quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Dois Coelhos Numa Caixa D'Água Só: "Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" de Apichatpong Weerasethakul, Tailândia, 2010 e "Biutiful" de Alejandro González Iñárritu, Espanha/México, 2010


Encontrei alguns fantasmas errantes em duas sessões distintas e recentes em cinemas da zona sul do Rio de Janeiro. Numa, eles comiam, conversavam, escolhiam seus modelitos de inteiração com os mortais e até se replicavam enquanto seres ainda viventes.
Nada excepcional se confrontarmos este tipo de animismo tendo-se em mente que são produtos de uma cultura fortemente baseada na religiosidade do único país do sudeste asiático que não foi colonizado pelos europeus e que não deixou suas tradições serem diluídas pelas ocidentais: a Tailândia, antigo Sião, que em 1939 trocou o nome para este atual que significa "Terra dos Homens Livres".
A Tailândia nunca entrou em guerras e sempre soube manter sua neutralidade na geopolítica daquela região. Apesar de ter sofrido algumas invasões das cobiçosas garras de alguns vizinhos (Birmânia e Japão após ter perdido a 2ª guerra - vide "A Ponte Do Rio Kwai" de Davis Lean, 1957), 
esta estrutura centrada no budismo Therevada, fortemente arraigado em 95% da população sempre soube, em sua inteireza, forte autoconhecimento e serenidade pessoais advindos da prática da meditação, manter seus ecossistemas e patrimônio cultural sob uma monarquia constitucional cujo rei Rama IX é o decano dos monarcas do mundo, no poder há mais de 60 anos, subindo ao trono em 1946.  
A meditação, conforme ensinava o mestre com quem pratiquei um pouco em determinada fase da minha vida, também é um exercício que propicia a pessoa olhar para si a partir de um ponto de vista exterior. É uma forma de projeção da materialidade física pessoal de forma a lançar num espaço atemporal e multidimensional a consciência de sua estrutura que momentaneamente se vê "abandonada".
De uma cultura que tem esta prática como um dos principais baluartes da sua identidade, não causa estranheza que em suas fabulações os homens possam também interagir com seus entes já falecidos sob a forma de seres-receptáculos daquilo que no catolicismo é conhecido como suas "almas", definidos conforme suas ações em vida. A reencarnação é entendida não como uma série de novos nascimentos, mas uma revitalização da pessoa, um amadurecimento no decorrer na vida atual. 
A metempsicose do filho desaparecido que abandonou a casa paterna, voltando transformado num macaco externando suas preocupações quanto à saúde precária do pai, a aparição de uma princesa que vai chorar suas máguas para um peixe
à beira de um lago e acaba dando para ele, causa só uma primeira sensação de estranheza, mas passa a ser aceita com naturalidade uma vez que as mentes estão abertas a este tipo de pensamento anímico, o mesmo que transformou progressivamente o soldado que se embrenha na floresta em "Tropical Malady" do mesmo cineasta, 2004, num tigre. 

Fico me perguntando se aquele tio brasileiro, o de Guimarães Rosa, não seria um parente distante deste, compartilhadores que são dos mesmos talentos e preferências.

