Decidi que este ano não faria resenhas dos filmes assistidos no Festival do Rio um pouco por estar muito ocupado tramando a explosão do Cristo Redentor, o bombardeio do Projac, o envenenamento do cachorro do vizinho, a abolição da cultura baiana, o assassinato de Luis Ignacio da Silva e o estupro de Cauã Raymond, fatores que, ao contrário de 2011 - quando tentava definir um tipo de antropofagia cultural a
partir de dados pessoais confrontados ao trabalho intelectual alheio - demandam um dispêndio muito maior de concentração, tempo e energia. Até
que ao final da projeção de “Depois de Lucia” (Después de Lucía, Michel Franco,
Mexico, 2012) senti que não poderia deixar passar impunemente aquela
experiência. Um tanto por não ter encontrado nos sete dias iniciais desta
maratona - não sei se por falta de sorte, de disponibilidade de tempo ou de
critérios de escolha - um filme que tivesse me mobilizado desta forma. Outro
tanto para gáudio dos meus mais de dois mil leitores de várias partes do mundo, no Brasil em sua maioria
uma horda de ressentidos, invejosos, abrigados na escuridão de suas identidades na internet,
que vasculham minha atividade particular para satisfação de seus
egos e vaidades injustificados, injuriados por meus comentários a respeito de suas pobrezas
intelectuais, investimentos artísticos equivocados, opiniões retrógradas travestidas de inovação, o tamanho de suas pirocas minúsculas ou para
se precaverem contra o fim do mundo.
1 - A CULPA É DO FILHO (“È Stato Il Figlio”, Danieli Cipri,
Italia/França, 2012)
Um festival de caricaturas perdidas numa absoluta falta de
timing no registro do cotidiano de uma família pobre sob as leis onipresentes
da Mafia impede esta tragicomédia de arrancar um sorriso que seja das platéais impassíveis com sua falta de rumo. Daniele Cipri foi o diretor de fotografia de “Vincere” de Marco
Bellochio, Itália, 2009 - um amontoado de cacoetes operísticos como veículo de
propaganda retratando os desmandos fascistas de Mussolini na área pessoal e afetiva. A redundância de imagens “pictóricas”, de “composição”, gritantemente
impingidas ao espectador, num virtuosismo exibicionista gratuito, aliados à mão
pesada na direção de atores e na decupagem cinematográfica forçosamente elaborada, são os erros que
Daniele Cipri, afora sua falta de experiência como diretor (é seu primeiro
filme), repete sem parcimônia. Aqui temos novamente os enquadramentos
caprichados, a fotografia de saturação estudada, elementos a que se ativeram
com extrema atenção e cuidado, esquecendo-se que ali havia um material dramatúrgico
a ser tratado prioritariamente em sua complexa mescla de tragédia e comédia que nunca se equilibram ou sequer se resolvem para qualquer dos lados. É notório que a parte cômica saiu prejudicada e isto é típico de diretores que se aventuram em terrenos que não são a sua praia, e a de Danieli Cipri parece não ser exatamente o senso de humor. Não conheço o romance original, mas tenho a impressão que a adaptação
concentrou a ação em sequências-chave, que funcionaram como verdadeiros deus-ex-machina,
como na sequência final, a única em que um cuidado com o timing não resvalou na
pasmaceira geral, em que pese a contínua caracterização exagerada tanto física
quanto interpretativa dos atores. Aqui o que se procura evidenciar é aquilo que
infestou o inferno de cineastas dotados de boas intenções: A tragédia social da
escravização histórica do homem ao dinheiro e os mecanismos que criaram para sua
utilização e manipulação como instrumentos de poder, de influência e da
desagregação familiar. Sobram imagens clichês (a grua que sobe acompanhando o personagem na estrada deserta), e sente-se o peso da tradição pictórica renascentista italiana, do quadro fixo, do retrato, da alegoria, que campeiam ineficazes, completamente perdidas na transposição para as imagens em movimento. O plano
metafórico final, totalmente desnecessário, é a mais perfeita tradução do todo,
assim como o discurso involuntariamente cômico em tela cheia de Mussolini em
“Vincere” era para aquele. Das cinco
estrelas, duas.
