Algum Lugar, Setembro de 2010
Prezado Sr. Wim Wenders:
Desculpe-me escrever assim tão de repente e aparentemente sem motivos.
A culpa é de papai que sempre me incentivou a frequentar cinemas não só por conta da nossa atividade familiar, mas por acreditar em importantes ganhos culturais através de manifestações cinematográficas dos diversos países, suas histórias e lendas - um upgrade na minha educação formal em escolas.
Nestas, a cada vez que eu externava algum tópico cinematográfico para ilustrar a pauta das aulas, meus colegas caiam num tédio insolente, intolerantes e indisciplinados, quase sempre no limite do sufocante cenário de uma praça de guerra (...nas Estrelas"?).
Nestas, a cada vez que eu externava algum tópico cinematográfico para ilustrar a pauta das aulas, meus colegas caiam num tédio insolente, intolerantes e indisciplinados, quase sempre no limite do sufocante cenário de uma praça de guerra (...nas Estrelas"?).
Assim, lá pelo final anos 70 do século passado, eu perguntava à professora se ela conheceu o Sr.William Randolph Hearst. Quando me respondeu que não poderia tê-lo conhecido pessoalmente posto que este já havia passado desta para melhor antes de seu nascimento, mas ao afirmar que a lenda dos seus feitos confirmam algumas consequências algo funestas de suas maquinações como capitão da indústria da comunicação em nosso país da liberdade (que atende melhor aos que têm dinheiro para gastar) a água do meu banho começou a escorrer pelo ralo, pois pela primeira vez na vida estava cheek-to-cheek com uma realidade temporal totalmente fora dos parâmetros (ou falta deles) em que eu digeria este fenômeno em meu convívio familiar.
Ali fui sequestrada do limbo cinematográfico onde eu confundia personagens de ficção com pessoas de carne e osso atuando numa realidade comezinha e totalmente desglamurizada, a famosa história com 'H' maiúsculo.
Ali fui sequestrada do limbo cinematográfico onde eu confundia personagens de ficção com pessoas de carne e osso atuando numa realidade comezinha e totalmente desglamurizada, a famosa história com 'H' maiúsculo.
Foi um confronto abrupto com um mundo muito mais misterioso e fascinante do que aquele que se fazia passar por realidade na tela. De qualquer maneira esta minha, digamos, epifania, deveu-se também ao cinema enquanto fato e função: Sempre ele.
E viver de cinema passou a ser meu cotidiano, tanto nas salas de exibição quanto acompanhando sua produção atrás das câmeras - meu pai na busca do dinheiro para seus projetos megalôs, principalmente junto àqueles que o cumprimentaram ao talhar sua mão para ingressar numa família muito peculiar e paralela à nossa (esta em que o sangue corre só nas veias e artérias, pelo menos em tese).
Foi muito simples para mim absorver a consequência lógica daquele gesto cristalizado em longos metros de celulóide no propósito não só de glamurizar a truculência daqueles senhores em busca de poder e dinheiro - não necessariamente nesta ordem apesar dos rígidos códigos de conduta - mas também fazer disso um produto planejado para justificar a aceitação de suas existências espúrias no imaginário consumista popular, ratificando-as pelo elogio das inteligentzias. Foi um "Golpe de Mestre", o senhor não acha?
Foi muito simples para mim absorver a consequência lógica daquele gesto cristalizado em longos metros de celulóide no propósito não só de glamurizar a truculência daqueles senhores em busca de poder e dinheiro - não necessariamente nesta ordem apesar dos rígidos códigos de conduta - mas também fazer disso um produto planejado para justificar a aceitação de suas existências espúrias no imaginário consumista popular, ratificando-as pelo elogio das inteligentzias. Foi um "Golpe de Mestre", o senhor não acha?
Como previsto - dinheiro gera dinheiro - brotaram mais sequências do que chuchu na serra, e de repente quem estava ali, perdida e sem jeito em meio a uma legião de fantásticos profissionais descolados e célebres? Euzinha aqui, ó, meu narigão, minha confusão mental, fazendo apologia de minhas raízes carcamanas ostentando um cartaz da "Cavalleria Rusticana" de Mascagni.
Então protestaram; afirmavam haver uma batata podre dentro do saco! E foi um deus-nos-acuda: Precisei ser internada para me reabilitar da crise provocada pela rejeição daquele mundo que foi outrora o meu chão e cujo tapete foi puxado de sopetão: Que desilusão!
