APENAS O VENTO
(“Czak a Szél”, de Benedek Fliegauf, Hungria/Alemanha/França,
2012)
A intolerância racial e religiosa, a corrida do ouro, a
ignorância, o nepotismo, a corrupção, enfim, todos os miasmas que grassam na
existência desta maravilha que se convencionou chamar ser humano, são os
responsáveis pelas grandes tragédias que submetem as populações menos bafejadas
pela sorte à injustiças e perseguições que, mais dia menos dia, voltam ao
cartaz tanto na terra quanto no telão. Sua permanência - a
despeito de suas diversas e mutáveis configurações - são programáticas e
necessárias ao giro da roda da fortuna dos fazedores das leis,
dos ditadores das convenções sociaise à manutenção de cargos de burocratas em ministérios inoperantes e corruptos.
O
extermínio comandado por milícias é a ordem do dia nesta seara da limpeza
étnica, dos desafetos, queimas de arquivos e vozes dissonantes operando em diversos pontos do
planeta. Naquele longínquo país de micos e bananeiras do terceiro mundo, todos
sabem ao que se refere. Na Hungria, país que aprendemos desde a mais tenra
infância ser a pátria dos ciganos, não foge a regra o aparato repressivo que
aterroriza as tribos desta etnia perseguida através dos séculos por culturas
intolerantes. Meu professor de ginástica quando em Pest repetia que
precisava cuidar muito bem da carteira para não ser roubado. Qual a origem
deste consenso de que ciganos são ladrões e aproveitadores? O que dizer das
massas famintas e deserdadas da terra que marcham pelos tempos através de suas dificuldades
para cavar suas subsistências? No que diferem estes cidadãos húngaros da corja
de corruptos de colarinho branco amealhada em todos os países, dos pickpockets
à solta nas grandes cidades ou dos preços escorchantes que temos de pagar para
usufruir aquilo que a Terra nos dá de graça?
Resposta: A diferença está na
escala.
É muito mais fácil erradicar uma mixaria de meia dúzia de moradias
capengas em lugar afastado dos grandes centros, cheia de trabalhadores que se
submetem às necessárias tarefas de manutenção das grandes cidades por um
salário absurdo e humilhante. E tudo executado com a colaboração, a onisciência
e a omissão dos órgãos de segurança. Pensam estar limpando as ruas com a lama
das suas ações criminosas.
O clima de terror e insegurança a que os personagens
deste filme estão submetidos é uma perfeita ilustração deste estado de coisas.
A falta de estabilidade da câmera na mão nos deixa tão vulneráveis na
impossibilidade de estabelecer um chão enquanto espectadores, é o mesmo das agruras que a família de trabalhadores ciganos precisam passar para
sobreviver estudando, trabalhando e arquitetando suas defesas. É uma
verdadeira febre esta compulsão de, com a entrada no mercado de equipamentos
cada vez mais leves, os cineastas optarem por esta postura; respirei aliviado e
dei graças a Deus quando assisti “Bestiário”, um filme todo construído em magníficos
planos fixos.
O menino, herói do filme (é impressionante como a cinematografia
contemporânea tem lançado mão da protagonização infantil), constrói seu
esconderijo com elementos e objetos subtraídos de sua própria casa e arredores,
ciente de que a qualquer momento precisará se esconder dos ataques das milícias
que vem dizimando as famílias de ciganos nas redondezas e não pode se separar
de suas lembranças e suas raízes. Acredita-se que existe um porco fugitivo da
última chacina que, perdido em meio à floresta, torna-se o símbolo da
resistência, da encarnação dos ciganos como uma sub raça, animais, encontrado
em decomposição com vários tiros em um capão do mato pelo personagem. Seu
sepultamento é imbuído da intuição infantil do respeito aos mortos conferidos
aos da sua própria espécie, a mesma cerimônia a que os corpos de seus parentes
serão submetidos no trágico e constantemente aguardado desfecho deste filme.
São minutos de constante tensão provocada pela certeza de que o aniquilamento
desta família está a caminho. A mãe é interpretada por uma atriz poderosíssima
em sua simplicidade, economia de gestos, traços rústicos e no carregamento de
tensão na sua máscara facial. É um primor a observação que dá título ao filme, da
propriedade da natureza pródiga em escamotear o perigo, confundindo o alarme dos
habitantes da casa com a chegada dos milicianos: “É apenas o Vento” - o mesmo tipo de desfaçatez com que
aquele casal de velhos em outra situação se referiu a Pat Smith e Robert Marplethorpe: “São só
garotos”.
Na saída ouvi um comentário, “Esperava Mais”.
