quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - A: A Culpa é do Filho, Elena, Sem Proteção, Great Expactations e Depois de Lucia


Decidi que este ano não faria resenhas dos filmes assistidos no Festival do Rio um pouco por estar muito ocupado tramando a explosão do Cristo Redentor, o bombardeio do Projac, o envenenamento do cachorro do vizinho, a abolição da cultura baiana, o assassinato de Luis Ignacio da Silva e o estupro de Cauã Raymond, fatores que, ao contrário de 2011 - quando tentava definir um tipo de antropofagia cultural a partir de dados pessoais confrontados ao trabalho intelectual alheio - demandam um dispêndio muito maior de concentração, tempo e energia.  Até que ao final da projeção de “Depois de Lucia” (Después de Lucía, Michel Franco, Mexico, 2012) senti que não poderia deixar passar impunemente aquela experiência. Um tanto por não ter encontrado nos sete dias iniciais desta maratona - não sei se por falta de sorte, de disponibilidade de tempo ou de critérios de escolha - um filme que tivesse me mobilizado desta forma. Outro tanto para gáudio dos meus mais de dois mil leitores de várias partes do mundo, no Brasil em sua maioria uma horda de ressentidos, invejosos, abrigados na escuridão de suas identidades na internet, que vasculham minha atividade particular para satisfação de seus egos e vaidades injustificados, injuriados por meus comentários a respeito de suas pobrezas intelectuais, investimentos artísticos equivocados, opiniões retrógradas travestidas de inovação, o tamanho de suas pirocas minúsculas ou para se precaverem contra o fim do mundo.

A saber:

1 - A CULPA É DO FILHO (“È Stato Il Figlio”, Danieli Cipri, Italia/França, 2012) 
                                                
Um festival de caricaturas perdidas numa absoluta falta de timing no registro do cotidiano de uma família pobre sob as leis onipresentes da Mafia impede esta tragicomédia de arrancar um sorriso que seja das platéais impassíveis com sua falta de rumo.   Daniele Cipri foi o diretor de fotografia de “Vincere” de Marco Bellochio, Itália, 2009 - um amontoado de cacoetes operísticos como veículo de propaganda retratando os desmandos fascistas de Mussolini na área pessoal e afetiva. A redundância de imagens “pictóricas”, de “composição”, gritantemente impingidas ao espectador, num virtuosismo exibicionista gratuito, aliados à mão pesada na direção de atores e na decupagem cinematográfica forçosamente elaborada, são os erros que Daniele Cipri, afora sua falta de experiência como diretor (é seu primeiro filme), repete sem parcimônia. Aqui temos novamente os enquadramentos caprichados, a fotografia de saturação estudada, elementos a que se ativeram com extrema atenção e cuidado, esquecendo-se que ali havia um material dramatúrgico a ser tratado prioritariamente em sua complexa mescla de tragédia e comédia que nunca se equilibram ou sequer se resolvem para qualquer dos lados. É notório que a parte cômica saiu prejudicada e isto é típico de diretores que se aventuram em terrenos que não são a sua praia, e a de Danieli Cipri parece não ser exatamente o senso de humor. Não conheço o romance original, mas tenho a impressão que a adaptação concentrou a ação em sequências-chave, que funcionaram como verdadeiros deus-ex-machina, como na sequência final, a única em que um cuidado com o timing não resvalou na pasmaceira geral, em que pese a contínua caracterização exagerada tanto física quanto interpretativa dos atores. Aqui o que se procura evidenciar é aquilo que infestou o inferno de cineastas dotados de boas intenções: A tragédia social da escravização histórica do homem ao dinheiro e os mecanismos que criaram para sua utilização e manipulação como instrumentos de poder, de influência e da desagregação familiar. Sobram imagens clichês (a grua que sobe acompanhando o personagem na estrada deserta), e sente-se o peso da tradição pictórica renascentista italiana, do quadro fixo, do retrato, da alegoria, que campeiam  ineficazes, completamente perdidas  na transposição para as imagens em movimento. O plano metafórico final, totalmente desnecessário, é a mais perfeita tradução do todo, assim como o discurso involuntariamente cômico em tela cheia de Mussolini em “Vincere” era para aquele.  Das cinco estrelas, duas.