Jogaram-me para o alto e minha matéria volatilizou-se naquele limbo, ninguém conseguia me trazer de volta. Depois de muitas pajelanças lembraram de uma ocasião em que um ilustre antepassado nosso também passou por esse tipo de desorientação, bastando tão-somente amarrar uma linha de papagaio em seu pé para despertar do pesadelo.
Comigo surtiu o mesmo efeito: Desci suavemente naquela praia e quando dei por mim estava refestelada num hotel de luxo (sempre ele também), cercada pelos preparativos de um filme que ninguém sabia qual. Nesta altura decidi acender uma vela, pedir licença aos meus orixás, em especial ao caboclo Frederico, sacudir a poeira e dar a volta por cima, pois havia chegado a hora desta gente carcamana mostrar seu valor.
Jogaram-me para o alto e minha matéria volatilizou-se naquele limbo, ninguém conseguia me trazer de volta. Depois de muitas pajelanças lembraram de uma ocasião em que um ilustre antepassado nosso também passou por esse tipo de desorientação, bastando tão-somente amarrar uma linha de papagaio em seu pé para despertar do pesadelo.
Comigo surtiu o mesmo efeito: Desci suavemente naquela praia e quando dei por mim estava refestelada num hotel de luxo (sempre ele também), cercada pelos preparativos de um filme que ninguém sabia qual. Nesta altura decidi acender uma vela, pedir licença aos meus orixás, em especial ao caboclo Frederico, sacudir a poeira e dar a volta por cima, pois havia chegado a hora desta gente carcamana mostrar seu valor.
Em meio a este tumulto rascunhei a história do que viria a ser o meu filme "Lost In Translation" (2003) que a princípio foi olhado com desconfiança pelos meus vizinhos de switch, de soslaio pelos produtores e com uma ponta de inveja por alguns meus contemporâneos que, possuidores de talentos reconhecidos e insofismáveis, não tinham o decote tão climatizado quanto o meu.
Minhas angústias, inseguranças, minha solidão tantas vezes maquiada e domesticada, tudo encharcou-se nas mesmas fontes e cachoeiras em que se banharam tio Frederico e tio Michelangelo afogando suas mágoas a cada vez que não se julgavam devidamente bafejados pelo sopro das musas que volta e meia insistiam em se afugentar na 'Dolce Vita' olímpica, muito mais emocionante que as atribulações daqueles pobres mortais desesperados à caça da notoriedade, da glória e da ascendência sobre os seus - infelizmente para quase todos - iguais.
Aprendi uma coisa muito proveitosa com minha mão pesada ao quase matar de exaustão uma equipe cinematográfica japonesa e depois de deixar relegado à própria sorte um célebre ator americano do tipo estabelecido na identificação de sua persona pública seja lá onde esteja pisando, tanto no trágico quanto no cômico (caso um ou outro fossem sérios),
um produto reiterativo e retardatário da melhor tradição daquelas divas do século XIX que faziam do temperamento forte a ferramenta de seus propalados talentos, idênticas assim na Madalena quanto na Virgem Maria (que hoje ainda vicejam nos brejos mais atrasados de culturas escravizadas ao material veiculado pela televisão e aos interesses das elites oligárquicas locais).
Depois de quase me internarem novamente ao deparar-me com o material filmado na sala de montagem (o que não aconteceu pela pressão do estúdio, dos investidores e de quase provocar uma vendetta entre as famiglias envolvidas), descobri que me expresso melhor pelo que é omitido por que falta, do que o exibido pelo que abunda. Logicamente o senhor lembra bem o que aconteceu, é claro: Ganhei o Oscar de melhor roteiro daquele ano.
Aprendi uma coisa muito proveitosa com minha mão pesada ao quase matar de exaustão uma equipe cinematográfica japonesa e depois de deixar relegado à própria sorte um célebre ator americano do tipo estabelecido na identificação de sua persona pública seja lá onde esteja pisando, tanto no trágico quanto no cômico (caso um ou outro fossem sérios),
um produto reiterativo e retardatário da melhor tradição daquelas divas do século XIX que faziam do temperamento forte a ferramenta de seus propalados talentos, idênticas assim na Madalena quanto na Virgem Maria (que hoje ainda vicejam nos brejos mais atrasados de culturas escravizadas ao material veiculado pela televisão e aos interesses das elites oligárquicas locais).
