sexta-feira, 20 de novembro de 2015
domingo, 28 de setembro de 2014
MAPAS PARA AS ESTRELAS (“Maps to the Stars” de David Cronemberg - Estados Unidos, 2014)
MAPAS PARA AS ESTRELAS
(“Maps to the Stars” de David Cronemberg - Estados Unidos, 2014)
O filme que passa no telão é uma versão de algo em torno de Douglas Sirk, Robert Altman ou Billy Wilder, só que destituído de qualquer emoção. É um partido tomado acintosa e deliberadamente com a finalidade de afetar uma estranheza mais conveniente às narrativas fantásticas dos filmes de terror. Esta postura é um esforço de mediação do mundo real em que habitamos nós os espectadores, através do que involuntariamente convivemos com o que há de mais punk e nocivo à nossa volta e as possibilidades esgotadas dos manuais da indústria do entretenimento. Hollywood é uma fábrica de pesadelos muito mais horripilantes do que os filmes hardcore que produz, e seus personagens, tanto no celuloide quanto nas ruas da cidade, nunca estiveram tão amalgamados em função da esterilidade emocional quanto o Sr. Cronemberg tenta demonstrar.
(“Maps to the Stars” de David Cronemberg - Estados Unidos, 2014)
O filme que passa no telão é uma versão de algo em torno de Douglas Sirk, Robert Altman ou Billy Wilder, só que destituído de qualquer emoção. É um partido tomado acintosa e deliberadamente com a finalidade de afetar uma estranheza mais conveniente às narrativas fantásticas dos filmes de terror. Esta postura é um esforço de mediação do mundo real em que habitamos nós os espectadores, através do que involuntariamente convivemos com o que há de mais punk e nocivo à nossa volta e as possibilidades esgotadas dos manuais da indústria do entretenimento. Hollywood é uma fábrica de pesadelos muito mais horripilantes do que os filmes hardcore que produz, e seus personagens, tanto no celuloide quanto nas ruas da cidade, nunca estiveram tão amalgamados em função da esterilidade emocional quanto o Sr. Cronemberg tenta demonstrar.
O
coeficiente Morfeu pisca alerta em várias cenas, todas esmeradas em
dialogar perversidades, traições, assédios morais, preconceitos, toda
uma súmula que não faria feio na pior novela das oito da TV brasileira. É
um desfile freak de duendes diabólicos, ninfas incendiárias perversas e
assassinas, irmãos incestuosos e cafetões de almas cotejados passo a
passo como numa procissão caminhando irreversível e inexoravelmente rumo
ao inferno das regiões mais sombrias das mentes desavisadas da plateia.
Mas com grife:
1- Com os olhos visivelmente plastificados e condenados à leitura em branco das emoções de John Cuzak;
2- com o physic du rôle do menino Evan Bird (a cara cuspida e escarrada de Paul Eluard por volta de 1930), assustador na elocução de suas falas em registro muito além das de um velho ancião malvado dentro de um corpitxo de lagartixa;
3- com as cicatrizes mal elaboradas do personagem de Mia Wasikowska e sua infundada e irrelevante cosmogonia bicho-grilo recalcitrante;
4- com o desperdício da citação reiterada do magnífico poema “Liberdade” de Paul Éluard - (...) “Grifo teu nome / Em toda carne acordada / Na fronte dos meus amigos / Em cada mão que me afaga “ (...);
5- com Robert Pattinson agora rebaixado ao lugar do motorista da limusine que o conduzia arrogante em "Cosmópolis" - um daqueles filmes "estranhos" em que aqui se refere à obra do diretor do metafilme numa tentativa mais narcísica do que a autocrítica pretendida;
6- ou com Julianne Moore escrachada, falando palavrão, obscena, prestando-se ao trabalho sujo de convencer dramaticamente que aquela mulher aterrorizada por fantasmas e escravizada às drogas (uma entre quase todos que rezam a mesma cartilha neste filme) não é uma mera projeção profissional de si mesma, mas um trampolim para sua glória. Resultado: prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.
Três estrelas por ela ter-me conseguido engambelar tão bem; senão solamente duas. Se tanto.
Mas com grife:
1- Com os olhos visivelmente plastificados e condenados à leitura em branco das emoções de John Cuzak;
2- com o physic du rôle do menino Evan Bird (a cara cuspida e escarrada de Paul Eluard por volta de 1930), assustador na elocução de suas falas em registro muito além das de um velho ancião malvado dentro de um corpitxo de lagartixa;
3- com as cicatrizes mal elaboradas do personagem de Mia Wasikowska e sua infundada e irrelevante cosmogonia bicho-grilo recalcitrante;
4- com o desperdício da citação reiterada do magnífico poema “Liberdade” de Paul Éluard - (...) “Grifo teu nome / Em toda carne acordada / Na fronte dos meus amigos / Em cada mão que me afaga “ (...);
5- com Robert Pattinson agora rebaixado ao lugar do motorista da limusine que o conduzia arrogante em "Cosmópolis" - um daqueles filmes "estranhos" em que aqui se refere à obra do diretor do metafilme numa tentativa mais narcísica do que a autocrítica pretendida;
6- ou com Julianne Moore escrachada, falando palavrão, obscena, prestando-se ao trabalho sujo de convencer dramaticamente que aquela mulher aterrorizada por fantasmas e escravizada às drogas (uma entre quase todos que rezam a mesma cartilha neste filme) não é uma mera projeção profissional de si mesma, mas um trampolim para sua glória. Resultado: prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.
