sábado, 28 de setembro de 2013

Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro Velho


Filme de Danis Tanovic 
Bósnia-Herzegovina, França, Eslovênia, Itália, 2013)

Em um determinado momento Nazif, cigano sem seguro social, cansado de tantas demandas para conseguir curetar sua mulher cujo embrião morreu - ventre sangrando uma semana - expressa seu desconforto declarando que, segundo seu ponto de vista, na época da guerra Bósnia-Herzegovina a situação era melhor posto que quando tudo é urgência mesmo o corpo de um ser humano cabe num saco plástico muito inferior ao seu tamanho pois somente a cabeça está intacta, o resto multidilacerado. 
Essa referência é natural para um homem cujo meio de subsistência numa aldeia distante da cidade é o desmonte e a cata de ferro velho. Na guerra os pedaços dos seres humanos eram abundantes e sua conformação em pequenos sacos, muito mais viável.

Itinerando de casa para o hospital onde a burocracia e deformação profissional dos médicos não lhes assegura o devido e urgente tratamento, Nazif e sua família (sua mulher e duas crianças) se deparam com o choque civilizatório que os alija das conquistas modernas da civilização - usina atômica, estradas asfaltadas, urbanização. Aquele lugar de todas as seguranças e soluções é paradoxalmente a certeza de seu desamparo e sua perdição. 

O cão que o acompanha na retirada de alguns elementos de ferro velho no lixão a fim de pagar a conta de luz cortada pela prefeitura tem a vida tão provisória quanto aquele ser humano a quem segue instintivamente, por afinidade. Esta solidariedade animal é o modelo daquela entre os ciganos de seu povoado na hora de desmontar um carro velho, de empurrar o seu eternamente enregelado pelo clima cruel ou tomar por empréstimo um outro para levar sua mulher ao hospital. 

Todas as lides de um pai de família para manter a dignidade tropeçam em dificuldades diversas que, pela forma em que são enfrentadas e tomadas como fatores normais da existência, não suscitam arroubos de indignação, desejos de vingança ou possessões revolucionárias. Pelo contrário: o nome de Deus é sempre pronunciado quando algum passo adiante consegue ser dado, seja por agradecimento ao próprio ou a quem se empenhou em ajudar. 

Num país em que o genocídio recente ainda expõe suas marcas na beira das estradas, a regra são as dificuldades enfrentadas com serenidade por alguém que já viu tudo que a humanidade pode produzir de pior: a questão social, o imperativo financeiro e a derrocada dos valores humanitários. Esta vida de cão levada no ritmo de um dia a cada vez é a matéria mais apropriada para uma dramatização a ser levada a cabo por alguém que a conheceu e vivenciou na medida em que ela se apresenta. 

Danis Tanovic apostou nos próprios personagens desta história verídica e, empregando-os como atores da encenação de sua experiência comum, obteve um rendimento com a pungência de um documentário de guerra através de uma suposta ficção baseada em atos reais. 

O desconforto da mulher frente às câmeras é patente e a fim de ambientá-la o diretor preservou cenas de descontração filmadas como prova ou testemunho do processo. Mas Nazif é um prodígio de carisma e máscara trágica. Seus dentes que faltam, sua revolta que falta, seu temperamento doce, este somatório de ausências fazem dele o merecedor do título de melhor ator no festival de Berlim a que foi agraciado: um prodígio de logística de produção, inteligência artística e empenho de realização. Sua atuação tem a espontaneidade das crianças (ótimo rendimento) e dos cães. 

Este filme é o território onde estes seres se irmanam artisticamente.
Temos aqui realizado de forma aparentemente simples e com resultado impactante e consciencioso a intenção das mocinhas ocidentais que se arvoram em retratar sua geração nas telas em meio à sua confusão mental e o curto alcance de suas realizações.  Um ET do futuro, de posse de um lote expressivo de filmes do cinema contemporâneo, comparando-os com a história da humanidade de então, ficaria embatucado com tamanho dispêndio de recursos em produtos que em última análise se propõem a demonizá-los enquanto os seres humanos continuam patinado em suas acepções de arte, política e solidariedade.

Quatro estrelas.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Cinema Brasileiro Contemporâneo



“Fores Raras”
(de Bruno Barreto, Brasil 2013)


Se existe uma oportunidade para os cinéfilos apostarem no cinema brasileiro esta está configurada em qualquer projeção decente do filme “Flores Raras” de Bruno Barreto. Dei sorte ao escolher o cine Odeon que, apesar de exibi-lo digitalmente, não apresentou o embaçamento e a negritude interior/noite de praxe.

