segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Exortação a danilogo


Prezado sr. danilogo
Ia passando e não me contive ao ver anunciado na minuta de seu cardápio estes fragmentos de email do seu amigo Bernardo Soares que, pelo visto era entusiasta de um muito antigo colega meu francês a quem devo muita inspiração e respeito, mas não a ponto da apropriação de seu conteudo de forma eufemistica (ma non troppo) como ele...
No mesmo instante me veio à baila o título de um capítulo de Metrôdoros, primeiro discípulo de Epicuro onde se lê :"A causa que reside em nós mesmos contribui muito mais para a felicidade do que aquela advinda das coisas".
Com efeito, no que se lê destas linhas que comentam seus não-atos nesta sua atual passagem, lembrando-me da analise que realizei a respeito desta matéria, gostaria de exortar sua ilustre pessoa sobre a cautela devida em relação ao que à primeira vista um post bem-intencionado pode significar, ou induzir, posto que assim como nosso corpo está envolto em vestimentas, nosso espírito está revestido de mentiras. Nossos dizeres, nossas ações, todo nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestimentas se adivinha a figura do corpo.
Portanto seguirei procurando meu rumo assim como desejo que o seu traçado o faça defrontar-se com a absoluta clareza a respeito das máscaras que o convívio entre as gentes faz cair no badalar das últimas horas do entardecer.
Trago aqui algumas considerações :

Bastar-se a si mesmo; ser tudo em tudo para si, e poder dizer "trago todas as minhas posses comigo" (Cícero), é decerto a qualidade mais favorável para a nossa felicidade. Sendo assim nunca é demais repetir a máxima de Aristóteles "A felicidade pertence àqueles que bastam a si mesmos" (...) Pois, por um lado, a única pessoa com quem podemos contar com segurança somos nós mesmos e, por outro, os incômodos e as desvantagens, os perigos e os desgostos que a sociedade traz consigo são inúmeros e inevitáveis.
Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grand monde, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Antes de mais nada, toda sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é. Ademais, qunato mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente.
(...) A paz verdadeira e profunda do coração e a perfeita tranquilidade mental, esses bens supremos da terra depois da saude, são encontráveis unicamente na solidão e, como disposição duradoura, só no masi profundo retraimento.
(...) Cada homem é apenas uma pequena fração da idéia de humanidade, e assim precisa ser complementado em muito pelos outros para constituir, em certa medida, uma consciência humana plena. Ao contrário, aquele que é um homem completo, um homem par excellence, expõe uma unidade, não uma fração; por conseguinte, tem o suficiente em si mesmo.
(...) O amor à solidão não pode existir como tendência primitiva, mas nasce apenas como resultado da experiência e da reflexão, dando-se conforme o desenvovimento da própria força intelectual e concomitantemente ao avanço da idade. Disso resulta, de modo geral, que o instinto de sociabilidade de cada um está na proporção inversa da sua idade.
(...) Entretanto, em cada indivíduo, a aumento da inclinação para o isolamento e a solidão ocorrerá em conformidade com o seu valor intelectual. Pois tal tendência, como dito, não é puramente natural, produzida diretamente pela necessidade, mas, antes, só um  efeito da experiência vivida e da reflexão sobre ela, sobretudo da intelecção adquirida a respeito da miserável índole moral e intelectual da maioria dos homens.
(...) Embora haja muita coisa ruim neste mundo, a pior delas ainda é a sociedade(...) salvo raras exceções, no mundo há apenas uma escolha: aquela entre a solidão e a vulgaridade.
É por isto que eu também te observo, entendo e, creia-me, minhas palavras nunca lhe faltarão.

Abraços afetuosos de
 
Arthur Schoppenhauer

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