terça-feira, 10 de maio de 2011

Revista Cult : Do Jeito Que Você Gosta

Do jeito que você gosta

Representação sexual, cross-dressing e intersexualidade
Marcia Tiburi
Do Jeito que Você Gosta é a peça de William Shakespeare atualmente encenada em São Paulo pela Companhia Elevador de Teatro Panorâmico. Assistir a ela é uma grande oportunidade de reflexão sobre a amizade e o amor e a relação entre natureza e cultura.
Mais ainda, Do Jeito que Você Gosta pode ser lida como um forte ensinamento sobre diferenças de gênero. A protagonista da peça é Rosalinda, uma garota que, fugindo do tio autoritário, precisa travestir-se de homem. É travestida de Ganimedes que ela brincará de seduzir seu amado Orlando.
Não se aproveita bem a brincadeira de Shakespeare sem levar em conta que, naqueles tempos, mulheres não podiam fazer teatro. A encenação dessa peça constituía uma complexa banda projetiva: para representar Rosalinda, um homem se vestia de mulher.
Convencendo como mulher, ele devia, dentro da peça, vestir-se de homem e, desse modo, ser um homem que encena que é uma mulher fingindo que é um homem. Rosalinda vestida de Ganimedes brinca de ser Rosalinda na intenção de testar o amor de Orlando. Se Rosalinda é a personagem mais rica da história quando a vemos encenada por uma mulher (Carolina Fabri, na versão da Companhia Elevador), tanto mais complexa se torna ao ser representada por um ator homem que, no processo de atuação devia, em um complexo jogo de camadas, mostrar que tudo são representações.
Fácil é inscrever Rosalinda na tradição da donzela guerreira junto de Atalanta, Mulan, Joana d’Arc, Iansã, Diadorim e tantas outras. Contudo, indo mais além, o que vemos em Rosalinda é a intuição de que gênero é mais um modo de vestir e de gesticular do que um modo de ser, é mais uma medida cênica do que uma condição natural.
Travestir-se
A ideia de Simone de Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, diz respeito a esse caráter teatral do gênero. Quando o cartunista Laerte Coutinho resolve aparecer vestido de mulher, é o fato da representação que nos confunde. Cross-dressing é um movimento com adeptos em diversos países justamente porque a “verdade” sobre a relação entre sexo e gênero já não tem mais validade cultural. Gênero é questão cênica. É apenas figurino. E, desse modo, fantasia que deve
importar a quem a escolhe. O que acontece com o sexo, por sua vez, não é diferente. Sexo é construção ideológica baseada no padrão binário (homem e mulher) inventada pela ciência e pela lei. É um padrão que o travestimento vem questionar no ato mesmo em que, confundindo as pessoas, põe em xeque a diferença sexual.
Entra em cena a precariedade do padrão desde que o binário cedeu lugar às múltiplas combinações. Intersexualidade é a categoria que surge quando homem e mulher como grau zero, como identidades naturais, tornam-se insustentáveis. Assim, em primeiro lugar, é preciso rever o ponto de vista sobre gênero: se um homem pode vestir-se de mulher, uma mulher também pode vestir-se de mulher. Uma mulher, por sua vez, pode vestir-se de homem, como um homem pode vestir-se de homem.Só que, em lugar da natureza, é a representação que surge como prática concreta dos indivíduos. Roupas são apenas representações: debaixo delas restam indivíduos singulares que não se encaixam em padrões senão por esforços discursivos e práticos que negam a realidade do particular.
Em segundo lugar, é preciso pensar a intersexualidade, nome amplo para a diversidade sexual de nossos tempos que é em si mesma a prova de que a ideia de uma natureza sexual já não se sustenta mais. O hermafroditismo tão ocultado entre nós é uma das formas de intersexualidade. Desde que a medicina criou técnicas cirúrgicas e hormonais de “correção” das sexualidades não binárias, quem nasce com um sexo “inadequado” ou “fora da norma” é sumariamente “consertado”. Mas o que a intersexualidade nos faz pensar é que não podemos mais considerar a existência de “erro” na ordem sexual. Certo é que os corpos são marcados por discursos científicos, jurídicos e essencialistas que definem sexo e gênero com base em um padrão binário.
Não há como sustentar que a anatomia de um hermafrodita seja menos “natural” do que a de outros indivíduos. A diferença é que, enquanto as anatomias bipolares são identidades construídas, o amplo campo que abriga a corporeidade hermafrodita é colocado sempre no lugar da não identidade. E quem não tem identidade não tem grupo, e quem não tem grupo é excluído quando o padrão que rege a vida em sociedade é a identidade. Quem troca de sexo usa a medicina num ato de inversão da norma.
Por essa lógica, parece bem mais razoável afirmar que todos somos intersexuais: assim como não há um rosto comum, mas apenas semelhante, os corpos e as genitálias humanas não são uniformes, jamais serão idênticos. Derivar daí uma “roupa de mulher” ou “de homem” prova apenas o caráter ideológico das representações. Contra a ideologia, a liberdade é a inversão do jogo: vestir-se “do jeito que você gosta”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Deu No JB em 14 de Abril de 2011

