terça-feira, 1 de outubro de 2013

Terra Prometida/ Promised Land (Gus Van Saint)



Filme de Gus Van Saint

(Estados Unidos, 2012)



Existem riquezas subjacentes ao convívio humano que nenhuma força multimilionária é capaz de destruir, assim como aquelas que o planeta provê para a subsistência das espécies guardadas com muito zelo pela mãe natureza em suas profundezas que, apesar de todas as tentativas inócuas de suas explorações comerciais, continuam desafiando a engenhosidade destruidora do capital face à sua grandeza e inesgotável capacidade de resguardar-se nas entranhas do planeta.

Esta crença, base da esperança de pessoas que dependem da terra como instrumento e provedora de sua razão de existir, procriar, alimentar-se e produzir bens de consumo é o alicerce deste filme cuja receita de bolo é tão assumidamente bem levada a cabo, que não nos resta outra opção que saboreá-lo como uma iguaria prosaica, consumida com o prazer de um reencontro de certezas há muito enraizadas em nossas papilas gustativas que rendem homenagem à sua delícia e seu acabamento.

Tudo o que esperamos de um filme americano - os conflitos em vários níveis, coletivos e pessoais, a ação do elemento desagregador e sua redenção final, a pitada de romantismo simpático, delicado e cativante, as intepretações naturalistas sem afetações ou estrelismos, a pincelada social e política para situar o plot - tudo está sob medida, pesado, misturado com parcimônia e assado na temperatura exata de um bolo a ser degustado na sessão da tarde acompanhado por uma limonada de 25 centavos.

As imagens idílicas do interior da América, um sensação do tempo estancado ao longo das gerações que se sucedem no cultivo e exploração das fazendas agrícolas e a simplicidade das gentes em seus costumes fazem deste filme uma adorável experiência aquecedora de corações e mentes.

Direção segura, decupagem inventiva (até o ponto em que o roteiro muito bem amarrado suporta), fotografia sem artifícios como supõe o trato com a ambientação proposta, direção de arte “invisível” (a melhor), e elenco cativante são os pontos decisivos que fazem esta “Terra” oferecer mais do que promete.

4 from the 5 stars

There are underlying human coexistence riches no multi-million dollar strength is able to destroy, as well as those that the planet provides to the subsistence of the species kept with much zeal by mother nature into its depths that, despite all attempts to harm their commercial holdings, continue challenging the destroying engineering of capital in the face of his greatness and inexhaustible capacity to protect themselves in the bowels of the planet.

This belief, based on the hope of people who depend on the land as a tool and provider of their reason to exist, breed, feed and produce consumer goods is the foundation of this movie whose cake recipe is so unapologetically well carried out, that we have no choice but to relish it as a prosaic delicacy, consumed with the pleasure of a reunion of certainties long time rooted in our taste buds, rendering homage to their delight and its finish.

Everything that's expected of an american movie - conflicts on several levels (collective and personal), the action of the disintegrating element and his final redemption, the hint of nice romanticism, delicate and captivating, the naturalistic interpretations without stars affectation, the social and political stroke to situate the plot - everything is tailored, weighed, mixed with parsimony and roasted in the exact temperature of a cake to be tasted in the afternoon accompanied by a 25 cents lemonade.

The idyllic images of America country landscapes, a feeling of time controlled over the generations that succeed one another in the cultivation and exploitation of agricultural farms, and the simplicity of the people in their natural habitats make this film a lovely warming experience for hearts and minds.

The safe direction that plays with inventive matches (to the extent that the screenplay nicely tied bears), photography without artifices as if assuming a deal with the proposal, "invisible" art direction  (the best), and captivating cast, are decisive points that make this "Earth" offer more than promises.



