LORE (“Lore”, de Cate Shortland, Australia/ Inglaterra/Alemanha,
2012)
A fuga de uma família nazista ao fim da segunda guerra mundial.
O
uso detalhado de particularidades dos elementos ao final de cada sequência evidencia uma
tendência ao sensorial neste retrato bucólico e outras vezes cruel do retorno
as raízes familiares. As texturas da natureza e seus fenômenos, a
podridão dos cadáveres, o cheiro da morte e a escassez dos víveres são
configurados com extremo realismo e uma estranha poesia morfética.
Ambientado
na virada do jogo do panorama político e geográfico estabelecido ao
final da 2ª guerra, a Alemanha dividida em setores internacionais, a revelação das
fotos do holocausto e o peso das etnias no desenho da nova configuração da Europa.
Fotografia exuberante acompanha as crianças perdidas na Floresta
Negra e todas as dificuldades que precisam superar para alcançar a casa da avó
autoritária onde Lore, a adolescente protagonista, vai edificar seu rito de
passagem para a nova mulher que surge amadurecida pelo somatório dos
sofrimentos, privações e horrores que passou em consequência da derrota alemã -
uma guerra em que viu seu pai prosperar e fugir, assim como a mãe na iminência da
privação da sua liberdade e ter que optar por abandonar os filhos à própria
sorte ou à tutela do novo Estado ainda em formação (e sabe-se lá que fim teriam).
A música careta repete muito e se estabelece com enfado. Os atores mirins em
sua maioria se desincumbem com bastante aproveitamento de seus papéis. A atriz
que faz Lore é linda apesar de certa frieza que o papel exige e da fisicalidade
germânica avantajada e demasiado branca que a distingue. Três estrelas.
TERMAS ROMANAS (“Thermae Romae” de Hideki Takeuchi, Japão, 2012)
É o evento mais transcultural que eu presenciei. Encenação do reinado do imperador Adriano (117 a 138 d.C.) realizada por
diretor, produtores e atores japoneses, falado em japonês, intertítulos em latim
antigo, direção de arte ostensivamente fake, suntuosa, colorida e beirando a
luxúria.
É uma aventura fantástica adaptada do mangá da artista Mari Yamazaki na qual os personagens viajam no tempo. O protagonista é um arquiteto
especializado na construção das antigas termas romanas sob a pressão da entrada da nova geração de profissionais na área que vêm colocar em cheque as suas
habilidades e ameaçar sua hegemonia junto às antigas empreiteiras a serviço do
império. Este personagem viaja no tempo rumo ao Japão contemporâneo onde
coleta informações das tecnologias e conquistas da nossa contemporaneidade disponíveis para
o bem estar da civilização e volta para adaptá-las com o sabor da novidade na
Roma antiga, numa verdadeira comédia do emprego das antigas formas do trabalho
escravo rudimentar a serviço da emulação das configurações construtivas modernas
com hilariante resultado.
E faz muito sucesso entre seus pares garantindo sua
posição na corte embora atormentado pelo fato de não poder explicar por que
suas aplaudidas novidades são apenas cópias sofríveis das conquistas daqueles escravos
que ele conheceu no misterioso reino das “Caras Achatadas”.
O efeito de se
deparar com um imperador do porte de Adriano - imagem portentosamente edificada em nossa memória pelos compêndios da história ocidental
e imortalizado com tanta categoria pelo magnífico livro de Marguerite Yourcenar
- interpretado por um ator oriental falando japonês é algo de fascinante
estranhamento resultante de um somatório de fatores globalizantes que nunca
cessam de desfilar durante os 108 minutos desta projeção.
É ostensivo o emprego
de clichês operísticos de quase todas as obras de Puccini ilustrados ao vivo e a cores por um comicamente poderoso
tenor que entra e sai de cena de forma distanciada e crítica e ao final jaz escornado
com o paletó pendurado na cadeira à beira de um lago italiano - não faltando
obviamente ocasiões para a repetitiva audição da marcha triunfal da Aída de Verdi.