Enfim uma luz nas trevas

O bullying é a gênese da crueldade

É possível tirar uma lição de um crime bárbaro como o assassinato das 12 crianças na escola municipal de Realengo, no Rio?
Sim, claro que é. Esse ato hediondo e insano é um aviso para que pais e professores passem a combater o bullying, a primeira forma de segregação, de aparthaid.
Pode ser raro um louco se vingar das sacanagens que sofreu matando garotinhas numa sala de aula, mas muita gente que nunca vai dar tiro em ninguém sofre pelo resto da vida os efeitos da discriminação e das ofensas que ouviu na infância.
Antes que me acusem de estar justificando a chacina, deixo claro que nada justifica o crime ou absolve o criminoso. No entanto, se a cultura do bullying não for combatida, outros loucos vão se vingar das sacanagens que lhe fizeram matando inocentes. E nem é só isso. Devemos combater o bullying porque trata-se do primeiro degrau da intolerância, do exame de admissão das crianças para o mundo cruel dos adultos.
Já participei de bullying, evidentemente. Quem nunca gozou um colega? Toda turma tem o "pele", aquele em quem os outros descontam suas frustrações. Só quem nunca foi ao colégio pode atirar a primeira pedra.
Mas o fato é que aquilo logo me incomodava.
Nunca gostei de covardia, e o bullying nada mais é do que um ajuntamento de forças contra o mais fraco. O alvo pode ser o gorducho, o estrábico, a feiosa, o magrelo, o negro, o judeu, o mais pobre... não importa muito o que o distingue dos outros. Importa sim a quantidade de frustração que a turma precisa descarregar em cima de alguém.
Na maioria das vezes, eu tomava as dores do segregado. Não estou me gabando, eu sou assim. Na quinta série, soube que estavam fazendo um abaixo-assinado para que um garoto fosse transferido para outra sala. Ele era vesgo, grandão e desajeitado. Nem preciso dizer que me tornei o melhor amigo dele.
Bullying entre crianças é algo normal, faz parte do aprendizado da fraternidade. Crianças estão aí para errar e aprender mesmo. Cabe à escola e aos pais desenvolver nos alunos valores como a compaixão e a empatia. O bullying é a primeira institucionalização do egoísmo, do individualismo. Por isso deve ser combatido.
É um erro pensar que o bullying é coisa só de criança. Muitos adultos não aprenderam a ver a perversidade desse ato. Carregam o espírito de porco pela vida afora, praticando todas as derivações daquela neurose infantil. Tornaram-se segregadores sênior.
O bullying está na essência do capitalismo. O que é o cartel econômico senão o bullying entre empresas. "Vamos nos juntar para levar aquele concorrente à falência".
O bullying está na gênese do racismo. "Nossa pele é branca, a dele é negra. Pau nele!". E do nazismo: "Morte aos judeus!".
Na homofobia, também está o bullying, assim como nas agressões covardes ao torcedor do time adversário. Quando esse deputado fascista ataca gays e negros, nada mais faz do que mostrar que é um velho que ainda não saiu do jardim da infância. E que continua perseguindo os diferentes como um cachorro que corre atrás do próprio rabo.
Até na imprensa há bullying, porque quando a mídia quer destruir um político, simplesmente o boicota, ignora. E uma das piores formas de bullying é o gêlo. É de cortar o coração quando um grupo se recusa a falar com uma pessoa, condenando-a pela indiferença. A mídia faz isso como ninguém.
Quem não consegue enxergar a crueldade do bullying ainda na infância, se transforma num desses adultos desprezíveis que não se importam com ninguém e com nada. Essa gente que só pensa em si e que segrega e discrimina até o próprio planeta em que vive, destruindo a natureza e usando seus recursos como se não hovesse amanhã. A Terra é vítima de bullying e nossos descendentes também!
O governo deveria fazer uma campanha nacional para educar as crianças e adolescentes quanto ao bullying, para que eles não carreguem essa atitude, esse espírito, pelo resto da vida.
Não acredito naquele ditado que diz que "pau que nasce torto morre torto". Acho que o pau que morre torto é o que não foi educado na infância.
Gente que rumina intolerância desde pequena faz coisas desse tipo quando cresce:

Comentários

delulu ignatius pt<luluignatius@gmail.com>
para
ccogo.danilo@gmail.com
data16 de abril de 2011 20:19
assuntoFwd: The Killer At Brazil School
enviado porgmail.com
assinado porgmail.com
ocultar detalhes 20:19 (55 minutos atrás)


---------- Forwarded message ----------
From: eva angelica de jesus <evangelicque@hotmail.com>
Date: 2011/4/8
Subject: The Killer At Brazil School
To: jeff.fick@dowjones.comjohn.lyons@wsj.com


