domingo, 28 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - G : Marina Abramovic The Artist is Present e Spalding Grey And Everything is Going Fine




MARINA ABRAMOVIC: ARTISTA PRESENTE
(“Marina Abramovic The Artist is Present”, de Matthew Akers, Estados Unidos, 2011)
e
SPALDING GREY : TUDO VAI BEM
(“And Everything Is Going Fine” de Steven Soderbergh, Estados Unidos, 2010)

“A Artista Está Presente” dá um upgrade na recreação infantil que atende pelo nome de “Estátua”, recuperando seu princípio básico da imobilidade e conferindo-lhe o status de obra de arte ao também incorporar procedimentos inerentes à prática da meditação e da yoga. A arte performática da artista sérvia, uma de suas precursoras - atualmente conhecida como a avó da performance - está para a imobilidade das imagens representadas em mídias visuais convencionais assim como as performances de Spalding Grey está para o teatro e a prática psicanalítica.   
Não que aquela deixe de flertar com a arte de atuar e este não de furte a lançar mão da representação iconográfica. As fronteiras que separam estas posturas e investigações de linguagem se confundem com o propósito de deixar os artistas à vontade no controle da pesquisa dos caminhos que os levarão a realizar seus intentos enquanto celebrantes destes rituais de magia
O que em Spalding Grey se aproxima de uma estrutura narrativa autobiográfica, fortemente apoiada nas lembranças e memórias, evidenciando na prática a fusão entre a arte e a vida, em Marina Abramovic verificamos a sensorialidade evocada por sua body art focada em questões sociopolíticas e comportamentais que atravessaram sua existência, expressadas em seu campo de batalha, o corpo. A conjunção destas diversas mídias e disciplinas converge na extinção dos limites territoriais da arte enquanto elemento libertador do ser humano, emancipando-os de espectadores a muitas vezes partícipes ou suportes destas manifestações. 
No filme de Marina, um documentário mais convencional, colocamo-nos a par de suas histórias e de seu passado de luta para preservar sua integridade artística através elementos narrativos didáticos a nos familiarizar com a preparação da exposição que dá nome ao filme e de um apanhado sucinto de sua vida entre os compromissos de divulgação de seu trabalho no universo mundano (que ela chama de lado B - que adora) e a intensa preparação dos jovens artistas que vão recriar suas principais performances enquanto ela, toda poderosa, executará durante três meses a proeza de permanecer imóvel numa cadeira, uma espécie de oráculo, de mãe, de confidente, de psicanalista para os espectadores que terão o privilégio de sentar-se à sua frente para usufruir daqueles minutos fugazes, de sua imaterialidade, da ação (a)temporal, suscitando em cada um as mais diversas reações. É um desfile de suscetibilidades e sensibilidades à flor da pele, de engraçadíssimos freaks pegando carona na performance da outra ao incorporar as suas próprias, etc. Tudo neste filme é feito com o propósito de documentar uma ação, não a performance em questão, mas um tipo de depoimento institucional que o MOMA registrou para as futuros pesquisadores se inteirarem com a organização de sua infraestrutura. 
Já em “Spalding Grey(...)” assistimos, através da mínima intromissão do diretor, à saga que transformou um sujeito disléxico (que conquistou seu primeiro papel no teatro por esta deficiência – o personagem era louco) em um artista que inaugurou uma categoria de arte focada nas vicissitudes de sua família disfuncional elevando sua verborragia descritiva a uma categoria de autodocumentário ou autoficção de standup comedy. Estas categorias parecem ser o rumo que este filme persegue sem se decidir qual partido tomar, como se oferecesse ao espectador a escolha da opção que melhor lhe aprouver. 
À medida que a direção interfere somente na consecução das performances e dos depoimentos do próprio ator - não estabelecendo nenhum partido em função de situar seu território enquanto indivíduo, cidadão ou artista - este filme parece dar aquele salto no vazio fotografado por Yves Klein. A despeito da constante evolução das artes e ciências, da indústria, dos conflitos sociais e por extensão de toda a loucura imposta de fora para dentro da casa de infância, dos percalços que Spalding Grey precisou vencer para achar seu lugar no mundo ou das atribulações reconstituídas por suas performances, “And Everything Is Going Fine” parece aproximar-se da filosofia zen e de uma faculdade imaterial ou invisível de fazer cinema. 
Aqui uma ressalva à legendagem eletrônica praticada nestes filmes do Festival do Rio 2012, uma verdadeira impostura, tanto na qualidade das traduções (literais e em outros casos distorcendo o sentido das falas) e no funcionamento da tecnologia, apesar de em “Spalding Grey(...)” eu reconhecer a quase impossibilidade de mantê-las sincronizadas.
Este post continuráa sendo acrescentado durante alguns dias.


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