O fato é que em todas as latitudes o mistério da reencarnação e da vida após a morte sempre foi matéria controversa principalmente de cunho religioso, quando não filosófico ou parapsicológico. Mas sempre anexada ao conceito de "salvação", que na Tailândia moderna é entendida como uma conversão da pessoa, como a anulação total do egoísmo de cada um, ao passo que em quase todas as outras religiões a salvação é conseqüência de certas adesões e ritos executados com vistas a este fim.
A possibilidade de projetar a consciência num espaço exterior desonera os votos seculares de um monge de participar dos rituais do mundo laico através da adesão voluntária a sistemas  informativos, dos hábitos de higiene ou consumo de alimentação industrializada. Ele não vai deixar de ser o monge que sempre foi porquanto ao estar comendo um Big Mac vestido diferentemente de seu hábito, pode estar ao mesmo tempo assistindo entre duas mulheres a um documentário sobre a invasão do país pela televisão e ao mesmo tempo meditando (as mulheres continuam marginalizadas na vida civil tailandesa e não podem se acercar dos monges).
 Esta última seqüência é bastante emblemática ao exteriorizar de forma bastante clara todo um manancial de idéias culturais e comportamentais que à primeira vista são conflitantes, mas que podem ser contornadas pela natureza simples e tolerante de uma civilização que ultrapassou algumas barreiras impostas pelo consumismo, política e pela cobiça.
Vê-se no semblante dos personagens o estoicismo e a serenidade deste povo. O sorriso está sempre ali mesmo quando a chapa esquenta. A simplicidade que frui deste filme, desde o roteiro, passando pelas interpretações, assim como pela fotografia básica e sem luxos é um produto cultural de recuperação e reconstrução de um país que com o empenho ativo da população e do governo recuperou as áreas devastadas pelo tsunami de 2004 em tempo recorde dadas as proporções da tragédia.
Tio Boonmee sofre dos rins, que na medicina chinesa (e em grande parte da compreensão da teoria dos órgãos oriental) é o órgão que armazena a "Essência". Ele está se preparando para a morte pela perda de sua essência, de sua vida, e agora suas preocupações e procuras são alcançar o lugar em que sua passagem vai se efetuar de forma não-traumática. Nisto é auxiliado pelos fantasmas de seu filho e sua falecida mulher que voltam dos mortos para confortá-lo e guiá-lo neste momento crucial de sua jornada. Este local é uma espécie de Éden, através do qual suas preocupações quanto à subsistência de seus entes queridos na terra são contempladas de forma a deixá-lo em paz no momento de abrir seu cateter implantado, deixando purgar a seiva da vida, consciente de que a fonte de riquezas materiais a que foi conduzido pelos seus fantasmas os proverá.
Este filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes, 2010 e em seu país natal foi cercado de controvérsias justamente egressas dos sistemas que justamente são sua matéria expositiva. Um prêmio internacional lançou esta cinematografia antes reduzida a festivais e guetos cinéfilos numa escala global que suscita o conhecimento, a curiosidade e a discussão de uma realidade que trás à tona várias contradições: eis que o sagrado cenáculo dos monges tailandeses se encontra envolvido em escândalos de malversação das doações que o sustentam, de acúmulo de bens materiais através de contas secretas em paraísos fiscais tal como soe acontecer em repúblicas de bananas a milhares de quilômetros dalí. A palma de ouro foi consignada no dia seguinte da dissolução pelos militares de um mega protesto na cidade de Bangkok que deixou 90 mortos e milhares de  feridos, enxotando a juventude sem perspectivas das zonas rurais do país (onde a ação do filme acontece) que protestavam contra a péssima distribuição de renda, um golpe violento na idéia que se tem daquele país harmonioso.
Mas o budismo na Tailândia aproxima-se do cristianismo em muitos aspectos e principalmente pelo profundo sentimento de dedicação ao próximo e por ter dado início a muitas obras sociais.
É justamente este sentimento de ajuda ao próximo que faz de Uxbal, personagem interpretado soberbamente por Javier Barden em "Biutiful", de Alejandro González Iñárritu, Espanha/México, 2010,  um dos heróis trágicos mais evidentes da atual cinematografia mundial. 


Ele vive às voltas com as tarefas ingratas de acolher e gerenciar no mercado negro o trabalho de imigrantes foragidos de ditaduras (chineses) e da miséria (nigerianos). Estas atribuições encontram-se sobrecarregadas com um processo canceroso pessoal em evolução terminal e a preocupação de deixar aos filhos que estão sob seus cuidados (a mãe incapacitada sofre de distúrbio bipolar) uma modalidade sustentável de guarda e subsistência.
Aqui, Tio Boonmee e Uxbal comungam o mesmo credo: o cuidado com seus entes queridos. Mas as diferenças culturais os fazem trilhar este caminho de formas bastante diferentes. À serenidade do "Tio", que alcança seu objetivo de forma simples pela aceitação da vida após a morte sob a forma da metempsicose, contrapõem-se as estações da paixão do católico espanhol, numa via crucis de sofrimentos, privações e abominável trânsito pelos extratos mais baixos da classe média de uma Barcelona a mil anos-luz das atrações culturais que a caracterizam.  E ambos têm uma visão edênica de onde se encontram os elementos que trarão conforto às suas passagens do mundo dos vivos para o além.
No caso tailandês, em oposição aos parâmetros budistas de desapego aos bens materiais, este espaço é uma caverrna de pedras preciosas e no caso de Uxbal, apesar de todo barroquismo da secular herança cultural espanhola, este lugar é tão simplesmente uma fatia dos Pirineus, forrada de neve, onde ele encontra com o, digamos, fantasma?, anjo? de seu pai morto precocemente após ter imigrado (o que explica a atividade do personagem) a lhe apontar o caminho através do qual sua passagem se dará também de forma menos traumática. É o que ele recebe em troca dos favores remunerados que sua mediunidade (como se não bastassem suas atribulações) arrecada na vida terrena por guiar as insatisfeitas e culpadas almas recém-falecidas em seus caminhos para o além.
É lamentável que o empenho deste grande ator venha a serviço de um filme cujo roteiro deixa muitas brechas de desenvolvimento de personagens coadjuvantes, numa estrutura melodramática que alguma sutileza na forma de filmar (graças a Deus) destituiu dos componentes lacrimosos, neste acúmulo de sofrimentos páreo duro para qualquer Jesus Cristo de plantão, este sim, sempre tradicionalmente interpretado não sei por quais cargas d'água por atores muito abaixo das expectativas, exigências e responsabilidades do personagem, exceto pela em todos os aspectos irretocável criação de Martin Scorcese "A Última Tentação de Cristo", um filme que fez a proeza de colocar em termos de uma narrativa refinada e contemporânea aspectos de uma história muitas vezes negligenciada para torná-la palatável à instituição Igreja, coadjuvada por umas das trilhas sonoras mais bem sucedidas da atualidade (Peter Gabriel) e a interpretação prodigiosa de Willem Dafoe, algo que Buñuel quase logrou realizar com o seu Jesus socialista de "La Voie Lactée", França, 1969. ou o marxista
assumido de Pasolini.