This is a product of many years of hegemony of violence and sex meddling among novels and TV shows of TV Globo enslaving an entire nation since the era of military dictatorship, supported by the USA through the CIA, who threw the Brazilian citizens in a whirlwind of violence by takeover of local mafias set at all levels of the monstrous state bureaucracy that houses the families of offenders so-called elites. 
The people live poorly and kept in ignorance and disease in a systematic way, and despite many speeches and promises, the authorities do nothing to reverse this situation by maintaining as they are interested in this picture of stagnation in order to keep their power over the weaked masses. 
Gradually, citizens are beginning to become aware by the globalization through the web and the most immediate result is this kind of unusual action in the country, a revolt and narcissistic criminal who soon will be repeated more properly against the authorities and families in long-established command of the national robbery.
The president who once fought against this state of things today makes alliances with her former enemies to keep the governance but just until the point of having a well stocked bank account 
and a hefty retirement (or two, like her predecessor) to satisfy her "policy" and "power" design
as much as her coreligionists.
andré angelo enviou em 14/04/2011 as 15:59:
"O governo deveria fazer uma campanha nacional para educar as crianças e adolescentes quanto ao bullying" Há algum tempo, não muito, passou na tv, não muitas vezes um bonito filme, uma campanha. O 'esperto', caminhando com seus falsos amigos no corredor do colégio, de propósito dá um tranco num garoto e derruba todo o seu material no chão. Outro aluno vê o lance e chega junto, abaixa e ajuda a vítima a recolher as coisas lhe perguntando se está tudo bem. Ao final o locutor manda a mensagem: "Caráter, passe essa idéia adiante".
Helio enviou em 14/04/2011 as 16:06:
Não há solução mágica para o que ocorreu em Realengo. A maneira de evitar que isso se repita depende de prevenção, que necessariamente passa pela qualificação dos profissionais envolvidos, pela identificação de estudantes que possuam qualquer tipo de desvio, pelo encaminhamento correto a profissionais que o tratem, e principalmente, pela continuidade do tratamento. Mas isso custa MUITO CARO, demora muito, e principalmente, NÃO DÁ VOTO. O governo quer aproveitar para ressuscitar uma questão que já foi enterrada, e vai levar outra derrota política. Detalhe que apesar de ter perdido o último plebiscito, o governo manteve regras tão rígidas para quem tem registro de arma (ou seja, ter arma somente em sua residência), que na prática fica inviável. Até parece que a arma comprada pelo assassino era arma quente. A saída é de fato a mais demorada e mais trabalhosa - qualificar os profissionais de ensino e manter psicólogos preparados para lidar com esse tipo de situação. E quanto ao bullying - não podemos ser radicais - é verdade que existe um limite tênue daquilo que é brincadeira para aquilo que é bulling, mas quem lida com as crianças tem que saber identificar o bulling, e principalmente, o bulling agressivo, traumatizante, proteger o agredido, e de todas as maneiras inibir o comportamento de quem o faz.
andré angelo enviou em 14/04/2011 as 16:25:
Excelente texto, muito rico. Contrasta com a pobreza de espírito do monsto do vídeo que podia ter cegado o cara. É impossível não julgar, desculpem-me...Provavelmente não havia nenhuma 'pendenga' entre eles, aparentemente nem se conheciam, do contrário, o agredido não estaria relaxado.
Antonio Carlos Souza enviou em 14/04/2011 as 17:09:
Marcelo, parabéns, comatraso, pela edição especial de 120 anos do Jb. Todos os profissionais envolvidos e entrevistados, também merecem aplausos. A fenomenologia que você fêz do bullying está muito rica, em forma e conteúdo. Como fenômeno, faz parte , de fato, do processo de amadurecimento, do rito de passagem para esse nada doce mundo, dos adultos. Como citado, é tênue a fronteira entre a encarnação de um colega, um tanto diferente de nós, do bullying, altamente traumatizante para quem o sofre. À destacar em seu texto, a evolução desse perverso fenômeno, em outras fases da vida das pessoas. Todas as situações enfocadas, caracterizam-no. Corroboro sua colocação de que, raramente, a vítima de bullying, torna-se assassino, como o protagonista da chacina de Realengo. Aduzo que, dependendo de diversas variáveis, como resiliência individual, apoio psicoterápico e familial, rede relacional, etc, essa vítima, poderá, em extremo, suicidar-se, que também, raramente ocorre. A Educação, em amplo espectro, é sim, o melhor caminho para humanização do tempo em que vivemos, prevenindo, não apenas, bullying, como outras formas desestruturantes, de relações intersubjetivas, nos diversos palcos onde ocorrem. No fenômeno-tema, reitero posição já expressa, nesse e em outros blogs e canais de comunicação com o leitor, a inilúdivel presença do profissional de Psicologia, em todas as escolas municipais e estaduais, vez que, as particulares, em grande número, contam com esse profissional em seus quadros. Atuando em campo, interagindo com alunos , professores e demais funcionários da escola em que atua, sem muita dificuldade, podemos perceber diferenças, as vêzes, nada sutis, da criança ou adolescente, tímido ou esquisito, do ESQUIZÓIDE, que necessita de atendimento individual e familiar. Ademais, bullying e outros comportamentos grupais assemelhados, podem ser refletidos em grupo, sistematica e preventivamente, minimizando a possibilidade de eclosão de fatos como os da escola de Realengo. Mágicas , em Saúde, Educação e Segurança, certamente, não há, mas o trabalho interdisciplinar e preventivo, pode, sim, ser arquitetura de um mundo melhor.
Uatu enviou em 14/04/2011 as 17:23:
Troque umas idéias com a Tania Melo.
William Blak enviou em 14/04/2011 as 17:29:
A vida hoje é, com mais frequência, um exercício de perdas do que de ganhos.... pratique o desapego. Ao invés de fugir da perda, encare-a de frente. Mostre a ela que você pode viver muito bem sem aquilo que lhe tiraram. Se não pode viver muito bem, mostre apenas que pode viver. Seu aliado é o destino, que tem uma imaginação pra lá de fértil e certamente vai lhe apresentar outras possibilidades de continuar vivendo com motivação e alegria. -serve bem aos algozes e às vítimas de bullyng. -por: Migliaccio.
danilo gomes da silva enviou em 14/04/2011 as 17:39:
E também há o assédio moral praticado entre "amigos", "cônjuges" e "colegas" de trabalho, quase sempre com a aprovação das diretorias das empresas que se valem disso para manter o clima de competitividade na arena trabalhista. Que se cuidem as festas da patota, o aniversário do neném e a repartição.
Eduardo enviou em 14/04/2011 as 17:57:
Isso que chamam hoje de bullyng sempre aconteceu, não e porque hoje em dia esta em voga que vai passar a acontecer seguidamente chacinas como a de realengo, o que tem hoje em dia é o fechamento de manicomios, onde essses doentes deveriam estar. Que tal uma campanha de reabertura das instituições de internação de doentes mentais.
ACantal enviou em 14/04/2011 as 18:27:
