sábado, 27 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - F: Apenas o Vento, Atrás da Porta e Parada


APENAS O VENTO
(“Czak a Szél”, de Benedek Fliegauf, Hungria/Alemanha/França, 2012)

A intolerância racial e religiosa, a corrida do ouro, a ignorância, o nepotismo, a corrupção, enfim, todos os miasmas que grassam na existência desta maravilha que se convencionou chamar ser humano, são os responsáveis pelas grandes tragédias que submetem as populações menos bafejadas pela sorte à injustiças e perseguições que, mais dia menos dia, voltam ao cartaz tanto na terra quanto no telão.  Sua permanência - a despeito de suas diversas e mutáveis configurações - são programáticas e necessárias ao giro da roda da fortuna dos fazedores das leis, dos ditadores das convenções sociaise à manutenção de cargos de burocratas em  ministérios inoperantes e corruptos. 
O extermínio comandado por milícias é a ordem do dia nesta seara da limpeza étnica, dos desafetos, queimas de arquivos e vozes dissonantes operando em diversos pontos do planeta. Naquele longínquo país de micos e bananeiras do terceiro mundo, todos sabem ao que se refere. Na Hungria, país que aprendemos desde a mais tenra infância ser a pátria dos ciganos, não foge a regra o aparato repressivo que aterroriza as tribos desta etnia perseguida através dos séculos por culturas intolerantes. Meu professor de ginástica quando em Pest repetia que precisava cuidar muito bem da carteira para não ser roubado. Qual a origem deste consenso de que ciganos são ladrões e aproveitadores? O que dizer das massas famintas e deserdadas da terra que marcham pelos tempos através de suas dificuldades para cavar suas subsistências? No que diferem estes cidadãos húngaros da corja de corruptos de colarinho branco amealhada em todos os países, dos pickpockets à solta nas grandes cidades ou dos preços escorchantes que temos de pagar para usufruir aquilo que a Terra nos dá de graça? 
Resposta: A diferença está na escala. 
É muito mais fácil erradicar uma mixaria de meia dúzia de moradias capengas em lugar afastado dos grandes centros, cheia de trabalhadores que se submetem às necessárias tarefas de manutenção das grandes cidades por um salário absurdo e humilhante. E tudo executado com a colaboração, a onisciência e a omissão dos órgãos de segurança. Pensam estar limpando as ruas com a lama das suas ações criminosas. 
O clima de terror e insegurança a que os personagens deste filme estão submetidos é uma perfeita ilustração deste estado de coisas. A falta de estabilidade da câmera na mão nos deixa tão vulneráveis na impossibilidade de estabelecer um chão enquanto espectadores, é o mesmo das agruras que a família de trabalhadores ciganos precisam passar para sobreviver estudando, trabalhando e arquitetando suas defesas. É uma verdadeira febre esta compulsão de, com a entrada no mercado de equipamentos cada vez mais leves, os cineastas optarem por esta postura;  respirei aliviado e dei graças a Deus quando assisti “Bestiário”, um filme todo construído em magníficos planos fixos. 
O menino, herói do filme (é impressionante como a cinematografia contemporânea tem lançado mão da protagonização infantil), constrói seu esconderijo com elementos e objetos subtraídos de sua própria casa e arredores, ciente de que a qualquer momento precisará se esconder dos ataques das milícias que vem dizimando as famílias de ciganos nas redondezas e não pode se separar de suas lembranças e suas raízes. Acredita-se que existe um porco fugitivo da última chacina que, perdido em meio à floresta, torna-se o símbolo da resistência, da encarnação dos ciganos como uma sub raça, animais, encontrado em decomposição com vários tiros em um capão do mato pelo personagem. Seu sepultamento é imbuído da intuição infantil do respeito aos mortos conferidos aos da sua própria espécie, a mesma cerimônia a que os corpos de seus parentes serão submetidos no trágico e constantemente aguardado desfecho deste filme. 
São minutos de constante tensão provocada pela certeza de que o aniquilamento desta família está a caminho. A mãe é interpretada por uma atriz poderosíssima em sua simplicidade, economia de gestos, traços rústicos e no carregamento de tensão na sua máscara facial. É um primor a observação que dá título ao filme, da propriedade da natureza pródiga em escamotear o perigo, confundindo o alarme dos habitantes da casa com a chegada dos milicianos: “É apenas o Vento” - o mesmo tipo de desfaçatez com que aquele casal de velhos em outra situação se referiu a Pat Smith e Robert Marplethorpe: “São só garotos”. 
Na saída ouvi um comentário, “Esperava Mais”. 
Entendo o quanto: A secura e o suspense desta obra não são ostensivamente induzidos por qualquer artifício de roteiro ou direção com o propósito de controlar o interesse do público, mas da interação das plateias com a urgência do tema proposto. Não se trata de espetacularizar o sofrimento ou edulcorá-lo tornando-o palatável a plateias chorosas e clementes pela misericórdia divina. O que se vê aqui é um recorte isento de julgamentos, muito próximo do registro documental. O resto é o vento traiçoeiro. Quatro estrelas.


