quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Bernardo Não Me Abandona



Meu amigo Bernardo Soares me conhece bem e parece não querer me abandonar. Insiste em que eu prossiga com esta joça, coisa a que não me obrigo e nem tenho intenção, pois aderir ao langor do devaneio ou da meditação, à troca sazonal da casca da personal jararaca até a exaustão das forças energéticas são minhas metas e devoção até ao limite do possível, ali onde nos encontraremos frente a frente, eu e moi même. Sorrateiramente me envia emails na certeza de que não resistirei à adição deste impulso advindo do negror de tempos pregressos a tornar público seus ditames e observações em relação ao que vê, de onde?, sobre minhas ações, ou não-atos, aqui.
Hoje ofereceu-me um espelho:

283
A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigues a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam o amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres da suas vitória para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e num momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha a interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. 

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

comente aqui