Encontrei esta resenha do filme de Walter Salles nos meus arquivos abandonados, volta e meia recuperados, e resolvi postá-lo aqui. Às vezes tiro um ou dois dias para atualizar minha experiência de espectador do cinema brasileiro, mas confesso sentir-me constrangido a resenhá-los, muito pelo aborrecimento com o que me deparo e que me faz jurar nunca mais encetar tal bravata, outras vezes pela fugacidade das lembranças de algo que restou na garimpagem de preciosas pepitas que não se encontram em quantidades suficientes nesse panorama a justificar tal esforço. Dito isto:
Filmes Brasileiros Contemporâneos
LINHA DE PASSE (Idem, de Walter Salles, Brasil 2008)
Fui assistir ao filme “Linha de Passe” de Walter Salles e Daniela
Thomas, cinema Roxy, 2ª feira passada (hoje é quinta, dia 11 de Setembro de
2008) à tarde, aproveitando o preço promocional de 10 reais naquele dia da
semana. Para um filme brasileiro, em plena segunda-feira à tarde até que a
lotação menor-que-a-metade-da-capacidade não estava má. Já participei de plateias
menos densas em filmes mais apelativos. Pela grana que deve ter sido investida
em divulgação, compadrios, prêmios, críticas elogiosas e ostensivas nos
cartazes, a coisa está na medida - apesar de que em cinema mais-ou-menos é
pouco.
A primeira coisa que me chamou atenção no filme foram os letreiros em Courier New, fonte padrão playwriting. Causou-me uma expectativa do tipo vou assistir a um filme "de roteiro". Em seguida a mistura de atores profissionais e inexperientes muito bem treinados, adequados ao meio, avessos aos padrões de beleza do cinemão evasivo. Ok: feio também é gente, mas não precisa exagerar! A atriz ganhou a Palma de Ouro - eu me pergunto por que, se aquela naturalidade de sua interpretação é o que se espera de um ator naquele tipo de filme.
Até aí é cinema. Expliquem-me agora a contribuição ao métier, o que sua performance acrescentou ou a distinguiu. Depois do advento dos coaches brasileiros para atores - porque meteur-en-scène no Brasil conta-se nos dedos, se é que tem - estes talentos cinematográficos instantâneos tornaram-se arroz de festa, celebridades mais efêmeras do que as da televisão, dadas a produção errática, as constantes mudanças na direção dos ventos no acesso aos recursos e a distribuição incipiente no gargalo do encolhimento das salas que permeia o cinema brasileiro em 2008. A indústria áudio visual brasileira é a da televisão. O gosto do público se adapta a esta linguagem acessível que se aprimora e se adapta com espantosa rapidez aos eventos da realidade cada vez mais empolgante do que o alcance dos códigos da midia e sua sintaxe, comprometidos por fatores derivados da sua abrangência.
A vida útil de uma beldade sem talento das novelas, que grava por dia trinta e cinco cenas a toque de caixa, coach de si mesma, está atrelada à participação das massas que não pagaram ingresso, mas precisam se submeter e digerir sua atuação, servida como iguaria e status de profissionalismo, quando a maioria está ali fingindo emoções e sentimentos. Daí até que a beldade resolva levar a profissão a sério - se é que larga o osso - são outros quinhentos. Estudar e aprimorar-se nunca é tarde seja lá onde ou o que for. Os caminhos é que se bifurcam.
A detentora da Palma de Ouro, apesar de ter feito o seu trabalho e PT-Saudações, merece o título, o salário, a exposição e os louros que seus diretores não fazem justiça.
Esqueço os filmes de Walter Salles (excetuando “Terra Estrangeira”), na virada da primeira esquina após a sessão. Em suas epidermes (é o que há) lê-se a marca indisfarçável do relevo social posado, algo entre o colorido pra agradar o patrão e a temática como instrumento de dominação. Não resistem aos dados da realidade. Enquanto houver miséria, esta ridícula distribuição de renda, a falta de atendimento educacional, saúde e acesso aos bens de produção e disseminação cultural, este tipo de cinema brasileiro terá seu quinhão de criatividade.
