domingo, 16 de outubro de 2011

Políssia


POLÍSSIA
(Poliss) de Maïween, França,2011


Dize-me de quem contas uma história que eu te direi de qual cultura estás falando.
Impossível não evocar "Entre Os Muros Da Escola" (Entre les Murs, de Laurent Cantet, França, 2008), Palma de Ouro em Cannes 2008 ao assistir a este "Políssia". Na nova onda de diretores e filmes franceses focados nas diferenças, desequilibrios e conflitos sociais advindos da imigração e do acolhimento aos povos de antigas e atuais colônias, a fórmula do filme-painel circunscrito a um cenário determinado parece ter-se estabelecido, como em "O Segredo Do Grão" (La Graine et Le Mulet, de Abdellatif Kechiche, França, 2007) num restaurante, "Entre Les Murs..." na escola pública ou neste "Políssia", na Brigada de Proteção aos Menores da polícia francesa em Paris. 
Aqui vemos desfilar molestadores, sequestradores, espancadores, traficantes, pais negligentes, mães omissas ou drogadas, e toda sorte de delinquentes juvenis que infestam profissionalmente e infernizam individual e gradativamente as vidas daqueles funcionários, transformando e interagindo em seus cotidianos: É a esposa que decide engravidar tardiamente ocupada em cuidar-se e manter o regime alimentar adequado (apesar da incredulidade do marido); é o pai que pouco se dedica à filha que vive com a mãe abandonada e cobradora, etc. todos respingados pela grande merda espalhada aos sete ventos pelo ventilador do sofrimento de crianças (quase sempre) indefesas.
Estes profissionais não abdicam da paixão que nutrem por seu trabalho. E não desistem, apesar dos conflitos internos e de grandes dificuldades operacionais e burocráticas, de levar em frente sua missão, com um sentimento de nobreza e sentido de dever de fazer inveja e servir de exemplo às instituições policiais corrompidas brasileiras, afundadas em bandas podres, nepotismos, formação de milícias, tráfico de drogas e abuso de poder. Talvez seja um retrato por demais idealizado de uma corporação, focado em vítimas e no envolvimento dos profissionais, mas não podemos deixar de comparar este quadro com a trágica realidade quer nos circunda.
O filme tem ritmo bastante ágil, é intenso como um documentário e parece pedir socorro para uma sociedade de primeiro mundo afundando junto a familias sem teto, traficantes e exploradores da pedofilia sob o acolhimento acelerado de cidadãos coniventes e abrigados por desmandos de classes privilegiadas e bem relacionadas. 
O suicídio da policial que sonha em engravidar após uma discussão explosiva de ressentimentos ocultos no trabalho e sua posterior promoção profissional não se justifica. O desenvolvimento psicológico do personagem fica prejudicado pela necessidade de abreviar seus conflitos como os de todos os outros que também são enunciados e não se aprofundam. Com sua dificuldade de equilibrar a realidade dos conflitos da profissão e as vidas privadas, o filme de Maïween aproxima-se dos seriados televisivos ambientados nesta seara, um formato que privilegia o imediatismo e a leitura superficial. 
De cinco estrelas, duas.

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