É um
história de ritmo alucinante, não deixa a peteca cair em momento algum, mas de
um jeito muito próprio e diferenciado do corre-corre dos filmes ocidentais de
aventuras fantásticas, executada com um tipo de concisão e simplicidade típicos
da sintetização narrativa da cultura oriental que também nos faz viajar e
divertir bastante.
O ator protagonista é muito bonito e gostoso neste filme coalhado
de bundas; Antinoo é uma aparição tão fugaz quanto o crocodilo que também aqui
(como em “Tabu” de Miguel Gomes, Portugal 2012) faz de sua presença a alegoria
de um amor trágico. Todos os anciãos do elenco de apoio, os habitantes da Terra
das Caras Achatadas (hoje), são muito expressivos e engraçados, quase caricaturas,
como a que este filme se delineia pela sua vocação de história em quadrinhos
em sua linguagem peculiar e tipos fixos.
A cópia foi exibida com legendas em
inglês, indício de que esta grande curtição periga passar ao largo da exibição
comercial em Terras Brasilis, em outra tremenda bola fora dos distribuidores
locais (haja visto o caso do filme “O Abrigo” e "Essential Killing" lançados diretamente em DVD, entre
outros), sempre avessos e temerosos às novidades formais, alheios aos encantos de uma camp extravaganza.
Trata-se de uma grande produção, dispendiosa, muitos talentos, muito
dinheiro, muito tempo, filmagens em Cinecittá, que não perdeu a identidade
oriental da sua visão da cultura do outro lado do mundo através do retrato das
conquistas do império romano em seu apogeu. Quatro estrelas.
DEIXE A LUZ ACESA ("Keep The Lights On", de Ira Sachs, Estados Unidos, 2012)
Meu terceiro filme daquele dia, um romance gay de protagonista barrigudinho, flácido e necessitado de reabilitação oral. O vizinho da poltrona ao lado não parava de consultar o celular, aquela luzinha acendendo e apagando - não que estivesse interrompendo minha concentração que já estava navegando no desinteresse desde os créditos iniciais, mas provocando uma série de contrastes simultâneos na escuridão transportadas para o telão, que transformaram a projeção numa instalação de artes plásticas.
Enquanto no telão o rapaz que ao telefone dizia que gostava de ficar por cima chegando às vias de fato estava em baixo, eu pensava: Amanhã vou fazer um feijão; vou sair daqui direto para o supermercado. O parceiro do gordinho tira uma pedra de crack, aspira a fumaça, eu viajando dentro da panela de pressão, nadando em meio a 1/2 kg. de feijão + 1 bom pedaço de costela suina salgada + 1 paio de bom tamanho. Quando acrescentei este último ingrediente os atores interromperam a trepada, olharam para mim, erraram as marcas e o texto, obrigando o diretor a cortar a sequência na montagem.
Na impressão de que assistia ao primeiro corte, pensei no santo do dia, se vai dar praia no fim e semana, nos conflitos do oriente médio, na picadura dos mosquitos da dengue versão 2013, na sensação da cueca nova que me apertava os colhões e no vermelhão da rinsagem de Lúcifer sentada à minha frente junto ao Barretão que dormia. E com razão.
Para quem tem problema de insônia indico este filme. Para quem é dependente de crack também, por que ao final, se não me engano, o moço que reincidiu no deboche após o rehab parece que tomou vergonha na cara e saiu da aba do gordinho apaixonado.
Quando terminou, a fila do banheiro masculino era mais extensa que o feminino, a maioria para retocar make up e coiffure. Só o Barretão que vertia incessantemente uns litro e meio de urina (alvo de olhares desencorajadores) enquanto Lúcifer rodava a bolsinha no foyer.
Aquele dia o céu estava nublado, sem estrelas.
Para quem tem problema de insônia indico este filme. Para quem é dependente de crack também, por que ao final, se não me engano, o moço que reincidiu no deboche após o rehab parece que tomou vergonha na cara e saiu da aba do gordinho apaixonado.
Quando terminou, a fila do banheiro masculino era mais extensa que o feminino, a maioria para retocar make up e coiffure. Só o Barretão que vertia incessantemente uns litro e meio de urina (alvo de olhares desencorajadores) enquanto Lúcifer rodava a bolsinha no foyer.
Aquele dia o céu estava nublado, sem estrelas.



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