terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Letter


Algum Lugar, Setembro de 2010

Prezado Sr. Wim Wenders:
Desculpe-me escrever assim tão de repente e aparentemente sem motivos.             
A culpa é de papai que sempre me incentivou a frequentar cinemas não só por conta da nossa atividade familiar, mas por acreditar em importantes ganhos culturais através de manifestações cinematográficas dos diversos países, suas histórias e lendas - um upgrade na minha educação formal em escolas. 
Nestas, a cada vez que eu externava algum tópico cinematográfico para ilustrar a pauta das aulas, meus colegas caiam num tédio insolente,  intolerantes e indisciplinados, quase sempre no limite do sufocante cenário de  uma praça de guerra (...nas Estrelas"?).
                                                                                                             Assim, lá pelo final anos 70 do século passado, eu perguntava à professora se ela conheceu o Sr.William Randolph Hearst. Quando me respondeu que não poderia tê-lo conhecido pessoalmente posto que este já havia passado desta para melhor antes de seu nascimento, mas ao afirmar que a lenda dos seus feitos confirmam algumas consequências algo funestas de suas maquinações como capitão da indústria da comunicação em nosso país da liberdade (que atende melhor aos que têm dinheiro para gastar) a água do meu banho começou a escorrer pelo ralo, pois pela primeira vez na vida estava cheek-to-cheek com uma realidade temporal totalmente fora dos parâmetros (ou falta deles) em que eu digeria este fenômeno em meu convívio familiar. 

Ali fui sequestrada do limbo cinematográfico onde eu confundia personagens de ficção com pessoas de carne e osso atuando numa realidade comezinha e totalmente desglamurizada, a famosa história com 'H' maiúsculo.
Foi um confronto abrupto com um mundo muito mais misterioso e fascinante do que aquele que se fazia passar por realidade na tela. De qualquer maneira esta minha, digamos, epifania, deveu-se também ao cinema enquanto fato e função: Sempre ele.                                                              
E viver de cinema passou a ser meu cotidiano, tanto nas salas de exibição quanto acompanhando sua produção atrás das câmeras - meu pai na busca do dinheiro para seus projetos megalôs, principalmente junto àqueles que o cumprimentaram ao talhar sua mão para ingressar numa família muito peculiar e paralela à nossa (esta em que o sangue corre só nas veias e artérias, pelo menos em tese). 

Foi muito simples para mim absorver a consequência lógica daquele gesto cristalizado em longos metros de celulóide no propósito não só de glamurizar a truculência daqueles senhores em busca de poder e dinheiro - não necessariamente nesta ordem apesar dos rígidos códigos de conduta - mas também fazer disso um produto planejado para justificar a aceitação de suas existências espúrias no imaginário consumista popular, ratificando-as pelo elogio das inteligentzias. Foi um "Golpe de Mestre", o senhor não acha?

Como previsto - dinheiro gera dinheiro - brotaram mais sequências do que chuchu na serra, e de repente quem estava ali, perdida e sem jeito em meio a uma legião de fantásticos profissionais descolados e célebres? Euzinha aqui, ó, meu narigão, minha confusão mental, fazendo apologia de minhas raízes carcamanas ostentando um cartaz da "Cavalleria Rusticana" de Mascagni.

Então protestaram; afirmavam haver uma batata podre dentro do saco! E foi um deus-nos-acuda: Precisei ser internada para me reabilitar da crise provocada pela rejeição daquele mundo que foi outrora o meu chão e cujo tapete foi puxado de sopetão: Que desilusão!       
Jogaram-me para o alto e minha matéria volatilizou-se naquele limbo, ninguém conseguia me trazer de volta. Depois de muitas pajelanças lembraram de uma ocasião em que um ilustre antepassado nosso também passou por esse tipo de desorientação, bastando tão-somente amarrar uma linha de papagaio em seu pé para despertar do pesadelo. 