2 – ELENA (“Elena”, Andrey Szviagintsev, Russia, 2011)

Uma boa amostra de como recursos narrativos simples controem uma narrativa efetivamente dramática sem apelos a elementos técnicos exibicionistas que desviam a atenção da história contada. A relação familiar é o principal elemento da evolução da trama. É novamente a tragédia da escravidão ao capital em face de dificuldades e desajustes sociais. Elena, a esposa dedicada e fiel transforma-se na mulher que, para manter o bem estar de sua família fora do casamento, é capaz da realização de um crime. A organização social da Rússia contemporânea, a poucas décadas da realidade de mercado, da necessidade individual de subsistência fora da esfera estatal e a consequente falta de preparo das atuais gerações (e a inadaptação das mais velhas), são retratados de forma bastante eficaz neste microcosmo familiar que o Sr. Svziagintsev nos propõe.  Nota dez para a ambientação do apartamento chique, assim como para o caos deliberado e circunstancial do outro, um contraste que muito nos informa sobre a situação de uma sociedade em processo de transformação. E nota vinte para a sóbria interpretação de Nadezhda Markina, uma antítese do glamour industrial cinematográfico em sua beleza madura e seu temperamento circunspecto, atributos que nos surpreendem quando da tomada de decisão do personagem. Talvez o encanto deste pequeno filme resida justamente no despojamento, na despretensão, na simplicidade que convém aos deuses e aos poetas.  Quatro das cinco estrelas.

3 – SEM PROTEÇÃO (“The Company You Keep”, Robert Redford, USA, 2012) 

É um daqueles filmes que aparentemente se diferenciam da cartilha hollywoodiana: Um elenco de velhas estrelas ainda fulgurantes que valem cada centavo do ingresso, e uma história que enfia o dedo na política de segurança americana praticada pela CIA (em tudo idêntica ao que os países do terceiro mundo sofreram na época de suas ditaduras através do know how exportado pelos Estados Unidos nos anos 60/70). Mas como é de voz corrente, Hollywood tem a varinha mágica dos milhões de dólares que absorvem e transformam o trabalho sujo do sistema americano (perseguições, torturas, mortes, violações de direitos civis, desrespeito aos direitos humanos, arbitrariedade, etc.) em filmes que aparentemente purgam suas culpas com lágrimas crocodilo. Neste caso há um filme paradigmático, “Corações e Mentes” (Hearts and Minds, 1974) vencedor do Oscar, que é uma pasteurização da brutalidade americana no Vietnã, servida em frames edulcorados para o consumo de uma nação desacreditada na política internacional (e não só naquela época).  Os protestos contra a guerra do Vietnã e os raids nos campus das universidades dos anos 60 que produziram mortos e feridos numa continuação da guerra dentro da própria casa, facultou a formação de organizações radicais como os saudosos Black Panthers e o Weather Report, pano de fundo desta trama. Este tipo de apropriação não se verifica só no cinema: Weather Report é também o nome de uma banda de jazz rock que fez algum sucesso nos anos 70 (se não me engano um dos seus integrantes era brasileiro) abrindo caminho para o esvaziamento da  da história das resistências através de títulos ilustrativos que várias bandas adotaram em sua esteira. Robert Redford cavou nas dobras das rugas de Julie Christie, Nick Nolte e da minha favorita Susan Sarandon - além das suas próprias (sua foto dos tempos de Butch Cassidy que aparece em cena provoca um verdadeiro choque cultural) – a textura que permeia o desenvolvimento de uma espécie de thriller eivado de tintas pretensamente sociais, e que buscam no repertório político somente um instrumento para a edificação de uma dramaturgia convencional que em última instância, e paradoxalmente, ratifica as instituições conservadoras da família, do patriotismo e do herói bom moço que se sacrifica para não colocar em risco a vida de antigos e encarniçados companheiros de luta, o traço mais relevante do seu caráter.  O tema passional inserido a forceps resulta inconsistente, com o único objetivo de salvar a pele do mocinho nos estertores finais por uma clandestina ex-guerrilheira e amante, cascuda do tráfico de drogas, calejada das vicissitudes da vida de foragida, numa repentina e mal desenvolvida reviravolta destinada a não prejudicar a criancinha que aguarda desconsolada a volta do papai.  Três estrelas: Julie, Susan e Nick.