Três estrelas por ela ter-me conseguido engambelar tão bem; senão solamente duas. Se tanto.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
sexta-feira, 30 de maio de 2014
As Projeções Digitais nos Cinemas do Rio de Janeiro
O que os distribuidores parecem não se preocupar é em oferecer
qualidade de imagem e de som em excelentes condições ao público pagante -
o que é o mínimo que se pode esperar de uma sala de cinema.
Os cinemas Laura Alvim e os filmes de menor apelo comercial exibidos nos Itaús da praia de Botafogo no Rio de Janeiro são um verdadeiro caso de polícia e de fiscalização pelos órgãos de defesa do consumidor (leia-se PROCON).
Estes cinéfilos não podem ficar reféns da lata de lixo dos distribuidores e os cineastas precisam levantar-se em favor da integridade de suas obras frente à apreciação do público que com este tipo de descaso verão suas obras sistematicamente relegadas às críticas negativas, a um boca-a-boca brochado e o desinteresse das plateias por sua vez já tradicionalmente impermeáveis ao produto nacional diferenciado do beabá televisivo blockbosta e das cinematografias autorais.
O que não pode é a pessoa pagar 30 reais para assistir um filme que ocupa somente 1/3 do telão por que sua definição precária (mesmo neste formato) ficaria escandalosamente deficitária em seus 100%;
é deparar-se com um som pior do que o da televisão caseira (os filmes brasileiros são em sua maioria praticamente inaudíveis por às vezes somado à sua captação incompetente o volume das projeções e o aparelhamento das salas concorrem para este desastre);
e via de regra imaginar quais cores, luzes e quais formas estão ali escamoteadas por aquela 'cortina de voile' que se impõe na frente das imagens exibidas e até mesmo quando as luzes de tela são esquecidas acesas pelos funcionários das salas.
As execráveis cópias de fundo de quintal nas quais as legendas ocupam quase a metade do quadro trapezoidal, resultante do posicionamento indevido dos projetores que fazem o side show daqueles que exibem os blockbostas, completam o quadro dos horrores a que o público pagante atualmente é brindado pelos cinemas caça-níqueis da cidade maravilhosa. Imagino o que não deve estar ocorrendo no interior, onde mal e porcamente existem cinemas.
Pergunto se são estas as condições oferecidas para que os cineastas nativos tenham suas obras espanadas das prateleiras do esquecimento, recolhidas no gargalo dos interesse das majors estrangeiras que mandam no país e oferecidas ao público a que se destinam e ratificam seu processo de existência enquanto produtos culturais.
Este festival de siglas de máquinas e apetrechos informatizados que concorrem para baratear o custo do negócio e nivelar por baixo a manifestação artística são instrumentos que precipitam alguns exibidores e distribuidores atuais a cuspirem no prato em que comeram quando iniciaram seus negócios nos cinemas de arte, formando gerações de cinéfilos que se somaram aos da fase áurea do cinema brasileiro de invenção ao dar ampla visibilidade à variedade das cinematografias do planeta.
....................................................................
Este texto foi publicado no Facebook comentando o post de Marcelo França Mendes (publicado na página de um amigo) a seguir:
"Acabei de enviar questões objetivas sobre a digitalização dos cinemas para a Ancine. É uma parte da nossa contribuição na chamada pública sobre a questão. Como há muitos membros da Comissão entre os meus amigos e o tempo é curto, pois há uma reunião hoje, coloco aqui esses pontos:
1) OBRIGATORIEDADE DE DIGITALIZAÇÃO DCI EM TODO O COMPLEXO
Pelas regras atuais, um cinema que optar em usar o VPF terá obrigatoriamente que digitalizar todas as salas do complexo até DEZ/2014. Mas há inúmeras salas no Brasil que funcionam com diversos sistemas digitais, do DVD ao INFO3, passando por BluRay, Equinox e Auwe. Por que OBRIGAR essas salas a instalarem projetores DCI em todas as cabines? Um pequeno complexo de duas salas, por exemplo, pode optar em ter um projetor DCI e um sistema alternativo, já que já será difícil para salas como essa conseguir VPFs suficientes para pagar 01 projetor, ter que pagar dois pode colocar a sobrevivência da sala em risco. É certo que tais modelos não são o ideal. Mas a opção de migrar para o DCI deve ser de cada sala, de acordo com suas possibilidades financeiras e sua necessidade de programação;
2) OBRIGATORIEDADE DE COMUNICAR "PROGRAMAÇÃO ALTERNATIVA" COM 30 DIAS
Chega a ser absurda a exigência. Que filmes são programados com tanto tempo de antecedência? Que eventos? Obviamente, os lançamentos "major", as finais de campeonatos de futebol, de tênis, ou seja, a programação dos grandes complexos. Isso não acontece com salas alternativas, com "produtos" alternativos. Essa exigência inviabiliza uma programação mais criativa, antenada com a atualidade;
3) CUSTO
O menor dos projetores DCI para a menor das salas custará a esse cinema aproximadamente 60 mil dólares. Mas o cinema ainda terá que gastar com som e instalações outros XX mil reais, que não são cobertos pelo projeto. Uma boa sala de 100 lugares pode ter uma média de 1.000 espectadores por semana. A grande maioria das salas com essa capacidade não chega a tanto mas vamos considerar, a título de exemplo, um modelo assim:
4.000 espectadores por mês
PMI R$ 11,00
Renda Bruta: R$ 44.000,00
Filme (50%): R$ 22.000,00
Aluguel (15%): R$ 6.600,00
Outros (20%): R$ 8.800,00
Lucro (15%): R$ 6.600,00
Mesmo considerando como corretos os dados acima (15% de margem de lucro é quase impossível de se obter em cinema), temos um cenário onde sobra apenas seis mil reais por mês para o dono do cinema viver. Se ele não tiver VPFs que cubram o custo projetor, como pagará o financiamento?
