sábado, 6 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - B: Post Tenebras Lux e Bestiário






POST TENEBRAS LUX (“Post Tenebras Lux”, Carlos Reygadas, Mexico/França/Holanda/Alemanha, 2012)

Animado por um prêmio de melhor direção ganho em Cannes 2012, e com uma expectativa maior do que a de costume devido à magistral obra precedente de Carlos Reygadas, LUZ SILENCIOSA (“Stellet Licht, (Mexico/Holanda/Alemanha/França, 2007) lá fui eu correndo para o cinema assistir este “Post Tenebras Lux”. Confieso que bebi quando as primeiras imagens apareceram no telão - ou pelo menos assim me senti. Aquela lente caleidoscópica, de imagens borradas e multiplicadas nas bordas me deu a impressão de estar presenciando mais uma gafe da organização do Festival do Rio em meio a várias outras que testemunhei nesta edição: Atrasos, péssima qualidade de projeção digital em alguns filmes importantes, interrupções da projeção, cancelamento de filmes, discursos prolixos e reiterativos tipo professor Simon Wajntraub.
O cinema tem dessas coisas, surpreende, e às vezes converte-se numa armadilha onde o espectador emaranha-se sem se dar conta da forma traiçoeira em que a coisa foi orquestrada. Em TABU (“Tabu”, de Miguel Gomes, Portugal/ Brasil/França/ Alemanha, 2012), por exemplo, grande parte da plateia apupou várias sequências à primeira vista emudecidas, sem se dar conta que o som ambiente ainda perpassava apesar dos atores continuarem a dialogar sem que suas vozes fossem ouvidas. Alguém imprecou em voz alta contra o “defeito” na banda sonora. 
Confesso também que exulto quando caio numa armadilha destas, desde que me torne presa de um evento em que suas principais qualidades sejam a inteireza, a fatura diferenciada, a pesquisa relevante e acima de tudo quando me conscientizo de estar me deleitando com uma obra de arte em todas suas inerentes responsabilidades, habilidades e fundamentos que seu enunciado apresenta e desenvolve. 
Carlos Reygadas neste filme nos traz um componente de atitude tão diverso e que constitui um peso tão preponderante na apreciação do todo, que muitas vezes algumas derrapadas gramaticais, pontas soltas e cenas aparentemente desconexas acabam perfazendo uma unidade de exotismo tão estranha quanto vital. Faz a proeza de ostentar um perfil singular na estética cinematografia contemporânea, longe de qualquer gabarito conhecido, assim com nos deixa perplexos com a simplicidade com que flagra de forma à vezes documental as interpretações de seus atores em sua maioria não profissionais, das crianças envolvidas, e principalmente os animais que adornam toda a trama de forma pacífica e muitas vezes conjuntural. A sequência inicial, por exemplo, o sonho da adorável menina, um plano extensíssimo que vai do entardecer de um espetacular céu cor de rosa até a noite, em meio a vacas, cachorros, aos charcos que a chuva deixou e do prenúncio da tempestade que desabará, esta sequência tem uma magia que se propaga pelo restante do filme, uma atmosfera onírica tanto da forma quanto do conteúdo que provoca uma sensação de estranhamento pela invasão do mundo “real”, vítima da mesma gramática que nos embaralha. 
O protagonista, se é que podemos chamá-lo assim, é um arquiteto “new age”, um homem que resolve morar na montanha com sua mulher, dois filhos e cachorros. A casa é excelente apesar de nunca a vermos inteira. E como tudo que se insinua neste filme, é alternativa. Alternativa como os processos arquitetônicos construtivos  algumas vezes aludidos, como a forma em que os planos e sequências se amalgamam nesta obra que opta por assumir o desconcerto como seu cavalo de batalha, alternativa como a opção do personagem de abandonar a vida na cidade para ver seus  filhos crescendo em contato direto com a natureza. 
