POST TENEBRAS LUX (“Post Tenebras Lux”, Carlos Reygadas, Mexico/França/Holanda/Alemanha, 2012)
Animado por um prêmio de melhor direção ganho em Cannes 2012, e
com uma expectativa maior do que a de costume devido à magistral obra
precedente de Carlos Reygadas, LUZ SILENCIOSA (“Stellet Licht, (Mexico/Holanda/Alemanha/França,
2007) lá fui eu correndo para o cinema assistir este “Post Tenebras Lux”. Confieso que bebi quando as primeiras
imagens apareceram no telão - ou pelo menos assim me senti. Aquela lente
caleidoscópica, de imagens borradas e multiplicadas nas bordas me deu a
impressão de estar presenciando mais uma gafe da organização do Festival do Rio
em meio a várias outras que testemunhei nesta edição: Atrasos, péssima
qualidade de projeção digital em alguns filmes importantes, interrupções da
projeção, cancelamento de filmes, discursos prolixos e reiterativos tipo
professor Simon Wajntraub.
O cinema tem dessas coisas, surpreende, e às
vezes converte-se numa armadilha onde o espectador emaranha-se sem se dar conta
da forma traiçoeira em que a coisa foi orquestrada. Em TABU (“Tabu”, de Miguel
Gomes, Portugal/ Brasil/França/ Alemanha, 2012), por exemplo, grande parte da
plateia apupou várias sequências à primeira vista emudecidas, sem se dar conta
que o som ambiente ainda perpassava apesar dos atores continuarem a dialogar
sem que suas vozes fossem ouvidas. Alguém imprecou em voz alta contra o
“defeito” na banda sonora.
Confesso também que exulto quando caio numa armadilha
destas, desde que me torne presa de um evento em que suas principais qualidades
sejam a inteireza, a fatura diferenciada, a pesquisa relevante e acima de tudo
quando me conscientizo de estar me deleitando com uma obra de arte em todas
suas inerentes responsabilidades, habilidades e fundamentos que seu enunciado
apresenta e desenvolve.
Carlos Reygadas neste filme nos traz um componente de
atitude tão diverso e que constitui um peso tão preponderante na apreciação do
todo, que muitas vezes algumas derrapadas gramaticais, pontas soltas e cenas
aparentemente desconexas acabam perfazendo uma unidade de exotismo tão estranha
quanto vital. Faz a proeza de ostentar um perfil singular na estética cinematografia
contemporânea, longe de qualquer gabarito conhecido, assim com nos deixa
perplexos com a simplicidade com que flagra de forma à vezes documental as
interpretações de seus atores em sua maioria não profissionais, das crianças
envolvidas, e principalmente os animais que adornam toda a trama de forma
pacífica e muitas vezes conjuntural. A sequência inicial, por exemplo, o sonho
da adorável menina, um plano extensíssimo que vai do entardecer de um espetacular
céu cor de rosa até a noite, em meio a vacas, cachorros, aos charcos que a
chuva deixou e do prenúncio da tempestade que desabará, esta sequência tem uma magia que se propaga pelo restante do filme, uma atmosfera onírica
tanto da forma quanto do conteúdo que provoca uma sensação de estranhamento pela
invasão do mundo “real”, vítima da mesma gramática que nos embaralha.
O
protagonista, se é que podemos chamá-lo assim, é um arquiteto “new age”, um
homem que resolve morar na montanha com sua mulher, dois filhos e cachorros. A
casa é excelente apesar de nunca a vermos inteira. E como tudo que se insinua
neste filme, é alternativa. Alternativa como os processos arquitetônicos construtivos algumas vezes aludidos,
como a forma em que os planos e sequências se amalgamam nesta obra que opta por assumir o desconcerto como seu cavalo de batalha, alternativa como a opção do personagem de abandonar a vida na
cidade para ver seus filhos crescendo em contato direto com a natureza.