4) OBRIGATORIEDADE DE RECEBIMENTO DE FILMES EM DCP FECHADO
A justificativa é o controle automático do cinema a distância, para que o integrador possa aferir o conteúdo exibido de forma automática. Ok, mas pode ser feito da mesmíssima forma com o DCP aberto. Além disso, sistemas alternativos como o INFO3 também são capazes de fazer o mesmo e há informações de que um outro sistema alternativo está em desenvolvimento na Paraíba. Além disso, é notório que a chave gera diversos problemas nas primeiras sessões do primeiro dia de programação. Não é raro o cancelamento de sessões por causa da chave. Então por que a obrigação se ela só encarece, dificulta e traz prejuízos?
Para o pequeno distribuidor:
1) OBRIGATORIEDADE DE DCP FECHADO (com chave)
Hoje praticamente nenhuma distribuidora pequena usa DCP FECHADO. E mesmo médias e grandes como Imagem e Califórnia preferem assim quando o produtor autoriza - o que é SEMPRE em se tratando de filmes europeus e nacionais não-blockbusters. Isso porque além de inútil em termos de segurança - pois todos os filmes podem ser encontrados ao alcance de um download ilegal - a logística de fornecimento de chaves para os cinema é custosa, um funcionário, que seja, destacado para fazer isso é um custo desnecessário para uma distribuidora pequena. Além disso, em muitos casos esse custo inviabiliza a marcação, pois é grande o número de filmes que estreiam com apenas uma sessão diária e têm público reduzido. Muitos cinemas exibem filmes assim por opção cultural e não financeira e estão dispostos a oferecer essa opção de programação ao público. Só no Rio de janeiro há algumas salas assim: Estação Botafogo 2, Cine Santa, Jóia, Ponto Cine, entre outros. Por que tornar mais difícil a programação dessas salas e desses filmes? Quem ganha com isso?
2) DATA DE MAIOR OCUPAÇÃO
Talvez o principal problema do modelo para o distribuidor. Um filme pagará VPF por três semanas em cartaz a partir da "data de maior ocupação", ou seja, após o lançamento. As semanas anteriores são consideradas pré-estreias e pagam VPF. O problema que isso só funciona para lançamentos nacionais. Imaginemos o seguinte cenário: o filme "X" estreia com 1 sala no Rio de janeiro. A distribuidora paga, portanto o VPF a essa sala. Após três semanas, uma pequena sala pede o filme e, como não terá que pagar mais VPF, a distribuidora aceita a marcação. Acontece que na sexta semana, por exemplo, o filme estreia em SP com duas salas. Esta data, a oitava semana, passará a ser a "data de maior ocupação" e a distribuidora terá que pagar VPF para aquela sala pequena no Rio que exibiu o filme na quarta semana. Ou seja, se não fizer um lancamento nacional, a distribuidora pagará VPF toda vez que estrear em alguma praça - a não ser que SEMPRE mantenha o mesmo número de salas desde o lançamento, nunca amplie o circuito. Ou seja, o modelo limita o alcance do filme que não se alinha com o modelo;
3) VALOR DE VPF MAIS ALTO QUE O DAS MAJORS
O modelo adotado pelo Brasil para digitalizar suas salas é baseado no sistema americano, criado entre distribuidores e exibidores americanos. O que está sendo dito é que as distribuidoras QUE NÃO ASSINAREM o contrato de VPF com um integrador pagarão um valor mais alto de VPF. Ou seja, uma empresa brasileira que optar em não assinar um contrato criado para empresas americanas pagará mais caro para exibir um filme, muitas vezes brasileiro, quando na realidade é ela que está financiando o mesmo modelo através do CONDECINE, uma vez que 65% dos filmes lançados no Brasil são de empresas assim. Não faz o menor sentido;
4) VALOR POR SESSÃO MAIS ALTO QUE O VPF PARA UMA SEMANA
Não é preciso dizer muito. Se uma distribuidora opta em programar dois filmes por dia numa mesma sala, pagará mais caro que o "X-MEN" , por exemplo. Isto porque o preço unitário por sessão multiplicado por 4 (número de sessões) é maior do que o de um filme com 4 sessões. Por que?