Entendo o quanto: A
secura e o suspense desta obra não são ostensivamente induzidos por qualquer
artifício de roteiro ou direção com o propósito de controlar o interesse do
público, mas da interação das plateias com a urgência do tema proposto. Não se
trata de espetacularizar o sofrimento ou edulcorá-lo tornando-o palatável a
plateias chorosas e clementes pela misericórdia divina. O que se vê aqui é um
recorte isento de julgamentos, muito próximo do registro documental. O resto é
o vento traiçoeiro. Quatro estrelas.
ATRÁS DA PORTA
(“The Door” de István Szabó, Hungria/Alemanha, 2012)
Aquilo que “Apenas O Vento” economiza na narrativa, este seu
conterrâneo, “Atrás da Porta”, não se intimida em esbanjar. Apesar de húngaro
em seu pedigree e leitmotiv, este filme realiza a globalização transcultural da
contemporaneidade.
O cinema americano sempre foi pródigo em contar histórias de
outras culturas empregando o inglês como matriz narrativa. Esta convenção se
firmou no afã da disseminação imperialista de suas mensagens subjacentes. São
favas contadas que os espectadores deglutem como pílulas de efeito entorpecente
e supostamente necessário para o encurtamento do caminho que vai tornar aquela
longínqua cultura numa lenda enfeitadinha sob medida para a ambientação do
nosso quintal.
Esta contrafação é responsável pela negligência e a falta de
respeito com as diferenças culturais e emulam uma representação canhestra
daquilo que são verdades profundas enraizadas há milênios em seus locais de
origem. Foram poucas as vozes dissonantes no período áureo dos estúdios de
Hollywood e mesmo após, resultado tanto do apanágio americano em receber os
artistas perseguidos pelo totalitarismo fascista em seus países de origem, pela
capacidade de absorver suas distintas linguagens operando aquilo que no
modernismo brasileiro demos o nome de antropofagia cultural e da oportunidade
de, através destas manobras, disseminar sua ideologia de país livre (para aqueles
que têm o suficiente para pagar o pedágio). Exemplo notório é o Sr. Michael
Kertész, diretor húngaro foragido da guerra, naturalizado americano com o
sobrenome Curtiz, diretor de “Casablanca” o maravilhoso epítome da parafernália
de clichês e transculturalismo que alcançam o sublime justamente pelos seus
excessos.
Muitas águas separam o István Szabó de “Mephisto” a este de “The
Door”. Não apenas o tempo e a vitalidade que se esvaem, mas também a postura
diante do respeito às tradições e à história de seu país.
Ao contar a
história de uma escritora que vem morar perto de uma senhora reservada,
cuja porta de casa é intransponível, a mola mestra do tempo é acionada
revelando em seu escoamento o desfile das memórias e dos mistérios que assomam
numa trama calcada num obscuro episódio da adoção de uma criança durante a
segunda guerra mundial.
O estranhamento de escutarmos a língua inglesa vai-se
diluindo no decurso desta jornada, apesar de nunca perdermos de vista a
perspectiva histórica, fortemente enunciada através de constantes flashbacks em
preto e branco. A fotografia evocativa de um outono eterno e uma
iluminação pictórica fluida nos ambienta em um nostálgico décor nos
mínimos detalhes preservado como que a proteger um segredo, aquele segredo que
está atrás da porta da empregada doméstica Emerenc, interpretada com
brilhantismo por Helen Mirren.
É impactante a comparação desta atriz pela sua
interpretação de Elizabeth 2ª. em “A Rainha” de Stephen Frears e no filme em questão.
Nela residem uma pessoa e uma alma entregues como ferramentas muito bem azeitadas
ao ofício de interpretar - tanto na adequação das sutilezas de seus gestos e
intenções, quanto à grandeza inerente a um personagem que escolheu preservar
uma tradição a despeito das injunções políticas que o mundo exterior teima em
conspurcar.
Apesar de pensado em termos de um drama edificante em escala
global, “Atrás da Porta” não consegue disfarçar sua incômoda adequação aos
princípios rígidos da cartilha cinematográfica ditados pelo aval de
patrocinadores ávidos no resultado da bilheteria. Todos estes procedimentos
navegam na contramão do retrato da solidariedade e da visão humanística do
ponto de vista do personagem da escritora, evoluindo em seu ofício como que
imbuída pelos princípios de honestidade e retidão vindos da intransigência
daquela senhora, tema de sua obra laureada.
Três estrelas.
