segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - E: Lore, Termas Romanas e Deixe a Luz Acesa






LORE (“Lore”, de Cate Shortland, Australia/ Inglaterra/Alemanha, 2012)

A fuga de uma família nazista ao fim da segunda guerra mundial. 
O uso detalhado de particularidades dos elementos ao final de cada sequência evidencia uma tendência ao sensorial neste retrato bucólico e outras vezes cruel do retorno as raízes familiares. As texturas da natureza e seus fenômenos, a podridão dos cadáveres, o cheiro da morte e a escassez dos víveres são configurados com extremo realismo e uma estranha poesia morfética. 
Ambientado na virada do jogo do panorama político e geográfico estabelecido ao final da 2ª guerra, a Alemanha dividida em setores internacionais, a revelação das fotos do holocausto e o peso das etnias no desenho da nova configuração da Europa. 
Fotografia exuberante acompanha as crianças perdidas na Floresta Negra e todas as dificuldades que precisam superar para alcançar a casa da avó autoritária onde Lore, a adolescente protagonista, vai edificar seu rito de passagem para a nova mulher que surge amadurecida pelo somatório dos sofrimentos, privações e horrores que passou em consequência da derrota alemã - uma guerra em que viu seu pai prosperar e fugir, assim como a mãe na iminência da privação da sua liberdade e ter que optar por abandonar os filhos à própria sorte ou à tutela do novo Estado ainda em formação (e sabe-se lá que fim teriam). 
A música careta repete muito e se estabelece com enfado. Os atores mirins em sua maioria se desincumbem com bastante aproveitamento de seus papéis. A atriz que faz Lore é linda apesar de certa frieza que o papel exige e da fisicalidade germânica avantajada e demasiado branca que a distingue. Três estrelas.



TERMAS ROMANAS (“Thermae Romae” de Hideki Takeuchi, Japão, 2012)

É o evento mais transcultural que eu presenciei. Encenação do reinado do imperador Adriano (117 a 138 d.C.) realizada por diretor, produtores e atores japoneses, falado em japonês, intertítulos em latim antigo, direção de arte ostensivamente fake, suntuosa, colorida e beirando a luxúria. 
É uma aventura fantástica adaptada do mangá da artista Mari Yamazaki na qual os personagens viajam no tempo. O protagonista é um arquiteto especializado na construção das antigas termas romanas sob a pressão da entrada da nova geração de profissionais na área que vêm colocar em cheque as suas habilidades e ameaçar sua hegemonia junto às antigas empreiteiras a serviço do império. Este personagem viaja no tempo rumo ao Japão contemporâneo  onde coleta informações das tecnologias e conquistas da nossa contemporaneidade disponíveis para o bem estar da civilização e volta para adaptá-las com o sabor da novidade na Roma antiga, numa verdadeira comédia do emprego das antigas formas do trabalho escravo rudimentar a serviço da emulação das configurações construtivas modernas com hilariante resultado. 
E faz muito sucesso entre seus pares garantindo sua posição na corte embora atormentado pelo fato de não poder explicar por que suas aplaudidas novidades são apenas cópias sofríveis das conquistas daqueles escravos que ele conheceu no misterioso reino das “Caras Achatadas”. 
O efeito de se deparar com um imperador do porte de Adriano -  imagem portentosamente edificada em nossa memória pelos compêndios da história ocidental e imortalizado com tanta categoria pelo magnífico livro de Marguerite Yourcenar - interpretado por um ator oriental falando japonês é algo de fascinante estranhamento resultante de um somatório de fatores globalizantes que nunca cessam de desfilar durante os 108 minutos desta projeção. 
É ostensivo o emprego de clichês operísticos de quase todas as obras de Puccini ilustrados ao vivo e a cores por um comicamente poderoso tenor que entra e sai de cena de forma distanciada e crítica e ao final jaz escornado com o paletó pendurado na cadeira à beira de um lago italiano - não faltando obviamente ocasiões para a repetitiva audição da marcha triunfal da Aída de Verdi. 
É um história de ritmo alucinante, não deixa a peteca cair em momento algum, mas de um jeito muito próprio e diferenciado do corre-corre dos filmes ocidentais de aventuras fantásticas, executada com um tipo de concisão e simplicidade típicos da sintetização narrativa da cultura oriental que também nos faz viajar e divertir bastante. 
O ator protagonista é muito bonito e gostoso neste filme coalhado de bundas; Antinoo é uma aparição tão fugaz quanto o crocodilo que também aqui (como em “Tabu” de Miguel Gomes, Portugal 2012) faz de sua presença a alegoria de um amor trágico. Todos os anciãos do elenco de apoio, os habitantes da Terra das Caras Achatadas (hoje), são muito expressivos e engraçados, quase caricaturas, como a que este filme se delineia pela sua vocação de história em quadrinhos em sua linguagem peculiar e tipos fixos. 
A cópia foi exibida com legendas em inglês, indício de que esta grande curtição periga passar ao largo da exibição comercial em Terras Brasilis, em outra tremenda bola fora dos distribuidores locais (haja visto o caso do filme “O Abrigo” e "Essential Killing" lançados diretamente em DVD, entre outros), sempre avessos e temerosos às novidades formais, alheios aos encantos de uma camp extravaganza.  
Trata-se de uma grande produção, dispendiosa, muitos talentos, muito dinheiro, muito tempo, filmagens em Cinecittá, que não perdeu a identidade oriental da sua visão da cultura do outro lado do mundo através do retrato das conquistas do império romano em seu apogeu. Quatro estrelas.


