Entrevista da escritora australiana, roteirista e diretora de "Sleeping Beauty" Julia Leigh, concedida a Scott Macaulay da revista Filmmaker na quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
(veja resenha do filme "Sleeping Beauty" neste blog)
(veja resenha do filme "Sleeping Beauty" neste blog)
"Aprecio o sentido de 'integridade' num filme, que faz com que chegando ao fim, percebo que este 'fim' estava lá, de fato, desde o início".
http://www.filmmakermagazine.com/news/2011/11/sleeping-beauty-writerdirector-julia-leigh/
Quando Filmmaker escolheu a romancista australiana Julia Leigh para sua lista das Novas Caras de 2008, a autora de livros como "O Caçador" (The Hunter) e "Inquietação" (Disquiet) ensinava em Barnard enquanto se estabelecia como uma roteirista de provocantes e nuançados dramas cinematográficos para diretores como Walter Salles e produtoras como como Plano B. Quando a entrevistei ela disse que escrever roteiros foi originalmente uma forma “da terapia de diversão” enquanto trabalhava em "Disquiet", mas que ela evoluiu para a apreciação do formato. “Atualmente acho que roteiros são ruins de se ler” ela disse em 2008. "Tenho minha cabeça mobilizada pelas convenções básicas — estou me referindo a coisas como o tempo presente, introduzindo personagens com letras maiusculas, um mínimo de parênteses … as regras da apresentação. Perder a introspecção — ou estabelecer explicitamente pensamentos e as sensações dos personagens — foi um desafio. Presto muita atenção às transições entre as cenas: Como fazer esta cena 'cortar' para a seguinte … visualizo-a. Portanto é muito orgânico: Uma cena leva a outra. O filme se expande, cresce e torna-se mais profundo. Coloquei-me no lugar do público; (os espectadores) não vêem um filme em retrospecto, eles não anatomizam sua estrutura em geral. Dito isto, aprecio o sentido de 'integridade' num filme que faz com que chegando ao fim, percebo que este 'fim' estava lá, de fato, desde o início".
Na citação acima, cada um pode sentir o diretor subjacente à porção roteirista de Leigh. E, de fato, o roteiro que colocou Leigh em nossa lista, "Sleeping Beauty", tornou-se, depois de alguns contratempos e reviravoltas, sua estréia na direção. É a história de uma jovem estudante conduzida a uma forma altamente especializada da prostituição, introduzida a cada noite "numa câmara adormecida" drogada e sonâmbula enquanto seus clientes fazem o que ela não pode lembrar-se na manhã seguinte. (Leigh rapidamente me indica, contudo, que a regra da casa é "nenhuma penetração").
"Sleeping Beauty", com produção executiva de Jane Campion, começou sua carreira encantada quando se tornou um dos raros primeiros filmes a serem selecionados para a Competição do Festival de Cannes, onde estreou este ano. Estrelado por Emily Browning como Lucy, a prostituta, e filmado num estilo austeramente imponente, elegantemente vestido e desenhado, o drama misterioso e imparcial de Leigh tornou-se uma seleção controvertida, desafiando público e críticos no inicio do festival. “Eu gosto de insinuar-me embaixo da pele das pessoas”, respondeu Leigh na sua coletiva de imprensa, e, de fato, o controle atrevido e formal do filme confirmou que os seus talentos não estão restritos à página impressa.
Eu conversei com Leigh no Festival de Filme de Toronto, onde o filme teve sua première norte-americana. Estréia nesta sexta-feira nos Estados Unidos distribuido pela Sundance Selects.
Eu conversei com Leigh no Festival de Filme de Toronto, onde o filme teve sua première norte-americana. Estréia nesta sexta-feira nos Estados Unidos distribuido pela Sundance Selects.
Filmmaker: Conte-me sobre a transição de novelista para diretora. Foi uma grande mudança para você?
Leigh: Sinto que ambos vêm do mesmo lugar, as novelas e os filmes. O novelista e o diretor estão ambos trabalhando com o fluxo do tempo, com as longas narrativas, elaborando mundos complexos, detalhando personagens, e ambos, espera-se, têm algo a dizer.