Depois de quase me internarem novamente ao deparar-me com o material filmado na sala de montagem (o que não aconteceu pela pressão do estúdio, dos investidores e de quase provocar uma vendetta entre as famiglias envolvidas), descobri que me expresso melhor pelo que é omitido por que falta, do que o exibido pelo que abunda. Logicamente o senhor lembra bem o que aconteceu, é claro: Ganhei o Oscar de melhor roteiro daquele ano.
Enfim, com meu passaporte finalmente carimbado ninguém me segurava mais. Formaram-se filas nas portas do meu agente, os telefones gastavam uma bateria completa de meia em meia hora, minha cama não conseguia tranquilizar-se por mais de um quarto do dia, sacudida pelos mais renomados e cobiçados partidos, os filés mais suculentos do pedaço.
Entretanto vozes ecoavam em minhas poucas ocasiões de recolhimento. Diziam: "Te cuida que agora teu buraco é mais em baixo. Lembra-te do teu trenó!".
Entretanto vozes ecoavam em minhas poucas ocasiões de recolhimento. Diziam: "Te cuida que agora teu buraco é mais em baixo. Lembra-te do teu trenó!".
Acordava sobressaltada, sugada velozmente pelo vórtice da roda-viva girando a nem lembro mais quantos frames por segundo, e quando dava por mim lá estava eu cavalgando uma piroca atrás da outra, um celular em cada ouvido, cinco laptops em volta ejaculando emails, convites, promoções, feiras, gente batendo insistentemente na porta, papai cada vez mais distante (dizem que se enrabichou por uma mulata bossa-nova no Rio de Janeiro onde não conseguiu amealhar as regalias e a babação de seus ovos que o vizinho mais abaixo lhe concedeu para rodar outro de seus atuais desastres travestidos em filmes-cabeça).
Até que resolvi dar um basta neste frenesi dedicando-me ao estudo das nobrezas européias no intuito, quem sabe - se não lambuzar o selo não cola - de assimilar mesmo que enviesadamente um pedigree que a fama e minhas inconfessáveis mas expostas raízes carcamanas sabotavam a cada aproximação.
Até que resolvi dar um basta neste frenesi dedicando-me ao estudo das nobrezas européias no intuito, quem sabe - se não lambuzar o selo não cola - de assimilar mesmo que enviesadamente um pedigree que a fama e minhas inconfessáveis mas expostas raízes carcamanas sabotavam a cada aproximação.
Não sei se o senhor percebeu o meu fraco por meninas loiras e rocknroll, patente desde meu primeiro filme "As Virgens Suicidas".
Na verdade eu queria filmar o "Middlesex" do Jeffrey, romancista modernette amiguinho, com trânsito na minha tribo noviorquina, mas eu não saberia afetar o mesmo savoir-faire com tantas pesquisas a serem realizadas sobre a história real da America contemporânea negligenciada por mim na imersão das realidades fílmicas: Para mim Panteras Negras eram uns caras invocados de óculos escuros trafegando sobre motos envenenadas e gritando palavras de ordem na televisão; Malcolm X era um cara estiloso e cheio de suingue num filme de Spike Lee; Angela Davis quem sabe fosse a matriz daquela menina loira que resolveu libertar seu imenso clitóris, assumindo sua porção masculina privilegiada e discutível segundo os padrões das sociedades geladas naquela mansão modernista de Detroit, longe no tempo e na geografia.
Esta minha praia ( loirinhas e rocknroll) também foi o cenário do "...Translation". Naturalmente eu precisava juntar estas inquietações basiquinhas num projeto de emancipação sangue-azul: Quem melhor poderia acomodar minha trilha sonora e fetiches arianos do que aquela vaporosa rainha decapitada que amava os doces? Só ela mesma!
E lá fui eu de novo como uma tola procurar o desconsolo que cansei de conhecer: E deu no que deu.
Na verdade eu queria filmar o "Middlesex" do Jeffrey, romancista modernette amiguinho, com trânsito na minha tribo noviorquina, mas eu não saberia afetar o mesmo savoir-faire com tantas pesquisas a serem realizadas sobre a história real da America contemporânea negligenciada por mim na imersão das realidades fílmicas: Para mim Panteras Negras eram uns caras invocados de óculos escuros trafegando sobre motos envenenadas e gritando palavras de ordem na televisão; Malcolm X era um cara estiloso e cheio de suingue num filme de Spike Lee; Angela Davis quem sabe fosse a matriz daquela menina loira que resolveu libertar seu imenso clitóris, assumindo sua porção masculina privilegiada e discutível segundo os padrões das sociedades geladas naquela mansão modernista de Detroit, longe no tempo e na geografia.
