MARINA ABRAMOVIC: ARTISTA PRESENTE
(“Marina Abramovic The Artist is Present”, de Matthew Akers,
Estados Unidos, 2011)
e
SPALDING GREY : TUDO VAI BEM
(“And Everything Is Going
Fine” de Steven Soderbergh, Estados Unidos, 2010)
“A Artista Está Presente” dá um upgrade na recreação infantil
que atende pelo nome de “Estátua”, recuperando seu princípio básico da
imobilidade e conferindo-lhe o status de obra de arte ao também incorporar
procedimentos inerentes à prática da meditação e da yoga. A arte performática
da artista sérvia, uma de suas precursoras - atualmente conhecida como a avó da
performance - está para a imobilidade das imagens representadas em mídias
visuais convencionais assim como as performances de Spalding Grey está para o
teatro e a prática psicanalítica.
Não
que aquela deixe de flertar com a arte de atuar e este não de furte a lançar
mão da representação iconográfica. As fronteiras que separam estas posturas e
investigações de linguagem se confundem com o propósito de deixar os artistas à
vontade no controle da pesquisa dos caminhos que os levarão a realizar seus
intentos enquanto celebrantes destes rituais
de magia.
O que em Spalding Grey se aproxima de uma estrutura narrativa
autobiográfica, fortemente apoiada nas lembranças e memórias, evidenciando na
prática a fusão entre a arte e a vida, em Marina Abramovic verificamos a
sensorialidade evocada por sua body art focada em questões sociopolíticas e
comportamentais que atravessaram sua existência, expressadas em seu campo de
batalha, o corpo. A conjunção destas diversas mídias e disciplinas converge na
extinção dos limites territoriais da arte enquanto elemento libertador do ser
humano, emancipando-os de espectadores a muitas vezes partícipes ou suportes
destas manifestações.
No filme de Marina, um documentário mais convencional,
colocamo-nos a par de suas histórias e de seu passado de luta para preservar
sua integridade artística através elementos narrativos didáticos a nos familiarizar
com a preparação da exposição que dá nome ao filme e de um apanhado sucinto de
sua vida entre os compromissos de divulgação de seu trabalho no universo
mundano (que ela chama de lado B - que adora) e a intensa preparação dos
jovens artistas que vão recriar suas principais performances enquanto ela, toda
poderosa, executará durante três meses a proeza de permanecer imóvel numa
cadeira, uma espécie de oráculo, de mãe, de confidente, de psicanalista para os
espectadores que terão o privilégio de sentar-se à sua frente para usufruir
daqueles minutos fugazes, de sua imaterialidade, da ação (a)temporal,
suscitando em cada um as mais diversas reações. É um desfile de
suscetibilidades e sensibilidades à flor da pele, de engraçadíssimos freaks
pegando carona na performance da outra ao incorporar as suas próprias, etc.
Tudo neste filme é feito com o propósito de documentar uma ação, não a
performance em questão, mas um tipo de depoimento institucional que o MOMA
registrou para as futuros pesquisadores se inteirarem com a organização de sua
infraestrutura.
Já em “Spalding Grey(...)” assistimos, através da mínima
intromissão do diretor, à saga que transformou um sujeito disléxico (que
conquistou seu primeiro papel no teatro por esta deficiência – o personagem era
louco) em um artista que inaugurou uma categoria de arte focada nas
vicissitudes de sua família disfuncional elevando sua verborragia descritiva a
uma categoria de autodocumentário ou autoficção de standup comedy. Estas
categorias parecem ser o rumo que este filme persegue sem se decidir qual
partido tomar, como se oferecesse ao espectador a escolha da opção que melhor
lhe aprouver.
À medida que a direção interfere somente na consecução das
performances e dos depoimentos do próprio ator - não estabelecendo nenhum
partido em função de situar seu território enquanto indivíduo, cidadão ou
artista - este filme parece dar aquele salto no vazio fotografado por Yves
Klein. A despeito da constante evolução das artes e ciências, da indústria, dos
conflitos sociais e por extensão de toda a loucura imposta de fora para dentro
da casa de infância, dos percalços que Spalding Grey precisou vencer para achar
seu lugar no mundo ou das atribulações reconstituídas por suas performances, “And
Everything Is Going Fine” parece aproximar-se da filosofia zen e de uma
faculdade imaterial ou invisível de fazer cinema.
Aqui uma ressalva à
legendagem eletrônica praticada nestes filmes do Festival do Rio 2012, uma
verdadeira impostura, tanto na qualidade das traduções (literais e em outros
casos distorcendo o sentido das falas) e no funcionamento da tecnologia, apesar
de em “Spalding Grey(...)” eu reconhecer a quase impossibilidade de mantê-las
sincronizadas.
Este post continuráa sendo acrescentado durante alguns dias.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
comente aqui