DEIXE A LUZ ACESA ("Keep The Lights On", de Ira Sachs, Estados Unidos, 2012)

Meu terceiro filme daquele dia, um romance gay de protagonista barrigudinho, flácido e necessitado de reabilitação oral. O vizinho da poltrona ao lado não parava de consultar o celular, aquela luzinha acendendo e apagando - não que estivesse interrompendo minha concentração que já estava navegando no desinteresse desde os créditos iniciais, mas provocando uma série de contrastes simultâneos na escuridão transportadas para o telão, que transformaram a projeção numa instalação de artes plásticas. 
Enquanto no telão o rapaz que ao telefone dizia que gostava de ficar por cima chegando às vias de fato estava em baixo, eu pensava: Amanhã vou fazer um feijão; vou sair daqui direto para o supermercado. O parceiro do gordinho tira uma pedra de crack, aspira a fumaça, eu viajando dentro da panela de pressão, nadando em meio a 1/2 kg. de feijão + 1 bom pedaço de costela suina salgada + 1 paio de bom tamanho. Quando acrescentei este último ingrediente os atores interromperam a trepada, olharam para mim, erraram as marcas e o texto, obrigando o diretor a cortar a sequência na montagem. 
Na impressão de que assistia ao primeiro corte, pensei no santo do dia, se vai dar praia no fim e semana, nos conflitos do oriente médio, na picadura dos mosquitos da dengue versão 2013, na sensação da cueca nova que me apertava os colhões e no vermelhão da rinsagem de Lúcifer sentada à minha frente junto ao Barretão que dormia. E com razão. 
Para quem tem problema de insônia indico este filme. Para quem é dependente de crack também, por que ao final, se não me engano, o moço que reincidiu no deboche após o rehab parece que tomou vergonha na cara e saiu da aba do gordinho apaixonado. 
Quando terminou,  a fila do banheiro masculino era mais extensa que o feminino, a maioria para retocar make up e coiffure. Só o Barretão que vertia incessantemente uns litro e meio de urina (alvo de olhares desencorajadores) enquanto Lúcifer rodava a bolsinha no foyer. 
Aquele dia o céu estava nublado, sem estrelas. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - D: Pietá, Cesar Deve Morrer e Tabu








PIETÁ (“Pieta”, de Kim Ki-Duk, Coréia do Sul, 2012)