Por mais que eu concorde com a sua opiniao sobre o bullying, nao concordo com o ponto de que a chacina de Realengo tenha a ver com o que o cara sofreu na infancia. Muita gente sofre com bullying e pouca gente reage assim, e contra pessoas que nao tinham nada que ver com isso. Outra coisa, apesar de ser absolutamente contra qualquer violencia ou constrangimento de outras pessoas, mesmo verbal, eu acho que esse negocio de bullying esta tomando proporcoes meio perigosas: tirando a violencia fisica, que eh inadmissivel, as pessoas deveriam ter mais protecao "emocional" contra o bullying, e isso depende principalmente dos pais. Auto-estima se aprende em casa e eh o melhor remedio anti-bullying. A vida eh dura mesmo, nao adianta reclamar, e o negocio eh criar uma "casca grossa" e nao se chatear com besteira e com quem nao merece a satisfacao de te irritar...so pra constar, ja fui vitima de bullying e ja quase apanhei de um sujeitao por defender outra pessoa...mas, claro, nao fiquei traumatizada nem nada. Hoje em dia tudo vira trauma!
Yves Rangel enviou em 14/04/2011 as 19:14:
Eu tinha seis anos e me matricularam em colégio de freira que tinha duas alas a da ricas que pagavam e das pobres que estudavam de graça. Eu pertencia a ala das pobres. Um dia a professora me mandou ler. Quando eu terminei a leitura ela debochou de mim dizendo que eu tinha vóz de padre. Figuei muito triste mas não contei para minha mãe para que ela não ficasse triste tambem. Mais tarde quando estava no Grupo Escolar (era assim que se chamava) o Diretor da Escola, que era um babaca disse que eu tinha cara de mosquito, perante toda turma. Um tal de Mingote que era gordo e balofo fazia bullying comigo na saida do colégio: Mosquito, mosquito... Hoje eu acho engraçado, mas na época em sofri muito. Mais tarde já no quarto ano ginasial, no internato de freira, tambem sofri bullying. Este foi do gelo. Confesso que tambem participei de um bullying. Entrou uma novata no ginasio. Seu nome era Mercia. Era linda mesmo. Uma pele muito branca e os cabelos loiros, bem claros, naturais. Contrastava com a turma que não tinha nada de especial. Na saida da aula nós "as babacas" iamos atras dela debochando e nos divertindo com a agonia dela. Tenho remorso de ter participado daquilo. No fundo era pura inveja. Ela era diferente não porque tivesse algum defeito fisico. Ela era perfeita!
Cacilda Monteiro Gomes enviou em 14/04/2011 as 19:48:
Que texto hein Marcelo!!! Clareza, conhecimento de causa, sensibilidade! E como gera polêmica esse "bullying"! A começar pela forma a "la EUA", o nome poderia ser ameaça, intimidação, ou, mesmo, assédio moral. Enfim, mais um americanizado. Eu gostava muito daquela campanha citada no primeiro comentário, achava linda. Vejo que tudo é uma questão de "ser" emocionalmente. Cada pessoa é única com as suas particularidades. Às vezes sinto que estou ouvindo um barulho incômodo e a pessoa que está bem pertinho de mim, não está ouvindo nenhum ruído. Será que ela não está sendo importunada por outra coisa que a minha sensibilidade também não percebe? E, pior ainda, são aqueles que dizem "os incomodados que se mudem". Aí o "ser" já passar a ser "respeitar". O "educar", o "criar", o "ensinar" não muda o aspecto emocional da individualidade, ninguém consegue moldar a alma do outro. O caráter sim, é construído a partir da educação, dos ensinamentos. Eu costumo dizer que, prá mim, é muito fácil ir ao ginecologista, mas é dificílimo ir ao psiquiatra, ao psicólogo. Desnudar a alma só é possível para Deus. Há pessoas que necessitam de um pastor, ou um padre, ou um pai de santo para se fortalecer diante da vida, enquanto há outras que já são verdadeiras fortalezas. Está tão em evidência "conviver com as diferenças" e só conseguimos fazer isso respeitando uns aos outros. Sentimento é coisa muita séria. Mais uma vez, parabéns pelo texto.
Amarildo Amancio enviou em 14/04/2011 as 20:03:
Parabéns pela excelente matéria, Marcelo! O Bullying é uma atitude sombria e maligna, e geralmente, como neste caso, os extrovertidos que assim procederam ainda tentam se justificar dizendo que FOI TUDO APENAS UMA BRINCADEIRA.... Brincadeira.... colocar a cabeça do infeliz psicopata dentro do vaso sanitário, lançar o infeliz psicopata dentro de uma caçamba de lixo... Brincadeira....?!?!?!
anarquista enviou em 14/04/2011 as 20:04:
Revoltante. Prisão em flagrante por agressão gravíssima e em seguida, classe média-alta que é, liberado. Se fosse negro com quatro trouxas de maconha e 200 reais no bolso, como a lei é subjetiva, poderia ficar preso por meses ou até ser condenado por tráfico.
EXILADO enviou em 14/04/2011 as 20:13:
Migliaccio, me permita discordar da sua linha de pensamento. Acho que no caso da escola do Realengo aquele bandido usou o bullying como desculpa para aflorar o que de pior existia nele. Teve um toque de arrogância, veja os vídeos deixados por ele, se não matasse as crianças iria cometer outro tipo de crime para justificar a sua alma déspota e atitude tirana. Todos nós em algum momento da vida escolar sofremos alguma forma de constrangimento e nem por isso saímos matando gente. Assim como o assassino da escola do Realengo existem vários outros que tiveram uma criação desastrosa, egoísta, com baixa auto-estima, sem regras, sem limites. Os pais modernos estão perdidos sem um norte educacional. Não é a toa que os chamados guias para pais são os livros que mais crescem em vendas e que supostamente ajudam os pais a educar os filhos. Tenho certeza de que os seus pais seguiram o “manual” da família Migliaccio e por isso você virou gente do bem. O ECA veio para corrigir excessos só que acabou por criar distorções ainda maiores. O nosso ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, que é uma adaptação de uma lei cubana, só piorou as coisas. Ou você acha legal um menor matar e ficar três anos preso e depois sair para matar mais?Diante do Princípio Constitucional da Igualdade, por que os menores não têm punição exemplar como aconteciam antigamente, como nossos pais faziam; estabelecendo regras desde muito cedo, de maneira clara e direta, para não criar filhos egoístas e tiranos?O Eca só faz valer os direitos, não os DEVERES, FAZENDO O MAL ENDOSSANDO OS QUE O FAZEM?
Antonio Carlos Souza enviou em 14/04/2011 as 20:14:
Continuando postagem anterior, O autor da chacina de Realengo, certamente, não foi motivado, unicamente, pelo bullying sofrido, O rapaz, sem dúvidas, era PSICÒTICO, mais especificamente, sofria de ESQIZOFRENIA PARANÒIDE, o que, potencialisou seu comportamento destrutivo. Essa conduta, fique claro, não é comum entre PSICÒTICOS, ocorrendo raramente. Pessoas com transtornos mentais raramente cometem crimes, ainda que , surtados. Esse foi um dos raros casos. Menos raro, embora não corriqueiro, é o suicídio cometido por essas pessoas. Tratamento adequado permite convivência em família e em sociedade, como deve ser. Já não admite-se enclausurar essas pessoas em hospitais ou clínicas psquiátricas, que , lenta, mas progressivamente, estão sendo fechadas. Estamos no século 21 e defender a segregação de portadores de transtornos mentais, é regridir à IDADE MÈDIA.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

