MAYTLAND
(Maytland)
de Marcelo Charras, Argentina, 2010
Victor Maytland é o nome artístico de Roberto Sena, conhecido diretor de filmes pornográficos na Argentina, autor daquele que foi o primeiro filme deste gênero naquelas plagas, "Las Tortugas Pinjas".
Desde sempre ocupado nesta função e contornando as dificuldades de sustentá-la junto à familia - filhos e esposa - ou mesmo junto à classe cinematográfica de seu país (começou trabalhando no cinema convencional como assistente, produtor, etc. e costumava dizer que queria ser como Aristarain), acabou fazendo sucesso com uma séria pornô televisiva intitulada "Expediciones Sex" cujos capítulos foram transmitidos pelo canal a cabo Afrodita.
Isto resultou num contrato para produzir e dirigir 60 filmes pornôs na produtora CineXlatino em Los Angeles distribuidos em 3 categorias: Cine 69 (heterossexual), Puticlub (travestis) e Latin Puppies (gay).
De volta à terrinha, Vitor resolve fazer um filme não-pornográfico em que narra suas atribulações como um diretor que sonha em inovar a forma de filmar o pornô, com fábula e roteiro, um sonho antigo que sempre esbarrou em negativas de financiadores que nunca concordaram em fazer algo além do trivial que sempre lhes rendeu lucro, sexo sem cortes e sem história.
Tudo se passa em ambientes decadentes e pobres, desde as locações até ao figurino, mesmo quando estão vestidos socialmente. A produtora fica num subterrâneo fétido, desarrumado e empoeirado; a casa do personagem que vive com seu filho é uma ruína úmida descuidada, alguns pés de maconha que Victor cuida nas horas vagas e uma suja banheira de plástico sobre algo que se poderia chamar de terraço, que o acomoda para jiboiar sua imensa barriga, só ligeiramente maior do que a do brochado ator protagonista de suas aventuras sexuais na tv.
Intencionalmente.
Victor quer misturar nas representações de suas fodas a história trágica da repressão ditatorial de seus país, dos campos de extermínio, dos desaparecidos.
O produtor reluta porque, mesmo que os milicos estejam sem o poder daquela época, não quer chafurdar nas feridas ainda abertas, além de que seu público de punheteiros não se interessa absolutamente pela memória histórica, quando muito nas imagens gráficas e sugestões olfativas do sexo em ação. Reescreve o roteiro que Victor concebeu como uma obra de despedida, um canto de cisne que vai superar tudo jamais feito. É claro que tal interferência não é aceita, e Victor acaba salvo pelas economias do filho, que, acompanhando toda esta odisséia resolve disponibilizá-la sob protestos deste pai que nunca acedeu à sua participação em suas produções, apesar da insistência dele, como tributo à memória da falecida mãe e esposa que em vida nunca perdoou o marido por suas escolhas profissionais. Aqui temos mais uma vez a mãezinha morta, sofredora e intransigente, capaz de melar toda uma história, brochar pirocas duras, tirar tesão dos protagonistas e assombrar um filme inteiro.
Luciano, o filho, é o personagem que vai impulsionar não só o derradeiro filme de seu pai como também decifrar os mistérios subjacentes ao sumiço das cópias de seu primeiro filme, "Las Tortugas Pinchas", do qual aparentemente só existe uma caixa vazia de VHS numa vitrine de preciosidades pornôs lacrada num quiosque de Buenos Aires, onde ele passa horas diariamente admirando-a obcecado.
Aqui temos um filme de formato incomum, dificilmente catalogado em algum escaninho crítico cinematográfico: interpretado pelo personagem real fazendo seu próprio papel, contando os fatos de suas próprias dificuldades pessoais na industria audio-visual e fantasiando, com os atores de seus antigos seriados, uma história de amor e mistério que ao final resvalaria facilmente para um docudrama ou algo que o valha, mas deixa-nos com um ponto de interrogação e um ruído considerável na comunicação da história contada e naquilo que a produção se propôs. Talvez seja um legítimo representante do que atualmente chamamos autoficção.
Aqui não se poupa esforços em disfarçar a decadência das coisas, das pessoas e do próprio filme que, filmado digitalmente, nos fornece através da projeção precária em que o assisti, das legendas eletrônicas dessincronizadas e do som abafado, um fenômeno orgânico hiperrealista da boca-do-lixo, um acontecimento cultural (ou social) entre espectadores e o filme mediatizado por suas imagens, envolvendo-os involuntariamente numa experência, digamos, interativa.
De cinco estrelas, duas.

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