Esta meia dúzia de produtores que se perpetuam e que nada diferem dos coronéis de sempre da quadrilha nacional desde que o samba é jazz, no dia da resolução das nossas mazelas terão que rebolar para o cinema brasileiro recomeçar novamente. Surgirá do saneamento destas gangues o projeto efetivo da identidade fílmica brasileira? E como este povo gosta muito de se exibir - e se baseia nisso - o que será feito para substituir o jeitinho, a bunda de fora e o samba no pé até onde não mais couber?
Este é um filme desconchavado, entrecruzando cinco histórias convergentes para a mãe de muitos filhos. O esperado roteiro distribui mal as ações, fragmentando-as e procurando dar a sua esmola a cada personagem. Alguns são mais merecedores do que os outros, mas a ração foi calculada para satisfazer todos por igual.
Redundante e reiterativo, vários planos desnecessários alongam o que daria um média-metragem interessante (seqüências intermináveis de motoboys trafegando em ruas perigosas, tenebrosas cenas de rituais evangélicos que se repetem ad nauseam).
Cobre-se rotineiramente o tempo comercial de um longa para barganhar a grana das leis de incentivo das empresas do próprio diretor e cobrar o escorchante preço que se paga pela cultura no Brasil de nossos dias, com oferta de produtos cada vez mais irrelevantes, de gosto duvidoso e longe de cumprir seu papel de formação de plateias distanciando o consumidor da sala de projeção.
Este filme tem barriga até deitado.
É linguagem?: Não.
É um pouco desleixo, um tanto falta de aptidão para a orquestração geral, é fazer várias coisas ao mesmo tempo tentando açambarcar o mundo com as pernas; são as formas arrevezadas e postiças a que se chegam aos projetos e os levam a cabo.
"Linha de Passe" se ressente da necessidade premente e sagrada de neutralizar o aparato técnico a fim de aprimorar, acredita-se, o naturalismo. Daí seu resultado teso, sua forma dura. Não é a aridez emocional e do sentimentalismo como postulado. Esta a sua contradição involuntária. Suas premissa e realização caminham em sentidos opostos. Se levasse as plateias não às lágrimas (que não é o caso), mas à luta (idem), os cinemas estariam mais cheios e as ruas mais emancipadas.
É perdida quase a metade de seu potencial expressivo na postura do registro invisível. Neste caso uma câmera ou uma trilha mais participativos recompensariam o espectador tanto na vivência e aprimoramento da experiência daqueles personagens quanto na relação do ator com a tecnologia que o cerca.
É isto que chamam, tão em voga atualmente, sinceridade?
Projetos sociais são meios muito mais efetivos de contemplar a miséria alheia para purgar culpas (sem o red carpet, o charme, a capa de revista).
A primeira coisa que me chamou atenção no filme foram os letreiros em Courier New, fonte padrão playwriting. Causou-me uma expectativa do tipo vou assistir a um filme "de roteiro". Em seguida a mistura de atores profissionais e inexperientes muito bem treinados, adequados ao meio, avessos aos padrões de beleza do cinemão evasivo. Ok: feio também é gente, mas não precisa exagerar! A atriz ganhou a Palma de Ouro - eu me pergunto por que, se aquela naturalidade de sua interpretação é o que se espera de um ator naquele tipo de filme.
Até aí é cinema. Expliquem-me agora a contribuição ao métier, o que sua performance acrescentou ou a distinguiu. Depois do advento dos coaches brasileiros para atores - porque meteur-en-scène no Brasil conta-se nos dedos, se é que tem - estes talentos cinematográficos instantâneos tornaram-se arroz de festa, celebridades mais efêmeras do que as da televisão, dadas a produção errática, as constantes mudanças na direção dos ventos no acesso aos recursos e a distribuição incipiente no gargalo do encolhimento das salas que permeia o cinema brasileiro em 2008. A indústria áudio visual brasileira é a da televisão. O gosto do público se adapta a esta linguagem acessível que se aprimora e se adapta com espantosa rapidez aos eventos da realidade cada vez mais empolgante do que o alcance dos códigos da midia e sua sintaxe, comprometidos por fatores derivados da sua abrangência.
