SLEEPING BEAUTY
SLEEPING BEAUTY
(Sleeping Beauty)
de Julia Leigh, Australia, 2011
Seu primeiro filme, "Sleeping Beauty", uma espécie de atualização sinistra da história da Bela Adormecida
está povoado de referências cinematográficas que vão de Pasolini (Salò), Buñuel (Belle du Jour), passando por Kubrick (Eyes Wide Shut),
a atmosfera dos fimes de David Lynch e quase se afoga bebendo na cacimba do quintal de Gabriel Garcia Márquez.
Assiste-se a esta história com uma atenção tão siderada e aplicada, a despeito da falta de recursos narrativos tradicionais de impacto fácil, como música incidental por exemplo
(que só se manifesta pelo menos após vinte minutos de projeção começada quando se escuta, lá longe, uma textura muito difusa de órgão e nada além
- e sempre nos planos em que a Bela é transportada dentro de um automóvel) que experimentamos algo como uma espécie de hipnose provocada pela estranheza geral,
acompanhando-o com a mesma aguçada atenção do sentido ocular de quando se contempla os quadros de uma exposição macabra.
A protagonista, universitária de múltiplos biscates para fazer frente às suas despesas pessoais (aluguel atrasado, motivo de animosidade em sua casa)
resolve responder a um anúncio em que procuram moças para um estranho bordel de luxo. Esta oportunidade vai se configurar como tábua de salvação pelo bom dinheiro que oferece
e adaptar-se como uma luva em sua moral duvidosa e precária auto-estima.
Não se conhece nenhum antecedente desta menina e ela parece flanar pela vida como a platéia deste filme, num estado, digamos, de uma expectativa semialterada.
No caso da Bela este torpor é provocado ao deixar-se narcotizar a um estado de total inconsciência, quando será visitada pelos abastados senhores de idade avançada
que pagam para desfrutar de seu "cadáver". O que ali se passa à sua revelia - ou ao contrário, com o seu consentimento -
é uma sucessão de quadros de perversidades sexuais configuradas em perturbadoras composições pictóricas de uma sofisticação exasperante,
equivalentes a sessões psicanalíticas de aberrações tardias profundamente arraigadas.
Um desses clientes narra a fábula de um conto contido num livro que ganhou aos trinta anos,
na qual um homem poderoso resolve se exilar de tudo e de todos, acabando atrelado, apesar de todos os seus recursos, à dependência de alguém que o ampare
quando seus ossos já não apresentam densidade suficiente para mantê-lo de pé. Conclui, devastado, que aos trinta anos as pessoas ainda são consideradas jovens,
um passado longínquo da sua história. É o tipo de situação que, por extensão, permeia a falta de conteudo que campeia nas almas alienadas que transitam por este filme.
Aqui pessoas existem enquanto coisas, objetos de troca e em alguns casos mais específicos, cadáveres. E a servidão é incontornável quando defrontada com o abuso de poder das classes abastadas.
Mas a Bela tem, por assim dizer um namorado com o qual compartilha a reabilitação das drogas mas o qual se afunda em tal depressão, sua vontade própria e seu livre arbítrio estão tão comprometidos
que aceita imediatamente o pedido de casamanto que ela lhe faz: a Bela acredita que ainda será emancipada do mal-estar em que se afoga,
seja através das drogas, do sexo casual, sacrificando sua juventude às taras de velhos desconhecidos ou in extremis, no casamento.
Mas tanto faz se este também não se consume, que este pedido seja aceito ou não. Quando ela refaz esta sugestão a outro homem que a manda se foder, agradece penhoradamente a injúria.
Tudo isto reflete a escassez de afetividade e a escancarada animosidade que cercam e compõem os personagens, impregnando todo o filme com a mesma assepsia e frieza de laboratório e clínica de reabilitação onde a personagem faz seu detox.
Curiosamente aí é que reside a sedução deste filme: o tipo de beleza pictórica antiga da atriz (muito bem em seu papel) é um contraste à servidão humana a que se submete,
tanto ela em sua juventude quanto àqueles que dependerão futuramente de kindness of strangers. Ou não, apelando para o suicídio, como o narrador da fábula
na sessão em que a Bela escamoteia uma câmera para verificar o que se passa durante sua inconsciência sobre aquela cama.
Apesar dela passar grande parte do filme nua e suas cenas serem ambientadas num bordel de luxo, não se vê aqui, nem de longe, nenhum elemento de sensualidade ou erotismo,
pois todos estão ligados à vida através de pulsões autodestrutivas e o todo parece sustentar-se sobre um fio muito tênue que pode esgarçar-se a qualquer momento devido à sua gradativa descalcificação.
Ficamos ali ligados na iminência de que isto aconteça, apostando no pior, no fim, com alguma inquietação mas inexoravelmente passivos.
De cinco estrelas, quatro: uma estréia corajosa, uma atriz competente, uma configuração diferenciada para uma história para lá de manjada e uma atmosfera envolvente em sua estranheza.
