Para quem pegou o fim da feira, até que encontrou alguns víveres suculentos na xepa do Festival do Rio 2012, tais como:

INDOMÁVEL SONHADORA (“Beasts
Of The Southern Wild”, de Benh Zeitling, Estados Unidos, 2011)
Filme que narra uma fábula contada do ponto de vista da
criança que, conforme incutido em sua cabeça, foi abandonada pela mãe que fugiu nadando atemorizada pela
iminência de um temporal. Criada na aba de um pai doente, bêbado, negligente e
ingenuamente crente em sua capacidade de transformar a vida miserável através da convicção na capacidade do ser humano enquanto um animal que luta pela
sobrevivência num povoado da Luisiânia - a região
conhecida como Bathtube (Banheira) ao sul dos Estados Unidos - um pântano
alagado pela construção de uma barragem que o separa das indústrias poluidoras
além de suas fronteiras.
É uma visão mágica de um mundo aquático carregada da
ternura infantil que auscuta nos batimentos dos corações dos animais, seus iguais, as suas linguagens; uma ternura às vezes transformada em agressividade como mecanismo de salvação
e subsistência num habitat adverso. Funciona como um grito de alerta para as
condições de vida das populações pobres em áreas de risco de desastres naturais
que a ciência ou a tecnologia ainda não conseguiram resolver, e por extensão conforme o filme reiteradamente nos expõe, para a hecatombe ambiental que
estamos prestes a vivenciar, que além de dizimar grande parte do planeta e das
espécies, ainda vai (segundo a fantasia da menina) desbloquear as feras
primitivas que um dia aterrorizaram os homens das cavernas a devorar seus
rebentos, hoje presas em enormes blocos de gelo esperando pela revanche da era
glacial. São imagens de uma beleza tocante apesar de repetitivas.
Nesta
paisagem de arquitetura naturalmente caótica, assentada num terreno irregular,
lamacento e encharcado, a desestabilizada câmera na mão foi o partido que
melhor traduziu aquele mundo convulso e anárquico que ali se afigura. São
registros de um colorido muito vivo e supersaturado, do ponto de vista claudicante da inquietude infantil ou de uma embarcação improvisada a registrar à deriva os descaminhos dos despossuídos
americanos - vidas selvagemente assumidas como bichos que dilaceram lagostas com as próprias mãos, de seres livres para o arbítrio de suas
próprias leis (e feriados), executar medidas extremas para a solução dos
estragos pós-tempestades (a explosão da barragem) ou de suas construções
organicamente aleatórias e improvisadas (a escola-ouriço é um achado).
Este
filme denuncia as condições de vida, o descaso das autoridades e dos governos
que se pronunciam ou tomam quaisquer providências somente em ocasiões de
grandes catástrofes consumadas e nunca em face das necessidades decorrentes das precárias condições
higiênicas, educacionais, alimentares e de saúde que arremessam estes seres esquecidos
atrás da barragem de uma indústria poluidora, escamoteados pela corrida do ouro e pela propagação
do consumo desenfreado que mantém suas existências cotidianas marginalizadas .
Exala um frescor juvenil e anárquico em sua adaptação de uma novela(?), na
construção das suas cenas e no encadeamento das sequências com uso bastante
apropriado desta temeridade que é a narração ilustrativa da
visão da protagonista a respeito do seu mundo caótico. O termo liberdade se adapta como
uma luva na forma decorrente deste conteúdo e se aninha nas mentes acossadas
pelo imediatismo da vida moderna sentadas na platéia corroborando a necessidade da racionalização
de seu usufruto e na manutenção da vida na terra sustentável e seus habitats
preservados.
A menina, intérprete da protagonista é, para a sua idade, um
prodígio de interpretação e todas as moções feitas para que seu desempenho
rendesse o que veio a ser foram altamente recompensadas para deleite dos espectadores
siderados pela força de sua frágil presença, tal como os monstros primitivos
que se ajoelham e retiram-se perante o seu destemor e determinação em salvar a
vida do pai em seu leito de morte.