Às variações espaciais e cronológicas dos filmes anteriores de Alejandro González Iñárritu, encontramos aqui contrapostos uma só cidade onde algumas etnias lutam por um lugar à mesa ou sob um teto num encadeamento lógico. "Biutiful" parece concentrar com pirotecnia, múltiplos recursos narrativos e fotografia luxuosa a espacialidade e temporalidade que Tio Boonmee espalha aos sete ventos com facilidade, planos pouco elaborados e de eficácia ímpar. Se Apichatpong nos apresenta uma visão religiosa de narrativa cinematográfica, Iñárritu parece não se entender com a manipulação de alguns dogmas do cristianismo que purgam os pecados através do sofrimento. 
Se ambos estivessem afogando-se numa caixa d'água só, qual destes coelhos, através da ascese, chegaria primeiramente (antes da classe operária) ao paraíso?



Louros em Cannes e Batalhas em Casa
Por THOMAS FULLER
Publicado no New York Times em 13 de Setembro de 2010
Khon Kaen, Tailândia

O tapete vermelho do Festival de Cannes é um mundo para além das aldeias rurais da Tailândia, mas Apichatpong Weerasethakul desliza facilmente entre os dois.
Sr. Apichatpong surpreendeu o mundo do cinema em maio ao vencer a cobiçada Palma de Ouro em Cannes por seu filme mais recente, "Tio Boonmee que pode se recordar das suas vidas passadas." Ele trará o filme para o New York Film Festival, que começa 24 de setembro, mas sua primeira parada em uma turnê mundial para promover o filme esteve aqui em sua cidade natal, Khon Kaen, uma pequena cidade tailandesa de pobres plantadores de arroz no platô nordeste daquele país.
"Tio Boonmee", um filme impressionista não convencional sobre um homem que está morrendo e seus encontros com fantasmas,
foi filmado nas selvas e terras do nordeste da Tailândia, usando atores amadores com um orçamento de menos de US$700.000.
Sr. Apichatpong que ganhou dois outros prêmios em Cannes por filmes anteriores, ganhou uma certa visibilidade como cineasta.
Ele tem uma base pequena, mas fiel de fãs internacionais que vêem seu trabalho como um contraponto inovador para o que se condena como a padronização hollywoodiana.
"Ele é um dos poucos diretores que pode fazer filmes que falam aos sentidos", disse Anocha Suwichakornpong, um diretor premiado tailandês que faz parte da nova onda de cineastas tailandeses independentes: "Se eu vou em um cinema  assistir a seus filmes, não importa o que o filme se trata, é uma experiência sensorial. "
O diretor Tim Burton, o presidente do júri que concedeu a Palma de Ouro a "Tio Boonmee", chamou o filme "um sonho bonito, estranho." Outros simplesmente acharam estranho. Ou confuso.
O jornal francês Le Figaro o descreveu como "impenetrável e lento"
e alfinetou algumas de suas cenas mais peculiares: em uma, filho do morto do Tio Boonmee retorna e se junta a ele na mesa de jantar como um macaco com olhos vermelhos brilhantes; em outra, uma princesa aparece para copular com um peixe.
A vitória em Cannes foi a primeira vez que um diretor tailandês ganhou a Palme d'Or, mas o Sr. Apichatpong, que completou 40 anos em julho, foi recebido em casa com  ambivalência por muitos
e ataques de seus críticos mais ferozes. Ele também é uma figura polarizadora na Tailândia, menos por seus filmes,
que até recentemente eram pouco conhecidos pelo público em geral, do que por sua defesa dos manifestantes antigovernamentais e sua crítica mordaz do establishment político.
"É melhor ficar calado, porque quando você fala pode mostrar sua estupidez", foi um post entre os 550 que apareceu em Julho no site manager.co.th de um jornal de língua tailandesa ferrenhamente contra as recentes manifestações de protestos antigovernamentais.
Num popular site de mensagens, Pantip.com, tinha cerca de 100 comentários sobre o Sr. Apichatpong, metade dos quais eram críticas: "Nós não o consideramos mais Tailandês"  alguém com o nickname Noom Suá Ball escreveu. "Lamentamos muito que uma vez o admiramos." Outro post no mesmo local,  defendeu Sr. Apichatpong: "Eu pensei que todos os que trabalharam na indústria do entretenimento foi um escravo do governo: Eu estou feliz por ter um diretor independente, que se desvia o pensamento dominante."