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Amazônia, o Planeta Verde


Filme de Thierry Dagobert
Brasil/França, 2013




Fui tomado por uma sensação incontrolável de nostalgia ao assistir este documentário disfarçado de pretensa ficção que atende pelo nome “Amazônia”, uma xerox colorida já um tanto desbotada das reportagens do National Geographic Channel, algo com que eu me deleitava com certo gosto quando ainda me restavam resquícios da herança escravagista atrelado na frente de um monitor como um fugitivo no pelourinho.

Depois de abolida a televisão em minha casa - e lá se vão mais de 6 anos - restou-me este ressaibo acridoce ao final da sessão deste filme, na certeza de ter usufruído o melhor de:
1- Arnaldo Jabor no papel da Anta, 
2- de Fernanda Montenegro fazendo a poderosa e arquejante Sucuri com as burras cheias dos recursos naturais, 
3- Regina Duarte interpretando a macaca morrendo de medo do chefe da nação troglodita, 
4- Marilia Pera como a traiçoeira Aranha tecendo sua teia para a entrada do veneno collorido nas veias do herói,  
5- Miguel Falabella sem necessidade de laboratório para executar com maestria o seu Viado, 
6- dos executivos da Central Globo de Produção do PROJAC encarnando os madeireiros arrasa-quarteirão das florestas, 
7- de Luis Inácio Lula da Silva dando show como a Águia, escandalosamente emplumada, de garras afiadas prontas para massacrar as presas mais indefesas e logo após dizer que promoveu o bando de macaquitos a orangotangos, 
8- e a bicha-galã global da vez no papel do macaquinho protagonista. 


Surpreendeu-me a lista de treinadores e domadores de animais dos créditos finais como se este bando de bestas quadradas precisassem de alguma educação para mostrar seu potencial irracional.

Já ia me esquecendo:
9- da Vera Fischer, a ex-barraqueira, agora nos seus estertores de Onça  
10- e do Povo Brasileiro dando pulinhos de alegria como os simpáticos Botos.


Quanto ao Macaco Mau, 
11- adivinhem quem é? 
12- E a Cobra Coral, aquela que costuma trajar vermelho?


Paisagens lindas, um colírio alucinógeno extraído dos cogumelos lisérgicos da floresta, sob medida para escamotear as agruras de seus habitantes e mostrar para o mundo que seu pulmão não está corroído pela ambição, pelas endemias, os interesses farmacêuticos, capangas assassinos, partidos políticos desmatadores e nações indígenas dizimadas.


Depois que passa o efeito dos cogumelos dá uma larica dos diabos, mas o filé já está comprometido.

sábado, 28 de setembro de 2013

Sapi




Filme de Brillante Ma. Mendoza                                           (Filipinas, 2013)


Os filmes de Brillante Mendoza, em sua crueza típica e sexualidade exacerbada, parecem apontar para uma matéria diferente daquilo que a princípio estamos vendo na tela: “Masahista” acompanha o velório do pai do protagonista enquanto se desenrola suas aventuras de michê num clube de massagem masculina; “Serbis” narra o cotidiano de uma família residente no último pavimento de um cinema pornô de pegação gay em meio aos esforços da matriarca para salvar o negócio da família e mantê-la unida; “Kinatay” expõe com implacável descrição gráfica as atrocidades da máfia local em respostas às maracutaias de uma prostituta envolvida no tráfico de drogas (a famosa cena da decapitação já virou antologia). Em que estas matérias nos ilumina?


Até aí, pelo menos nestes três filmes que assisti, Brillante Mendoza parecia querer utilizar o sexo e a violência sempre com um fundo de religiosidade camuflada (advinda da forte presença da moral católica, herança da dominação espanhola antes que os americanos entrassem arrasando o quarteirão na segunda guerra) para tecer uma cinematografia iconoclasta que lhe valeu a atenção do mundo ocidental em festivais pelos quais estas obras foram exibidas.

Na descrição dos costumes locais, a urbanidade das cidades, os típicos meios de transporte, a alimentação, fornecia amostras de uma comunidade dividida entre influências múltiplas aspirando através de percalços uma contemporaneidade a algumas léguas de distância.                             