Mas existe um componente inerente a todo ser humano, uma velha história de todos sabida e repisada: Onde quer que vá, o homem carrega consigo aquela silhueta vermelha maligna que adentra seus domínios sem pedir licença, senhora de tudo que rodeia suas ações e balizadora de seus instintos primitivos que teimam em conspurcar a paz, o amor, a solidariedade e a preservação do meio ambiente. A prefiguração deste ser diabólico, uma cena de animação, é uma das grandes surpresas com que Carlos Reygadas nos provoca. O público muitas vezes ri desta aparição, mesmo recém-saído do passaporte prévio de um sonho crepuscular.
Mas existe um componente inerente a todo ser humano, uma velha história de todos sabida e repisada: Onde quer que vá, o homem carrega consigo aquela silhueta vermelha maligna que adentra seus domínios sem pedir licença, senhora de tudo que rodeia suas ações e balizadora de seus instintos primitivos que teimam em conspurcar a paz, o amor, a solidariedade e a preservação do meio ambiente. A prefiguração deste ser diabólico, uma cena de animação, é uma das grandes surpresas com que Carlos Reygadas nos provoca. O público muitas vezes ri desta aparição, mesmo recém-saído do passaporte prévio de um sonho crepuscular.
É aí que a realidade começa a se diluir. Dissolve-se na formulação
panteísta de algumas crenças e ritos próprios de parte da vasta cultura
mexicana. Essas diferenças sofrem todos os processos de desagregação e ameaças ilustrados
por exemplo com o personagem mandante desmatador, que jura a irmã de morte por ela acreditar que
árvores devem ser preservadas por conversarem e fazerem amor umas com as outras.
A realidade mistura-se também ao caos afetivo do hoem viciado em sexo virtuale que
vai procurar ajuda na comunidade dos AA já devidamente assentada nas montanhas (a falta de perspectivas, de trabalho e meios de subsistência de lugares e
sociedades distantes e sem perspectivas muitas vezes lançam estas comunidades no alcoolismo e
consumo de drogas ilícitas).
A realidade também implode na incursão deslocada do casal protagonista em um fim de semana numa casa de sexo onde as salas são sintomaticamente definidas pelos grandes nomes da cultura (Hegel, Duchamp).
A realidade também implode na incursão deslocada do casal protagonista em um fim de semana numa casa de sexo onde as salas são sintomaticamente definidas pelos grandes nomes da cultura (Hegel, Duchamp).
A vida retratada confunde-se no vai-e-vem da cronologia sem aviso
prévio, sem pedido de licença ou motivo para tal, apresentando-se ora num futuro
imediato, ora evocando um passado imemorial habitado por entidades anímicas que
se imiscuem onde tudo viceja. O inferno está a um palmo de distância de cada
árvore. A especulação e a ganância, o roubo e a degeneração, a culpa e o
assassinato andam de mãos dadas no paraíso.
Post Tenebras Lux, a luz que vem
depois das trevas, é uma tentativa de vencer a força do mal que habita a alma
humana. E uma vez logrado este intento, a vida sobre a terra e a convivência
dos homens com a natureza receberá novamente a bênção utópica da chuva
purificadora que amealhará a paz no universo. Em grande parte do filme a ação é
conduzida pelo personagem Sete, desgarrado, ex-viciado, ex-assassino, desacreditado
da solidariedade e das relações sociais, que busca no AA alguma chance de
recuperação. O arquiteto, para a sua perdição, o toma como empregado: Sete se
transforma na encarnação do mal. Tenta assassinar o patrão ao ser flagrado
roubando e quando confrontado com o estoicismo deste, com sua bondade, com a
evidência de como atuou em seus últimos dias para recompor e dar uma nova
chance à sua família abandonada, o componente maligno de Sete sofre um golpe
fatal levando-o à autodestruição numa cena inenarrável.