Há uma entrevista de Julia Leigh aqui neste blog sob o título "Deu na revista Filmmaker"
SLEEPING BEAUTY
(Sleeping Beauty)
de Julia Leigh, Australia, 2011
Nunca li Julia Leigh, escritora australiana.
Seu primeiro filme, "Sleeping Beauty", uma espécie de atualização sinistra da história da Bela Adormecida
está povoado de referências cinematográficas que vão de Pasolini (Salò), Buñuel (Belle du Jour), passando por Kubrick (Eyes Wide Shut),
a atmosfera dos fimes de David Lynch e quase se afoga bebendo na cacimba do quintal de Gabriel Garcia Márquez.
Assiste-se a esta história com uma atenção tão siderada e aplicada, a despeito da falta de recursos narrativos tradicionais de impacto fácil, como música incidental por exemplo
(que só se manifesta pelo menos após vinte minutos de projeção começada quando se escuta, lá longe, uma textura muito difusa de órgão e nada além
- e sempre nos planos em que a Bela é transportada dentro de um automóvel) que experimentamos algo como uma espécie de hipnose provocada pela estranheza geral,
acompanhando-o com a mesma aguçada atenção do sentido ocular de quando se contempla os quadros de uma exposição macabra.
A protagonista, universitária de múltiplos biscates para fazer frente às suas despesas pessoais (aluguel atrasado, motivo de animosidade em sua casa)
resolve responder a um anúncio em que procuram moças para um estranho bordel de luxo. Esta oportunidade vai se configurar como tábua de salvação pelo bom dinheiro que oferece
e adaptar-se como uma luva em sua moral duvidosa e precária auto-estima.
Não se conhece nenhum antecedente desta menina e ela parece flanar pela vida como a platéia deste filme, num estado, digamos, de uma expectativa semialterada.
No caso da Bela este torpor é provocado ao deixar-se narcotizar a um estado de total inconsciência, quando será visitada pelos abastados senhores de idade avançada
que pagam para desfrutar de seu "cadáver". O que ali se passa à sua revelia - ou ao contrário, com o seu consentimento -
é uma sucessão de quadros de perversidades sexuais configuradas em perturbadoras composições pictóricas de uma sofisticação exasperante,
equivalentes a sessões psicanalíticas de aberrações tardias profundamente arraigadas.
Um desses clientes narra a fábula de um conto contido num livro que ganhou aos trinta anos,
na qual um homem poderoso resolve se exilar de tudo e de todos, acabando atrelado, apesar de todos os seus recursos, à dependência de alguém que o ampare
quando seus ossos já não apresentam densidade suficiente para mantê-lo de pé. Conclui, devastado, que aos trinta anos as pessoas ainda são consideradas jovens,
um passado longínquo da sua história. É o tipo de situação que, por extensão, permeia a falta de conteudo que campeia nas almas alienadas que transitam por este filme.
Aqui pessoas existem enquanto coisas, objetos de troca e em alguns casos mais específicos, cadáveres. E a servidão é incontornável quando defrontada com o abuso de poder das classes abastadas.
Mas a Bela tem, por assim dizer um namorado com o qual compartilha a reabilitação das drogas mas o qual se afunda em tal depressão, sua vontade própria e seu livre arbítrio estão tão comprometidos
que aceita imediatamente o pedido de casamanto que ela lhe faz: a Bela acredita que ainda será emancipada do mal-estar em que se afoga,
seja através das drogas, do sexo casual, sacrificando sua juventude às taras de velhos desconhecidos ou in extremis, no casamento.
Mas tanto faz se este também não se consume, que este pedido seja aceito ou não. Quando ela refaz esta sugestão a outro homem que a manda se foder, agradece penhoradamente a injúria.
Tudo isto reflete a escassez de afetividade e a escancarada animosidade que cercam e compõem os personagens, impregnando todo o filme com a mesma assepsia e frieza de laboratório e clínica de reabilitação onde a personagem faz seu detox.
Curiosamente aí é que reside a sedução deste filme: o tipo de beleza pictórica antiga da atriz (muito bem em seu papel) é um contraste à servidão humana a que se submete,
tanto ela em sua juventude quanto àqueles que dependerão futuramente de kindness of strangers. Ou não, apelando para o suicídio, como o narrador da fábula
na sessão em que a Bela escamoteia uma câmera para verificar o que se passa durante sua inconsciência sobre aquela cama.
Apesar dela passar grande parte do filme nua e suas cenas serem ambientadas num bordel de luxo, não se vê aqui, nem de longe, nenhum elemento de sensualidade ou erotismo,
pois todos estão ligados à vida através de pulsões autodestrutivas e o todo parece sustentar-se sobre um fio muito tênue que pode esgarçar-se a qualquer momento devido à sua gradativa descalcificação.
Ficamos ali ligados na iminência de que isto aconteça, apostando no pior, no fim, com alguma inquietação mas inexoravelmente passivos.
De cinco estrelas, quatro: uma estréia corajosa, uma atriz competente, uma configuração diferenciada para uma história para lá de manjada e uma atmosfera envolvente em sua estranheza.
Há uma entrevista de Julia Leigh aqui neste blog sob o título "Deu na revista Filmmaker"


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