Filme de Brillante Ma. Mendoza
(Filipinas, 2013)
Os filmes de Brillante Mendoza, em sua crueza típica e
sexualidade exacerbada, parecem apontar para uma matéria diferente daquilo que
a princípio estamos vendo na tela: “Masahista” acompanha o velório do pai do
protagonista enquanto se desenrola suas aventuras de michê num clube de
massagem masculina; “Serbis” narra o cotidiano de uma família residente no
último pavimento de um cinema pornô de pegação gay em meio aos esforços da
matriarca para salvar o negócio da família e mantê-la unida; “Kinatay” expõe
com implacável descrição gráfica as atrocidades da máfia local em respostas às
maracutaias de uma prostituta envolvida no tráfico de drogas (a famosa cena da
decapitação já virou antologia). Em que estas matérias nos ilumina?
Até aí, pelo menos nestes três filmes que assisti, Brillante
Mendoza parecia querer utilizar o sexo e a violência sempre com um fundo de
religiosidade camuflada (advinda da forte presença da moral católica, herança
da dominação espanhola antes que os americanos entrassem arrasando o quarteirão
na segunda guerra) para tecer uma cinematografia iconoclasta que lhe valeu a
atenção do mundo ocidental em festivais pelos quais estas obras foram exibidas.
Na descrição dos costumes locais, a urbanidade das cidades, os
típicos meios de transporte, a alimentação, fornecia amostras de uma comunidade
dividida entre influências múltiplas aspirando através de percalços uma contemporaneidade
a algumas léguas de distância.
O atavismo arcaico
dos costumes ancestrais praticados a seu tempo e velocidade próprios em
conflito com a massificação e a urgência da modernidade, forneceram material
para a edificação de uma dramaturgia calcada propositadamente em desequilíbrios
formais e narrativos que lhe pespegaram uma marca própria.
Dadas as circunstâncias, obteve posteriormente em “Lola” um
resultado mais ameno ao retratar o universo de duas avós, uma que luta para
descobrir o corpo de seu neto assassinado e de outra, supostamente acobertadora
do neto assassino. A delicadeza e uma espécie de poesia fluvial com que
conduziu esta ficção parecem ter dado a este diretor um passaporte internacional
com a adesão de Isabelle Hupert no elenco de seu filme “Captive” - uma saga dos
reféns de um grupo terrorista em confronto com a política local. Provavelmente
por se tratar de matéria verídica, um acontecimento fartamente ilustrado e
relatado pelas mídias, este foi, talvez, seu empreendimento menos bem sucedido,
aquele em que seu imaginário kitsch, escandaloso, instigante, sufocou na
presença de uma renomada atriz e na responsabilidade inerente ao trato de um
fato real.
Em “Sapi”, o senhor Mendoza parece querer livrar-se desses
grilhões impostos tal como as vítimas deste filme pretendem exorcizar el diablo de seus bodies.
Uma cobra gigantesca invade a produção de uma poderosa rede de
televisão local de Manila, grande concorrente de outra na cobertura dos eventos
de possessões sucessivas e inexplicáveis que se avolumam desde que um violento
temporal devasta as cidades e estradas provocando inundações e relâmpagos
antediluvianos em plena era da informação massificada. Esta cobra parece
anunciar o cataclismo que está por vir. Aqui novamente a rotunda católica e o
castigo dos céus pululam em meio a relâmpagos incessantes, gritos e sussurros
cavernosos de almanaque, sublinhando cenas triviais e visões estarrecedoras de
um fim de mundo em curso interminável como o próprio filme.
A urgência ambiental é patente e muitas vezes maniqueísta. O mal
se dissemina no corte das árvores de um quintal, no acúmulo de lixo das
comunidades, na histeria das atitudes frente a um fato propalado irresponsavelmente
pela televisão, a calamidade não tem solução possível.
Se os ritos locais (onde tem Jesus o diabo campeia) fossem a
tônica da configuração das ações de combate ao mal inexorável (a galinha é um
deles, muito semelhante ao candomblé africano, tangenciado apressadamente) este
filme nos ofereceria um contraste mais acelerado de sua intenção de colocar em
cheque a informação, o mundo virtual e o arcaico.
Mas, ao emular a estética contemporânea dos filmes e terror em
detrimento de uma expressão local de crenças e manifestações de possessão,
“Sapi” se afoga na enxurrada que o conduz - o que não é necessariamente
involuntário, mas também uma assumida tentativa de suicídio que nos alerta para
seu sarcasmo e crítica da estética televisiva, elaborada em planos curtos e nas
interpretações burocráticas de apresentadores de telejornais.
Ficamos assim a mercê de um desfecho que não chega nunca e uma
proposta que não fecha em meio a desnecessárias variações cromáticas e
texturais de sua fotografia somados à repetição de cacoetes de câmera na mão
desestabilizadoras de um quadro saturado de elementos consagrados
reiteradamente à fé, ao lixo e à estética dos registros de switch.
Como o número um do ibope a qualquer custo exigido pela
presidenta da rede de televisão, Brillante Mendoza parece ter-se esbaldado como
um pinto no lixo em contrapartida de sua libertação das imposições formais de
sua arte, mas acabou cometendo os mesmos pecados que parece, pelo menos a
primeira vista, condenar. Perturbadora e na contramão (risível) a visão da
cobra expurgada da vagina da produtora, excelente a atmosfera sombria quando
consegue se manter por mais do que uma sequência inteira e um espetáculo o
petisco chamado Baron Geisler.
Xô, diablo, sai deste filme que não te pertence.

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