I in U

Exposição e performances de Laurie Anderson no CCBB-Rio

Depois disto, minha amiga Aristotélica pediu que eu tirasse uma foto do penteado de uma moça para que ela copiasse.
Fui lá, pedi licença e fiz as fotos: Mistureba também é coiffure.



sexta-feira, 4 de março de 2011

Estação Macumbete 1

Frequento um candomblé na Baixada Fluminense desde o ano 2000.
É um lugar maneiríssimo, cheio de gente boa e lá fiz algumas amizades sem interesses nem disputas que até hoje guardo comigo em meio a esta escassez de seres humanos dignos deste nome.
Desde então venho gravando cenas nas animadas festas que se sucedem durante o ano, ora com celular, ora com câmeras portáteis digitais, o que tiver em mãos, daí a variedade do resultado visual. 
São ocasiões de grande celebração e comunhão daquelas tribos da Baixada e de pessoas que fazem ali seu point social e de lazer. 
Já tentei organizar uma cronologia destas festas, de Janeiro a Dezembro, tive planos de entrevistar os membros e os responsáveis daquela comunidade, esclarecer  alguns dogmas, ritos, a linguagem, estudar os ritmos gostosíssimos, dá vontade de dançar, muitas vezes os registros resultam carregados desta ginga, mas tudo se desfaz nas voltas de alguns parafusos do meu desejo.
Já postei algumas cenas no You Tube quando lá organizava uma conta pessoal, mas houve grande rebuliço na roça quando alguns filhos de santo daquela casa se revoltaram ao ver expostas suas participações sem que eu tivesse seus consentimentos para que assim o fizesse. Alguns compromissos profissionais do mundo laico impediam que eles fossem vistos nesta atividade.
A verdade é que em plena Era de Aquário, século 21, ainda nos deparamos com estas eternas guerras santas e estes preconceitos que muitas vezes ceifam vidas, empreendimentos, talentos, projetos e fomentam as hipocrisias. Foi o motivo pelo qual deixei de alimentar aquele endereço, acatando os protestos. 
Agora com a resolução de manter este blog, de cuja existência ninguém se dá conta, e assim espero que continue 
- não estou aqui em busca de auto-promoção ou no intuito de ganhar dinheiro,  é uma ferramenta  para registro de memórias pessoais antes que o Dr. Alemão se aproxime e que em outras praias afundariam - 
resolvi publicar estas cenas novamente e em gotas homeopáticas, antes que se percam na geléia geral em que se transformaram minhas sinapses, meus arquivos e minhas gavetas.
Esta aí uma festa de Erês, crianças que tanto de lá quanto de cá são  minhas muito queridas; mas quem se divertiu mesmo naquele dia foram os Exus, outros velhos amigos.








terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Letter


Algum Lugar, Setembro de 2010

Prezado Sr. Wim Wenders:
Desculpe-me escrever assim tão de repente e aparentemente sem motivos.             
A culpa é de papai que sempre me incentivou a frequentar cinemas não só por conta da nossa atividade familiar, mas por acreditar em importantes ganhos culturais através de manifestações cinematográficas dos diversos países, suas histórias e lendas - um upgrade na minha educação formal em escolas. 
Nestas, a cada vez que eu externava algum tópico cinematográfico para ilustrar a pauta das aulas, meus colegas caiam num tédio insolente,  intolerantes e indisciplinados, quase sempre no limite do sufocante cenário de  uma praça de guerra (...nas Estrelas"?).
                                                                                                             Assim, lá pelo final anos 70 do século passado, eu perguntava à professora se ela conheceu o Sr.William Randolph Hearst. Quando me respondeu que não poderia tê-lo conhecido pessoalmente posto que este já havia passado desta para melhor antes de seu nascimento, mas ao afirmar que a lenda dos seus feitos confirmam algumas consequências algo funestas de suas maquinações como capitão da indústria da comunicação em nosso país da liberdade (que atende melhor aos que têm dinheiro para gastar) a água do meu banho começou a escorrer pelo ralo, pois pela primeira vez na vida estava cheek-to-cheek com uma realidade temporal totalmente fora dos parâmetros (ou falta deles) em que eu digeria este fenômeno em meu convívio familiar. 

Ali fui sequestrada do limbo cinematográfico onde eu confundia personagens de ficção com pessoas de carne e osso atuando numa realidade comezinha e totalmente desglamurizada, a famosa história com 'H' maiúsculo.
Foi um confronto abrupto com um mundo muito mais misterioso e fascinante do que aquele que se fazia passar por realidade na tela. De qualquer maneira esta minha, digamos, epifania, deveu-se também ao cinema enquanto fato e função: Sempre ele.                                                              
E viver de cinema passou a ser meu cotidiano, tanto nas salas de exibição quanto acompanhando sua produção atrás das câmeras - meu pai na busca do dinheiro para seus projetos megalôs, principalmente junto àqueles que o cumprimentaram ao talhar sua mão para ingressar numa família muito peculiar e paralela à nossa (esta em que o sangue corre só nas veias e artérias, pelo menos em tese). 

Foi muito simples para mim absorver a consequência lógica daquele gesto cristalizado em longos metros de celulóide no propósito não só de glamurizar a truculência daqueles senhores em busca de poder e dinheiro - não necessariamente nesta ordem apesar dos rígidos códigos de conduta - mas também fazer disso um produto planejado para justificar a aceitação de suas existências espúrias no imaginário consumista popular, ratificando-as pelo elogio das inteligentzias. Foi um "Golpe de Mestre", o senhor não acha?

Como previsto - dinheiro gera dinheiro - brotaram mais sequências do que chuchu na serra, e de repente quem estava ali, perdida e sem jeito em meio a uma legião de fantásticos profissionais descolados e célebres? Euzinha aqui, ó, meu narigão, minha confusão mental, fazendo apologia de minhas raízes carcamanas ostentando um cartaz da "Cavalleria Rusticana" de Mascagni.

Então protestaram; afirmavam haver uma batata podre dentro do saco! E foi um deus-nos-acuda: Precisei ser internada para me reabilitar da crise provocada pela rejeição daquele mundo que foi outrora o meu chão e cujo tapete foi puxado de sopetão: Que desilusão!       
Jogaram-me para o alto e minha matéria volatilizou-se naquele limbo, ninguém conseguia me trazer de volta. Depois de muitas pajelanças lembraram de uma ocasião em que um ilustre antepassado nosso também passou por esse tipo de desorientação, bastando tão-somente amarrar uma linha de papagaio em seu pé para despertar do pesadelo. 

Comigo surtiu o mesmo efeito: Desci suavemente naquela praia e quando dei por mim estava refestelada num hotel de luxo (sempre ele também), cercada pelos preparativos de um filme que ninguém sabia qual. Nesta altura decidi acender uma vela, pedir licença aos meus orixás, em especial ao caboclo Frederico, sacudir a poeira e dar a volta por cima, pois havia chegado a hora desta gente carcamana mostrar seu valor.                    
Em meio a este tumulto rascunhei a história do que viria a ser o meu filme "Lost In Translation" (2003) que a princípio foi olhado com desconfiança pelos meus vizinhos de switch, de soslaio pelos produtores e com uma ponta de inveja por alguns meus contemporâneos que, possuidores de talentos reconhecidos e insofismáveis, não tinham o decote tão climatizado quanto o meu.    
Minhas angústias, inseguranças, minha solidão tantas vezes maquiada e domesticada, tudo encharcou-se nas mesmas fontes e cachoeiras em que se banharam tio Frederico e tio Michelangelo  afogando suas mágoas a cada vez que não se julgavam devidamente bafejados pelo sopro das musas que volta e meia insistiam em se afugentar na 'Dolce Vita' olímpica, muito mais emocionante  que as atribulações daqueles pobres mortais desesperados à caça da notoriedade, da glória e da ascendência sobre os seus - infelizmente para quase todos - iguais. 

Aprendi uma coisa muito proveitosa com minha mão pesada ao quase matar de exaustão uma equipe cinematográfica japonesa e depois de deixar relegado à própria sorte um célebre ator americano do tipo estabelecido na identificação de sua persona pública seja lá onde esteja pisando, tanto no trágico quanto no cômico (caso um ou outro fossem sérios),  
um produto reiterativo e retardatário da melhor tradição daquelas divas do século XIX que faziam do temperamento forte a ferramenta de seus propalados talentos, idênticas assim na Madalena quanto na Virgem Maria (que hoje ainda vicejam nos brejos mais atrasados de culturas escravizadas ao material veiculado pela televisão e aos interesses das elites oligárquicas locais).
Depois de quase me internarem novamente ao  deparar-me com o material filmado na sala de montagem (o que não aconteceu pela pressão do estúdio, dos investidores e de quase provocar uma vendetta entre as famiglias envolvidas), descobri que me expresso melhor pelo que é omitido por que falta, do que o exibido pelo que abunda. Logicamente o senhor lembra bem o que aconteceu, é claro: Ganhei o Oscar de melhor roteiro daquele ano.
Enfim, com meu passaporte finalmente carimbado ninguém me segurava mais. Formaram-se filas nas portas do meu agente, os telefones gastavam uma bateria completa de meia em meia hora, minha cama não conseguia tranquilizar-se por mais de um quarto do dia, sacudida pelos mais renomados e cobiçados partidos, os filés mais suculentos do pedaço.                  
Entretanto vozes ecoavam em minhas poucas ocasiões de recolhimento. Diziam: "Te cuida que agora teu buraco é mais em baixo. Lembra-te do teu trenó!".
 