O ator que faz o pai é impecável na construção do seu perfil destemido e tão fragilizado quanto a criança pela qual é responsável, uma siceridade avassaladora; e todos aqueles seres excêntricos que orbitam o elenco de apoio também estão tão organicamente
inseridas no contexto que se tirássemos - como sempre repete a protagonista a
respeito da vida - uma mínima partícula elementar do equilíbrio existencial deste
filme, sua realização ficaria irremediavelmente comprometida, tamanha sua
organicidade. Quatro das cinco estrelas.
HOTEL MEKONG (”Hotel
Mekong”, de Apitchapong Weerasethakul, Tailândia/Inglaterra, 2012)
O rio Mekong separa dois países, a Tailândia e o Laos, de onde
massas migratórias fogem para as terras vizinhas quando da ocorrência de
grandes enchentes comuns naquela região em determinada estação do ano,
provocando o caos social e a tragédia humana naquele exótico país de terceiro
mundo cuja população, em condições normais, já enfrenta grandes dificuldades de
subsistência, dadas as modalidades em sua maioria agrárias dos processos de
trabalho. Uma invasão migratória neste cenário tem o impacto da escala de um
desastre natural como o devastador tsunami que marcou época alguns anos atrás e
a enchente que neste filme se verifica como a ilustrar fato e função de uma
fábula a partir da visão de alguns personagens submetidos às consequências
destes fenômenos.
Hotel Mekong é o cenário que se debruça sobre esta enchente e
o universo de personagens à deriva entre o mundo real e a ficção. Tal como em
“Tio Bonmee...”, palma de ouro em Cannes, 2010, e “Tropical Malady”, Tailândia/2004,
a política e o social estão nos limites da porção “real” do pano de fundo desta
arquitetura cinematográfica, um sucinto e poético arrazoado de dores
e aflições decorrentes de fatores fora do controle de personagens expostos
às vicissitudes da vida. Estes fatores marcam a dinâmica dos personagens do Sr.
Weerasethakul de forma a diferenciá-los de seus predecessores em sua edificações enquanto sujeitos ou mitos, duas polaridades que seus filmes
anteriores configuravam com insuspeitada diferenciação, seres anímicos,
fantasmas e lendas da Tailândia natal apresentados em sua versão fantástica e
revestidos da fascinação provocada por sua configuração comme il fault.
O que
presenciamos em “Hotel Mekong” é a tentativa de trazer para a realidade, de
forma bastante simples - diferente daquela simplicidade distante da tecnologia
que configurou as criaturas de mundos alternativos dos filmes anteriores - as
características fantásticas de personagens acossados por fatores à sua revelia que de alguma forma os transformaram em monstros irremediáveis através
dos séculos, pela perpetuação da ação da arbitrariedade de instâncias
superiores assim na terra quanto no céu.
A mãe vampira que se esconde por seiscentos anos atrás da sua condição de uma dessas vítimas monstruosas, apresenta-se como uma mulher comum de ações simples que em momentos de possessão e do alcance dos demais é obrigada a devorar vísceras de cães ou humanas, um impulso inerente à sua condição, ou apoderar-se temporariamente das almas de outros habitantes, propagando o mal como se propaga uma peste ou se espalha um genocídio.
Sua configuração é real, habita o mundo dos vivos em igualdade de condições e interage com os mesmos de forma elementar no pleno exercício de sua cidadania e afetividade, em conflito com sua condição ou as obrigações do trabalho frente à administração do hotel onde é necessário escamotear manchas de sangue sobre os lençóis deixadas por sua voracidade. Sua condenação é uma “doença” com todas as implicações de um mal que se propaga sem controle. Os conflitos inerentes a esta condição são de ordem tanto psicológica quanto social e nunca se aventa a necessidade ou possibilidade de solução para estes males culturalmente atávicos: Somente corroboram-se suas origens - um estado de paralisia e falta de iniciativa que acometem almas degradadas pelo assédio da banda podre do mundo real.