A agitação na Tailândia é complexa, mas uma das suas principais fontes tem sido uma luta pelo poder político entre a região de infância do Sr. Apichatpong  e a elite monarquista estabelecida em Bangkok.
"Tio Boonmee" não se apresenta como um filme político nem em seu subtexto. No entanto é acentuada a simpatia do Sr. Apichatpong pelo nordeste da Tailândia, dos tradicionais trabalhadores braçais e agricultores. As personagens do filme estão distantes da vida da cidade grande e falam um dialeto próximo ao idioma do Laos,
que não é falado por pessoas nascidas e criadas em Bangkok.
O establishment de Bangkok, durante décadas viu as pessoas do nordeste, ou Isaan como a região é conhecida, como rudes, incultas mas trabalhadoras.
Sr. Apichatpong, que cresceu ao lado do hospital em Khon Kaen, onde seus pais trabalhavam como médicos, disse que rodou o filme no Nordeste, porque ele estava tentando recapturar os rostos e modos de vida rústicos do povo que ele havia convivido durante a sua juventude. Em uma entrevista no campus da universidade onde o Sr. Apichatpong estudou arquitetura (uma profissão que abandonou para o cinema), ele disse que suas raízes étnicas eram chinesas, e que os seus pais tinham se formado em universidades da elite em Bangkok antes de ir para o Nordeste.
Apesar desse pedigree, Sr. Apichatpong disse que sentia um grande complexo de inferioridade quando viajava para Bangkok.
"Se você dissesse que era de Khon Kaen, eles ririam de você", disse ele. "Eu tentei esconder de onde eu vim e isso não foi há muito tempo - 20 anos atrás ".
Para o mundo exterior "Tio Boonmee" é um filme tailandês,
mas os espectadores em Bangkok precisam de legendas tailandesas para entender o vernáculo do nordeste. Sua vitória em Cannes veio logo depois de uma ofensiva dos manifestantes anti-governamentais em Bangkok, muitos deles do nordeste, mostrando-se fazer parte da narrativa política do país.
Em 19 de maio os militares tailandeses varreram  os manifestantes para fora de suas trincheiras no centro de Bangkok. A repressão foi o clímax de dois meses de tensões e de luta na cidade que deixou cerca de 90 pessoas mortas e milhares de feridos, a grande maioria deles manifestantes.
Sr. Apichatpong trocou este tumulto pela Riviera Francesa, mal conseguindo obter seu visto de funcionários consulares europeus, que haviam fechando seus escritórios por conta da propagação da violência. Em 23 de maio quando, derrotados e humilhados, os manifestantes voltaram às suas aldeias, "Tio Boonmee" ganhou a Palme d'Or.
Mr. Apichatpong descreveu os protestos como a "Revolta dos pobres". "A idéia da  Tailândia como uma sociedade suave e harmoniosa é errada", ele disse: "A Tailândia é violenta e cheia de desigualdades".
Esses tipos de declarações enfureceram monarquistas na Tailândia,
que afirmam que os protestos não tinham nada a ver com a má distribuição de renda no país e que foram orquestrados por Thaksin Shinawatra, um magnata bilionário deposto como primeiro-ministro pelos militares em 2006.
Os críticos do Sr. Apichatpong  têm usado o anonimato da Internet para sugerir que ele estaria melhor morto, uma declaração  que ninguém leva impunemente na Tailândia nos dias de hoje, depois de vários assassinatos de altas patentes e tentativas de atentados a figuras políticas.
Toda essa amargura acarreta problemas ao Sr. Apichatpong, que fala suavemente, mesmo quando sincero. Ele disse estar preocupado com o poder dos militares na Tailândia, com as campanhas do governo, a censura após a repressão de Maio e com a "frustração e raiva" dos jovens do meio rural que não têm oportunidades.
"Eu espero que não seja pessimista demais dizer que estamos vivendo um tempo de bombardeios", disse ele: "Muitas pessoas dizem que se você tem dinheiro, você deve colocá-lo em contas bancárias suíças. Ou comprar ouro. Isso mostra que as pessoas sentem vivem inseguras ".
Sr. Apichatpong estudou cinema em Chicago e depois ganhou uma bolsa como artista-residente em Paris. Mas os acontecimentos na Tailândia, ao mesmo tempo preocupantes e fascinantes, estão mantendo seu foco em sua terra natal.
"Eu não perderia a oportunidade", disse ele, "de testemunhar o que vai acontecer."


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