que devemos olhar, e por aí julgar sobre as diferenças extremas que existem entre nós.
(...)
Vovô:
ResponderExcluirO Australopithecus sediba, descoberto em 2008, pode ser o ancestral direto do gênero Homo. É o que afirmam pesquisadores da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, e da Universidade de Zurique, na Suíça, depois que análises de ossos fossilizados de pré-humanos encontrados em Malapa – um sítio ao norte de Joanesburgo, na África do Sul -, revelaram uma idade de 1,98 milhão de anos. Ele é velho suficiente para ter dado origem ao Homo erectus — que viveu há 1,9 milhão de anos — espécie que é aceita pelos paleoantropólogos como ancestral direto do gênero humano.
Evidências
Por que o Australopithecus sediba pode ser o ancestral direto do gênero Homo:
• Cérebro - A região do polo frontal e a área do bulbo olfatório são semelhantes aos de humanos. Isso pode indicar que a reorganização dos neurônios observada em espécies Homo pode ter ocorrido antes do aumento do cérebro.
• Mãos – Dedos menores, mas polegares longos. Além disso, um metacarpo (a parte da mão anterior aos dedos) robusto. Por essas características, o exemplar teria condições de usar ferramentas com mais facilidade até do que o Homo habilis – considerada a primeira espécie a dominar instrumentos -, primeiro representante do gênero Homo. Ao mesmo tempo, demonstra habilidades especiais para escalar árvores.
• Pelve (bacia) – Antes, acreditava-se que o aumento da pelve estava associada ao nascimento de indivíduos com cérebros maiores. Mas o espécime apresenta uma pelve bastante desenvolvida, sugerindo que o bipedismo mudou essa estrutura antes do aumento no volume cerebral.
A equipe descobriu que o Australopithecus sediba reúne várias características que não são observadas em outros possíveis ancestrais do gênero humano. O fóssil mostra um cérebro surpreendentemente moderno – ainda que pequeno – , mãos desenvolvidas com polegares longos, uma pelve muito parecida com a de humanos e formato de pés e tornozelos misturando traços humanos e primatas. Diante das evidências, os pesquisadores acreditam que o espécime seja o melhor candidato a ancestral do gênero Homo, principalmente pelas suas mãos, cujos dedos polegares eram fortes suficientes para subir árvores, mas também se parecem com as mãos humanas, capazes de usar ferramentas com precisão. Até agora, este posto pertencia ao Homo habilis, que viveu há cerca de 2 milhões de anos.
Um dos esqueletos parciais estudados é um crânio que poderia abrigar um cérebro com um volume de 420 centímetros cúbicos. Tudo indica que ele pertenceu a um indivíduo jovem de dez a treze anos de idade, do que se deduziu que um adulto teria um volume de cérebro de cerca de 440 centímetros cúbicos. O crânio é semelhante ao de um símio, mas já mostra sinais de que estava sendo reorganizado em uma linha evolutiva parecida com a dos humanos.
"Esse volume extremamente pequeno é intrigante, especialmente quando se observa as características faciais bem avançadas e particularidades dos sistemas de locomoção muito parecidas com as de humanos", diz Peter Schmid, da Universidade de Zurique, coautor de cinco artigos publicados no periódico científico Science.
Australopithecus sediba
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Seu fóssil foi descoberto em agosto de 2008, depois que o filho do paleontólogo Lee Berger encontrou uma clavícula na região de Malapa, ao norte de Johanesburgo, na África do Sul. As escavações foram então comandadas por pesquisadores da Universidade de Zurique, na Suíça. Os fósseis não se assemelhavam a nenhuma espécie de hominídeo vista antes. Pela morfologia e idade, o espécime foi enquadrado no gênero Australopithecus – e não no gênero Homo.