Mas existe um componente inerente a todo ser humano, uma velha história de todos sabida e repisada: Onde quer que vá, o homem carrega consigo aquela silhueta vermelha maligna que adentra seus domínios sem pedir licença, senhora de tudo que rodeia suas ações e balizadora de seus instintos primitivos que teimam em conspurcar a paz, o amor, a solidariedade e a preservação do meio ambiente. A prefiguração deste ser diabólico, uma cena de animação, é uma das grandes surpresas com que Carlos Reygadas nos provoca. O público muitas vezes ri desta aparição, mesmo recém-saído do passaporte prévio de um sonho crepuscular. 
É aí que a realidade começa a se diluir. Dissolve-se na formulação panteísta de algumas crenças e ritos próprios de parte da vasta cultura mexicana. Essas diferenças sofrem todos os processos de desagregação e ameaças ilustrados por exemplo com o personagem mandante desmatador, que jura a irmã de morte por ela acreditar que árvores devem ser preservadas por conversarem e fazerem amor umas com as outras. A realidade mistura-se também ao caos afetivo do hoem viciado em sexo virtuale que vai procurar ajuda na comunidade dos AA já devidamente assentada nas montanhas (a falta de perspectivas, de trabalho e meios de subsistência de lugares e sociedades distantes e sem perspectivas muitas vezes lançam estas comunidades no alcoolismo e consumo de drogas ilícitas).  
A realidade também implode na incursão deslocada do casal protagonista em um fim de semana numa casa de sexo onde as salas são sintomaticamente definidas pelos grandes nomes da cultura (Hegel, Duchamp). 
A vida retratada confunde-se no vai-e-vem da cronologia sem aviso prévio, sem pedido de licença ou motivo para tal, apresentando-se ora num futuro imediato, ora evocando um passado imemorial habitado por entidades anímicas que se imiscuem onde tudo viceja. O inferno está a um palmo de distância de cada árvore. A especulação e a ganância, o roubo e a degeneração, a culpa e o assassinato andam de mãos dadas no paraíso. 
Post Tenebras Lux, a luz que vem depois das trevas, é uma tentativa de vencer a força do mal que habita a alma humana. E uma vez logrado este intento, a vida sobre a terra e a convivência dos homens com a natureza receberá novamente a bênção utópica da chuva purificadora que amealhará a paz no universo. Em grande parte do filme a ação é conduzida pelo personagem Sete, desgarrado, ex-viciado, ex-assassino, desacreditado da solidariedade e das relações sociais, que busca no AA alguma chance de recuperação. O arquiteto, para a sua perdição, o toma como empregado: Sete se transforma na encarnação do mal. Tenta assassinar o patrão ao ser flagrado roubando e quando confrontado com o estoicismo deste, com sua bondade, com a evidência de como atuou em seus últimos dias para recompor e dar uma nova chance à sua família abandonada, o componente maligno de Sete sofre um golpe fatal levando-o à autodestruição numa cena inenarrável. 
Este filme, além de deuses e demônios, é habitado por verdadeiros exemplares da cultura e da vida alternativa de forma bastante documental. São inúmeras as “figuraças” que marcam ponto em diversas sequências, com uma desenvoltura de fazer inveja ao mais desinibido dos atores profissionais. Esta habilidade de tirar proveito desses temperamentos e inserí-los como elementos constituintes de uma cultura bicho-grilo setentista que nunca arrefeceu, com seus rituais, a “mota”, a “coca” - elementos de uma vivência dedicada ao autoconhecimento, ao convívio na paz e na preservação da natureza – talvez tenha sido determinante na hora do júri em Cannes conceder o prêmio de melhor direção a Carlos Reygadas. E também pela sua coragem, despojamento e seu sentido diferenciado de agrupamento, tanto no que se refere ao time que joga com a finalidade de conseguir um tento, quanto à definição da comunidade dos homens. 
Este não é o tipo de filme para ser gostado ou deixar de ser, mas experimentado como antídoto ao veneno gramatical embotador e às fórmulas mercenárias do cinema - um colírio que nos fará perceber novas cores e universos. Alucinógeno? Merece mais respeito pela sua coragem do que admiração pelo que logrou edificar .





