quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Cavalo De Turim

(A Torinói Ló)
de Bela Tárr, Hungria, 2011




A princípio uma voz gutural enuncia a história na qual Nietzche , morando em Turim em 1889, foi buscar sua correspondência no correio deparando-se  no caminho com um cavalo sendo brutalmente espancado após empacar atrelado numa carroça. Repentinamente o filósofo saltou com todo seu corpanzil e vasto bigode sobre o animal vertendo lágrimas convulsivas, abraçando seu pescoço. Foi socorrido e conduzido para casa onde ao chegar bradou para sua mãe: "Eu sou um idiota!". Depois não emitiu uma só palavra durante dois dias e viveu “louco” seus últimos dez anos, envolvido em silêncio, cuidado pela mãe e pelas irmãs.
na mais completa escuridão.

A partir de então este cavalo fustigado carrega seu carroceiro por uma estrada tomada por densas brumas e uma ventania infindável que soprará incansavelmente durante as mais de duas horas da projeção deste filme, "um vento seco sobre a terra estéril"  - se não for o principal, certamente um dos principais personagens deste filme admirável em vários sentidos:
Na sua opção de ater-se ao side show da propalada loucura do filósofo privilegiando o irracional em detrimento do gênio atormentado (ou seriam equivalentes?); na deliberada opção em isolar-se num ermo com três seres que contemplam o fim do mundo que se precipita (o cavalo, um pai e a filha); e pela forma como as mesmíssimas ações rotineiras são repetidas num intervalo de seis dias sem que um único plano se repita ou uma única sequência se apresente da mesma forma, deixando-nos a impressão de que não há limites para a criatividade cinematográfica de Bela Tárr. 

Fica evidente o quanto as lições da maestria com que seu conterrâneo Miklós Jancsó realizou seu  esplêndido "Os Sem Esperança" (Szegénylegények, Hungria, 1966) foram devidamente assimiladas: aqui não há nenhum fim de mundo pasteurizado e embrulhado em imagens-clichês como em "Melancolia" (Melancholia, de Lars Von Trier, Dinamarca, 2010).
No primeiro dia expõe-se o cotidiano ritualizado em que as ações são executadas, uma existência esvaziada de sentido afora os afazeres iminentemente práticos de susbsistência: desatrelar o cavalo, recolhê-lo ao estábulo, alimentá-lo, guardar a carroça, trocar a roupa do pai, o cozimento e a degustação das batatas - único alimento -, a manutenção dos equipamentos domésticos, do vestuário, do trabalho e acima de tudo e principalmente, a obssessiva contemplação do vento lá fora, uivando incansavelmente em sua obstinada viagem de varrer os últimos recursos de um planeta que tornou insustentável a vida sobre si, dentro dos  próprios corpos de seus habitantes ou mesmo de suas almas. 

A cada dia subsequente as mesmas ações vão-se esvaziando, a  câmera dança terminando sempre detida em deslumbrantes composições de naturezas-mortas dos objetos cotidianos; o cavalo que resiste ao trabalho, empacado, sem sair do estábulo e que já não come, assim como as batatas de seus donos que parecem não mais apetecê-los, restando abandonadas sobre a mesa rústica. Estes seres estão cada dia mais mobilizados pela iminente catástrofe que se avizinha. 
No terceiro dia chega uma espécie de emissário do apocalipse, que ao proferir a única fala de fôlego em mais e duas horas de projeção recebe como réplica do pai a constatação do fim: "Sim. E daí?". 
Qual a novidade daquela anunciação? Ali dentro, a obstinada repetição já configura a ausência do sentido transformador e de continuidade da espécie. Tudo já secou, inclusive o poço cuja água, fonte da vida, exaurida após a passagem de uma carroça de ciganos gozando na esbórnia os últimos estertores de suas existências claudicantes como a da leitura bíblica que anuncia a punição e a ira divina aos homens que  atentam contra as leis divinas .
Acossados, um dia pai e filha tentam fugir e não conseguem, voltando sem explicações do meio do caminho, encerrando-se novamente em seu bunker.
De repente no último dia  o vento cessa e a escuridão açambarca tudo. São inúteis as tentativas de iluminá-la, o fogo não obedece, os combustíveis são funcionam, as brasas se apagam. Estão devastados todas as esperanças, todos os sonhos e ilusões que houveram um dia. Não há mais como nem com o que remediar os personagens ou a história contada neste filme, muito menos seus espectadores, irremediavelmente condenados a sucumbir às trevas de um fade out.
A delicadeza em que se encerram estes magníficos planos de contrastantes imagens preto-e-branco, e os frequentes momentos em que  nos aprofundamos em suas trevas, somados à cantilena monocórdica minimalista que perpassa tudo incessantemente, oferece-nos oportunidades para que além da fruição daquilo que nos é oferecido possamos digerir uma cadeia de significados e sugestões que se impõem de forma tão espontânea e orgânica, que saímos deste filme com a nítida impressão de que este nos seguirá acompanhando e não esquecidos dele na primeira esquina,  como se nos tivéssemos transformados em anjos (como diria Tarkovski em relação às modificações que sofremos quando nos deixamos subjugar e alimentar pela experiência da arte e os ideais que ela expressa), ou confrontando a força de nossas consciências com essa escuridão, como num certo dia nelas mergulhou aquele ilustre, louco e genial pensador.

Cinco estrelas são muito poucas para este filme e nem sei se cotação é algo que se preste a uma aproximação com ele.


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