Acordava sobressaltada, sugada velozmente pelo vórtice da roda-viva girando a nem lembro mais quantos frames por segundo, e quando dava por mim lá estava eu cavalgando uma piroca atrás da outra, um celular em cada ouvido, cinco laptops em volta ejaculando emails, convites, promoções, feiras, gente batendo insistentemente na porta, papai cada vez mais distante (dizem que se enrabichou por uma mulata bossa-nova no Rio de Janeiro onde não conseguiu amealhar as regalias e a babação de seus ovos que o vizinho mais abaixo lhe concedeu para rodar outro de seus atuais desastres travestidos em filmes-cabeça).
Até que resolvi dar um basta neste frenesi dedicando-me ao estudo das nobrezas européias no intuito, quem sabe - se não lambuzar o selo não cola - de assimilar mesmo que enviesadamente um pedigree que a fama e minhas inconfessáveis mas expostas raízes carcamanas sabotavam a cada aproximação.
Não sei se o senhor percebeu o meu fraco por meninas loiras e rocknroll, patente desde meu primeiro filme "As Virgens Suicidas".  
Na verdade eu queria filmar o "Middlesex" do Jeffrey, romancista modernette amiguinho, com trânsito na minha tribo noviorquina, mas eu não saberia afetar o mesmo savoir-faire com tantas pesquisas a serem realizadas sobre a história real da America contemporânea negligenciada por mim na imersão das realidades fílmicas: Para mim Panteras Negras eram uns caras invocados de óculos escuros trafegando sobre motos envenenadas e gritando palavras de ordem na televisão; Malcolm X era um cara estiloso e cheio de suingue num filme de Spike Lee; Angela Davis quem sabe fosse a matriz daquela menina loira que resolveu libertar seu imenso clitóris, assumindo sua porção masculina privilegiada e discutível segundo os padrões das sociedades geladas naquela mansão modernista de Detroit, longe no tempo e na geografia.




  
Esta minha praia ( loirinhas e rocknroll) também foi o cenário do "...Translation". Naturalmente eu precisava juntar estas inquietações basiquinhas num projeto de emancipação sangue-azul: Quem melhor poderia acomodar minha trilha sonora e fetiches arianos do que aquela vaporosa rainha decapitada que amava os doces? Só ela mesma!
E lá fui eu de novo como uma tola procurar o desconsolo que cansei de conhecer:  E deu no que deu.
Desta vez a reação foi unânime, até no terceiro mundo. Não dava para esconder meu despreparo para evocar mesmo como se fosse um telão pintado ao fundo ou um leit motiv singelo e facilmente absorvido a revolução que nos concedeu este status que até hoje a banda ocidental do mundo usufrui (alguns mais outros menos segundo suas inclinações e oportunidades) da prática da egalité, da fraternité e de la liberté.
Muito aqui entre nós - e que ninguém se aperceba - estas três palavrinhas mágicas sempre me evocaram mais os peitos saltitantes daquela senhora guiando o povo do que a possibilidade de outros credos comungarem na mesma doutrina, mesmo que sob uma burca ou com lenços a esconder os cabelos.

Aquilo para mim era mais o território da patisserie do que da política, da alienação com que eu e todos os eleitos pela vontade divina (que segundo suas próprias leis e designações arbitrárias) nos libera para viver no melhor dos mundos, do que da luta pela emancipação popular. 
Desisti de me tornar rainha, pois que este projeto ainda remontava àquelas aulas que o Sr. Hearst assombrava como um projeto de imperador que nada tinha de ingênuo. Minhas melhores expectativas naquela época e que até hoje acalento salivando, era aquele momento lindo em que tocava o sinal liberando a turma para o recreio e eu corria orgulhosa, sequiosa e devoradora para comer meus doces na cantina do colégio. Bastante adequado para a performance de uma rainha louca, mas engordante demais para suportar toda aquela parafernália fashion barroca.

Entendi que depois destas experiências eu só poderia seguir filmando se demonstrasse estar pisando num tapete preso de tal modo que não pudessem me sacudir para o alto novamente.
Foi quando num dia de tédio e chuva estava eu à frente de um monitor revendo aquele seu filme em que uma garotinha muito esperta viaja de volta para casa e, perdida das referências de sua família (apesar de em seu próprio país) por não contar mais com a guarda da mãe em crise existencial que resolveu dar um tempo na América, a eterna grande-mãe de desorientados e serial killers que não conseguiram seguir carreira em filmes de ação, deixou-a entregue nas mãos de um recém-conhecido. 