BESTIÁRIO (“Bestiaire” de Denis Côté, Canadá/França, 2012)


Tenho um amigo, um gato amarelo residente na biblioteca municipal da minha rua, uma charmosa casa art deco de Warchavchik tombada pelo patrimônio, que ao ver-me passar chamou-me e languidamente cheio de charme disse: “Hoje é dia de São Francisco de Assis; trouxe algum presente para mim?”. Estaquei de repentina surpresa e, como de outras vezes que nos encontramos, apliquei-lhe uma poderosa massagem, aprendida em longos anos de convivência com felinos de todos os tipos, humanos inclusive. Depois de algum tempo de esfregação, durante o qual ele se virava, rebolava, oferecia-se e olhava-me com evidente satisfação eu levantei e disse: “Preciso ir à luta”. Ficou decepcionado e quase chorou. “Quer mais?”, perguntei. Ele simplesmente miou aquiescendo. Pensei em São Francisco e decidi mandar minhas obrigações às favas. Só me retirei quando minhas mãos, os joelhos dobrados e as costas curvadas começaram a reclamar, além do olhar desconfiado com que o segurança nos olhava. Eu disse “Amigo, para mim não dá mais. Agora preciso ir realmente”. Ele virou-se e caminhou sestrosamente e sem mais delongas para o interior daquela magnífica construção. 

Se eu demorasse a tomar esta decisão perderia a sessão do filme “Bestiário” para a qual havia comprado ingresso antecipado, mas certamente não perderia a amizade ambígua e totalmente conspícua daquela amada criatura. Como todos sabem sou mais bicho do que gente. E com muito orgulho. Nunca me senti muito à vontade em sociedade e tenho pelos seres humanos tantas reservas e diferenças cruciais que cheguei numa altura da vida em que insistir nesta comédia tornou-se totalmente dispensável. Tornei-me meu próprio lobo, na certeza de que minhas vísceras servirão de repasto à minha própria avidez. 

Tenho por minha imagem refletida num espelho o mesmo sentimento inquietante de quando assisto o registro de um animal no telão do cinema, uma mistura de observação crítica despertada pela certeza de que são incapazes de fingir, ou “atuar” e a certeza de que ali existe alguma manipulação humana para que estas criaturas aparentemente indefesas rendam involuntariamente uma proposição fora do alcance (ou não?) de seu “entendimento”. 

Os animais são historicamente vítimas do racionalismo humano, uma espécie de status programático que levou estas criaturas a se sentirem superiores às demais. E revidam com sua mudez, uma autêntica forma de protesto ao tornar suas subjetividades fora do alcance da compreensão humana. Em geral fomos educados a olhar os animais do ponto de vista de um explorador ou um curioso, e raríssimas vezes como um observador do que as idiossincrasias de suas naturezas têm a nos dizer sobre nós mesmos. 

A imagem do animal é antes de tudo um enigma que nos coloca de frente à nossa disponibilidade de conviver com as diferenças. A imagem do animal tem sido recreativa, científica, consumista, execrada, mas poucas vezes alguém se postou ante eles para tentar entender ou edificar um status moral para suas existências. 

A primeira sequência do filme “Bestário” é bastante emblemática neste sentido: Nos supercloses de algumas pessoas que evoluem para a abertura gradual da obturação da lente, descobrimos que ali se passa uma aula de desenho de observação cujo objeto é um cervo empalhado. Aprende-se a olhar o mundo com a observação do animal enquanto objeto. O que está sendo retratado é uma parte de nosso conhecimento gradual adquirido e outra parte de nós mesmos enquanto afetividade. Ninguém ali está preocupado com o sofrimento ou o desrespeito infligidos aos bichos para edificá-los como um simulacro de si mesmos, taxidermizados. Alguém levantará a voz afirmando que este é um processo de preservação e de memória, uma vez que a presença física dos animais diminui a cada dia com a formidável proliferação de suas representações no mundo moderno. Esta sequência ilustra o nascimento do fenômeno artístico através da morte. É um comentário bastante eficaz que situa homem e bicho em esferas opostas e comungando o mesmo ideal através da arte. O detalhamento dos trabalhos na oficina de taxidermia é como uma jornada num necrotério. O ser submetido a todos aqueles processos para torná-lo um boneco talvez seja o mesmo, após tantos milênios, que os antigos egípcios faziam com as múmias de seus altos dignatários. Em face da morte, todos somos iguais nesta noite, perecíveis e voltaremos ao pó. 