Trata-se de um conformismo ou de uma elaboração do carma enquanto componente irremediável de uma existência marcada por dificuldades e limitações do horizonte da felicidade.
A mãe vampira que se esconde por seiscentos anos atrás da sua condição de uma dessas vítimas monstruosas, apresenta-se como uma mulher comum de ações simples que em momentos de possessão e do alcance dos demais é obrigada a devorar vísceras de cães ou humanas, um impulso inerente à sua condição, ou apoderar-se temporariamente das almas de outros habitantes, propagando o mal como se propaga uma peste ou se espalha um genocídio.
Sua configuração é real, habita o mundo dos vivos em igualdade de condições e interage com os mesmos de forma elementar no pleno exercício de sua cidadania e afetividade, em conflito com sua condição ou as obrigações do trabalho frente à administração do hotel onde é necessário escamotear manchas de sangue sobre os lençóis deixadas por sua voracidade. Sua condenação é uma “doença” com todas as implicações de um mal que se propaga sem controle. Os conflitos inerentes a esta condição são de ordem tanto psicológica quanto social e nunca se aventa a necessidade ou possibilidade de solução para estes males culturalmente atávicos: Somente corroboram-se suas origens - um estado de paralisia e falta de iniciativa que acometem almas degradadas pelo assédio da banda podre do mundo real.
Trata-se de um conformismo ou de uma elaboração do carma enquanto componente irremediável de uma existência marcada por dificuldades e limitações do horizonte da felicidade.
Aqui esse horizonte foi
alterado por uma enchente devastadora do rio sagrado profanado por ícones
da modernidade avassaladora.
Em menos de uma hora de projeção, este filme de câmara para violão blues, muitas vezes intencionalmente teatral como um ensaio de uma peça e como uma alegoria fantasiosa dos males do mundo, nos oferece um panorama de como as entidades seculares do bem e do mal se misturam no cotidiano dos seres vivos.
Sua decupagem é de tal modo orgânica, sem gorduras ou exposições, que muitas vezes o projetam na zona esfumaçada de ausência dos contornos que delineiam o limite do espaço e a irreversibilidade do tempo - tanto fílmico quanto mítico. Acrescente-se que desta vez a péssima projeção digital de baixíssima qualidade de resolução do cinema Estação SESC Botafogo (a mais perfeita tradução e o campeão da incompetência do Festival do Rio 2012), potencializou as brumas e tornou-se o fantasma mais palpável deste filme. Quatro estrelas.
Em menos de uma hora de projeção, este filme de câmara para violão blues, muitas vezes intencionalmente teatral como um ensaio de uma peça e como uma alegoria fantasiosa dos males do mundo, nos oferece um panorama de como as entidades seculares do bem e do mal se misturam no cotidiano dos seres vivos.
Sua decupagem é de tal modo orgânica, sem gorduras ou exposições, que muitas vezes o projetam na zona esfumaçada de ausência dos contornos que delineiam o limite do espaço e a irreversibilidade do tempo - tanto fílmico quanto mítico. Acrescente-se que desta vez a péssima projeção digital de baixíssima qualidade de resolução do cinema Estação SESC Botafogo (a mais perfeita tradução e o campeão da incompetência do Festival do Rio 2012), potencializou as brumas e tornou-se o fantasma mais palpável deste filme. Quatro estrelas.

NOTA DE RODAPÉ (“Hearat Shulayim”, Joseph Cedar, Israel, 2011)
Tudo é muito bem planejado e acabado neste filme. Dá a impressão
de ter sido concebido por um software que costura com precisão cirúrgica, e
indiferente às emoções que suscita, os viciados comportamentos humanos a que
se refere como material bruto a ser organizado em seu caos primordial.
O tom
geral de ironia e comicidade - sublinhado pela excelente trilha original calcada
num movimento andante giocoso, parte de uma sinfonia inexistente que desde a apresentação
dos letreiros iniciais de um design super criativo e bastante adequado (não
bastasse a exposição aos misteriosos e enigmáticos caracteres da
escrita hebraica), já vem acrescentar sua nota promissora - não funciona como escapismo, mas antes para enunciar
conceitos da vasta diversidade e compartimentações da cultura judaica levantados dentro da perspectiva acadêmica que cenariza o todo.