Fábula de redenção da porção animal de um homem devorado pela engrenagem multiplicadora do dinheiro a conta-gotas na seara dos desafortunados do sistema capitalista nas favelas de Seul. 
O jovem protagonista, marcado pelo abandono e vítima de seus ressentimentos, encontrou na violência remunerada a ferramenta compensadora de sua infelicidade. Alugado por um agiota percorre  cortiços de artesãos e pequenas empresas cobrando dívidas a juros escorchantes sobre os empréstimos contraídos pelas pobres vítimas em suas necessidades prementes de remediar saúde, compensações afetivas ou planejamento estratégico. 
A truculência inominável com que exerce esta incumbência no terço inicial do filme (configurada em degradantes cenas realistas de mutilações e torturas tornando as vítimas inválidas para confiscar o dinheiro de seus seguros) é a medida exata de sua ausência de limites, afetividade e desconsideração pelo próximo. 
A destruição e a morte que campeiam em sua órbita são seu alimento, razão de viver e se descortinam como num filme violento de Park Chan-Wook adaptado às convenções do drama focado em uma sociedade corrompida pelo dinheiro. 
Não faltam ilustrações de seu sadismo na escala íntima, a faca reiteradamente atirada na imagem da mulher nua presa na parede de sua casa ou as vísceras dos animais com que se alimenta jogadas no chão do banheiro. 
Este primeiro terço, em grande parte expositivo, tem sua virada na aparição do elemento transformador, o personagem feminino que surge do nada apresentando-se como sua mãe. 
Ao tomar posse (em todos os sentidos) da vida e das ações de seu filho, esta mãe - enquanto tal - deixa-se assediar para provar sua autenticidade, como comer o dedo do  pé do filho que ele não hesita em cortar, ou submeter-se ao estupro com abnegada passividade (e alguma satisfação). Na verdade esta é a mãe de uma de seus vítimas, a primeira, um cadeirante que nos planos iniciais enforca-se com uma corrente atada num motor. 
Está ali para realizar duas tarefas: resolver seu problema enquanto vingança e submeter o sádico cobrador à descida ao seu inferno pessoal aniquilando progressivamente seus impulsos agressivos e confrontando-o com a possibilidade da redenção, como uma Pietá às avessas. 
Afora estas situações definidoras de personagens que impulsionam um roteiro não há neste filme nenhuma novidade formal, nem  conteudística que o distinga da miríade de filmes focados na relação mãe e filho, às vezes grandes filmes sem apelo a violência crua e espalhafatosa, edificados em grandes dramas como “La Luna” de Bernardo Bertolucci (1979), “Mãe e Filho” de Alexandr Sokurov (1997) ou “Sopro no Coração’ de Louis Malle (1971). 
O que se assiste aqui é um filme convencional em sua construção de causa e efeito, com forte julgamento moral e sob medida para sublimar as pulsões de morte (e ressurreição) das plateias e amealhar prêmios bem comportados. 
No terço final aquele filme de horror quer se mirar no espelho de um tipo de poesia trágica, mas tem sua credibilidade ameaçada pelo impacto das imagens iniciais que turvam esta tentativa de resolução um tanto arriscada e mal costurada.
O trabalho de interpretação de  Min-Soo Jo é soberbo e justifica a ida ao cinema.




CESAR DEVE MORRER (“Cesare Deve Morire”, Paolo e Vittorio Taviani, Itália, 2011)