Este filme, além de
deuses e demônios, é habitado por verdadeiros exemplares da cultura e da vida
alternativa de forma bastante documental. São inúmeras as “figuraças” que
marcam ponto em diversas sequências, com uma desenvoltura de fazer inveja ao
mais desinibido dos atores profissionais. Esta habilidade de tirar proveito
desses temperamentos e inserí-los como elementos constituintes de uma cultura
bicho-grilo setentista que nunca arrefeceu, com seus rituais, a “mota”, a
“coca” - elementos de uma vivência dedicada ao autoconhecimento, ao convívio na
paz e na preservação da natureza – talvez tenha sido determinante na hora do
júri em Cannes conceder o prêmio de melhor direção a Carlos Reygadas. E também
pela sua coragem, despojamento e seu sentido diferenciado de agrupamento, tanto
no que se refere ao time que joga com a finalidade de conseguir um tento,
quanto à definição da comunidade dos homens.
Este não é o tipo de filme para
ser gostado ou deixar de ser, mas experimentado como antídoto ao veneno
gramatical embotador e às fórmulas mercenárias do cinema - um colírio que nos
fará perceber novas cores e universos. Alucinógeno? Merece mais respeito pela sua coragem do que admiração pelo que logrou edificar .
BESTIÁRIO (“Bestiaire” de Denis Côté, Canadá/França, 2012)
Tenho um amigo, um gato amarelo residente na biblioteca
municipal da minha rua, uma charmosa casa art deco de Warchavchik tombada pelo
patrimônio, que ao ver-me passar chamou-me e languidamente cheio de charme
disse: “Hoje é dia de São Francisco de Assis; trouxe algum presente para mim?”.
Estaquei de repentina surpresa e, como de outras vezes que nos encontramos,
apliquei-lhe uma poderosa massagem, aprendida em longos anos de convivência com
felinos de todos os tipos, humanos inclusive. Depois de algum tempo de
esfregação, durante o qual ele se virava, rebolava, oferecia-se e olhava-me com
evidente satisfação eu levantei e disse: “Preciso ir à luta”. Ficou
decepcionado e quase chorou. “Quer mais?”, perguntei. Ele simplesmente miou
aquiescendo. Pensei em São Francisco e decidi mandar minhas obrigações às
favas. Só me retirei quando minhas mãos, os joelhos dobrados e as costas
curvadas começaram a reclamar, além do olhar desconfiado com que o segurança
nos olhava. Eu disse “Amigo, para mim não dá mais. Agora preciso ir realmente”.
Ele virou-se e caminhou sestrosamente e sem mais delongas para o interior
daquela magnífica construção.
Se eu demorasse a tomar esta decisão perderia a
sessão do filme “Bestiário” para a qual havia comprado ingresso antecipado, mas
certamente não perderia a amizade ambígua e totalmente conspícua daquela amada
criatura. Como todos sabem sou mais bicho do que gente. E com muito orgulho.
Nunca me senti muito à vontade em sociedade e tenho pelos seres humanos tantas
reservas e diferenças cruciais que cheguei numa altura da vida em que insistir
nesta comédia tornou-se totalmente dispensável. Tornei-me meu próprio lobo, na
certeza de que minhas vísceras servirão de repasto à minha própria avidez.
Tenho por minha imagem refletida num espelho o mesmo sentimento inquietante de
quando assisto o registro de um animal no telão do cinema, uma mistura de
observação crítica despertada pela certeza de que são incapazes de fingir, ou
“atuar” e a certeza de que ali existe alguma manipulação humana para que estas
criaturas aparentemente indefesas rendam involuntariamente uma proposição fora
do alcance (ou não?) de seu “entendimento”.
Os animais são historicamente
vítimas do racionalismo humano, uma espécie de status programático que levou
estas criaturas a se sentirem superiores às demais. E revidam com sua mudez,
uma autêntica forma de protesto ao tornar suas subjetividades fora do alcance da compreensão humana. Em geral
fomos educados a olhar os animais do ponto de vista de um explorador ou um
curioso, e raríssimas vezes como um observador do que as idiossincrasias de
suas naturezas têm a nos dizer sobre nós mesmos.
A imagem do animal é antes de
tudo um enigma que nos coloca de frente à nossa disponibilidade de conviver com
as diferenças. A imagem do animal tem sido recreativa, científica, consumista,
execrada, mas poucas vezes alguém se postou ante eles para tentar entender ou
edificar um status moral para suas existências.