Na disputa
intelectual entre um pai filólogo, incansável pesquisador das diversas versões
do Talmud, a bíblia judaica (uma daquelas pessoas invisíveis e obstinadas que sem saber fazem o mundo girar através do trabalho diligente e incansável a edificar uma obra monumental, mas completamente aberta aos
revezes das oportunidades aleatórias do destino e ao seu aproveitamento por homens sem talento) e seu filho, um brilhante
professor universitário recém-eleito membro da academia, instaura-se o desespero e a humilhação daquele pai atordoado pela falta de reconhecimento do trabalho
de uma vida inteira.
Quando outro eminente pesquisador descobre, camuflado na
capa de uma edição antiga do Talmud, a versão original tantas vezes modificada
e que deu origem às pesquisas e controvérsias - agora devidamente
clarificadas ( e que num golpe de mestre, publicou-o imediatamente
com a típica e desonesta ambição intelectual destituída de ética antes que a obra monumental daquele viesse à luz ) - é jogada a
pá de cal sobre a existência profissional deste personagem.
O que temos aqui é um coração
partido em busca da redenção, a alma desiludida de um pai profissionalmente assassinado e por
outro lado a ascenção do seu herdeiro direto, brilhante e aclamado.
Inevitavelmente o incêndio da fogueira das vaidades alastra-se abrangendo todas as esferas da vida.
Neste filme milimetricamente concebido com a clareza e objetividade da
pesquisa científica tanto no roteiro quanto nas montagem e direção,
evidenciam-se os egos arbitrários e intransigentes do mundo ordinário que são as molas propulsoras
dos desmandos a serviço das personas e primas-donas tanto do mundo acadêmico
quanto do espetáculo.
Nesta arena degladiam-se as forças racionais contra convenções que a despeito de toda evolução
científica regem a vida e as relações humanas revelando mecanismos de assédios autoritários e as disputas
das vaidades e fragilidades escamoteadas em fortalezas aparentemente inexpugnáveis.
A cena da lavagem de roupa suja ocorrida na sala apertada onde se reúnem os
responsáveis pela trapalhada que finalmente - e por uma guinada do destino
(novamente atuando aqui como um salvador da pátria como em outras
viradas deste roteiro) - é um primor de revelação da dimensão hipócrita,
perversa e irresponsável com que as autoridades acadêmicas atuam através de suas
jogadas escusas no intuito de manter a todo custo as suas reputações e
destaques. Tanto nesta seara como em todas as outras áreas por extensão, principalmente no mundo das artes em geral com suas divas ridículas cultivando
máscaras destituídas de expressão pessoal e vampirizando conteúdos originais de pobres vítimas desavisadas, vivendo no mundo das aparências e
fragilizadas por ameaças da elucidação de suas imposturas.
Estas anomalias são
a base do descompasso das verdades históricas com a realidade do mundo em face
da averiguação de seus meandros, dificilmente matéria de interesse das classes
dirigentes ou dos pilares do "conhecimento" erigidos por si próprios em meio a
manobras ilícitas para a manutenção de seus status.
Com o discutível prêmio na
mão, papai vai soltar a fera enjaulada recalcada durante tantos anos em sua vaidade, mostrando as unhas e o alcance de sua mágoa e ressentimento, aproveitando a oportunidade de deixar de ser apenas uma nota de rodapé num livro conceituado de uma verdadeira, renomada e
repeitada sumidade da área.
Parece um filme, mas é tudo verdade. Seria cômico se não
fosse sério. Assim é, se lhe parece.
Cinco estrelas: Pelo profissionalismo,
acabamento, pela seriedade do tema amaciado em comédia, a trilha sonora e pelo
alerta que propaga em relação aos lobos que nos cercam dentro e fora de nossas
casas.



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