O cotidiano do Safari Parque de Montreal, registrado pela câmeras nem sempre convenientemente enquadradas de Denis Côté (o comportamento aleatório de cada animal exigiria um tratamento especial e uma distância focal para cada um deles, algo impossível quando se quer registrá-los em suas verdadeiras condições de vida nem sempre adequadas a um staff cinematográfico) nos revela o que de dor e de delícia a vida selvagem tem a usufruir e a nos oferecer. O cativeiro a que estão submetidos para exames regulares, tratamentos, etc. evoca as condições de maus tratos espaciais e psicológicos sofridos por homens encarcerados muitas vezes por não terem seus direitos às diferenças do comportamento social codificado devidamente observados. 

O plano picado sobre o tremor do couro de um jovem cervo enclausurado constata o pânico a que está submetido pela propagação dos ruídos de portas e alambrados metálicos batidos por funcionários ou escoiceados por outros animais enfurecidos com o pouco espaço destinado à suas compleições físicas e suas liberdades solapadas. A manada dos bois que de repente se surpreende com a abertura do portão de sua jaula recusa-se a avançar em direção à câmera colocada no caminho de sua liberdade, flagrantemente constrangidos e ameaçados pelo dispositivo. A ira dos tigres avançando sobre a porta da jaula, o desespero das zebras confinadas num beco sem saída e a abertura da única asa de um pavão amputado (tem um espelho bastante sintomático dentro da gaiola – manipulação?) constituem um conjunto de imagens de uma beleza plástica incomensurável, fornecem material para inúmeras divagações filosóficas e acima de tudo nos alertam para a brutalidade inerente à manipulação da vida frente aos interesses do comércio das espécies. O casal de orangotangos que cata suas pulgas beijando-se carinhosamente enlevados em contrapartida com a maneira desleixada com que uma jovem veste a fantasia animal para recrear o público infantil nos coloca a questão da falsidade e do autêntico entre as espécies.

O que aprendemos observando os animais em suas condições originais de meio ambiente? Que somos intrusos naquela paisagem? Que temos muito a aprender com sua abnegação? Muitas destas perguntas são feitas sem palavras neste filme só de imagens. Quando alguém fala é totalmente irrelevante - e tão pouco - para o todo, mas quando a veterinária diz algumas palavras de carinho a uma hiena brutalmente espremida num engradado para não oferecer nenhum tipo de perigo à sua aproximação, temos uma certeza de que para além deste insensato mundo ainda existe um coração.
 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - A: A Culpa é do Filho, Elena, Sem Proteção, Great Expactations e Depois de Lucia


Decidi que este ano não faria resenhas dos filmes assistidos no Festival do Rio um pouco por estar muito ocupado tramando a explosão do Cristo Redentor, o bombardeio do Projac, o envenenamento do cachorro do vizinho, a abolição da cultura baiana, o assassinato de Luis Ignacio da Silva e o estupro de Cauã Raymond, fatores que, ao contrário de 2011 - quando tentava definir um tipo de antropofagia cultural a partir de dados pessoais confrontados ao trabalho intelectual alheio - demandam um dispêndio muito maior de concentração, tempo e energia.  Até que ao final da projeção de “Depois de Lucia” (Después de Lucía, Michel Franco, Mexico, 2012) senti que não poderia deixar passar impunemente aquela experiência. Um tanto por não ter encontrado nos sete dias iniciais desta maratona - não sei se por falta de sorte, de disponibilidade de tempo ou de critérios de escolha - um filme que tivesse me mobilizado desta forma. Outro tanto para gáudio dos meus mais de dois mil leitores de várias partes do mundo, no Brasil em sua maioria uma horda de ressentidos, invejosos, abrigados na escuridão de suas identidades na internet, que vasculham minha atividade particular para satisfação de seus egos e vaidades injustificados, injuriados por meus comentários a respeito de suas pobrezas intelectuais, investimentos artísticos equivocados, opiniões retrógradas travestidas de inovação, o tamanho de suas pirocas minúsculas ou para se precaverem contra o fim do mundo.

