TIRANOSSAURO
(Tyrannosaur)
de Paddy Considine, Reino Unido, 2010
Aqui se opera o milagre da redenção, da emancipação, da superação de vidas amargas e destituidas de afeto, atravessadas pela violência cotidiana de uma existência onde já não resta nem a esperança ou o conforto da fé. Miseravelmente, restam amizades estropiadas por anos de repetições e tédio e algum apreço por um passado que poderia ter resultado melhor caso não tivesse sido maculado pelo egoísmo e a exploração consentida em relações desajustadas e sem rumo.
O que o Sr. Considine economiza ou insinua nos deslocamentos espaciais e temporais, revelando a conta-gotas o desdobramento das ações através de uma decupagem criteriosa e sem exageros, nos oferece de sobra em emocionantes interpretações.
Olivia Colman é um prodígio do desamparo implorando por um abraço. Sua cena de libertação do marido sádico e da constante e obrigatória observação das leis de Deus, atirando objetos na imagem sacra de Jesus Cristo, é das mais catárticas.
Peter Mullan tem no olhar carisma e dramaticidade ímpares; consegue evoluir da mais completa irracionalidade, do pit bull que mora dentro de si e insiste em fazer estragos em sua vida e à sua volta - conscientizando-se paulatinamente que isto fatalmente o destruirá - para a luz de uma existência onde as máscaras caíram e as batalhas individuais foram vencidas sob a pena de amargar as punições da lei, mas na certeza de ter levado acabo o que tinha de ser feito.
Esses dois, que se amparam em suas estreitezas e fragilidades são aquelas pessoas que concretizam o destino conforme suas convicções, depois de levar muita porrada (o termo que melhor define o que impulsiona essas pessoas) não esperando acontecer através do acaso ou na esperança que alguém venha iluminar os descaminhos da truculência que campeia em cada esquina de uma cidade do interior. A chapa está sempre fervendo, mas o Sr. Considine muito espertamente insere vários chistes na narrativa que aliviam o espectador e economizam bastante energia psíquica.
Tem alguns furos de continuidade, os objetos não acompanham o desenvolvimento das sequências, principalmente a faca, que parece ter vida própria, mas aqui este tipo de descuido é tão irrisório, dada a violência que nos tira o fôlego e nos constrange enquanto seres ditos civilizados, que na desordem geral da existência retratada, não faz muita diferença. É o tipo de filme que se perdoa o boom aparecendo ou a troca da cor da calcinha na mesma sequência.
O corte da porrada entre marido e mulher para a destruição do galpão no quintal a marretadas é primoroso e o pitbull amarrado na cintura do vizinho é demais: Um cão atrelado a outro, enquanto os demais vagueiam perdidos, todos da mesma espécie, rosnando a mesma língua. E quando o paradigma desta brutalidade é decapitado, nos defrontamos com a possibilidade de triunfar sobre o animal que nos espreita.
Lamentável a projeção digital oferecida no cinema Vivo Gávea 2 (Mobz). Não é possivel avaliar fotografia num formato tão deficiente. Pedi a devolução do meu ingresso para a sessão seguinte, que seria o filme "Uma Guerra" (Odna Voyna, de Vera Glagoleva, Russia, 2009) após verificar que o formato da exibição seria algo equivalente a um VHS, segundo o gerente do cinema.
Das cinco estrelas, quatro.
Das cinco estrelas, quatro.

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