O atavismo arcaico dos costumes ancestrais praticados a seu tempo e velocidade próprios em conflito com a massificação e a urgência da modernidade, forneceram material para a edificação de uma dramaturgia calcada propositadamente em desequilíbrios formais e narrativos que lhe pespegaram uma marca própria.

Dadas as circunstâncias, obteve posteriormente em “Lola” um resultado mais ameno ao retratar o universo de duas avós, uma que luta para descobrir o corpo de seu neto assassinado e de outra, supostamente acobertadora do neto assassino. A delicadeza e uma espécie de poesia fluvial com que conduziu esta ficção parecem ter dado a este diretor um passaporte internacional com a adesão de Isabelle Hupert no elenco de seu filme “Captive” - uma saga dos reféns de um grupo terrorista em confronto com a política local. Provavelmente por se tratar de matéria verídica, um acontecimento fartamente ilustrado e relatado pelas mídias, este foi, talvez, seu empreendimento menos bem sucedido, aquele em que seu imaginário kitsch, escandaloso, instigante, sufocou na presença de uma renomada atriz e na responsabilidade inerente ao trato de um fato real.


Em “Sapi”, o senhor Mendoza parece querer livrar-se desses grilhões impostos tal como as vítimas deste filme pretendem exorcizar el diablo de seus bodies.


Uma cobra gigantesca invade a produção de uma poderosa rede de televisão local de Manila, grande concorrente de outra na cobertura dos eventos de possessões sucessivas e inexplicáveis que se avolumam desde que um violento temporal devasta as cidades e estradas provocando inundações e relâmpagos antediluvianos em plena era da informação massificada. Esta cobra parece anunciar o cataclismo que está por vir. Aqui novamente a rotunda católica e o castigo dos céus pululam em meio a relâmpagos incessantes, gritos e sussurros cavernosos de almanaque, sublinhando cenas triviais e visões estarrecedoras de um fim de mundo em curso interminável como o próprio filme.


A urgência ambiental é patente e muitas vezes maniqueísta. O mal se dissemina no corte das árvores de um quintal, no acúmulo de lixo das comunidades, na histeria das atitudes frente a um fato propalado irresponsavelmente pela televisão, a calamidade não tem solução possível.


Se os ritos locais (onde tem Jesus o diabo campeia) fossem a tônica da configuração das ações de combate ao mal inexorável (a galinha é um deles, muito semelhante ao candomblé africano, tangenciado apressadamente) este filme nos ofereceria um contraste mais acelerado de sua intenção de colocar em cheque a informação, o mundo virtual e o arcaico. 


Mas, ao emular a estética contemporânea dos filmes e terror em detrimento de uma expressão local de crenças e manifestações de possessão, “Sapi” se afoga na enxurrada que o conduz - o que não é necessariamente involuntário, mas também uma assumida tentativa de suicídio que nos alerta para seu sarcasmo e crítica da estética televisiva, elaborada em planos curtos e nas interpretações burocráticas de apresentadores de telejornais. 


Ficamos assim a mercê de um desfecho que não chega nunca e uma proposta que não fecha em meio a desnecessárias variações cromáticas e texturais de sua fotografia somados à repetição de cacoetes de câmera na mão desestabilizadoras de um quadro saturado de elementos consagrados reiteradamente à fé, ao lixo e à estética dos registros de switch. 


Como o número um do ibope a qualquer custo exigido pela presidenta da rede de televisão, Brillante Mendoza parece ter-se esbaldado como um pinto no lixo em contrapartida de sua libertação das imposições formais de sua arte, mas acabou cometendo os mesmos pecados que parece, pelo menos a primeira vista, condenar. Perturbadora e na contramão (risível) a visão da cobra expurgada da vagina da produtora, excelente a atmosfera sombria quando consegue se manter por mais do que uma sequência inteira e um espetáculo o petisco chamado Baron Geisler.


 Xô, diablo, sai deste filme que não te pertence.