A primeira sequência do filme
“Bestário” é bastante emblemática neste sentido: Nos supercloses de algumas
pessoas que evoluem para a abertura gradual da obturação da lente, descobrimos
que ali se passa uma aula de desenho de observação cujo objeto é um cervo
empalhado. Aprende-se a olhar o mundo com a observação do animal enquanto
objeto. O que está sendo retratado é uma parte de nosso conhecimento gradual
adquirido e outra parte de nós mesmos enquanto afetividade. Ninguém ali está
preocupado com o sofrimento ou o desrespeito infligidos aos bichos para
edificá-los como um simulacro de si mesmos, taxidermizados. Alguém levantará a
voz afirmando que este é um processo de preservação e de memória, uma vez que a
presença física dos animais diminui a cada dia com a formidável proliferação de
suas representações no mundo moderno. Esta sequência ilustra o nascimento do
fenômeno artístico através da morte. É um comentário bastante eficaz que situa
homem e bicho em esferas opostas e comungando o mesmo ideal através da arte. O
detalhamento dos trabalhos na oficina de taxidermia é como uma jornada num
necrotério. O ser submetido a todos aqueles processos para torná-lo um boneco
talvez seja o mesmo, após tantos milênios, que os antigos egípcios faziam com
as múmias de seus altos dignatários. Em face da morte, todos somos iguais nesta
noite, perecíveis e voltaremos ao pó.
O cotidiano do Safari Parque de Montreal,
registrado pela câmeras nem sempre convenientemente enquadradas de Denis Côté
(o comportamento aleatório de cada animal exigiria um tratamento especial e uma
distância focal para cada um deles, algo impossível quando se quer registrá-los
em suas verdadeiras condições de vida nem sempre adequadas a um staff
cinematográfico) nos revela o que de dor e de delícia a vida selvagem tem a
usufruir e a nos oferecer. O cativeiro a que estão submetidos para exames
regulares, tratamentos, etc. evoca as condições de maus tratos espaciais e
psicológicos sofridos por homens encarcerados muitas vezes por não terem seus
direitos às diferenças do comportamento social codificado devidamente
observados.
O plano picado sobre o tremor do couro de um jovem cervo enclausurado constata o
pânico a que está submetido pela propagação dos ruídos de portas e alambrados
metálicos batidos por funcionários ou escoiceados por outros animais
enfurecidos com o pouco espaço destinado à suas compleições físicas e suas
liberdades solapadas. A manada dos bois que de repente se surpreende com a
abertura do portão de sua jaula recusa-se a avançar em direção à câmera
colocada no caminho de sua liberdade, flagrantemente constrangidos e ameaçados
pelo dispositivo. A ira dos tigres avançando sobre a porta da jaula, o
desespero das zebras confinadas num beco sem saída e a abertura da única asa
de um pavão amputado (tem
um espelho bastante sintomático dentro da gaiola – manipulação?) constituem um
conjunto de imagens de uma beleza plástica incomensurável, fornecem material
para inúmeras divagações filosóficas e acima de tudo nos alertam para a
brutalidade inerente à manipulação da vida frente aos interesses do comércio
das espécies. O casal de orangotangos que cata suas pulgas beijando-se carinhosamente enlevados em contrapartida com a maneira desleixada com que uma jovem veste a fantasia animal para recrear o público infantil nos coloca a questão da falsidade e do autêntico entre as espécies.
O que aprendemos observando os animais em suas condições
originais de meio ambiente? Que somos intrusos naquela paisagem? Que temos
muito a aprender com sua abnegação? Muitas destas perguntas são feitas sem
palavras neste filme só de imagens. Quando alguém fala é totalmente irrelevante
- e tão pouco - para o todo, mas quando a veterinária diz algumas palavras de
carinho a uma hiena brutalmente espremida num engradado para não oferecer
nenhum tipo de perigo à sua aproximação, temos uma certeza de que para além
deste insensato mundo ainda existe um coração.



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