Os irmãos Taviani conseguiram, a despeito das grandiloquentes e pomposas versões fílmicas anteriores adaptadas do drama shakespeariano, fazer da sua adaptação de Julio Cesar um triunfo de adequação e simplicidade que extrapola os muros da prisão dos mafiosos protagonistas.  Em sua concisão entre o drama histórico e o documentário das atividades de uma cadeia de segurança máxima os Tavianis nos oferecem um banquete de imagens poderosas ao investigar a extensão daquela tragédia renascentista na vida contemporânea dos cidadãos frente às atribulações da tirania do dinheiro conquistado através de meios escusos. 
O fio condutor é o ensaio da peça de Shakespeare a ser apresentada no auditório da prisão dentro de um programa anual de atividades de reabilitação de presos. Alguns talentos nos são apresentados no casting de forma cômica e ressalta-se o empenho dos reclusos em participar de uma atividade em todos os sentidos longe das medidas de correção habitualmente impostas no sistema carcerário brasileiro, tanto pelo distanciamento do fato cultural enquanto elemento libertador, quanto pela incúria das autoridades (in)competentes em aventar ou avaliar a procedência deste tipo de inclusão. 
O envolvimento de reclusos com a arte, além as ampliação de seus horizontes, instiga o desejo da sua transformação. É muito mais rápido, eficaz e libertador do que a psicanálise ou os rigores da lei. O intérprete do protagonista, Giovanni Arcuri, condenado 17 anos por tráfico de substâncias estupefacientes, ao voltar para sua cela ao final da apresentação, depõe para a câmera: “Desde que conheci a arte esta cela me pareceu uma prisão”. 
“Guardiões do Teto” é como se autorreferem estes brutamontes que passam grande parte de suas horas mortas olhando para o teto deitados sobre catres, tentando vislumbrar a projeção do rosto de seus filhos ou cenas de um passado fora das grades. A arte teatral vem suprir esta sublimação e oferece ferramentas a serviço de discutir, de comparar e uma infinidade de equivalências dentro e fora dos sistemas dos relacionamentos sociais e políticos tal como  a maestria dos diretores ilustrou mixando o que a peça do bardo proclama com a real situação dos presos: “A Roma de Cesar perdeu a vergonha na cara – assim como em minha Nápoles natal”, ou quando alguém comenta que não se poderia viver feliz em Roma naquela época e outro preso retruca “Como em meu país natal, a Nigéria”, ou ainda quando os intérpretes de Cesar e Dúcio se estranham em meio ao ensaio por seus ressentimentos pessoais aflorados através da cena da bajulação traidora de Dúcio que fará Cesar retornar ao senado e ser apunhalado pelos conspiradores. 
A tragédia da ambição é um fato consumado em nosso mundo e continuará manchando a terra de sangue enquanto a vida de seres humanos por aqui ainda for possível. Depois do ensaio da cena em que após lavarem as mãos no sangue do Cesar assassinado os conspiradores perguntam “Quantos séculos adiante será encenada de novo essa nossa gloriosa cena? Em que reinos ainda não nascidos, em que línguas ainda não inventadas?”. Então o filme indaga quantas vezes o grande Cesar deve sangrar no palco assim como naquele cárcere, deitado na pedra e não valendo mais do que a poeira. 
São muitas as referências e interações, muitos os dialetos praticados, uma verdadeira babel de crimes e linguagens que confirmam e atualizam a opção documental do partido adotado pelos irmãos Taviani para a realização desta obra. A conscientização e o arrependimento surgem através da análise e meditação sobre falas como “Se eu pudesse arrancar o espírito do tirano sem ferir o seu corpo!...” ou “A justiça não é um matadouro; os conspiradores são executores da justiça e não açougueiros. Deve-se lutar contra o espírito e as ideias de Cesar; isto não é um assassinato, mas um sacrifício”. 
A fotografia tem o espectro cromático bastante reduzido, mesmo quando o registro é feito em cores (as cenas do ensaio são em preto e branco), a música é tocante apesar de convencional, e na medida do possível, conseguiu-se dos presos um rendimento elevado para a tarefa proposta. Um deles, o intérprete de Brutus, Salvatore Stiano, cumpriu parte e foi anistiado de sua sentença de 14 anos por crime organizado e hoje é ator profissional de teatro e cinema. Outro, o de Cassio, Cosimo Rega, lançou o livro autobiográfico de um condenado à prisão perpétua. E o de Cesar, aquele que percebeu o verdadeiro significado da privação da liberdade através da arte, lançou outro livro, “Libero Dentro”.  
A emoção que se espraia nestes segmentos é genuína e surpreendente. Seu conteúdo teatral nunca projeta sombra sobre os procedimentos cinematográficos e temos, talvez pela adequação ao temperamento latino ou pelas diversos dialetos que se fazem compreender em sua diversidade, uma oportunidade ímpar de nos inteirar ao universo da arte através de nossas idiossincrasias. 
O que sobrou da geração mais velha dos cineastas italianos ainda está em pleno vigor e felizmente ainda tem muito a ensinar e fazer pensar. Para quem está chegando, alea jacta est! 