4 – GREAT EXPECTATIONS (“Great Expectations”, Mike Newel, Inglaterra, 2012) 

Nova adaptação daquele livro que fomos obrigados a ler na adolescência: Resultou num filme pomposo, careta, e com um roteiro muito confuso.  Helena Bonham-Carter, longe das garras do marido, oferece uma interpretação artificialmente empostada tal como toda a dimensão física que a rodeia. Todo o filme tem um pé no teatro e não consegue se desvencilhar das amarras tradicionais das narrativas baseadas em livros muito famosos que ora caem na subserviência, ora no equívoco. A reconstituição da Londres da época evoca boa parte do que os cronistas e o próprio autor retratam como um amontoado de lama, detritos, poluição e mau cheiro. As características dos personagens antagonistas são de tal sorte maniqueístas, que em alguns momentos nos perguntamos se não estamos assistindo a uma peça infantil de má qualidade. Somente a ótima interpretação e adequada caracterização de Ralph Fiennes nos salva da mesmice. Assim como a de Jason Flemyng, o cunhado. E afora as caretas, também o trabalho coadjuvante de Ralph Ineson no papel de Seargent, o secretário do advogado, bastante divertido. Duas estrelas.



5 – DEPOIS DE LUCIA (“Después de Lucía”, Michel Franco, Mexico, 2012) 

Poucos filmes me fizeram sentir na pele o desejo de vingança avant la lettre que seu personagem principal (o pai - e não a filha como parece mas não é) vai ser tomado ao final da narrativa.  Trata-se de um personagem constantemente obscurecido pelas atividades da filha que são a maior parte do que é exibido na tela. Este pai ergue-se aos poucos da dor da perda e do sentimento de culpa pela morte acidental de sua mulher.  É completamente inesperado que uma história que a princípio mal se explicita - ou que o faz tão economicamente provocando-nos a sensação de que pouco ou nada está acontecendo - se converta num emaranhado de preconceitos, machismo, má educação, subserviência, desamparo, irresponsabilidades e ignorância dos direitos inerentes ao indivíduo por uma juventude subjugada aos desmandos do consumismo e escravizada às redes sociais virtuais. Todos esses elementos tecem paulatinamente uma teia que se agiganta nesta obra ímpar orquestrada por Michel Franco.  Não há nenhuma música que sustente sua evolução e seus cortes são tão secos como uma faca afiada que nos penetra a cada vez, atiçando-nos um incômodo desejo de inteferir na trama, que nos prostra na cadeira e não dá chance e nenhuma salvação. Os vários planos fotografados no interior dos veículos, colocam-nos sentados no banco de trás, trazendo-nos para dentro deste filme que pouco a pouco nos toma de assombro e participação, de tal modo que esperamos ansiosos e sem perder o interesse durante mais de dois minutos de um plano fixo focado nas estripulias de uma galera aborrescente numa festinha particular - linguajar vazio, comportamento torpe, tudo absolutamente irrelevante - para finalmente termos a informação do que está acontecendo com o personagem trancado no banheiro que nossa expectativa não abandona nem a pau.  Sua ausência é tão imperiosa que justifica tantas bobagens impingidas ao espectador. Este tratamento ostensivamente escamoteador da personagem principal, sem que jamais percamos o interesse naquilo que não está sendo mostrado, é uma proeza resultante de um conhecimento profundo da carpintaria dramatúrgica e um estrito sentido de timing capazes de investir e sustentar tanto tempo numa jogada tão arriscada.  Todas as sequências são investidas deste sentido de somatório implacável, cada uma com seu lugar e sua importância capital, alcançando tal nível de exacerbação do absurdo, principalmente por conta de sua absoluta falta de atrativos técnicos e cacoetes narrativos de identificação imediata, que justamente por isso nos arrebata pela sensação de pertencimento, de estarmos participando daquele mundo e daquela trama, apartados somente por alguns frames de distância, numa catarse sem rodeios.  Destaque para a beleza singela e o talento da moçoila Tessa Ia e a evolução do desenho do personagem do pai interpretado por Hernán Mendoza - da depressão causada pela perda de sua mulher, passando pela inadaptação à sua nova vida profissional em outra cidade, até à odisséia pela busca da filha desaparecida hipoteticamente no mar, este mar que abrigará o seu projeto de vingança e nos desafogará ao final do filme..  Todas as estrelas.

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