5) ALTA ROTATIVIDADE DE FILMES
Como o cinema só recebe VPF nas três primeiras semanas de exibição, é fácil concluir que ele procurará um novo lançamento do que continuar com um filme em cartaz. Novamente, tudo bem para os blockbusters e os cinemas comerciais, pois essas produções invadem o mercado com vultosas somos em marketing, pois devem ser consumidas rapidamente para dar lugar a outro do gênero. Mas o que acontecerá com os filmes pequenos, muitas vezes lançados confiando numa boa crítica e no boca a boca apenas? Eles precisam de tempo de exposição para serem descobertos. Não é raro que filmes assim fiquem meses em cartaz, pois vão construindo sua carreira pouco a pouco. Com esse modelo isso acaba. Logo, a distribuidoras vão trazer menos filmes, o que fará com que as salas alternativas tenham menos opções. Num segundo e imediato momento essas salas vão ter que migrar para uma programação mais comercial mas elas não vão resistir a concorrência com as grandes salas. O resultado é o fechamento dessas salas e dessas distribuidoras no médio prazo.
O modelo VPF é um bom modelo para parte substancial do mercado, todo mundo ganha. Mas não pode ser levado para todas as distribuidoras e cinemas sob pena de acabar com a diversidade de filmes e com cinemas que não se adequarem ao modelo. O que o governo está fazendo, através da Ancine e do BNDES pode ser entendido por uma simples metáfora: imaginem um lugar onde exista uma seca radical, onde o pequeno e o médio agricultor estejam com dificuldade. O Governo vai ao socorro construindo reservatórios de água para todos. O problema é que ficam longe, só é possível retirar a água com carros pipa. O pequeno agricultor, criador, não tem recursos para o carro pipa e acaba usando parte da sua criação para transportar água, mas esta nunca em quantidade suficiente. Ele tem que diminuir suas poucas cabeças de gado, já bem magros. E aí fica mais difícil obter água. Ele acaba fechando, seco.
Escrevi esse texto com base nas inúmeras informações colidas pelo Bruno Sa, desbravador desse complexo mundo digital. Só não digo que ele assina comigo porque não o perguntei mas esse texto é dele também, certamente".
Os cinemas Laura Alvim e os filmes de menor apelo comercial exibidos nos Itaús da praia de Botafogo no Rio de Janeiro são um verdadeiro caso de polícia e de fiscalização pelos órgãos de defesa do consumidor (leia-se PROCON).
Estes cinéfilos não podem ficar reféns da lata de lixo dos distribuidores e os cineastas precisam levantar-se em favor da integridade de suas obras frente à apreciação do público que com este tipo de descaso verão suas obras sistematicamente relegadas às críticas negativas, a um boca-a-boca brochado e o desinteresse das plateias por sua vez já tradicionalmente impermeáveis ao produto nacional diferenciado do beabá televisivo blockbosta e das cinematografias autorais.
O que não pode é a pessoa pagar 30 reais para assistir um filme que ocupa somente 1/3 do telão por que sua definição precária (mesmo neste formato) ficaria escandalosamente deficitária em seus 100%;
é deparar-se com um som pior do que o da televisão caseira (os filmes brasileiros são em sua maioria praticamente inaudíveis por às vezes somado à sua captação incompetente o volume das projeções e o aparelhamento das salas concorrem para este desastre);
e via de regra imaginar quais cores, luzes e quais formas estão ali escamoteadas por aquela 'cortina de voile' que se impõe na frente das imagens exibidas e até mesmo quando as luzes de tela são esquecidas acesas pelos funcionários das salas.
As execráveis cópias de fundo de quintal nas quais as legendas ocupam quase a metade do quadro trapezoidal, resultante do posicionamento indevido dos projetores que fazem o side show daqueles que exibem os blockbostas, completam o quadro dos horrores a que o público pagante atualmente é brindado pelos cinemas caça-níqueis da cidade maravilhosa. Imagino o que não deve estar ocorrendo no interior, onde mal e porcamente existem cinemas.
Pergunto se são estas as condições oferecidas para que os cineastas nativos tenham suas obras espanadas das prateleiras do esquecimento, recolhidas no gargalo dos interesse das majors estrangeiras que mandam no país e oferecidas ao público a que se destinam e ratificam seu processo de existência enquanto produtos culturais.
Este festival de siglas de máquinas e apetrechos informatizados que concorrem para baratear o custo do negócio e nivelar por baixo a manifestação artística são instrumentos que precipitam alguns exibidores e distribuidores atuais a cuspirem no prato em que comeram quando iniciaram seus negócios nos cinemas de arte, formando gerações de cinéfilos que se somaram aos da fase áurea do cinema brasileiro de invenção ao dar ampla visibilidade à variedade das cinematografias do planeta.
....................................................................