TABU (“Tabu” de Miguel Gomes, Portugal / Alemanha / Brasil e França, 2012

Uma das maiores distinções da arte é a que garante sua atualidade eliminadas fronteiras geográficas, temáticas, etc. que a compõe. O filme Tabu é uma eloquente prova disso. O alemão Murnau nunca poderia imaginar naqueles idos de 1920 que quase cem anos depois o português Gomes viria homenageá-lo tomando por empréstimo o título de sua obra mais conhecida para edificar uma obra de grandeza e impacto semelhantes. 
Construído em três blocos, numa autêntica obediência ou citação das normas básicas da construção de um roteiro, a introdução, um segundo tempo intitulado “Paraiso Perdido” e o último, “Paraiso” - uma evidência que se justifica somente para ser transgredida - este filme transcende o telão. Não poderíamos estar precavidos contra o assalto às nossas memórias e à manipulação das nossas saudades no modo como esta obra nos arrebata, principalmente para quem foi jovem ou criança no início dos anos 1960. Cinéfilos de todas as idades e graus de instrução poderão sem muito esforço digerir todas as injunções que este filme evoca, bastando seu amor e o conhecimento da sétima arte como instrumento. 
O prólogo e o primeiro bloco são fotografados em 35mm., o último em 16, com toda a granulação a que tem direito e a tela 4x3 dos românticos antigos filmes de aventura produzidos em Hollywood. Nada que Guy Maddin, Rosa von Praunheim ou Derek Jarman já não estivessem exauridos como linguagem, mas aqui, na dimensão do mainstream, é ofuscado pelo recente "O Artista". 
São evocações de um amante do cinema e de um apaixonado pela cultura. São indagações e digressões do cidadão de um país que numa determinada época dominou o mundo, o último a retirar as garras das colônias africanas, e que de forma incompreensível jogou suas conquistas e sua relevância no cenário mundial na lata do lixo da história. Existe certa nostalgia do poder e do espírito aventureiro dos conquistadores insinuados na forma urdida com fina ironia e uma comicidade calcada na interpretação artisticamente intelectualizada dos fatos históricos, mas nunca na busca das facilidades ou do cinismo aliciantes do público para retratar a saga do personagem feminino que protagoniza esta, digamos, história de amor. 
Dona Aurora (Laura Solveral, esplêndida, uma verdadeira e digna dama da interpretação) é a idosa vizinha demencial de Teresa (Teresa Madruga, muito boa e expressiva, sem artifícios) que, assistida por uma espécie de mucama cabo-verdiana, a negra Santa (Isabel Cardoso) - numa relação de dominação e desconfiança (Aurora acha que Santa a está enfeitiçando), resquício e atualização da dominação colonialista - e abandonada pela filha única que migrou para o Canadá, está nas últimas externando o desejo de ver na cabeceira do seu leito de morte a presença do desconhecido Gianluca, narrador do bloco posterior que elucida os acontecimentos romanescos e aventureiros que a conduziram ao seu final em Lisboa. 
Na alegoria do crocodilo que acompanha o casal de amantes, sempre fugindo do cativeiro para se aproximar da saga do amor proibido, aquele que cem anos atrás devorou um marido suicida desesperado pela perda da mulher amada, incorporando sua alma atormentada numa sequência de abertura certamente configurada de forma propositalmente caricata (como se a nos distanciar para o que viria depois), e na economia narrativa que desta história de amor marcada pelo sangue e pela intolerância, Tabu realiza uma proeza cinematográfica sincera e ao mesmo tempo intelectualmente ilustrativa dos fatos concernentes à história das colônias e sua subserviência ao poder constituído. 
A narração do velho Gianluca sobreposta à sua imagem enquanto jovem em meio a toda a ação do último bloco vem confirmar o propósito da direção em configurar esta obra como uma homenagem ao cinema desde seus primórdios até nossa era de diversidade de linguagens, garantindo o distanciamento da plateia e o espaço íntimo necessário a realização de sua bagagem cultural.