ATRÁS DA PORTA
(“The Door” de István Szabó, Hungria/Alemanha, 2012)

Aquilo que “Apenas O Vento” economiza na narrativa, este seu conterrâneo, “Atrás da Porta”, não se intimida em esbanjar. Apesar de húngaro em seu pedigree e leitmotiv, este filme realiza a globalização transcultural da contemporaneidade. 
O cinema americano sempre foi pródigo em contar histórias de outras culturas empregando o inglês como matriz narrativa. Esta convenção se firmou no afã da disseminação imperialista de suas mensagens subjacentes. São favas contadas que os espectadores deglutem como pílulas de efeito entorpecente e supostamente necessário para o encurtamento do caminho que vai tornar aquela longínqua cultura numa lenda enfeitadinha sob medida para a ambientação do nosso quintal. 
Esta contrafação é responsável pela negligência e a falta de respeito com as diferenças culturais e emulam uma representação canhestra daquilo que são verdades profundas enraizadas há milênios em seus locais de origem. Foram poucas as vozes dissonantes no período áureo dos estúdios de Hollywood e mesmo após, resultado tanto do apanágio americano em receber os artistas perseguidos pelo totalitarismo fascista em seus países de origem, pela capacidade de absorver suas distintas linguagens operando aquilo que no modernismo brasileiro demos o nome de antropofagia cultural e da oportunidade de, através destas manobras, disseminar sua ideologia de país livre (para aqueles que têm o suficiente para pagar o pedágio). Exemplo notório é o Sr. Michael Kertész, diretor húngaro foragido da guerra, naturalizado americano com o sobrenome Curtiz, diretor de “Casablanca” o maravilhoso epítome da parafernália de clichês e transculturalismo que alcançam o sublime justamente pelos seus excessos. 
Muitas águas separam o István Szabó de “Mephisto” a este de “The Door”. Não apenas o tempo e a vitalidade que se esvaem, mas também a postura diante do respeito às tradições e à história de seu país. 
Ao contar a história de uma escritora que vem morar perto de uma senhora reservada, cuja porta de casa é intransponível, a mola mestra do tempo é acionada revelando em seu escoamento o desfile das memórias e dos mistérios que assomam numa trama calcada num obscuro episódio da adoção de uma criança durante a segunda guerra mundial. 
O estranhamento de escutarmos a língua inglesa vai-se diluindo no decurso desta jornada, apesar de nunca perdermos de vista a perspectiva histórica, fortemente enunciada através de constantes flashbacks em preto e branco. A fotografia evocativa de um outono eterno e uma iluminação pictórica fluida nos ambienta em um nostálgico décor nos mínimos detalhes preservado como que a proteger um segredo, aquele segredo que está atrás da porta da empregada doméstica Emerenc, interpretada com brilhantismo por Helen Mirren. 
É impactante a comparação desta atriz pela sua interpretação de Elizabeth 2ª. em “A Rainha” de Stephen Frears e no filme em questão. Nela residem uma pessoa e uma alma entregues como ferramentas muito bem azeitadas ao ofício de interpretar - tanto na adequação das sutilezas de seus gestos e intenções, quanto à grandeza inerente a um personagem que escolheu preservar uma tradição a despeito das injunções políticas que o mundo exterior teima em conspurcar. 
Apesar de pensado em termos de um drama edificante em escala global, “Atrás da Porta” não consegue disfarçar sua incômoda adequação aos princípios rígidos da cartilha cinematográfica ditados pelo aval de patrocinadores ávidos no resultado da bilheteria. Todos estes procedimentos navegam na contramão do retrato da solidariedade e da visão humanística do ponto de vista do personagem da escritora, evoluindo em seu ofício como que imbuída pelos princípios de honestidade e retidão vindos da intransigência daquela senhora, tema de sua obra laureada. 
Três estrelas.