A vida útil de uma beldade sem talento das novelas, que grava por dia trinta e cinco cenas a toque de caixa, coach de si mesma, está atrelada à participação das massas que não pagaram ingresso, mas precisam se submeter e digerir sua atuação, servida como iguaria e status de profissionalismo, quando a maioria está ali fingindo emoções e sentimentos. Daí até que a beldade resolva levar a profissão a sério - se é que larga o osso - são outros quinhentos. Estudar e aprimorar-se nunca é tarde seja lá onde ou o que for. Os caminhos é que se bifurcam.
A detentora da Palma de Ouro, apesar de ter feito o seu trabalho e PT-Saudações, merece o título, o salário, a exposição e os louros que seus diretores não fazem justiça.
Esqueço os filmes de Walter Salles (excetuando “Terra Estrangeira”), na virada da primeira esquina após a sessão. Em suas epidermes (é o que há) lê-se a marca indisfarçável do relevo social posado, algo entre o colorido pra agradar o patrão e a temática como instrumento de dominação. Não resistem aos dados da realidade. Enquanto houver miséria, esta ridícula distribuição de renda, a falta de atendimento educacional, saúde e acesso aos bens de produção e disseminação cultural, este tipo de cinema brasileiro terá seu quinhão de criatividade.
Esta meia dúzia de produtores que se perpetuam e que nada diferem dos coronéis de sempre da quadrilha nacional desde que o samba é jazz, no dia da resolução das nossas mazelas terão que rebolar para o cinema brasileiro recomeçar novamente. Surgirá do saneamento destas gangues o projeto efetivo da identidade fílmica brasileira? E como este povo gosta muito de se exibir - e se baseia nisso - o que será feito para substituir o jeitinho, a bunda de fora e o samba no pé até onde não mais couber?
Este é um filme desconchavado, entrecruzando cinco histórias convergentes para a mãe de muitos filhos. O esperado roteiro distribui mal as ações, fragmentando-as e procurando dar a sua esmola a cada personagem. Alguns são mais merecedores do que os outros, mas a ração foi calculada para satisfazer todos por igual.
Redundante e reiterativo, vários planos desnecessários alongam o que daria um média-metragem interessante (seqüências intermináveis de motoboys trafegando em ruas perigosas, tenebrosas cenas de rituais evangélicos que se repetem ad nauseam).
Cobre-se rotineiramente o tempo comercial de um longa para barganhar a grana das leis de incentivo das empresas do próprio diretor e cobrar o escorchante preço que se paga pela cultura no Brasil de nossos dias, com oferta de produtos cada vez mais irrelevantes, de gosto duvidoso e longe de cumprir seu papel de formação de plateias distanciando o consumidor da sala de projeção.
Este filme tem barriga até deitado.
É linguagem?: Não.
É um pouco desleixo, um tanto falta de aptidão para a orquestração geral, é fazer várias coisas ao mesmo tempo tentando açambarcar o mundo com as pernas; são as formas arrevezadas e postiças a que se chegam aos projetos e os levam a cabo.
"Linha de Passe" se ressente da necessidade premente e sagrada de neutralizar o aparato técnico a fim de aprimorar, acredita-se, o naturalismo. Daí seu resultado teso, sua forma dura. Não é a aridez emocional e do sentimentalismo como postulado. Esta a sua contradição involuntária. Suas premissa e realização caminham em sentidos opostos. Se levasse as plateias não às lágrimas (que não é o caso), mas à luta (idem), os cinemas estariam mais cheios e as ruas mais emancipadas.
É perdida quase a metade de seu potencial expressivo na postura do registro invisível. Neste caso uma câmera ou uma trilha mais participativos recompensariam o espectador tanto na vivência e aprimoramento da experiência daqueles personagens quanto na relação do ator com a tecnologia que o cerca.
É isto que chamam, tão em voga atualmente, sinceridade?
Projetos sociais são meios muito mais efetivos de contemplar a miséria alheia para purgar culpas (sem o red carpet, o charme, a capa de revista).

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