Este texto foi publicado no Facebook comentando o post de Marcelo França Mendes (publicado na página de um amigo) a seguir:
"Acabei de enviar questões objetivas sobre a digitalização dos cinemas para a Ancine. É uma parte da nossa contribuição na chamada pública sobre a questão. Como há muitos membros da Comissão entre os meus amigos e o tempo é curto, pois há uma reunião hoje, coloco aqui esses pontos:
1) OBRIGATORIEDADE DE DIGITALIZAÇÃO DCI EM TODO O COMPLEXO
Pelas regras atuais, um cinema que optar em usar o VPF terá obrigatoriamente que digitalizar todas as salas do complexo até DEZ/2014. Mas há inúmeras salas no Brasil que funcionam com diversos sistemas digitais, do DVD ao INFO3, passando por BluRay, Equinox e Auwe. Por que OBRIGAR essas salas a instalarem projetores DCI em todas as cabines? Um pequeno complexo de duas salas, por exemplo, pode optar em ter um projetor DCI e um sistema alternativo, já que já será difícil para salas como essa conseguir VPFs suficientes para pagar 01 projetor, ter que pagar dois pode colocar a sobrevivência da sala em risco. É certo que tais modelos não são o ideal. Mas a opção de migrar para o DCI deve ser de cada sala, de acordo com suas possibilidades financeiras e sua necessidade de programação;
2) OBRIGATORIEDADE DE COMUNICAR "PROGRAMAÇÃO ALTERNATIVA" COM 30 DIAS
Chega a ser absurda a exigência. Que filmes são programados com tanto tempo de antecedência? Que eventos? Obviamente, os lançamentos "major", as finais de campeonatos de futebol, de tênis, ou seja, a programação dos grandes complexos. Isso não acontece com salas alternativas, com "produtos" alternativos. Essa exigência inviabiliza uma programação mais criativa, antenada com a atualidade;
3) CUSTO
O menor dos projetores DCI para a menor das salas custará a esse cinema aproximadamente 60 mil dólares. Mas o cinema ainda terá que gastar com som e instalações outros XX mil reais, que não são cobertos pelo projeto. Uma boa sala de 100 lugares pode ter uma média de 1.000 espectadores por semana. A grande maioria das salas com essa capacidade não chega a tanto mas vamos considerar, a título de exemplo, um modelo assim:
4.000 espectadores por mês
PMI R$ 11,00
Renda Bruta: R$ 44.000,00
Filme (50%): R$ 22.000,00
Aluguel (15%): R$ 6.600,00
Outros (20%): R$ 8.800,00
Lucro (15%): R$ 6.600,00
Mesmo considerando como corretos os dados acima (15% de margem de lucro é quase impossível de se obter em cinema), temos um cenário onde sobra apenas seis mil reais por mês para o dono do cinema viver. Se ele não tiver VPFs que cubram o custo projetor, como pagará o financiamento?
4) OBRIGATORIEDADE DE RECEBIMENTO DE FILMES EM DCP FECHADO
A justificativa é o controle automático do cinema a distância, para que o integrador possa aferir o conteúdo exibido de forma automática. Ok, mas pode ser feito da mesmíssima forma com o DCP aberto. Além disso, sistemas alternativos como o INFO3 também são capazes de fazer o mesmo e há informações de que um outro sistema alternativo está em desenvolvimento na Paraíba. Além disso, é notório que a chave gera diversos problemas nas primeiras sessões do primeiro dia de programação. Não é raro o cancelamento de sessões por causa da chave. Então por que a obrigação se ela só encarece, dificulta e traz prejuízos?
Para o pequeno distribuidor:
1) OBRIGATORIEDADE DE DCP FECHADO (com chave)
Hoje praticamente nenhuma distribuidora pequena usa DCP FECHADO. E mesmo médias e grandes como Imagem e Califórnia preferem assim quando o produtor autoriza - o que é SEMPRE em se tratando de filmes europeus e nacionais não-blockbusters. Isso porque além de inútil em termos de segurança - pois todos os filmes podem ser encontrados ao alcance de um download ilegal - a logística de fornecimento de chaves para os cinema é custosa, um funcionário, que seja, destacado para fazer isso é um custo desnecessário para uma distribuidora pequena. Além disso, em muitos casos esse custo inviabiliza a marcação, pois é grande o número de filmes que estreiam com apenas uma sessão diária e têm público reduzido. Muitos cinemas exibem filmes assim por opção cultural e não financeira e estão dispostos a oferecer essa opção de programação ao público. Só no Rio de janeiro há algumas salas assim: Estação Botafogo 2, Cine Santa, Jóia, Ponto Cine, entre outros. Por que tornar mais difícil a programação dessas salas e desses filmes? Quem ganha com isso?
2) DATA DE MAIOR OCUPAÇÃO
Talvez o principal problema do modelo para o distribuidor. Um filme pagará VPF por três semanas em cartaz a partir da "data de maior ocupação", ou seja, após o lançamento. As semanas anteriores são consideradas pré-estreias e pagam VPF. O problema que isso só funciona para lançamentos nacionais. Imaginemos o seguinte cenário: o filme "X" estreia com 1 sala no Rio de janeiro. A distribuidora paga, portanto o VPF a essa sala. Após três semanas, uma pequena sala pede o filme e, como não terá que pagar mais VPF, a distribuidora aceita a marcação. Acontece que na sexta semana, por exemplo, o filme estreia em SP com duas salas. Esta data, a oitava semana, passará a ser a "data de maior ocupação" e a distribuidora terá que pagar VPF para aquela sala pequena no Rio que exibiu o filme na quarta semana. Ou seja, se não fizer um lancamento nacional, a distribuidora pagará VPF toda vez que estrear em alguma praça - a não ser que SEMPRE mantenha o mesmo número de salas desde o lançamento, nunca amplie o circuito. Ou seja, o modelo limita o alcance do filme que não se alinha com o modelo;
3) VALOR DE VPF MAIS ALTO QUE O DAS MAJORS
O modelo adotado pelo Brasil para digitalizar suas salas é baseado no sistema americano, criado entre distribuidores e exibidores americanos. O que está sendo dito é que as distribuidoras QUE NÃO ASSINAREM o contrato de VPF com um integrador pagarão um valor mais alto de VPF. Ou seja, uma empresa brasileira que optar em não assinar um contrato criado para empresas americanas pagará mais caro para exibir um filme, muitas vezes brasileiro, quando na realidade é ela que está financiando o mesmo modelo através do CONDECINE, uma vez que 65% dos filmes lançados no Brasil são de empresas assim. Não faz o menor sentido;
4) VALOR POR SESSÃO MAIS ALTO QUE O VPF PARA UMA SEMANA
Não é preciso dizer muito. Se uma distribuidora opta em programar dois filmes por dia numa mesma sala, pagará mais caro que o "X-MEN" , por exemplo. Isto porque o preço unitário por sessão multiplicado por 4 (número de sessões) é maior do que o de um filme com 4 sessões. Por que?