PARADA
(“Parada, de Srjan Dragojevic, Servia/Croácia/ Macedônia (antiga
Iugoslávia)/ Eslovenia, 2011
Quando fui assistir este filme numa última sessão do dia do
cine Estação SESC Botafogo, logo na fila de entrada alguém me avisou “Está meia hora
atrasado”. Eu que havia corrido para chegar a tempo afinal tive uma pausa para
me recobrar e não reclamei, mas quando dei por mim a meia hora havia se
transformado em 50 minutos. Enfim, uma vez acomodado em minha poltrona frente
ao telão, apareceu aquela senhora de óculos que faz os discursos chatérrimos e
prolixos antes de algumas sessões do festival, pedindo desculpas e elogiando a
tolerância da plateia pela incompetência e a desorganização do festival. Em
seguida apresentou o diretor do filme, um baita homem que em poucas palavras
deu o seu recado, informou que era o primeiro filme inteiramente produzido
dentro das próprias fronteiras do que resultou geograficamente das guerras de
independência das repúblicas da antiga Iugoslávia, da Croácia e da Bósnia.
Disse que ao final quem quisesse perguntar algo sobre a fita ele estaria à
disposição. Enquanto se retirava eu o acompanhei com a mente suja, olhos
gulosos, boca sequiosa e cheio de boas intenções. Então começou o filme.
As
legendas emperraram várias vezes (filme falado em sérvio), vaias, apupos, perdi
a paciência e pedi a devolução da meia entrada para deficiente físico que eu
paguei, 9 reais. Uma semana após tive a chance de vê-lo na repescagem.
Pode-se
considerar como um milagre o feito deste senhor
- a realização de um filme de complexa e controversa temática gay, focado nas
contradições e preconceitos não só no que concerne à sexualidade que lhe serve
de ponto de partida, mas também na intolerância das etnias que formam aquele
conglomerado, aquele caldeirão multicultural ainda hoje latente naquelas
repúblicas.
É uma boa investigação descobrir as manobras e motivações subjacentes ao período entre o maior genocídio que se tem notícia dos tempos
modernos até à eclosão desta obra cinematográfica que enfia o dedo naquelas
feridas ainda mal cicatrizadas. Seria o mesmo movimento cultural e artístico
que ocorreu quando da eclosão do neorrealismo italiano após poucos anos da
retirada das tropas alemãs da Itália e da derrocada do fascismo?
“Parada” conta
a fábula do recrutamento das forças de segurança para a realização da primeira
parada do orgulho LGBT (ou GLBT?) naquelas plagas. Quem se arriscaria a bancar
e se comprometer com tamanho descalabro? As academias de lutadores homofóbicos,
a polícia e os próprios gays assustados são os primeiros a escafederem-se. O
que resta aos abnegados e combatentes soldados da emancipação sexual?
A voz
corrente da perversidade sexual os distancia das várias igrejas e ninguém consegue
alcançar a realidade discriminatória e o sufoco que se converteu a vida destes
excluídos. Mas as forças da solidariedade e do amor próprio encontram seus
caminhos. Neste caso, este ponto de virada está na presença da “perua” mais
improvável, heterossexual convicta, casada com o machíssimo dono da academia
homofóbica, que por uma armação de todos e de todas acaba por aderir e
assimilar alguns princípios de tolerância que vão transformar a vida da
comunidade.
Aqui temos um roteiro engenhoso em sua vocação de comédia de
gênero, de heróis improváveis e situações inesperadas, conduzido com alguma
habilidade pelo gostosíssimo Sr. Dragojevic, navegando na estética do humor
kitsch, da supercolorização, da toy art e dos ícones da cultura gay como no
reiterado uso da famosa sequência homoerótica camuflada do reencontro dos guerreiros
Messala e Ben Hur no filme de mesmo nome de William Wyler, 1959 - uma hilariante
ferramenta de conscientização e doutrinação que as bichas usam para convencer
brutamontes.
Não sei se por conta dos sofrimentos e horrores que esta gente
vivenciou em nome de Deus e da limpeza étnica, este humor chega a nós, os
cultores da pândega e da chanchada, com um ressaibo de amargor, talvez pelas
diferenças de temperamentos culturais que nos separam ou da matéria explosiva de que é constituido.
O chiste é uma das melhores ferramentas para economia da energia psíquica. O tipo de riso
entreouvido no cinema está mais para a digestão cerebral de um evento cultural,
do que para o estomacal de uma comédia de costumes.
Em todo caso a abolição das
fronteiras sexuais tanto no telão como na vida real é uma necessidade premente
e uma realização que requer o empenho das mais diversas, antenadas e
esclarecidas tribos.
É um filme povoado de ursos
- para os admiradores, um prato cheio.
Três rebolados.


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