2 – ELENA (“Elena”, Andrey Szviagintsev, Russia, 2011)
Uma boa amostra de como recursos narrativos simples controem uma
narrativa efetivamente dramática sem apelos a elementos técnicos exibicionistas
que desviam a atenção da história contada. A relação familiar é o principal
elemento da evolução da trama. É novamente a tragédia da escravidão ao capital
em face de dificuldades e desajustes sociais. Elena, a esposa dedicada e fiel transforma-se
na mulher que, para manter o bem estar de sua família fora do casamento, é
capaz da realização de um crime. A organização social da Rússia contemporânea, a poucas décadas da realidade de mercado, da necessidade individual de
subsistência fora da esfera estatal e a consequente falta de preparo das atuais
gerações (e a inadaptação das mais velhas), são retratados de forma bastante
eficaz neste microcosmo familiar que o Sr. Svziagintsev nos propõe. Nota
dez para a ambientação do apartamento chique, assim como para o caos deliberado e circunstancial do outro, um contraste que muito nos informa sobre a situação de uma sociedade em processo de transformação. E nota vinte para a sóbria interpretação de
Nadezhda Markina, uma antítese do glamour industrial cinematográfico em sua beleza madura e seu temperamento circunspecto, atributos que nos surpreendem quando da tomada de decisão do personagem. Talvez o encanto deste pequeno filme resida
justamente no despojamento, na despretensão, na simplicidade que convém aos
deuses e aos poetas. Quatro das cinco
estrelas.
3 – SEM PROTEÇÃO (“The
Company You Keep”, Robert Redford, USA, 2012)
É um daqueles filmes que aparentemente se diferenciam da
cartilha hollywoodiana: Um elenco de velhas estrelas ainda
fulgurantes que valem cada centavo do ingresso, e uma história que enfia o dedo
na política de segurança americana praticada pela CIA (em tudo idêntica ao que
os países do terceiro mundo sofreram na época de suas ditaduras através do
know how exportado pelos Estados Unidos nos anos 60/70). Mas como é de voz corrente, Hollywood tem a varinha mágica dos milhões de dólares
que absorvem e transformam o trabalho sujo do sistema americano (perseguições,
torturas, mortes, violações de direitos civis, desrespeito aos direitos
humanos, arbitrariedade, etc.) em filmes que aparentemente purgam suas culpas
com lágrimas crocodilo. Neste
caso há um filme paradigmático, “Corações e Mentes” (Hearts and Minds, 1974)
vencedor do Oscar, que é uma pasteurização da brutalidade americana no Vietnã,
servida em frames edulcorados para o consumo de uma nação desacreditada na
política internacional (e não só naquela época). Os
protestos contra a guerra do Vietnã e os raids nos campus das universidades dos
anos 60 que produziram mortos e feridos numa continuação da guerra dentro da
própria casa, facultou a formação de organizações radicais como os saudosos Black Panthers e o Weather
Report, pano de fundo desta trama. Este
tipo de apropriação não se verifica só no cinema: Weather Report é também o nome de uma banda
de jazz rock que fez algum sucesso nos anos 70 (se não me engano um dos seus integrantes era brasileiro) abrindo caminho para o esvaziamento da da história
das resistências através de títulos ilustrativos que várias bandas adotaram em sua esteira. Robert
Redford cavou nas dobras das rugas de Julie Christie, Nick Nolte e da minha
favorita Susan Sarandon - além das suas próprias (sua foto dos tempos de Butch Cassidy que aparece em cena provoca um verdadeiro choque cultural) – a textura que permeia o
desenvolvimento de uma espécie de thriller eivado de tintas pretensamente
sociais, e que buscam no repertório político somente um instrumento para a
edificação de uma dramaturgia convencional que em última instância, e
paradoxalmente, ratifica as instituições conservadoras da família, do
patriotismo e do herói bom moço que se sacrifica para não colocar em risco a
vida de antigos e encarniçados companheiros de luta, o traço mais relevante do
seu caráter. O
tema passional inserido a forceps resulta inconsistente, com o único objetivo
de salvar a pele do mocinho nos estertores finais por uma clandestina ex-guerrilheira e amante, cascuda do tráfico de drogas, calejada das vicissitudes da vida de foragida, numa repentina e
mal desenvolvida reviravolta destinada a não prejudicar a criancinha que
aguarda desconsolada a volta do papai. Três
estrelas: Julie, Susan e Nick.