Lembro-me de que ainda menina papai fazia questão que eu assistisse a este filme, talvez na esperança de me inocular o desejo de me tornar atriz ou algo equivalente. Mal sabia ele que este veneno iria me corroer por vias menos ilustres ou convencionais.                                      

Apesar de não termos, entre o senhor e eu, laços de parentesco, de origem nem acordos pró-forma de lealdade, senti que no seu filme multiplicava-se o vírus de algo de difícil digestão a princípio para ser traduzido em palavras, mas acomodavam-se cnfortavelmente dentro de mim aqueles deslocamentos que se processam numa velocidade infinitamente maior agora do que a dos personagens da década de 70 - uma geração analógica, a película, o 35, o 16mm e o super oito como ferramentas, e principalmente dando conta do recado com tanta bravura ao antecipar muitas das questões que hoje são moedas correntes disso que se tornou o nosso insensato mundinho.

Fiquei tão pesada e chapada no sofá que quase foi necessário chamar um guindaste para me arrancar dali. O golpe fatal foi a forma simples com que o senhor colocava tantas coisas a respeito das culturas da América e da Europa, traçando um paralelo entre as duas assim como lamentava sua desilusão com o fim dos sonhos, jogando sem piedade em minha cara o abundante material sobre as raízes e a consciência do tempo, desdobrando-se através da história de uma criança e um homem em crise criativa a tecer considerações sobre as aventuras de se viver num mundo real ou ideal.                                        
Eu me projetei ali integral e desestruturada, centrada e rarefeita, perdida na leitura das legendas. Mesmo o meu amiguinho rocknroll soava estranho. Não consegui dormir apesar daquela berceuse ficar bombando exaustivamente em minha consciência por dias a fio.  Perguntava-me como um gringo a alguns anos da globalização pudesse intuir tanto a respeito do meu país e de um novo mundo ainda em processo embrionário.

Mas afinal pelos meus direitos adquiridos no que concerne ao meu país - longe da xenofobia, vamos deixar claro, afasta de mim esse cale-se - e  encontrando-me novamente em apuros neste momento crucial de dar um novo passo nas minhas carrière e derrière, resolvi deixar os escrúpulos de lado e acelerar a marcha rumo a uma variação daquilo que me deu um Oscar: 

Mudei a paisagem, troquei os laços sanguíneos, viajei terras longínquas e economizei nos diálogos, não porque não tivesse nada a dizer, mas por que em minha garganta um grito sufocava em pânico. 
Ao final tinha um roteiro - não sei se merecedor deste nome, talvez uma visita aos quadros de uma exposição, talvez um encadeamento das estrofes de uma música ou poema - que de longe evocava o retrato de uma geração privilegiada que recebe tudo de bandeja sem precisar mover uma palha  além da obrigatoriedade de satisfazer o apetite da máquina que mantém a prensagem do dinheiro em atividade: Basta estar no lugar certo e com as pessoas certas, tudo uma questão de sincronicity como começaram a gritar no rock dos anos 1980 e não pararam mais.

Como prender a atenção de uma platéia, qual a possibilidade de um conflito real num panorama destes? Quais as ações evidenciadas, por exemplo, numa pintura de Edward Hopper que o senhor tão bem traduziu em imagens das estradas, lanchonetes e motéis da metade americana do seu filme? Qual o filme possível afora uma variação daquele responsável pela minha gloriosa premiação?  
Foi assim que rodei este "Somewhere", 2010, procurando ser o mais econômica possível, evocando o que o mundo me espremia contra a parede. Estava emparedada como o ator que tira o molde de sua cabeça para uma máscara de efeitos especiais. Sentia-me perdida dentro dos limites de um hotel ou à beira de uma piscina  ao ar livre.

Mas preciso levar esta minha vida, ops!, meu filme adiante, não é mesmo? Não vou fazer como muitos por aí, botar um termo na situation, até porque minhas indagações cabem com folga no espaço de um tweet e não comportam desmedidos gestos old fashioned. Afinal não posso trair os traços mais evidentes e contemporâneos da minha geração. Sem eles estaria vivendo - ops! novamente - filmando uma história antiga, articulada, cheia de palavras nobres e profundas, arrematada com ou sem happy ending.

Agora o que me resta é seguir a receita, exceto se algo de muito ou profundo ou novos ingredientes me acontecerem, o que a curto prazo confesso a impossibilidade: A celebridade a serviço dos interesses dominantes, sua solidão, sua adesão sem questionamentos à manutenção do status das elites dominantes, uma rápida passagem em terras estrangeiras para não perder o fio da globalização e da imposição de nossa indústria do entretenimento em verdejantes quintais abroad.That's it.

Na minha próxima encarnação virei como um cineasta decadente que comerá aquela mulata bossa-nova num balneário brasileiro, serei entrevistada pelo Baú da Felicidade e ganharei o troféu Contigo no Copacabana Palace logo após uma indigestão de feijoada e caipirinha, atrapalhando a evolução de minha escola de samba cujo enredo será ... "Alice Nas Cidades". 

Fade Out.        

Sincerely Yours,

Sofia Carmina Coppola




P.S.:
Apesar de tudo e contra todos os inevitáveis revezes das vozes dissonantes, meu mundo não caiu e me fez continuar filmando assim: 
Cenário: minha Los Angeles querida, meu berço esplêndido; 
Plot: a loucura consumista e o messianismo da cultura das celebridades. 
Em suma: nada de novo capaz de despertar da minha letargia juvenil já um tanto tardia e clamando por mudanças. 
Resultado: “Bling Ring”. 


Levei-o, toda animada, para a abertura de uma seção do Festival de Cannes e saí de lá com o rabo entre as pernas, qual cadela escorraçada pelo silêncio constrangedor que se abateu sobre este meu novo deja vu. Estou perdida. 

Fui.