Este entusiasmo não se explicita de imediato em nenhum elemento ou performance específicos, mas num conjunto por vezes contraditório de acertos e concessões ao gosto e aspirações da classe média letrada e razoavelmente esclarecida do Brasil.

Além do cuidado da elaboração, interiorização e rendimento da mise en scène, assim como no capricho e respeito às categorias técnicas - e principalmente pelo fato de não se afogar no pântano das neopornochanchadas e comediotas de costumes calcadas em personagens truculentos explorados à exaustão no que há de pior da dramaturgia televisiva - esse filme se destaca também pela calculada ilusão de, aproveitando-se do tema universal das histórias de amor e o protagonismo de uma atriz anglo-australiana, dar a impressão de um produto made in U.S.A., uma aventura romântica nas selvas tropicais com 3/4 dos diálogos em inglês.

A fascinação atribuída a diversos fatores que à primeira vista se escamoteiam naquilo que de bom grado as plateias se entregam pela suspensão da realidade é o motor de sua glória, uma armadilha estratégica de olho na aprovação automática e um instrumento da velha necessidade de satisfazer o complexo de vira-latas de ficar bem na foto globalizada.

Não que seja um problema de identidade, nem pouco laudatório de raízes nacionalistas ou patrióticas. O que se vê em “Flores Raras” é uma batalha árdua de fazer prevalecer uma súmula turística com moldura dramática a fim de vender o país para o mundo e conquistar louros retratando uma época mítica no imaginário brasileiro, quando em plena expansão do legado modernista.

A questão política tangenciada de forma burocrática no roteiro (aquele que se lê na fatura final do filme) perde seu impacto e sua ambientação por não deixar claro o que se passou nem para as novas gerações e muito menos para as plateias estrangeiras. Trata-se de um subtexto poderoso para o conflito principal até como forma alegórica de sua definição que, ou pela exiguidade de espaço e tempo (pena-se a priori durante cinco minutos assistindo-se os créditos patrocinadores) ou de negligência no aproveitamento dos fatos, é jogado para escanteio.
A competência da direção de arte é posta em cheque pela sua exuberância e presença ostensiva apesar de conceituada, digamos, através dos olhos da arquiteta Lota Macedo. É irrefutável a sensação de ‘antiquário’, quando a moldura quer se imiscuir no quadro. Quando é necessária a elaboração ou construção de algum set ou elemento cênico, fica patente a sua tibieza.

O gato do mato é tão gordo, grande e bem tratado que se colocassem o Marajá de Baroda paramentado para fazer o papel de Fagin no “Oliver Twist’ de Charles Dickens renderia o mesmo efeito. A escrivaninha de suposta madeira maciça, cenográfica nas suas proporções e design, tem sua pá de cal jogada quando após transportada por vários carregadores é empurrada sem mais delongas pela frágil e conflituosa escritora. A quadra de futebol do recém-inaugurado Aterro de Flamengo apresenta as mesmas cracas de sua deterioração e falta de conservação através os tempos. Quanto ao figurino mais-atarracador-ainda da estatura de Glória Pires, inadvertidamente, suponho, contribui para o acirramento das diferenças e consequente gatilho para o conflito das personalidades das personagens principais.

Miranda Otto, que nunca me dei conta da existência, interpreta sua ambivalente Elisabeth Bishop com muita competência, assim como Gloria Pires na resoluta e voluntariosa Lota Macedo. Na escalação dessas atrizes vê-se um dedo decidido, apontado com muita propriedade, pesando as diferenças, os temperamentos e acima de tudo para a equidade do rendimento dos seus desempenhos. É totalmente crível que aqueles cabelos de fogo de uma vejam estrelas cadentes na cabeleira indígena da outra. E a curiosidade de contemplar as dobras do pescoço de Treat Williams, ressurrecto.

Embalado numa caixa para presente antiga, mas competente, este filme ressoa música até depois de terminada a projeção. É uma música linda, suave, companheira e agregadora, tal como as que tocam nas boites dos infernos da sétima arte. Não há ação, por menor que seja, que não esteja sublinhada por uma frase melódica a corroborar seu significado e intenção. A única diferença entre essas e as tonitruantes, assustadoras e insistentes composições do filme sobre o rei do Baião de Breno Silveira está no tom intimista. Os sucessos da bossa nova, hits nas rádios da época soam distantes, do nosso ponto de vista, e não na organicidade do mundo retratado.