4 – GREAT EXPECTATIONS (“Great
Expectations”, Mike Newel, Inglaterra, 2012)
Nova adaptação daquele livro que fomos obrigados a ler na
adolescência: Resultou num filme pomposo, careta, e com um roteiro muito
confuso. Helena Bonham-Carter, longe das garras do
marido, oferece uma interpretação artificialmente empostada tal como toda a
dimensão física que a rodeia. Todo o filme tem um pé no teatro e não consegue
se desvencilhar das amarras tradicionais das narrativas baseadas em livros
muito famosos que ora caem na subserviência, ora no equívoco. A
reconstituição da Londres da época evoca boa parte do que os cronistas e o próprio autor retratam como um
amontoado de lama, detritos, poluição e mau cheiro. As características dos
personagens antagonistas são de tal sorte maniqueístas, que em alguns momentos
nos perguntamos se não estamos assistindo a uma peça infantil de má qualidade.
Somente a ótima interpretação e adequada caracterização de Ralph Fiennes nos
salva da mesmice. Assim como a de Jason Flemyng, o cunhado. E afora as caretas,
também o trabalho coadjuvante de Ralph Ineson no papel de Seargent, o secretário do
advogado, bastante divertido. Duas estrelas.
5 – DEPOIS DE LUCIA (“Después de Lucía”, Michel Franco, Mexico,
2012)
Poucos filmes me fizeram sentir na pele o desejo de vingança
avant la lettre que seu personagem principal (o pai - e não a filha como parece
mas não é) vai ser tomado ao final da narrativa. Trata-se
de um personagem constantemente obscurecido pelas atividades da filha que são
a maior parte do que é exibido na tela. Este pai ergue-se aos poucos da dor da
perda e do sentimento de culpa pela morte acidental de sua mulher. É
completamente inesperado que uma história que a princípio mal se explicita - ou
que o faz tão economicamente provocando-nos a sensação de que pouco ou nada está
acontecendo - se converta num emaranhado de preconceitos, machismo, má educação,
subserviência, desamparo, irresponsabilidades e ignorância dos direitos
inerentes ao indivíduo por uma juventude subjugada aos desmandos do consumismo e escravizada às redes sociais virtuais. Todos esses elementos tecem paulatinamente uma
teia que se agiganta nesta obra ímpar orquestrada por Michel Franco. Não há nenhuma música que sustente sua evolução
e seus cortes são tão secos como uma faca afiada que nos penetra a cada vez, atiçando-nos
um incômodo desejo de inteferir na trama, que nos prostra na cadeira e não dá chance e nenhuma salvação. Os vários
planos fotografados no interior dos veículos, colocam-nos sentados no banco de
trás, trazendo-nos para dentro deste filme que pouco a pouco nos toma de assombro
e participação, de tal modo que esperamos ansiosos e sem perder o interesse durante mais de dois minutos de um plano fixo focado nas estripulias de uma galera aborrescente numa festinha particular - linguajar
vazio, comportamento torpe, tudo absolutamente irrelevante - para finalmente termos
a informação do que está acontecendo com o personagem trancado no banheiro que nossa expectativa não abandona nem a pau. Sua ausência é tão imperiosa que justifica tantas
bobagens impingidas ao espectador. Este tratamento ostensivamente escamoteador da personagem principal, sem que jamais percamos o interesse naquilo que não está sendo mostrado, é uma proeza resultante de um conhecimento profundo da
carpintaria dramatúrgica e um estrito sentido de timing capazes de investir e sustentar tanto
tempo numa jogada tão arriscada. Todas
as sequências são investidas deste sentido de somatório implacável, cada uma com
seu lugar e sua importância capital, alcançando tal nível de exacerbação do
absurdo, principalmente por conta de sua absoluta
falta de atrativos técnicos e cacoetes narrativos de identificação imediata, que justamente por isso nos arrebata pela sensação de pertencimento, de estarmos participando daquele mundo e daquela trama, apartados somente por alguns
frames de distância, numa catarse sem rodeios. Destaque para a beleza singela e o talento da moçoila
Tessa Ia e a evolução do desenho do personagem do pai interpretado por Hernán
Mendoza - da depressão causada pela perda de sua mulher, passando pela inadaptação
à sua nova vida profissional em outra cidade, até à odisséia pela busca da filha desaparecida
hipoteticamente no mar, este mar que abrigará o seu projeto de vingança e nos desafogará ao final do filme.. Todas as estrelas.





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