quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Cinema Brasileiro Contemporâneo



“Fores Raras”
(de Bruno Barreto, Brasil 2013)


Se existe uma oportunidade para os cinéfilos apostarem no cinema brasileiro esta está configurada em qualquer projeção decente do filme “Flores Raras” de Bruno Barreto. Dei sorte ao escolher o cine Odeon que, apesar de exibi-lo digitalmente, não apresentou o embaçamento e a negritude interior/noite de praxe.

Este entusiasmo não se explicita de imediato em nenhum elemento ou performance específicos, mas num conjunto por vezes contraditório de acertos e concessões ao gosto e aspirações da classe média letrada e razoavelmente esclarecida do Brasil.

Além do cuidado da elaboração, interiorização e rendimento da mise en scène, assim como no capricho e respeito às categorias técnicas - e principalmente pelo fato de não se afogar no pântano das neopornochanchadas e comediotas de costumes calcadas em personagens truculentos explorados à exaustão no que há de pior da dramaturgia televisiva - esse filme se destaca também pela calculada ilusão de, aproveitando-se do tema universal das histórias de amor e o protagonismo de uma atriz anglo-australiana, dar a impressão de um produto made in U.S.A., uma aventura romântica nas selvas tropicais com 3/4 dos diálogos em inglês.

A fascinação atribuída a diversos fatores que à primeira vista se escamoteiam naquilo que de bom grado as plateias se entregam pela suspensão da realidade é o motor de sua glória, uma armadilha estratégica de olho na aprovação automática e um instrumento da velha necessidade de satisfazer o complexo de vira-latas de ficar bem na foto globalizada.

Não que seja um problema de identidade, nem pouco laudatório de raízes nacionalistas ou patrióticas. O que se vê em “Flores Raras” é uma batalha árdua de fazer prevalecer uma súmula turística com moldura dramática a fim de vender o país para o mundo e conquistar louros retratando uma época mítica no imaginário brasileiro, quando em plena expansão do legado modernista.

A questão política tangenciada de forma burocrática no roteiro (aquele que se lê na fatura final do filme) perde seu impacto e sua ambientação por não deixar claro o que se passou nem para as novas gerações e muito menos para as plateias estrangeiras. Trata-se de um subtexto poderoso para o conflito principal até como forma alegórica de sua definição que, ou pela exiguidade de espaço e tempo (pena-se a priori durante cinco minutos assistindo-se os créditos patrocinadores) ou de negligência no aproveitamento dos fatos, é jogado para escanteio.
A competência da direção de arte é posta em cheque pela sua exuberância e presença ostensiva apesar de conceituada, digamos, através dos olhos da arquiteta Lota Macedo. É irrefutável a sensação de ‘antiquário’, quando a moldura quer se imiscuir no quadro. Quando é necessária a elaboração ou construção de algum set ou elemento cênico, fica patente a sua tibieza.

O gato do mato é tão gordo, grande e bem tratado que se colocassem o Marajá de Baroda paramentado para fazer o papel de Fagin no “Oliver Twist’ de Charles Dickens renderia o mesmo efeito. A escrivaninha de suposta madeira maciça, cenográfica nas suas proporções e design, tem sua pá de cal jogada quando após transportada por vários carregadores é empurrada sem mais delongas pela frágil e conflituosa escritora. A quadra de futebol do recém-inaugurado Aterro de Flamengo apresenta as mesmas cracas de sua deterioração e falta de conservação através os tempos. Quanto ao figurino mais-atarracador-ainda da estatura de Glória Pires, inadvertidamente, suponho, contribui para o acirramento das diferenças e consequente gatilho para o conflito das personalidades das personagens principais.

Miranda Otto, que nunca me dei conta da existência, interpreta sua ambivalente Elisabeth Bishop com muita competência, assim como Gloria Pires na resoluta e voluntariosa Lota Macedo. Na escalação dessas atrizes vê-se um dedo decidido, apontado com muita propriedade, pesando as diferenças, os temperamentos e acima de tudo para a equidade do rendimento dos seus desempenhos. É totalmente crível que aqueles cabelos de fogo de uma vejam estrelas cadentes na cabeleira indígena da outra. E a curiosidade de contemplar as dobras do pescoço de Treat Williams, ressurrecto.

Embalado numa caixa para presente antiga, mas competente, este filme ressoa música até depois de terminada a projeção. É uma música linda, suave, companheira e agregadora, tal como as que tocam nas boites dos infernos da sétima arte. Não há ação, por menor que seja, que não esteja sublinhada por uma frase melódica a corroborar seu significado e intenção. A única diferença entre essas e as tonitruantes, assustadoras e insistentes composições do filme sobre o rei do Baião de Breno Silveira está no tom intimista. Os sucessos da bossa nova, hits nas rádios da época soam distantes, do nosso ponto de vista, e não na organicidade do mundo retratado.

E - perguntas de geladeira - what a hell? Café com caju? Desde quando? Mesmo maçã... E por que o sofá na sala de Nova Iorque? Para Lota se matar mais confortavelmente?
A poesia de Elisabeth Bishop, muitas vezes trazidas à baila para regozijo das plateias, não foram suficientes para a fome de metáforas do filme (a luz dos postes apagando, o barquinho afundando) que também não cortou o início a fala do discurso de inauguração do Aterro, após tanta hesitação do personagem. Desnecessário.

Bruno Barreto nos ofereceu um filme excelente chamado ”Ônibus 174”. Fui assistir “Flores Raras” munido das expectativas do boca a boca positivo e do comentário de uma pessoa que eu considero muito no Facebook. Espero que surta o efeito desejado (dinheiro, prêmios, glória) tanto para os produtores quanto para o país e a cidade do Rio de Janeiro (patrimônio da UNESCO, conforme créditos finais).

Aquele amontoado de patrocinadores que retardam o início do filme não me representa apesar de nesse caso eu não reclamar dos meus impostos empregados na empreitada e ainda ter que pagar para assisti-lo.

Quem souber de um filme onde os casais homossexuais sejam equilibrados, bem resolvidos, conscientes, bem sucedidos e com final feliz, me avise.

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