5) ALTA ROTATIVIDADE DE FILMES
Como o cinema só recebe VPF nas três primeiras semanas de exibição, é fácil concluir que ele procurará um novo lançamento do que continuar com um filme em cartaz. Novamente, tudo bem para os blockbusters e os cinemas comerciais, pois essas produções invadem o mercado com vultosas somos em marketing, pois devem ser consumidas rapidamente para dar lugar a outro do gênero. Mas o que acontecerá com os filmes pequenos, muitas vezes lançados confiando numa boa crítica e no boca a boca apenas? Eles precisam de tempo de exposição para serem descobertos. Não é raro que filmes assim fiquem meses em cartaz, pois vão construindo sua carreira pouco a pouco. Com esse modelo isso acaba. Logo, a distribuidoras vão trazer menos filmes, o que fará com que as salas alternativas tenham menos opções. Num segundo e imediato momento essas salas vão ter que migrar para uma programação mais comercial mas elas não vão resistir a concorrência com as grandes salas. O resultado é o fechamento dessas salas e dessas distribuidoras no médio prazo.
O modelo VPF é um bom modelo para parte substancial do mercado, todo mundo ganha. Mas não pode ser levado para todas as distribuidoras e cinemas sob pena de acabar com a diversidade de filmes e com cinemas que não se adequarem ao modelo. O que o governo está fazendo, através da Ancine e do BNDES pode ser entendido por uma simples metáfora: imaginem um lugar onde exista uma seca radical, onde o pequeno e o médio agricultor estejam com dificuldade. O Governo vai ao socorro construindo reservatórios de água para todos. O problema é que ficam longe, só é possível retirar a água com carros pipa. O pequeno agricultor, criador, não tem recursos para o carro pipa e acaba usando parte da sua criação para transportar água, mas esta nunca em quantidade suficiente. Ele tem que diminuir suas poucas cabeças de gado, já bem magros. E aí fica mais difícil obter água. Ele acaba fechando, seco.
Escrevi esse texto com base nas inúmeras informações colidas pelo Bruno Sa, desbravador desse complexo mundo digital. Só não digo que ele assina comigo porque não o perguntei mas esse texto é dele também, certamente".
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Terra Prometida/ Promised Land (Gus Van Saint)
Filme de Gus Van Saint
(Estados Unidos, 2012)
Existem riquezas subjacentes ao convívio humano que nenhuma
força multimilionária é capaz de destruir, assim como aquelas que o planeta
provê para a subsistência das espécies guardadas com muito zelo pela mãe
natureza em suas profundezas que, apesar de todas as tentativas inócuas de suas
explorações comerciais, continuam desafiando a engenhosidade destruidora do
capital face à sua grandeza e inesgotável capacidade de resguardar-se nas
entranhas do planeta.
Esta crença, base da esperança de pessoas que dependem da terra
como instrumento e provedora de sua razão de existir, procriar, alimentar-se e
produzir bens de consumo é o alicerce deste filme cuja receita de bolo é tão
assumidamente bem levada a cabo, que não nos resta outra opção que saboreá-lo
como uma iguaria prosaica, consumida com o prazer de um reencontro de certezas
há muito enraizadas em nossas papilas gustativas que rendem homenagem à sua delícia
e seu acabamento.
Tudo o que esperamos de um filme americano - os conflitos em
vários níveis, coletivos e pessoais, a ação do elemento desagregador e sua redenção
final, a pitada de romantismo simpático, delicado e cativante, as intepretações
naturalistas sem afetações ou estrelismos, a pincelada social e política para
situar o plot - tudo está sob medida, pesado, misturado com parcimônia e assado
na temperatura exata de um bolo a ser degustado na sessão da tarde acompanhado por
uma limonada de 25 centavos.
As imagens idílicas do interior da América, um sensação do tempo
estancado ao longo das gerações que se sucedem no cultivo e exploração das
fazendas agrícolas e a simplicidade das gentes em seus costumes fazem deste
filme uma adorável experiência aquecedora de corações e mentes.
Direção segura, decupagem inventiva (até o ponto em que o roteiro
muito bem amarrado suporta), fotografia sem artifícios como supõe o trato com a
ambientação proposta, direção de arte “invisível” (a melhor), e elenco cativante
são os pontos decisivos que fazem esta “Terra” oferecer mais do que promete.
4 from the 5 stars
There are
underlying human coexistence riches no multi-million dollar strength is able to
destroy, as well as those that the planet provides to the subsistence of the
species kept with much zeal by mother nature into its depths that, despite all
attempts to harm their commercial holdings, continue challenging the destroying
engineering of capital in the face of his greatness and inexhaustible capacity
to protect themselves in the bowels of the planet.