PARADA
(“Parada, de Srjan Dragojevic, Servia/Croácia/ Macedônia (antiga Iugoslávia)/ Eslovenia, 2011

Quando fui assistir este filme numa última sessão do dia do cine Estação SESC Botafogo, logo na fila de entrada alguém me avisou “Está meia hora atrasado”. Eu que havia corrido para chegar a tempo afinal tive uma pausa para me recobrar e não reclamei, mas quando dei por mim a meia hora havia se transformado em 50 minutos. Enfim, uma vez acomodado em minha poltrona frente ao telão, apareceu aquela senhora de óculos que faz os discursos chatérrimos e prolixos antes de algumas sessões do festival, pedindo desculpas e elogiando a tolerância da plateia pela incompetência e a desorganização do festival. Em seguida apresentou o diretor do filme, um baita homem que em poucas palavras deu o seu recado, informou que era o primeiro filme inteiramente produzido dentro das próprias fronteiras do que resultou geograficamente das guerras de independência das repúblicas da antiga Iugoslávia, da Croácia e da Bósnia. Disse que ao final quem quisesse perguntar algo sobre a fita ele estaria à disposição. Enquanto se retirava eu o acompanhei com a mente suja, olhos gulosos, boca sequiosa e cheio de boas intenções. Então começou o filme. 
As legendas emperraram várias vezes (filme falado em sérvio), vaias, apupos, perdi a paciência e pedi a devolução da meia entrada para deficiente físico que eu paguei, 9 reais. Uma semana após tive a chance de vê-lo na repescagem. 
Pode-se considerar como um milagre o feito deste senhor - a realização de um filme de complexa e controversa temática gay, focado nas contradições e preconceitos não só no que concerne à sexualidade que lhe serve de ponto de partida, mas também na intolerância das etnias que formam aquele conglomerado, aquele caldeirão multicultural ainda hoje latente naquelas repúblicas. 
É uma boa investigação descobrir as manobras e motivações subjacentes ao período entre o maior genocídio que se tem notícia dos tempos modernos até à eclosão desta obra cinematográfica que  enfia o dedo naquelas feridas ainda mal cicatrizadas. Seria o mesmo movimento cultural e artístico que ocorreu quando da eclosão do neorrealismo italiano após poucos anos da retirada das tropas alemãs da Itália e da derrocada do fascismo? 
“Parada” conta a fábula do recrutamento das forças de segurança para a realização da primeira parada do orgulho LGBT (ou GLBT?) naquelas plagas. Quem se arriscaria a bancar e se comprometer com tamanho descalabro? As academias de lutadores homofóbicos, a polícia e os próprios gays assustados são os primeiros a escafederem-se. O que resta aos abnegados e combatentes soldados da emancipação sexual?
A voz corrente da perversidade sexual os distancia das várias igrejas e ninguém consegue alcançar a realidade discriminatória e o sufoco que se converteu a vida destes excluídos. Mas as forças da solidariedade e do amor próprio encontram seus caminhos. Neste caso, este ponto de virada está na presença da “perua” mais improvável, heterossexual convicta, casada com o machíssimo dono da academia homofóbica, que por uma armação de todos e de todas acaba por aderir e assimilar alguns princípios de tolerância que vão transformar a vida da comunidade. 
Aqui temos um roteiro engenhoso em sua vocação de comédia de gênero, de heróis improváveis e situações inesperadas, conduzido com alguma habilidade pelo gostosíssimo Sr. Dragojevic, navegando na estética do humor kitsch, da supercolorização, da toy art e dos ícones da cultura gay como no reiterado uso da famosa sequência homoerótica camuflada do reencontro dos guerreiros Messala e Ben Hur no filme de mesmo nome de William Wyler, 1959 - uma hilariante ferramenta de conscientização e doutrinação que as bichas usam para convencer brutamontes. 
Não sei se por conta dos sofrimentos e horrores que esta gente vivenciou em nome de Deus e da limpeza étnica, este humor chega a nós, os cultores da pândega e da chanchada, com um ressaibo de amargor, talvez pelas diferenças de temperamentos culturais que nos separam ou da matéria explosiva de que é constituido. 
O chiste é uma das melhores ferramentas para economia da energia psíquica. O tipo de riso entreouvido no cinema está mais para a digestão cerebral de um evento cultural, do que para o estomacal de uma comédia de costumes. 
Em todo caso a abolição das fronteiras sexuais tanto no telão como na vida real é uma necessidade premente e uma realização que requer o empenho das mais diversas, antenadas e esclarecidas tribos. 
É um filme povoado de ursos - para os admiradores, um prato cheio.
Três rebolados.

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