A saber:

1 - A CULPA É DO FILHO (“È Stato Il Figlio”, Danieli Cipri, Italia/França, 2012) 
                                                
Um festival de caricaturas perdidas numa absoluta falta de timing no registro do cotidiano de uma família pobre sob as leis onipresentes da Mafia impede esta tragicomédia de arrancar um sorriso que seja das platéais impassíveis com sua falta de rumo.   Daniele Cipri foi o diretor de fotografia de “Vincere” de Marco Bellochio, Itália, 2009 - um amontoado de cacoetes operísticos como veículo de propaganda retratando os desmandos fascistas de Mussolini na área pessoal e afetiva. A redundância de imagens “pictóricas”, de “composição”, gritantemente impingidas ao espectador, num virtuosismo exibicionista gratuito, aliados à mão pesada na direção de atores e na decupagem cinematográfica forçosamente elaborada, são os erros que Daniele Cipri, afora sua falta de experiência como diretor (é seu primeiro filme), repete sem parcimônia. Aqui temos novamente os enquadramentos caprichados, a fotografia de saturação estudada, elementos a que se ativeram com extrema atenção e cuidado, esquecendo-se que ali havia um material dramatúrgico a ser tratado prioritariamente em sua complexa mescla de tragédia e comédia que nunca se equilibram ou sequer se resolvem para qualquer dos lados. É notório que a parte cômica saiu prejudicada e isto é típico de diretores que se aventuram em terrenos que não são a sua praia, e a de Danieli Cipri parece não ser exatamente o senso de humor. Não conheço o romance original, mas tenho a impressão que a adaptação concentrou a ação em sequências-chave, que funcionaram como verdadeiros deus-ex-machina, como na sequência final, a única em que um cuidado com o timing não resvalou na pasmaceira geral, em que pese a contínua caracterização exagerada tanto física quanto interpretativa dos atores. Aqui o que se procura evidenciar é aquilo que infestou o inferno de cineastas dotados de boas intenções: A tragédia social da escravização histórica do homem ao dinheiro e os mecanismos que criaram para sua utilização e manipulação como instrumentos de poder, de influência e da desagregação familiar. Sobram imagens clichês (a grua que sobe acompanhando o personagem na estrada deserta), e sente-se o peso da tradição pictórica renascentista italiana, do quadro fixo, do retrato, da alegoria, que campeiam  ineficazes, completamente perdidas  na transposição para as imagens em movimento. O plano metafórico final, totalmente desnecessário, é a mais perfeita tradução do todo, assim como o discurso involuntariamente cômico em tela cheia de Mussolini em “Vincere” era para aquele.  Das cinco estrelas, duas.



2 – ELENA (“Elena”, Andrey Szviagintsev, Russia, 2011)

