AMERICANO
(Americano)
de Mathieu Demy, França, 2011
Escolhi assistir este filme no Festival do Rio sobretudo por conta de seu elenco de famosidades: Geraldine Chaplin, Chiara Mastroianni, Salma Hayek,etc.
Não se pode negar que o nepotismo sempre esteve na ordem do dia da industria cinematográfica, não importando se o candidato possui talento ou ferramentas para exercer a função, mas quem é, para quem deu ou de onde veio. Isto é uma praxe não só nos paises onde esta industria está mais desenvolvida, como também aqui no Bananal, onde não só na esfera do cinema como nas demais profissões, o que dita as regras na distribuição de cargos das esferas pública e privada, são o Q.I.(quem indica), o pedigree, a rede de contatos, as agremiações e confrarias, o tamanho do pau e o desempenho na cama - elementos determinantes na atuação dos departamentos de Recursos Humanos - não importando o que daí vá resultar pela contratação destes afiliados, ou quais valores agregarão à suas profissões. O importante é que a satisfação dos interesses de classes, nem sempre afinadas com o teor das disciplinas em questão, sejam satisfeitos.
Também é indiscutível o talento de determinados profissionais que emergiram desta onda, como por exemplo Sofia Coppola: a estes expoentes devemos aplausos e entusiasmo renovados.
No caso de "Americano", estão envolvidos a filha de Charles Chaplin, a filha de Marcelo Mastroianni e o irmão mais velho de Javier Barden. Depois me dei conta que o diretor é filho de um casal de ilustres cineastas franceses - Agnès Varda e Jacques Demy.
Em seu primeiro filme como diretor, Mathieu acumula as funções de roteirista e ator, uma espécie de Orson Welles em "Cidadão Kane", infinitamente distanciado deste pelo resultado da empreitada.
Trata-se da viagem ao passado de um jovem movido pelo atual impasse em seu relacionamento com o personagem de Chiara Mastroianni e pela notícia da morte de sua mãe em Los Angeles, para onde é necessário dirigir-se a fim de resolver as pendências burocráticas decorrentes.
Antes de sua partida o filme em parte nos situa no background do personagem através da ótica paterna, num encontro conflituoso de cobranças e ajuste de contas. Ficamos sabendo que seus pais se separaram na America e o filho seguiu para a França com o pai, onde viveu desde então, sem nunca ter retornado a seu país de origem.
Começa então a jornada de volta ao passado, uma viagem forçada que revolverá desassossegos e impasses mantidos no fundo de uma alma conturbada, relacionados ao Édipo mal-resolvido, raiz de diversos conflitos na atualidade do personagem.
Lá está sua casa da infância, as marcas da mãe que o abandonou idem, e as lembranças não cansam de fustigar seu imaginário. Estas lembranças são fragmentos do filme "Documenteur" de Agnès Varda, 1981, rodado em Los Angeles e estrelado por nosso diretor na idade de 9 anos (à maneira de como fragmentos de um certo filme dos anos 70 com Terence Stamp ou David Hemmings - ou quem? - do qual não me lembro o nome, perguntem ao dr. Alemão), foram engenhosamente inseridos como flash-backs da ação de uma produção mais recente.
Isto torna este filme em parte auto-biográfico, ou dentro de estreitos limites, lavação da roupa suja da rejeição. As cenas antigas são retrabalhadas na atualidade, exibindo o que aconteceu com aqueles personagens desde então, o escritor a quem o menino vai pedir abrigo quando sua mãe o deixara na rua, e principalmente um velho retrato em que mãe e filho aparecem ao lado de uma menina mexicana, amiga de infância.
Descobrimos que esta dempenhou um papel importante na vida da mãe, e a ela sua mãe devotou seus cuidados na ausência do filho, através de uma carta recomendando torná-la herdeira de sua casa.
Martin (este o nome do personagem principal) precisa encontrá-la e seguindo algumas pistas empreende uma jornada ao México, onde supostamente Lola, a mexicana, é dançarina do cabaré "Americano" em Tijuana.
Este tipo de jornada para um personagem tímido e frustrado como Martin, revela-se um manancial de peripécias.
Ele se vê engolfado pelo buraco negro da miséria humana relacionado à pobreza e às profundezas abissais de vidas marginalizadas. Ninguém entra impunemente em Tijuana dirigindo um Mustang vintage e procurando uma pessoa desaparecida. Na tentativa de aprofundar sua procura, Martin é roubado, espancado e humilhado sexualmente. Pudera!
Encontrando o cabaré Americano, Martin imediatamente é apresentado à Lola (Salma Hayek, impressionante composição, rebolando numa peruca vermelha e um collant arrastão preto, somente), mas antes que ele se dê conta do quão fake ela é enquanto Lola, nós espectadores já estamos carecas de saber disso, seja pelo maniqueísmo com que se representam aquelas bailarinas de pole dance, pelo artificialismo da empostação geral ou pelo ar viciado que se respira naquele estabelecimento onde não se dá um passo sem que seja exigido pagamento em dólares.
Martin/Mathieu parece querer criar uma verdade pessoal através de um roteiro coalhado de mentiras. Ali nosso herói perde o rumo, assim como para onde o filme até então parecia se encaminhar.
É nesta encruzilhada de três países, três línguas, uma personagem dupla e um homem perdido, que se configura o momento da tomada de decisão.
A falsa Lola é a única que propicia a Martin um lampejo daquilo que ele busca desesperadamente: o amor, o reconhecimento e a dedicação de uma mãe ausente. Prostitutas são sagazes em gerenciar intuição e fantasias que fazem um estranho gozar. De posse desta falsa informação nosso herói torna-se adicto do quarto dos fundos do Americano, não em busca daquele orgasmo convencional, mas do vicio adquirido da sublimação de suas carências edipianas.
Martin se defronta com o túmulo da verdadeira amiga de sua mãe, quando descobre a real identidade da bailarina.
Para resolver sua falta de controle da história e do filme como um todo, o herói deixa, então, a escritura do apartamento americano para aquela que o fez experimentar esta felicidade fugaz.
Telefona para sua mulher na França, após ter faltado ao sepultamento de sua mãe, e suas palavras são tão eloquentes em afeto e humanidade, que ela parece não reconhecê-lo. Pergunta: "Vc está bêbado?"
Afogam-se no alcool as identidades e as histórias, tanto as do personagem quanto as do diretor, hipotecando a uma quimera toda a herança adquirida em linha direta de transmissão, pela forma negligente de que se apropriou do legado cinematográfico e pela precariedade dos recursos pessoais de como se aproximou da relação entre ficção e realidade.
De cinco estrelas, três.

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