Meu gato e os búlgaros
14 de
outubro de 2011 | 3h 07
O leitor
talvez conheça o baiacu, ou os sabores desse peixe de água doce e salgada. Eu
conheço outro: o Baiacu de Ouro, um prêmio literário que recebi em Manaus, há
uns 20 anos.
Um dia alguém me telefonou e
deu a notícia. Agradeci com duas palavras e soube, aliviado, que eu não ia
fazer um discurso na solenidade da entrega. Minha surpresa maior foi o envelope
balofo que recebi junto com o Baiacu. Não era um cheque, era dinheiro mesmo, um
monte de notas velhas e amassadas, como se recebe no garimpo. Mas como a
inflação naquele ano beirava a obscenidade, a ponto de desmoralizar os
brasileiros, meu ânimo arrefeceu. O valor do prêmio era segredo, e este
garimpeiro de palavras não ia contar em público o valor do trabalho privado.
Tive que ouvir um discurso, que felizmente foi breve, e mesmo brevíssimo, sem
firulas e salamaleques. Depois quatro músicos interpretaram o Quarteto n.º 1,
de Villa-Lobos.
Eram
músicos búlgaros, todos loiros e rosados, e todos usavam um traje a rigor na
noite abafada. O envelope gordo não entrava no meu bolso, tive que segurá-lo o
tempo todo enquanto ouvia o primeiro movimento do Quarteto do grande
compositor. Depois do "Canto Lírico" me entreguei a um devaneio: não
fosse a queda do Muro de Berlim, esses virtuosos das cordas não estariam
interpretando com esmero "Melancolia" diante de um escritor
emocionado, que apalpava um envelope obeso. Esses músicos são a maior
contribuição da queda do Muro para o Amazonas, pensei, prestando atenção à
harmonia, vendo mãos búlgaras movimentar arcos e beliscar cordas, o suor
escorrendo de faces e orelhas do país dos Bálcãs, até gotejar no assoalho de
uma cidade amazônica. Aplaudi de pé, o coração disparado.
Quando
saí da sala, abri o envelope, contei as cédulas de cruzados e cheguei a um
valor que dava para alimentar meu gato por três meses e ainda levá-lo a um bom
veterinário. Leon, Leon, meu querido e inesquecível felino de rua, agora aos
meus cuidados e, de agora em diante, com a pança cheia e uma consulta marcada.
A pelagem da cor de açafrão, o olhar aceso e misterioso, o miado rouco e
indômito, tudo nele lembrava um filhote de onça vermelha.
Algo dentro de mim - talvez
minha esperança teimosa - dizia que a estatueta do Baiacu de Ouro fosse
realmente de ouro. Bom, o peixe inteiro de ouro maciço seria pedir muito, mas
de ouro pelo menos as barbatanas, de ouro uma pontinha da cauda ou um dos
olhos. Mas não: era uma estatueta de latão, toda dourada: mera fantasia para um
escrevinhador de mundos fantasiosos.
Comprei
muitos jaraquis para o meu Leon, dei-lhe uma cama digna e um colchão novo:
pedrinhas brancas e polidas, que nem ovos de codorna. Enfim, dei a Leon o
próprio Baiacu, para que ele sonhasse com um peixe enorme, fora d'água. A
estatueta, cravada num cubo de madeira, prendia a porta aberta do balcão, assim
evitaria o barulho quando o vento enraivecia. O bater de portas é um dos
grandes traumas da minha infância, quando esse barulho seco, terrível e
inesperado me sobressaltava em noites de tempestade. E como a porta do balcão
era a única rebelde do meu lar, designei a estatueta para ser sua sentinela
diuturna. Lembro que Leon aproximava-se do baiacu, eriçava as orelhas e afiava
as garras, ensaiando o salto certeiro. Quando entardecia, os raios de sol, mais
amansados, incidiam magicamente sobre o latão, criando reflexos estranhos que
enfeitiçavam o felino. Penso que ele não via apenas um baiacu, via também
cardumes cintilantes, refletidos no vidro da porta; talvez visse uma
possibilidade real de nunca mais passar fome, como milhões de gatos de rua,
seus semelhantes paupérrimos, sem prêmios, sem consultas, afagos ou jaraquis.
Sem nada. E quando Leon decidiu dar o bote fatal e abocanhar sua presa,
percebeu que esse peixe era de mentira, como se dissesse que os prêmios, de
algum modo, são apenas fantasias fugazes.
O
tempo passou, Leon ganhou um epitáfio escrito pela minha pena, e a estatueta de
latão extraviou-se numa de minhas mudanças. E a vaidade daquele tempo, uma vaidade
tão grande que parecia inchada, secou por completo.
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