Filmmaker: Mas há diferenças em como você trabalha enquanto uma artista?
Leigh: Sim; apesar dos fundamentos serem muito similares, os processos são bastante diferentes. Mas eu acho que aquela solidão que acompanha o escritor também está lá no (trabalho do) diretor pois provavelmente eu era a única que continha o filme inteiro na cabeça em todos os momentos. Mas, sim, eu curti o processo da realização do filme.
Filmmaker: Eu posso entender o quanto a solidão de um escritor subsiste quando é transposta para o aspecto mental de dirigir um filme, mas o que dizer do aspecto solitário de escrever versus o aspecto coletivo de se fazer um filme? Uma coisa se faz sozinha e a outra cercada por muitas pessoas...
Leigh: Sim, é verdade. Você trabalha com uma porção de gente, mas estranhamente suas relações ainda tendem a ser de um-para-um. Estou me referindo aos cabeças da equipe; eu não me dirijo a um grande grupo de pessoas ao mesmo tempo. No set, percebo que estou cercada de pessoas, mas acho isto perfeitamente ok. Talvez exista uma impressão errônea de que todos os escritores sejam solitários, você não acha?
Filmmaker: E no que concerne ao desenvolvimento do estilo visual, o filme tem uma qualidade formal centrada nisso. O estilo da sua prosa influenciou seu estilo visual?
Leigh: Se há algo de que eu esteja orgulhosa é que meu filme tem qualidades cinemáticas. Em outras palavras este projeto jamais poderia ter funcionado como um livro. Nunca houve um momento em que eu tivesse uma idéia e pensado: "deveria ser um livro ou um filme?" Nunca me ocorreu que seria totalmente prosa. Mas, também, penso ser um tanto perigoso para mim tecer ligações entre todos os meus trabalhos olhando para o passado.
Filmmaker: Em que medida você emprega um tipo de realismo no filme?
Leigh: Eu não estava escrevendo um filme estritamente naturalista. Ao contrário, eu estava procurando, esperava, um realismo evoluido. Tanto na prosa quanto neste filme eu quero estabelecer, digamos, uma atmosfera tonal, que é uma coisa efêmera. Pretendia algo que eu estava acostumada a fazer através de escrever novelas - a importância da atmosfera tonal. Mas quando escrevi o roteiro enfrentei este filme que você vê. Mesmo no primeiro esboço, eu tinha no roteiro esta idéia do ponto de vista da câmera colocada na quarta parede do quarto de dormir - a idéia da câmera como uma suave e constante testemunha. Então aquele estilo visual estava colocado no roteiro em seus primeiros momentos.
Filmmaker: Mas originalmente você não era a diretora do filme - isto é verdade?
Leigh: Quando escrevia o roteiro, não estava necessariamente planejando dirigi-lo mas eu também não o escrevia para ninguém em particular. Escrevia sem nenhuma intenção de dirigir; Eu esperava que de certo modo o roteiro fosse mais um degrau. Eu nunca despertei de manhã dizendo "Sabe, acho que farei um filme". Foi um processo passo-a-passo.
Filmmaker: E sobre a psicologia (ou a falta dela) dos personagens? É um tipo de conto de fadas. Existe quase uma qualidade metafórica para ele. Dirigindo Emily Browning, que tipo de coisas você pensava em termos psicológicos para alguém naquela situação? Você dava para ela as motivações convencionais ou era mais sobre ser um personagem de conto de fadas?
Leigh: Bem, o mundo é um lugar muito estranho (risadas). Com Emily, primeiramente, acho que ela executou uma grande performance. O papel era muito exigente. Quero dizer que isto dividiu os atores. Alguns não queriam fazer isto, outro o queriam mas seus agentes não o admitiam. E outros como Emily realmente queria fazê-lo. Ela entendeu completamente o roteiro desde o início e soube que o que tinha de fazer era ser fiel a ele. Então, foi de fato bastante objetiva. Eu sinto que a qualidade que ela trouxe para seu papel foi de um sentimento de tranquilidade, teimosia e relaxamento. Não a vejo como simplesmente passiva. Eu vejo uma personalidade mais radical - talvez sua perversa provocação para o mundo seja: "Estou olhando para lá, experimente-me"
Filmmaker: Você vê isto como uma qualidade tonificadora ou debilitante?