E - perguntas de geladeira - what a hell? Café com caju? Desde quando? Mesmo maçã... E por que o sofá na sala de Nova Iorque? Para Lota se matar mais confortavelmente?
A poesia de Elisabeth Bishop, muitas vezes trazidas à baila para regozijo das plateias, não foram suficientes para a fome de metáforas do filme (a luz dos postes apagando, o barquinho afundando) que também não cortou o início a fala do discurso de inauguração do Aterro, após tanta hesitação do personagem. Desnecessário.

Bruno Barreto nos ofereceu um filme excelente chamado ”Ônibus 174”. Fui assistir “Flores Raras” munido das expectativas do boca a boca positivo e do comentário de uma pessoa que eu considero muito no Facebook. Espero que surta o efeito desejado (dinheiro, prêmios, glória) tanto para os produtores quanto para o país e a cidade do Rio de Janeiro (patrimônio da UNESCO, conforme créditos finais).

Aquele amontoado de patrocinadores que retardam o início do filme não me representa apesar de nesse caso eu não reclamar dos meus impostos empregados na empreitada e ainda ter que pagar para assisti-lo.

Quem souber de um filme onde os casais homossexuais sejam equilibrados, bem resolvidos, conscientes, bem sucedidos e com final feliz, me avise.

"Meu Bem"





"Spring Love", 2010



A princípio Beatriz Milhazes foi para mim uma cabeça privilegiada que traçava uma ponte entre o construtivismo e a arte barroca brasileira. Por mais que seus trabalhos daquela época evocassem à primeira vista esta asserção, ali já se escamoteava uma soma de alusões a procedimentos e disciplinas de muitas escolas da arte contemporânea que certamente uma visão mais acurada poderia vislumbrar, já naqueles anos 90, os desdobramentos que inevitavelmente seu trabalho viria a concretizar posteriormente.

Inevitável deixar-se emaranhar nessa espiral de cores e formas que provoca uma certa suspensão por parte de quem a observa, lançando-nos numa viagem daquele tipo que as gerações jovens dos anos 60 celebravam como escapismo.

Hoje a evasão do real intencionalmente calculada pelas pinturas, esculturas e gravuras desta artista nos coloca frente a uma passagem que se de um lado nos aviva as sensações óticas, por outro consegue provocar um tipo de euforia estupefaciente pelo acúmulo de tantos dados nesta catedral de mandalas, símbolos, rosáceas, listras e outros geometrismos, gerando uma espécie de overdose na mão contrária daquelas duas palavrinhas simples estampadas na fachada do prédio.

As pinturas têm uma fatura, digamos, informal; as gravuras, algumas mistas de xilo e serigrafia, dado o rigor conferido pelo meios mecânicos de sua execução perdem um pouco desta espontaneidade, mas guardam um mistério provocativo ao não deixar traços de onde começa uma técnica e termina a outra.

Para variar no Paço Imperial são proibidas fotografias das obras, com ou sem flash, um tipo de determinação obscurantista e careta contra uma prática que os artistas e a instituição só têm a ganhar com. 
 
Mas consegui fazer estes pouquíssimos registros à revelia. 
 
A pintura "Spring Love" mede somente 300 x 450 cm.                     Os móbiles calculei por volta de 900cm.
(Não existem indicações das dimensões das obras na exposição, um pecado da curadoria

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Parada de Sucessos

A M.P.B. reconfigurada, sacodida, conscientizada, cantada pelo povo na rua.
Rio de Janeiro, 22 de Agôsto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cenografia: Favela




















Como todo mundo sabe passei quase toda a minha vida profissional fazendo cenários na TV Globo. Um deles foi essa Favela, para um fiasco de novela chamado “Pátria Minha”, mas um sucesso de cenografia - a única coisa que deu certo na novela segundo Gilberto Braga, agradecendo-me diretamente. 
Na verdade a coisa começou a chamar atenção antes mesmo da estreia, uma vez que as novelas de Gilberto Braga eram sempre voltadas pra um high society ou algo equivalente em Terras Brasilis. 
O rebuliço foi tanto que meu chefe, Mario Monteiro, uma das jararacas das mais escrotas e felpudas do Projac, resolveu que eu estava demissionário para avançar sobre o trabalho que eu havia edificado. Felizmente sua artimanha não deu certo por que ele não tinha o cacife suficiente para desmandar conforme sua presunção e eu pude terminar a obra. 
Algumas fotos foram feitas após a avalanche, uma chuva torrencial que destruía a favela na história. 
Uma perfeita alegoria dos egos e tratores que pululam naquele ofidiário.

Postado no Facebook em 04 de Agôsto de 2013