Esta minha praia ( loirinhas e rocknroll) também foi o cenário do "...Translation". Naturalmente eu precisava juntar estas inquietações basiquinhas num projeto de emancipação sangue-azul: Quem melhor poderia acomodar minha trilha sonora e fetiches arianos do que aquela vaporosa rainha decapitada que amava os doces? Só ela mesma!
E lá fui eu de novo como uma tola procurar o desconsolo que cansei de conhecer: E deu no que deu.
Desta vez a reação foi unânime, até no terceiro mundo. Não dava para esconder meu despreparo para evocar mesmo como se fosse um telão pintado ao fundo ou um leit motiv singelo e facilmente absorvido a revolução que nos concedeu este status que até hoje a banda ocidental do mundo usufrui (alguns mais outros menos segundo suas inclinações e oportunidades) da prática da egalité, da fraternité e de la liberté.
Muito aqui entre nós - e que ninguém se aperceba - estas três palavrinhas mágicas sempre me evocaram mais os peitos saltitantes daquela senhora guiando o povo do que a possibilidade de outros credos comungarem na mesma doutrina, mesmo que sob uma burca ou com lenços a esconder os cabelos.
Muito aqui entre nós - e que ninguém se aperceba - estas três palavrinhas mágicas sempre me evocaram mais os peitos saltitantes daquela senhora guiando o povo do que a possibilidade de outros credos comungarem na mesma doutrina, mesmo que sob uma burca ou com lenços a esconder os cabelos.
Aquilo para mim era mais o território da patisserie do que da política, da alienação com que eu e todos os eleitos pela vontade divina (que segundo suas próprias leis e designações arbitrárias) nos libera para viver no melhor dos mundos, do que da luta pela emancipação popular.
Desisti de me tornar rainha, pois que este projeto ainda remontava àquelas aulas que o Sr. Hearst assombrava como um projeto de imperador que nada tinha de ingênuo. Minhas melhores expectativas naquela época e que até hoje acalento salivando, era aquele momento lindo em que tocava o sinal liberando a turma para o recreio e eu corria orgulhosa, sequiosa e devoradora para comer meus doces na cantina do colégio. Bastante adequado para a performance de uma rainha louca, mas engordante demais para suportar toda aquela parafernália fashion barroca.
Entendi que depois destas experiências eu só poderia seguir filmando se demonstrasse estar pisando num tapete preso de tal modo que não pudessem me sacudir para o alto novamente.
Foi quando num dia de tédio e chuva estava eu à frente de um monitor revendo aquele seu filme em que uma garotinha muito esperta viaja de volta para casa e, perdida das referências de sua família (apesar de em seu próprio país) por não contar mais com a guarda da mãe em crise existencial que resolveu dar um tempo na América, a eterna grande-mãe de desorientados e serial killers que não conseguiram seguir carreira em filmes de ação, deixou-a entregue nas mãos de um recém-conhecido.
Lembro-me de que ainda menina papai fazia questão que eu assistisse a este filme, talvez na esperança de me inocular o desejo de me tornar atriz ou algo equivalente. Mal sabia ele que este veneno iria me corroer por vias menos ilustres ou convencionais.
Lembro-me de que ainda menina papai fazia questão que eu assistisse a este filme, talvez na esperança de me inocular o desejo de me tornar atriz ou algo equivalente. Mal sabia ele que este veneno iria me corroer por vias menos ilustres ou convencionais.
Apesar de não termos, entre o senhor e eu, laços de parentesco, de origem nem acordos pró-forma de lealdade, senti que no seu filme multiplicava-se o vírus de algo de difícil digestão a princípio para ser traduzido em palavras, mas acomodavam-se cnfortavelmente dentro de mim aqueles deslocamentos que se processam numa velocidade infinitamente maior agora do que a dos personagens da década de 70 - uma geração analógica, a película, o 35, o 16mm e o super oito como ferramentas, e principalmente dando conta do recado com tanta bravura ao antecipar muitas das questões que hoje são moedas correntes disso que se tornou o nosso insensato mundinho.
Fiquei tão pesada e chapada no sofá que quase foi necessário chamar um guindaste para me arrancar dali. O golpe fatal foi a forma simples com que o senhor colocava tantas coisas a respeito das culturas da América e da Europa, traçando um paralelo entre as duas assim como lamentava sua desilusão com o fim dos sonhos, jogando sem piedade em minha cara o abundante material sobre as raízes e a consciência do tempo, desdobrando-se através da história de uma criança e um homem em crise criativa a tecer considerações sobre as aventuras de se viver num mundo real ou ideal.