Uma boa amostra de como recursos narrativos simples controem uma narrativa efetivamente dramática sem apelos a elementos técnicos exibicionistas que desviam a atenção da história contada. A relação familiar é o principal elemento da evolução da trama. É novamente a tragédia da escravidão ao capital em face de dificuldades e desajustes sociais. Elena, a esposa dedicada e fiel transforma-se na mulher que, para manter o bem estar de sua família fora do casamento, é capaz da realização de um crime. A organização social da Rússia contemporânea, a poucas décadas da realidade de mercado, da necessidade individual de subsistência fora da esfera estatal e a consequente falta de preparo das atuais gerações (e a inadaptação das mais velhas), são retratados de forma bastante eficaz neste microcosmo familiar que o Sr. Svziagintsev nos propõe.  Nota dez para a ambientação do apartamento chique, assim como para o caos deliberado e circunstancial do outro, um contraste que muito nos informa sobre a situação de uma sociedade em processo de transformação. E nota vinte para a sóbria interpretação de Nadezhda Markina, uma antítese do glamour industrial cinematográfico em sua beleza madura e seu temperamento circunspecto, atributos que nos surpreendem quando da tomada de decisão do personagem. Talvez o encanto deste pequeno filme resida justamente no despojamento, na despretensão, na simplicidade que convém aos deuses e aos poetas.  Quatro das cinco estrelas.

3 – SEM PROTEÇÃO (“The Company You Keep”, Robert Redford, USA, 2012) 

É um daqueles filmes que aparentemente se diferenciam da cartilha hollywoodiana: Um elenco de velhas estrelas ainda fulgurantes que valem cada centavo do ingresso, e uma história que enfia o dedo na política de segurança americana praticada pela CIA (em tudo idêntica ao que os países do terceiro mundo sofreram na época de suas ditaduras através do know how exportado pelos Estados Unidos nos anos 60/70). Mas como é de voz corrente, Hollywood tem a varinha mágica dos milhões de dólares que absorvem e transformam o trabalho sujo do sistema americano (perseguições, torturas, mortes, violações de direitos civis, desrespeito aos direitos humanos, arbitrariedade, etc.) em filmes que aparentemente purgam suas culpas com lágrimas crocodilo. Neste caso há um filme paradigmático, “Corações e Mentes” (Hearts and Minds, 1974) vencedor do Oscar, que é uma pasteurização da brutalidade americana no Vietnã, servida em frames edulcorados para o consumo de uma nação desacreditada na política internacional (e não só naquela época).  Os protestos contra a guerra do Vietnã e os raids nos campus das universidades dos anos 60 que produziram mortos e feridos numa continuação da guerra dentro da própria casa, facultou a formação de organizações radicais como os saudosos Black Panthers e o Weather Report, pano de fundo desta trama. Este tipo de apropriação não se verifica só no cinema: Weather Report é também o nome de uma banda de jazz rock que fez algum sucesso nos anos 70 (se não me engano um dos seus integrantes era brasileiro) abrindo caminho para o esvaziamento da  da história das resistências através de títulos ilustrativos que várias bandas adotaram em sua esteira. Robert Redford cavou nas dobras das rugas de Julie Christie, Nick Nolte e da minha favorita Susan Sarandon - além das suas próprias (sua foto dos tempos de Butch Cassidy que aparece em cena provoca um verdadeiro choque cultural) – a textura que permeia o desenvolvimento de uma espécie de thriller eivado de tintas pretensamente sociais, e que buscam no repertório político somente um instrumento para a edificação de uma dramaturgia convencional que em última instância, e paradoxalmente, ratifica as instituições conservadoras da família, do patriotismo e do herói bom moço que se sacrifica para não colocar em risco a vida de antigos e encarniçados companheiros de luta, o traço mais relevante do seu caráter.  O tema passional inserido a forceps resulta inconsistente, com o único objetivo de salvar a pele do mocinho nos estertores finais por uma clandestina ex-guerrilheira e amante, cascuda do tráfico de drogas, calejada das vicissitudes da vida de foragida, numa repentina e mal desenvolvida reviravolta destinada a não prejudicar a criancinha que aguarda desconsolada a volta do papai.  Três estrelas: Julie, Susan e Nick.