This
belief, based on the hope of people who depend on the land as a tool and
provider of their reason to exist, breed, feed and produce consumer goods is
the foundation of this movie whose cake recipe is so unapologetically well
carried out, that we have no choice but to relish it as a prosaic delicacy, consumed
with the pleasure of a reunion of certainties long time rooted in our taste
buds, rendering homage to their delight and its finish.
Everything
that's expected of an american movie - conflicts on several levels (collective
and personal), the action of the disintegrating element and his final
redemption, the hint of nice romanticism, delicate and captivating, the
naturalistic interpretations without stars affectation, the social and
political stroke to situate the plot - everything is tailored, weighed, mixed with
parsimony and roasted in the exact temperature of a cake to be tasted in the
afternoon accompanied by a 25 cents lemonade.
The idyllic
images of America country landscapes, a feeling of time controlled over the
generations that succeed one another in the cultivation and exploitation of
agricultural farms, and the simplicity of the people in their natural habitats
make this film a lovely warming experience for hearts and minds.
The safe
direction that plays with inventive matches (to the extent that the screenplay
nicely tied bears), photography without artifices as if assuming a deal with
the proposal, "invisible" art direction (the best), and captivating cast, are
decisive points that make this "Earth" offer more than promises.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Amazônia, o Planeta Verde
Filme de Thierry Dagobert
Brasil/França, 2013
Fui tomado por uma sensação incontrolável de nostalgia ao
assistir este documentário disfarçado de pretensa ficção que atende pelo nome “Amazônia”,
uma xerox colorida já um tanto desbotada das reportagens do National Geographic
Channel, algo com que eu me deleitava com certo gosto quando ainda me restavam
resquícios da herança escravagista atrelado na frente de um monitor como um fugitivo
no pelourinho.
Depois de abolida a televisão em minha casa - e lá se vão mais
de 6 anos - restou-me este ressaibo acridoce ao final da sessão deste filme, na
certeza de ter usufruído o melhor de:
1- Arnaldo Jabor no papel da Anta,
2- de Fernanda Montenegro fazendo a poderosa e arquejante Sucuri com as burras cheias dos recursos naturais,
3- Regina Duarte interpretando a macaca morrendo de medo do chefe da nação troglodita,
4- Marilia Pera como a traiçoeira Aranha tecendo sua teia para a entrada do veneno collorido nas veias do herói,
5- Miguel Falabella sem necessidade de laboratório para executar com maestria o seu Viado,
6- dos executivos da Central Globo de Produção do PROJAC encarnando os madeireiros arrasa-quarteirão das florestas,
7- de Luis Inácio Lula da Silva dando show como a Águia, escandalosamente emplumada, de garras afiadas prontas para massacrar as presas mais indefesas e logo após dizer que promoveu o bando de macaquitos a orangotangos,
8- e a bicha-galã global da vez no papel do macaquinho protagonista.
1- Arnaldo Jabor no papel da Anta,
2- de Fernanda Montenegro fazendo a poderosa e arquejante Sucuri com as burras cheias dos recursos naturais,
3- Regina Duarte interpretando a macaca morrendo de medo do chefe da nação troglodita,
4- Marilia Pera como a traiçoeira Aranha tecendo sua teia para a entrada do veneno collorido nas veias do herói,
5- Miguel Falabella sem necessidade de laboratório para executar com maestria o seu Viado,
6- dos executivos da Central Globo de Produção do PROJAC encarnando os madeireiros arrasa-quarteirão das florestas,
7- de Luis Inácio Lula da Silva dando show como a Águia, escandalosamente emplumada, de garras afiadas prontas para massacrar as presas mais indefesas e logo após dizer que promoveu o bando de macaquitos a orangotangos,
8- e a bicha-galã global da vez no papel do macaquinho protagonista.
Surpreendeu-me a lista de treinadores e domadores de animais dos
créditos finais como se este bando de bestas quadradas precisassem de alguma
educação para mostrar seu potencial irracional.
Já ia me esquecendo:
9- da Vera Fischer, a ex-barraqueira, agora nos seus estertores de Onça
10- e do Povo Brasileiro dando pulinhos de alegria como os simpáticos Botos.
9- da Vera Fischer, a ex-barraqueira, agora nos seus estertores de Onça
10- e do Povo Brasileiro dando pulinhos de alegria como os simpáticos Botos.
Quanto ao Macaco Mau,
11- adivinhem quem é?
12- E a Cobra Coral, aquela que costuma trajar vermelho?
Paisagens lindas, um colírio alucinógeno extraído dos cogumelos
lisérgicos da floresta, sob medida para escamotear as agruras de seus
habitantes e mostrar para o mundo que seu pulmão não está corroído pela ambição,
pelas endemias, os interesses farmacêuticos, capangas assassinos, partidos
políticos desmatadores e nações indígenas dizimadas.