Eu me projetei ali integral e desestruturada, centrada e rarefeita, perdida na leitura das legendas. Mesmo o meu amiguinho rocknroll soava estranho. Não consegui dormir apesar daquela berceuse ficar bombando exaustivamente em minha consciência por dias a fio. Perguntava-me como um gringo a alguns anos da globalização pudesse intuir tanto a respeito do meu país e de um novo mundo ainda em processo embrionário.
Mas afinal pelos meus direitos adquiridos no que concerne ao meu país - longe da xenofobia, vamos deixar claro, afasta de mim esse cale-se - e encontrando-me novamente em apuros neste momento crucial de dar um novo passo nas minhas carrière e derrière, resolvi deixar os escrúpulos de lado e acelerar a marcha rumo a uma variação daquilo que me deu um Oscar:
Mudei a paisagem, troquei os laços sanguíneos, viajei terras longínquas e economizei nos diálogos, não porque não tivesse nada a dizer, mas por que em minha garganta um grito sufocava em pânico.
Ao final tinha um roteiro - não sei se merecedor deste nome, talvez uma visita aos quadros de uma exposição, talvez um encadeamento das estrofes de uma música ou poema - que de longe evocava o retrato de uma geração privilegiada que recebe tudo de bandeja sem precisar mover uma palha além da obrigatoriedade de satisfazer o apetite da máquina que mantém a prensagem do dinheiro em atividade: Basta estar no lugar certo e com as pessoas certas, tudo uma questão de sincronicity como começaram a gritar no rock dos anos 1980 e não pararam mais.
Como prender a atenção de uma platéia, qual a possibilidade de um conflito real num panorama destes? Quais as ações evidenciadas, por exemplo, numa pintura de Edward Hopper que o senhor tão bem traduziu em imagens das estradas, lanchonetes e motéis da metade americana do seu filme? Qual o filme possível afora uma variação daquele responsável pela minha gloriosa premiação?
Foi assim que rodei este "Somewhere", 2010, procurando ser o mais econômica possível, evocando o que o mundo me espremia contra a parede. Estava emparedada como o ator que tira o molde de sua cabeça para uma máscara de efeitos especiais. Sentia-me perdida dentro dos limites de um hotel ou à beira de uma piscina ao ar livre.
Mas preciso levar esta minha vida, ops!, meu filme adiante, não é mesmo? Não vou fazer como muitos por aí, botar um termo na situation, até porque minhas indagações cabem com folga no espaço de um tweet e não comportam desmedidos gestos old fashioned. Afinal não posso trair os traços mais evidentes e contemporâneos da minha geração. Sem eles estaria vivendo - ops! novamente - filmando uma história antiga, articulada, cheia de palavras nobres e profundas, arrematada com ou sem happy ending.
Agora o que me resta é seguir a receita, exceto se algo de muito ou profundo ou novos ingredientes me acontecerem, o que a curto prazo confesso a impossibilidade: A celebridade a serviço dos interesses dominantes, sua solidão, sua adesão sem questionamentos à manutenção do status das elites dominantes, uma rápida passagem em terras estrangeiras para não perder o fio da globalização e da imposição de nossa indústria do entretenimento em verdejantes quintais abroad.That's it.
Na minha próxima encarnação virei como um cineasta decadente que comerá aquela mulata bossa-nova num balneário brasileiro, serei entrevistada pelo Baú da Felicidade e ganharei o troféu Contigo no Copacabana Palace logo após uma indigestão de feijoada e caipirinha, atrapalhando a evolução de minha escola de samba cujo enredo será ... "Alice Nas Cidades".
Fade Out.
Sincerely Yours,
Sofia Carmina Coppola
P.S.:
Apesar de tudo e contra todos os inevitáveis revezes das vozes
dissonantes, meu mundo não caiu e me fez continuar filmando assim:
Cenário:
minha Los Angeles querida, meu berço esplêndido;
Plot: a loucura consumista e o
messianismo da cultura das celebridades.
Em suma: nada de novo capaz de
despertar da minha letargia juvenil já um tanto tardia e clamando por mudanças.
Resultado: “Bling Ring”.
Levei-o, toda animada, para a abertura de uma seção do
Festival de Cannes e saí de lá com o rabo entre as pernas, qual cadela
escorraçada pelo silêncio constrangedor que se abateu sobre este meu novo deja vu.
Estou perdida.
Fui.


















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