sábado, 28 de setembro de 2013

Sapi




Filme de Brillante Ma. Mendoza                                           (Filipinas, 2013)


Os filmes de Brillante Mendoza, em sua crueza típica e sexualidade exacerbada, parecem apontar para uma matéria diferente daquilo que a princípio estamos vendo na tela: “Masahista” acompanha o velório do pai do protagonista enquanto se desenrola suas aventuras de michê num clube de massagem masculina; “Serbis” narra o cotidiano de uma família residente no último pavimento de um cinema pornô de pegação gay em meio aos esforços da matriarca para salvar o negócio da família e mantê-la unida; “Kinatay” expõe com implacável descrição gráfica as atrocidades da máfia local em respostas às maracutaias de uma prostituta envolvida no tráfico de drogas (a famosa cena da decapitação já virou antologia). Em que estas matérias nos ilumina?


Até aí, pelo menos nestes três filmes que assisti, Brillante Mendoza parecia querer utilizar o sexo e a violência sempre com um fundo de religiosidade camuflada (advinda da forte presença da moral católica, herança da dominação espanhola antes que os americanos entrassem arrasando o quarteirão na segunda guerra) para tecer uma cinematografia iconoclasta que lhe valeu a atenção do mundo ocidental em festivais pelos quais estas obras foram exibidas.

Na descrição dos costumes locais, a urbanidade das cidades, os típicos meios de transporte, a alimentação, fornecia amostras de uma comunidade dividida entre influências múltiplas aspirando através de percalços uma contemporaneidade a algumas léguas de distância.                             

O atavismo arcaico dos costumes ancestrais praticados a seu tempo e velocidade próprios em conflito com a massificação e a urgência da modernidade, forneceram material para a edificação de uma dramaturgia calcada propositadamente em desequilíbrios formais e narrativos que lhe pespegaram uma marca própria.

Dadas as circunstâncias, obteve posteriormente em “Lola” um resultado mais ameno ao retratar o universo de duas avós, uma que luta para descobrir o corpo de seu neto assassinado e de outra, supostamente acobertadora do neto assassino. A delicadeza e uma espécie de poesia fluvial com que conduziu esta ficção parecem ter dado a este diretor um passaporte internacional com a adesão de Isabelle Hupert no elenco de seu filme “Captive” - uma saga dos reféns de um grupo terrorista em confronto com a política local. Provavelmente por se tratar de matéria verídica, um acontecimento fartamente ilustrado e relatado pelas mídias, este foi, talvez, seu empreendimento menos bem sucedido, aquele em que seu imaginário kitsch, escandaloso, instigante, sufocou na presença de uma renomada atriz e na responsabilidade inerente ao trato de um fato real.


Em “Sapi”, o senhor Mendoza parece querer livrar-se desses grilhões impostos tal como as vítimas deste filme pretendem exorcizar el diablo de seus bodies.


Uma cobra gigantesca invade a produção de uma poderosa rede de televisão local de Manila, grande concorrente de outra na cobertura dos eventos de possessões sucessivas e inexplicáveis que se avolumam desde que um violento temporal devasta as cidades e estradas provocando inundações e relâmpagos antediluvianos em plena era da informação massificada. Esta cobra parece anunciar o cataclismo que está por vir. Aqui novamente a rotunda católica e o castigo dos céus pululam em meio a relâmpagos incessantes, gritos e sussurros cavernosos de almanaque, sublinhando cenas triviais e visões estarrecedoras de um fim de mundo em curso interminável como o próprio filme.


A urgência ambiental é patente e muitas vezes maniqueísta. O mal se dissemina no corte das árvores de um quintal, no acúmulo de lixo das comunidades, na histeria das atitudes frente a um fato propalado irresponsavelmente pela televisão, a calamidade não tem solução possível.


Se os ritos locais (onde tem Jesus o diabo campeia) fossem a tônica da configuração das ações de combate ao mal inexorável (a galinha é um deles, muito semelhante ao candomblé africano, tangenciado apressadamente) este filme nos ofereceria um contraste mais acelerado de sua intenção de colocar em cheque a informação, o mundo virtual e o arcaico. 


Mas, ao emular a estética contemporânea dos filmes e terror em detrimento de uma expressão local de crenças e manifestações de possessão, “Sapi” se afoga na enxurrada que o conduz - o que não é necessariamente involuntário, mas também uma assumida tentativa de suicídio que nos alerta para seu sarcasmo e crítica da estética televisiva, elaborada em planos curtos e nas interpretações burocráticas de apresentadores de telejornais. 


Ficamos assim a mercê de um desfecho que não chega nunca e uma proposta que não fecha em meio a desnecessárias variações cromáticas e texturais de sua fotografia somados à repetição de cacoetes de câmera na mão desestabilizadoras de um quadro saturado de elementos consagrados reiteradamente à fé, ao lixo e à estética dos registros de switch. 


Como o número um do ibope a qualquer custo exigido pela presidenta da rede de televisão, Brillante Mendoza parece ter-se esbaldado como um pinto no lixo em contrapartida de sua libertação das imposições formais de sua arte, mas acabou cometendo os mesmos pecados que parece, pelo menos a primeira vista, condenar. Perturbadora e na contramão (risível) a visão da cobra expurgada da vagina da produtora, excelente a atmosfera sombria quando consegue se manter por mais do que uma sequência inteira e um espetáculo o petisco chamado Baron Geisler.


 Xô, diablo, sai deste filme que não te pertence.



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