Leigh: Bem, lembro que foi como se eu estivesse nos meus 20 e poucos anos, que não vejo como uma época muito fácil da vida. Eu penso que as viagens daquela passagem da vida são muitas vezes subestimadas. Algumas vezes acho ser impossível interpretar com sabedoria as coisas que não sejam dos seus melhores interesses, mesmo indo o mais longe possível até obter um compromisso para permanecer vivo. Estar vivo não é algo que se adquire por uma concessão.
Filmmaker: O filme teve uma reação controversa na sua première. O que lhe surpreendeu naquela primeira projeção em Cannes?
Leigh: Estou muito feliz pela forma com que o filme tem sido recebido. Estivemos na competição principal em Cannes. Aquilo foi ótimo. E vendemos o filme amplamente e isto também foi muito bom. E o filme parece ter dividido as platéias (risos).
Filmmaker: Como é sentir a pressão da competição? Seria muito diferente se você estivesse no Directors Fortnight ou no Un Certain Regard?
Leigh: Olha, eu realmente não conheço nada melhor (risos). Suponho que o desafio foi experimentar realmente estar presente e não desassociada - classificada como realmente estando ali. Estava muito consciente que em duas semanas eu estaria de volta a Sidney e tudo teria terminado (risos). Então tentei gostar daquilo. Sabe, sou uma escritora, sou tão observadora que foi quase como se eu estivesse interpretando o papel de uma antropóloga em Cannes (risos).
Filmmaker: Qual foi a faísca desta idéia básica? Eu conheço um conto de Kawabata com um enredo similar.
Leigh: Eu li e amei duas novelas muito conhecidas: uma de Yasunari Kawabata (A Casa das Belas Adormecidas), e outra de Gabriel Garcia Marquez (A Bela Adormecida e o Avião). Ambos contam a história do ponto de vista de um homem mais velho que pagam para passar a noite com uma menina drogada. Mas este tipo de história tem longos antecedentes. Estou me referindo à Bíblia quando o Rei David decide passar a noite ao lado de virgens adormecidas. E claro, existe também o conto de fadas "A Bela Adormecida" que é relatado a todas as meninas bem novinhas. E você ainda tem o fenômeno da meninas que dormem na internet.
Filmmaker: Que fenômeno é este?
Leigh: Bem... você precisa procurá-lo (risos).
Filmmaker: Conte-me um pouco sobre isto.
Leigh: ...É que alguns recônditos e recantos do mundo da pornografia têm imagens de garotas adormecidas. Este tipo de coisa existe. Está lá. É algo a que eu reagi e que estou reciclando. Eu provavelmente diria que este filme inclina-se mais na direção do lado da polarização do sexo e da morte, se você entende o que eu quero dizer. E acho que vale a pena mencionar que é a representação de homens mais velhos que são vistos quando Lucy está adormecida que fazem o filme funcionar. Eles o fazem funcionar como um todo, como uma totalidade, porque temos um retrato de Lucy em sua juventude e depois temos estes homens velhos cujas experiências são satisfazer-se com a juventude. Para mim, isto faz a história mais rica do que simplesmente um retrato convencional da juventude. Também no que concerne à narrativa, é mais interessante que você esteja com Lucy sabendo mais do que ela sabe. A platéia sabe o que acontece na câmara, mas Lucy não. Eu acho que este conhecimento da platéia aumenta sua tensão interior.
Filmmaker: Qual serão seus próximos passos como diretora e escritora?
Leigh: Adoraria continuar fazendo ambos: escrevendo novelas, dirigindo filmes — meus próprios roteiros, provavelmente como uma diretora, e talvez continuarei a escrever roteiros para outras pessoas dirigirem. Estou tentando resistir a ser atualizada para qualquer uma dessas disciplina. Penso que estamos todos incrivelmente adaptáveis e talvez devamos tirar nossos chapéus, aposentá-los, e trocar por um novo (risos).

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