Filme de Danis Tanovic
Bósnia-Herzegovina, França, Eslovênia, Itália, 2013)
Em um determinado momento Nazif, cigano sem seguro social,
cansado de tantas demandas para conseguir curetar sua mulher cujo embrião
morreu - ventre sangrando uma semana - expressa seu desconforto declarando que,
segundo seu ponto de vista, na época da guerra Bósnia-Herzegovina a situação
era melhor posto que quando tudo é urgência mesmo o corpo de um ser humano cabe
num saco plástico muito inferior ao seu tamanho pois somente a cabeça está
intacta, o resto multidilacerado.
Essa referência é natural para um homem cujo
meio de subsistência numa aldeia distante da cidade é o desmonte e a cata de
ferro velho. Na guerra os pedaços dos seres humanos eram abundantes e sua
conformação em pequenos sacos, muito mais viável.
Itinerando de casa para o hospital onde a burocracia e deformação
profissional dos médicos não lhes assegura o devido e urgente tratamento, Nazif
e sua família (sua mulher e duas crianças) se deparam com o choque
civilizatório que os alija das conquistas modernas da civilização - usina
atômica, estradas asfaltadas, urbanização. Aquele lugar de todas as seguranças
e soluções é paradoxalmente a certeza de seu desamparo e sua perdição.
O cão que o acompanha na retirada de alguns elementos de ferro
velho no lixão a fim de pagar a conta de luz cortada pela prefeitura tem a vida
tão provisória quanto aquele ser humano a quem segue instintivamente, por
afinidade. Esta solidariedade animal é o modelo daquela entre os ciganos de seu
povoado na hora de desmontar um carro velho, de empurrar o seu eternamente
enregelado pelo clima cruel ou tomar por empréstimo um outro para levar sua
mulher ao hospital.
Todas as lides de um pai de família para manter a dignidade
tropeçam em dificuldades diversas que, pela forma em que são enfrentadas e
tomadas como fatores normais da existência, não suscitam arroubos de
indignação, desejos de vingança ou possessões revolucionárias. Pelo contrário:
o nome de Deus é sempre pronunciado quando algum passo adiante consegue ser
dado, seja por agradecimento ao próprio ou a quem se empenhou em ajudar.
Num país em que o genocídio recente ainda expõe suas marcas na
beira das estradas, a regra são as dificuldades enfrentadas com serenidade por
alguém que já viu tudo que a humanidade pode produzir de pior: a questão
social, o imperativo financeiro e a derrocada dos valores humanitários. Esta
vida de cão levada no ritmo de um dia a cada vez é a matéria mais apropriada
para uma dramatização a ser levada a cabo por alguém que a conheceu e vivenciou
na medida em que ela se apresenta.
Danis Tanovic apostou nos próprios
personagens desta história verídica e, empregando-os como atores da encenação
de sua experiência comum, obteve um rendimento com a pungência de um
documentário de guerra através de uma suposta ficção baseada em atos reais.
O desconforto da mulher frente às câmeras é patente e a fim de
ambientá-la o diretor preservou cenas de descontração filmadas como prova ou
testemunho do processo. Mas Nazif é um prodígio de carisma e máscara trágica.
Seus dentes que faltam, sua revolta que falta, seu temperamento doce, este
somatório de ausências fazem dele o merecedor do título de melhor ator no
festival de Berlim a que foi agraciado: um prodígio de logística de produção,
inteligência artística e empenho de realização. Sua atuação tem a
espontaneidade das crianças (ótimo rendimento) e dos cães.
Este filme é o
território onde estes seres se irmanam artisticamente.
Temos aqui realizado de forma aparentemente simples e com
resultado impactante e consciencioso a intenção das mocinhas ocidentais que se
arvoram em retratar sua geração nas telas em meio à sua confusão mental e o
curto alcance de suas realizações. Um
ET do futuro, de posse de um lote expressivo de filmes do cinema contemporâneo,
comparando-os com a história da humanidade de então, ficaria embatucado com
tamanho dispêndio de recursos em produtos que em última análise se propõem a
demonizá-los enquanto os seres humanos continuam patinado em suas acepções de
arte, política e solidariedade.
Quatro estrelas.

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