Hoje alguém enviou email comentando sobre minhas resenhas cinematográficas e me fez lembrar deste blog abandonado. Verdadeiramente cansei disso: tornou-se fonte de epifanias consumistas dos escravos de redações de jornais e revistas, de artistas em fim de carreira que não sabem mais oque fazer para alimentar suas almas ressequidas e dos aproveitadores de plantão, sempre aí à cata da sua extorsão de cada dia. Trata-se de uma galeria de facínoras funestos que são as engrenagens disso que hoje verificamos, infelizmente, ser o neo-fascismo da nossa dieta contemporânea. A eles dedico este artigo abaixo reproduzido, publicado na 4ª feira de cinzas de 2012 no Jornal do Brasil on line, juntamente com as montanhas de lixo que o carnaval, seu melhor veículo, deixou nas ruas.
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O fascismo dos "meninos do Rio"
O
que há em comum entre uma moradora de rua agredida a socos e pontapés
no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, por três homens de classe média
que a acusam de quebrar o retrovisor do carro, e Vítor Suarez da Cunha,
jovem estudante brutalmente espancado ao tentar proteger um mendigo que
apanhava de cinco delinquentes no bairro Jardim Guanabara, na Ilha do
Governador? Ambos foram vítimas de um estrato social que tem como traço
ideológico funesto a recusa da cidadania.
Em menos de uma semana, a
violência de um segmento incapaz de distinguir o público e o privado,
que tem na venalidade uma de suas marcas, que trata a rua como
prolongamento da casa e do quintal, desconhece direitos sociais e
políticos, menospreza a condição humana dos que não pertencem à sua
geografia social, reiterou, em pontos do estado do Rio de Janeiro, o
caráter fascista que lhe é inerente.
Para eles, a liberdade se
reduz ao ato de escolher entre várias marcas do mesmo produto, e a
felicidade é o fim de semana em família esvaziando shopping centers, o
consumo do Natal e o Réveillon em uma boate "superluxo". A protegê-los,
vigias, olhos eletrônicos, cães de guarda, grupos de extermínio e a
polícia violenta que conhecemos, protetora de “gente de bem”. Quando se
lançam em busca das ilusões perdidas, dão início a uma busca feroz,
mostrando uma força ideológica assustadora.
Num tempo em que
pessoas têm sua condição humana aviltada, morrendo como moscas, fatos
como estes não podem, após algum tempo de exposição midiática, provocar,
no máximo, apenas bocejos. É preciso deixar de contentarmo-nos em
sobreviver, de acreditar que "com a gente não acontece" ou, o que é
pior, fazer da vítima o culpado. Recusar a indiferença, persistindo em
chamar de acidente uma rotina de mortes e de mutilações, conhecida,
anunciada e burocraticamente executada cotidianamente. Nas ruas do
Leblon e do Jardim Guanabara, o que aconteceu foi um fato político. E
como tal precisa ser combatido.
Como classificar o comportamento
dos fascistas de "boa aparência”? Perversão? É pouco. Isto é sordidez,
abjeção, cegueira de valores. Mais ainda: é sintoma de uma cultura que
faz da sarjeta sua medida moral e que, pouco a pouco, destrói um legado
histórico, construído com sacrifício de homens, de povos e de nações. O
que está em jogo é a consciência de que a vida é um bem, cuja posse não
temos o direito de negar a quem quer que seja. O que estamos esperando?
Que a lei da oferta e da procura regule o mercado de massacres e
extermínios?
A punição exemplar dos agressores, "gente de boa
cepa", é fundamental para que não continuemos a ser uma sociedade
moralmente idiotizada. A barbárie não pode continuar satisfazendo o
apetite de quem faz do riso cínico a única saída para a impotência e a
covardia. Os fascistas têm que saber que já não contam com o "jeitinho
brasileiro" de lidar com o direito à vida e a dignidade física e moral
de cada um. Do contrário, a certeza da impunidade continuará ampliando a
lista de vítimas. Em um país democrático, não se confunde desejo de
justiça com direito de vingança.
Vítor Suarez da Cunha, o jovem de
21 anos, que teve 63 pinos implantados no rosto, deu uma magnífica
lição de vida, de solidariedade humana. Muitos escreverão sobre sua
atitude, mas nenhum texto será capaz de traduzir sua coragem, seu amor
ao próximo, sua consciência de cidadania. Ao afirmar que "faria tudo de
novo se preciso fosse", torna-se um símbolo de que a luta política não
só é possível como conta com bons combatentes.
* Gilson Caroni Filho, professor, é sociólogo. - Gilson.filhobr@terra.com.br
O fascismo dos outros meninos do Rio (e do Brasil) e também de seus mentores (nem tão meninos assim, raposas disfarçadas perambulando pelos corredores das secretarias estatais e municipais, pelas esquinas da melhor sociedade midiática, ou memso na porta da sua casa sob a forma de lobo na pele de ovelha) também deve ser mencionado: são aproveitadores do patrimônio alheio para auferir vantagens próprias, seja através da cópia e do roubo descarado das idéias, da criação, do trabalho realizado e até da invasão eletrônica dos dados de sua conta bancária e da espionagem da seu histórico na web. Estes monstros estão soltos e pregando o discurso anti-fascista de praxe, mas na prática o que operam é o mesmo que supostamente condenam para lançar uma cortina de fumaça e tirar o foco de suas ações espúrias. Este é o verdadeiro fascismo contemporâneo, uma vergonha que a humanidade parece estar negligenciando por ver-se envolta em suas teias. Vamos despertar?
ResponderExcluirPrezado Sr. Lulu: o Senhor conheceu o dramaturgo expressionista Frank Wedekind ou o compositor Alban Berg? Não? Pois saiba que estes provavelmente lhe usurparam o nome ou vice-versa, pergunte aos seus pais. Quanto ao fascismo contemporâneo, esta praga depois das guerras do seculo XX, nunca vai deixar de medrar nas gerações que as sucedem, cada vez mais sofisticadas em suas maneiras de operar - como o Sr. mesmo alerta neste comentário - como pode nos supreender na próxima esquina ao darmos conta de que não conseguimos extirpá-lo de nosso próprio sangue. Obrigado pelo comentário. E bom dia!
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