4 – GREAT EXPECTATIONS (“Great Expectations”, Mike Newel, Inglaterra, 2012) 

Nova adaptação daquele livro que fomos obrigados a ler na adolescência: Resultou num filme pomposo, careta, e com um roteiro muito confuso.  Helena Bonham-Carter, longe das garras do marido, oferece uma interpretação artificialmente empostada tal como toda a dimensão física que a rodeia. Todo o filme tem um pé no teatro e não consegue se desvencilhar das amarras tradicionais das narrativas baseadas em livros muito famosos que ora caem na subserviência, ora no equívoco. A reconstituição da Londres da época evoca boa parte do que os cronistas e o próprio autor retratam como um amontoado de lama, detritos, poluição e mau cheiro. As características dos personagens antagonistas são de tal sorte maniqueístas, que em alguns momentos nos perguntamos se não estamos assistindo a uma peça infantil de má qualidade. Somente a ótima interpretação e adequada caracterização de Ralph Fiennes nos salva da mesmice. Assim como a de Jason Flemyng, o cunhado. E afora as caretas, também o trabalho coadjuvante de Ralph Ineson no papel de Seargent, o secretário do advogado, bastante divertido. Duas estrelas.



5 – DEPOIS DE LUCIA (“Después de Lucía”, Michel Franco, Mexico, 2012) 

Poucos filmes me fizeram sentir na pele o desejo de vingança avant la lettre que seu personagem principal (o pai - e não a filha como parece mas não é) vai ser tomado ao final da narrativa.  Trata-se de um personagem constantemente obscurecido pelas atividades da filha que são a maior parte do que é exibido na tela. Este pai ergue-se aos poucos da dor da perda e do sentimento de culpa pela morte acidental de sua mulher.  É completamente inesperado que uma história que a princípio mal se explicita - ou que o faz tão economicamente provocando-nos a sensação de que pouco ou nada está acontecendo - se converta num emaranhado de preconceitos, machismo, má educação, subserviência, desamparo, irresponsabilidades e ignorância dos direitos inerentes ao indivíduo por uma juventude subjugada aos desmandos do consumismo e escravizada às redes sociais virtuais. Todos esses elementos tecem paulatinamente uma teia que se agiganta nesta obra ímpar orquestrada por Michel Franco.  Não há nenhuma música que sustente sua evolução e seus cortes são tão secos como uma faca afiada que nos penetra a cada vez, atiçando-nos um incômodo desejo de inteferir na trama, que nos prostra na cadeira e não dá chance e nenhuma salvação. Os vários planos fotografados no interior dos veículos, colocam-nos sentados no banco de trás, trazendo-nos para dentro deste filme que pouco a pouco nos toma de assombro e participação, de tal modo que esperamos ansiosos e sem perder o interesse durante mais de dois minutos de um plano fixo focado nas estripulias de uma galera aborrescente numa festinha particular - linguajar vazio, comportamento torpe, tudo absolutamente irrelevante - para finalmente termos a informação do que está acontecendo com o personagem trancado no banheiro que nossa expectativa não abandona nem a pau.  Sua ausência é tão imperiosa que justifica tantas bobagens impingidas ao espectador. Este tratamento ostensivamente escamoteador da personagem principal, sem que jamais percamos o interesse naquilo que não está sendo mostrado, é uma proeza resultante de um conhecimento profundo da carpintaria dramatúrgica e um estrito sentido de timing capazes de investir e sustentar tanto tempo numa jogada tão arriscada.  Todas as sequências são investidas deste sentido de somatório implacável, cada uma com seu lugar e sua importância capital, alcançando tal nível de exacerbação do absurdo, principalmente por conta de sua absoluta falta de atrativos técnicos e cacoetes narrativos de identificação imediata, que justamente por isso nos arrebata pela sensação de pertencimento, de estarmos participando daquele mundo e daquela trama, apartados somente por alguns frames de distância, numa catarse sem rodeios.  Destaque para a beleza singela e o talento da moçoila Tessa Ia e a evolução do desenho do personagem do pai interpretado por Hernán Mendoza - da depressão causada pela perda de sua mulher, passando pela inadaptação à sua nova vida profissional em outra cidade, até à odisséia pela busca da filha desaparecida hipoteticamente no mar, este mar que abrigará o seu projeto de vingança e nos desafogará ao final do filme..  Todas as estrelas.