Depois que passa o efeito dos cogumelos dá uma larica dos diabos,
mas o filé já está comprometido.
sábado, 28 de setembro de 2013
Sapi
Filme de Brillante Ma. Mendoza
(Filipinas, 2013)
Os filmes de Brillante Mendoza, em sua crueza típica e
sexualidade exacerbada, parecem apontar para uma matéria diferente daquilo que
a princípio estamos vendo na tela: “Masahista” acompanha o velório do pai do
protagonista enquanto se desenrola suas aventuras de michê num clube de
massagem masculina; “Serbis” narra o cotidiano de uma família residente no
último pavimento de um cinema pornô de pegação gay em meio aos esforços da
matriarca para salvar o negócio da família e mantê-la unida; “Kinatay” expõe
com implacável descrição gráfica as atrocidades da máfia local em respostas às
maracutaias de uma prostituta envolvida no tráfico de drogas (a famosa cena da
decapitação já virou antologia). Em que estas matérias nos ilumina?
Até aí, pelo menos nestes três filmes que assisti, Brillante
Mendoza parecia querer utilizar o sexo e a violência sempre com um fundo de
religiosidade camuflada (advinda da forte presença da moral católica, herança
da dominação espanhola antes que os americanos entrassem arrasando o quarteirão
na segunda guerra) para tecer uma cinematografia iconoclasta que lhe valeu a
atenção do mundo ocidental em festivais pelos quais estas obras foram exibidas.
Na descrição dos costumes locais, a urbanidade das cidades, os
típicos meios de transporte, a alimentação, fornecia amostras de uma comunidade
dividida entre influências múltiplas aspirando através de percalços uma contemporaneidade
a algumas léguas de distância.
O atavismo arcaico
dos costumes ancestrais praticados a seu tempo e velocidade próprios em
conflito com a massificação e a urgência da modernidade, forneceram material
para a edificação de uma dramaturgia calcada propositadamente em desequilíbrios
formais e narrativos que lhe pespegaram uma marca própria.
Dadas as circunstâncias, obteve posteriormente em “Lola” um
resultado mais ameno ao retratar o universo de duas avós, uma que luta para
descobrir o corpo de seu neto assassinado e de outra, supostamente acobertadora
do neto assassino. A delicadeza e uma espécie de poesia fluvial com que
conduziu esta ficção parecem ter dado a este diretor um passaporte internacional
com a adesão de Isabelle Hupert no elenco de seu filme “Captive” - uma saga dos
reféns de um grupo terrorista em confronto com a política local. Provavelmente
por se tratar de matéria verídica, um acontecimento fartamente ilustrado e
relatado pelas mídias, este foi, talvez, seu empreendimento menos bem sucedido,
aquele em que seu imaginário kitsch, escandaloso, instigante, sufocou na
presença de uma renomada atriz e na responsabilidade inerente ao trato de um
fato real.
Em “Sapi”, o senhor Mendoza parece querer livrar-se desses
grilhões impostos tal como as vítimas deste filme pretendem exorcizar el diablo de seus bodies.
Uma cobra gigantesca invade a produção de uma poderosa rede de
televisão local de Manila, grande concorrente de outra na cobertura dos eventos
de possessões sucessivas e inexplicáveis que se avolumam desde que um violento
temporal devasta as cidades e estradas provocando inundações e relâmpagos
antediluvianos em plena era da informação massificada. Esta cobra parece
anunciar o cataclismo que está por vir. Aqui novamente a rotunda católica e o
castigo dos céus pululam em meio a relâmpagos incessantes, gritos e sussurros
cavernosos de almanaque, sublinhando cenas triviais e visões estarrecedoras de
um fim de mundo em curso interminável como o próprio filme.
A urgência ambiental é patente e muitas vezes maniqueísta. O mal
se dissemina no corte das árvores de um quintal, no acúmulo de lixo das
comunidades, na histeria das atitudes frente a um fato propalado irresponsavelmente
pela televisão, a calamidade não tem solução possível.
Se os ritos locais (onde tem Jesus o diabo campeia) fossem a
tônica da configuração das ações de combate ao mal inexorável (a galinha é um
deles, muito semelhante ao candomblé africano, tangenciado apressadamente) este
filme nos ofereceria um contraste mais acelerado de sua intenção de colocar em
cheque a informação, o mundo virtual e o arcaico.
Mas, ao emular a estética contemporânea dos filmes e terror em
detrimento de uma expressão local de crenças e manifestações de possessão,
“Sapi” se afoga na enxurrada que o conduz - o que não é necessariamente
involuntário, mas também uma assumida tentativa de suicídio que nos alerta para
seu sarcasmo e crítica da estética televisiva, elaborada em planos curtos e nas
interpretações burocráticas de apresentadores de telejornais.
Ficamos assim a mercê de um desfecho que não chega nunca e uma
proposta que não fecha em meio a desnecessárias variações cromáticas e
texturais de sua fotografia somados à repetição de cacoetes de câmera na mão
desestabilizadoras de um quadro saturado de elementos consagrados
reiteradamente à fé, ao lixo e à estética dos registros de switch.
Como o número um do ibope a qualquer custo exigido pela
presidenta da rede de televisão, Brillante Mendoza parece ter-se esbaldado como
um pinto no lixo em contrapartida de sua libertação das imposições formais de
sua arte, mas acabou cometendo os mesmos pecados que parece, pelo menos a
primeira vista, condenar. Perturbadora e na contramão (risível) a visão da
cobra expurgada da vagina da produtora, excelente a atmosfera sombria quando
consegue se manter por mais do que uma sequência inteira e um espetáculo o
petisco chamado Baron Geisler.
Xô, diablo, sai deste filme que não te pertence.
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