segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Dublê Do Diabo

Estava como sempre animadíssimo à espera da edição 2011 do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e brochei geral ao verificar que os filmes que eu mais aguardava estavam fora do certame, ou seja, 
"Faust", de Alexander Sokurov,
"Pina", de Win Wenders,
"Shame", de Steve McQueen,
"Rampart", de Oren Moverman,
"The Descendants", de Alexander Payne,
"Footnote", de Joseph Cedar,
"Once Upon A Time In Anatolia" de Nuri Bilge Ceylan,
"The Artist", de Michel Hazanavicius,
"The Kid With A Bike", dos irmãos Dardenne,
"Sleeping Sickness", de Ulrich Köhler,
"Carnage", de Roman Polanski,
"360", de Fernando  Meirelles, etc., etc., etc., ...
Contornada a frustração, embarquei no ...
Resto:

1 - O DUBLÊ DO DIABO
(The Devil's Double)
de Lee Tamahori, USA, 2011


Filme de ação americano ambientado durante a guerra do Kuwait, caracterizando a mafiosa - à moda dos criminosos italo-americanos - famíla de Saddam Hussein, seus desmandos, apresentando personagen estereotipados e sem profundidade (o caso mais evidente é o dos dois protagonistas interpretados pelo ator Dominic Cooper, caricaturas de próteses, voz chapada e falsa introspecção, tudo à vez e conforme a necessidade) e lançando mão de uma heroína improvável, mistura de femme fatale com puta triste que no final tenta redimir o herói da moral positiva, o indefectivel arroz de festa do cinema roliudiano.
Um filme extensivo, recheado de planos de localização, o beabá da mais batida cartilha narrativa.
Se fosse podado de todos seus excessos sobraria um curta-metragem sem muito sentido que, involuntariamente, talvez resultasse em algo interessante.
Tudo ali pega pesado, não só em relação à operação de retratar situações e personagens como também nas concepções plástica e fotográfica (em que pese a horrenda estética recém pós-moderna em voga nos anos 90 onde qualquer diretor de arte ou de fotografia teria que fatalmente navegar num produto com esta ambientação). 
Não aprofunda o tema do duplo, e aqui não há cobrança de algo no nivel de "Quando Duas Mulheres Pecam" (Persona, de Ingmar Bergman, 1966) o que seria uma crueldade, mas que se aproximasse pelo menos de um vizinho de quarteirão, se tivesse um pouco mais de boa vontade, como "A Outra Face" (Face/Off, de John Woo, 1997). O duplo aqui só se justifica  enquanto ferramenta para justificar correrias, tiroteios e luxúria.
O contexto político não passa de pano de fundo: há farta exibição de documentos daquela que foi a primeira guerra "ao vivo" da história, a guerra do Golfo (invasão do Kuwait pelo Iraque), ou guerra do video-game como também ficou conhecida, e que a propósito este filme faz jus pela limitação operacional do seu alcance. 
Não se trata aqui da discussão ou do retrato das relações criminosas e de espionagem de corporações do mundo ocidental com a industria do petróleo e das parcerias nem sempre limpas deste bloco com os paises produtores como em "Syriana - A Industria do Petróleo" (Syriana, de Stephen Gagham, 2005), mas somente da exploração de um evento e situação como matéria para justificação da ideologia imperial dominadora disseminando-se pelo mundo através do cinema, ao demonizar culturas não enquadradas em seu catálogo de referências positivas de bajuladores internacionais.
Depois de muito extender a narrativa com uma profusão de peripécias escabrosas e esgotar todos seus maneirismos exaustivamente repetidos, lá pelos quinze minutos finais é enfiado goela-abaixo dos espectadores a história da puta redimida que proclama - após ter passado quase duas horas trocando perucas, modelitos provocantes, fodendo, cheirando e cobiçando o pau grande do dublê de seu patrão - quando o herói a pergunta, em meio a uma fuga improvável, se tem algum dinheiro na bolsa: "Eu não sou prostituta!". Onde e quando, cara-pálida? Au-de-là des nuages?
Este enredo tardio poderia ter sido espalhado em meio aos desmandos do filho de Saddam, e como opção para eles, mas o roteirista, cansado, optou por um deus-ex-machina - uma filha, coitadinha dela - entregue aos cuidados de uma mãe desprotegida lá nos confins do deus-me-livre. Nesta altura o dublê dá o tiro de misericórdia no filme: "E você só veio me contar isto agora?" 
É de rolar de rir.
Assim expõe-se a miséria humana em configurações mais imediatas de leitura para jogadores de play station, pois aquela vida no grand monde, aquele pó a rodo, os rolex, os breitlings, as sedas e os automóveis que são oferecidos como apelos inalienáveis para uma existência permeada por valores consumistas,  este filme à guisa de crítica subliminar acaba por ratifica-los como um little help for his friends do andar de cima, lugar habitado pelas famílias, sempre elas, em função das quais se travam as guerras, negociam-se os interesses, salvaguardam-se as mães sempre ameaçadas pelos cafetões que facultarão o verdadeiro orgasmo aos seus maridos sanguinários, e onde só existem dois tipos de mulheres: as santas sofredoras, as excluídas, mártires (a noiva estuprada que se suicida em meio à festa do casamento) e as putas aproveitadoras e parceiras que ao fim da jornada são obrigadas a fugir a cavalo para escapar de um destino miserável.
De cinco estrelas, duas.

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