Comigo surtiu o mesmo efeito: Desci suavemente naquela praia e quando dei por mim estava refestelada num hotel de luxo (sempre ele também), cercada pelos preparativos de um filme que ninguém sabia qual. Nesta altura decidi acender uma vela, pedir licença aos meus orixás, em especial ao caboclo Frederico, sacudir a poeira e dar a volta por cima, pois havia chegado a hora desta gente carcamana mostrar seu valor.                    
Em meio a este tumulto rascunhei a história do que viria a ser o meu filme "Lost In Translation" (2003) que a princípio foi olhado com desconfiança pelos meus vizinhos de switch, de soslaio pelos produtores e com uma ponta de inveja por alguns meus contemporâneos que, possuidores de talentos reconhecidos e insofismáveis, não tinham o decote tão climatizado quanto o meu.    
Minhas angústias, inseguranças, minha solidão tantas vezes maquiada e domesticada, tudo encharcou-se nas mesmas fontes e cachoeiras em que se banharam tio Frederico e tio Michelangelo  afogando suas mágoas a cada vez que não se julgavam devidamente bafejados pelo sopro das musas que volta e meia insistiam em se afugentar na 'Dolce Vita' olímpica, muito mais emocionante  que as atribulações daqueles pobres mortais desesperados à caça da notoriedade, da glória e da ascendência sobre os seus - infelizmente para quase todos - iguais. 

Aprendi uma coisa muito proveitosa com minha mão pesada ao quase matar de exaustão uma equipe cinematográfica japonesa e depois de deixar relegado à própria sorte um célebre ator americano do tipo estabelecido na identificação de sua persona pública seja lá onde esteja pisando, tanto no trágico quanto no cômico (caso um ou outro fossem sérios),  
um produto reiterativo e retardatário da melhor tradição daquelas divas do século XIX que faziam do temperamento forte a ferramenta de seus propalados talentos, idênticas assim na Madalena quanto na Virgem Maria (que hoje ainda vicejam nos brejos mais atrasados de culturas escravizadas ao material veiculado pela televisão e aos interesses das elites oligárquicas locais).
Depois de quase me internarem novamente ao  deparar-me com o material filmado na sala de montagem (o que não aconteceu pela pressão do estúdio, dos investidores e de quase provocar uma vendetta entre as famiglias envolvidas), descobri que me expresso melhor pelo que é omitido por que falta, do que o exibido pelo que abunda. Logicamente o senhor lembra bem o que aconteceu, é claro: Ganhei o Oscar de melhor roteiro daquele ano.
Enfim, com meu passaporte finalmente carimbado ninguém me segurava mais. Formaram-se filas nas portas do meu agente, os telefones gastavam uma bateria completa de meia em meia hora, minha cama não conseguia tranquilizar-se por mais de um quarto do dia, sacudida pelos mais renomados e cobiçados partidos, os filés mais suculentos do pedaço.                  
Entretanto vozes ecoavam em minhas poucas ocasiões de recolhimento. Diziam: "Te cuida que agora teu buraco é mais em baixo. Lembra-te do teu trenó!".
 
Acordava sobressaltada, sugada velozmente pelo vórtice da roda-viva girando a nem lembro mais quantos frames por segundo, e quando dava por mim lá estava eu cavalgando uma piroca atrás da outra, um celular em cada ouvido, cinco laptops em volta ejaculando emails, convites, promoções, feiras, gente batendo insistentemente na porta, papai cada vez mais distante (dizem que se enrabichou por uma mulata bossa-nova no Rio de Janeiro onde não conseguiu amealhar as regalias e a babação de seus ovos que o vizinho mais abaixo lhe concedeu para rodar outro de seus atuais desastres travestidos em filmes-cabeça).
Até que resolvi dar um basta neste frenesi dedicando-me ao estudo das nobrezas européias no intuito, quem sabe - se não lambuzar o selo não cola - de assimilar mesmo que enviesadamente um pedigree que a fama e minhas inconfessáveis mas expostas raízes carcamanas sabotavam a cada aproximação.
Não sei se o senhor percebeu o meu fraco por meninas loiras e rocknroll, patente desde meu primeiro filme "As Virgens Suicidas".  
Na verdade eu queria filmar o "Middlesex" do Jeffrey, romancista modernette amiguinho, com trânsito na minha tribo noviorquina, mas eu não saberia afetar o mesmo savoir-faire com tantas pesquisas a serem realizadas sobre a história real da America contemporânea negligenciada por mim na imersão das realidades fílmicas: Para mim Panteras Negras eram uns caras invocados de óculos escuros trafegando sobre motos envenenadas e gritando palavras de ordem na televisão; Malcolm X era um cara estiloso e cheio de suingue num filme de Spike Lee; Angela Davis quem sabe fosse a matriz daquela menina loira que resolveu libertar seu imenso clitóris, assumindo sua porção masculina privilegiada e discutível segundo os padrões das sociedades geladas naquela mansão modernista de Detroit, longe no tempo e na geografia.




  
Esta minha praia ( loirinhas e rocknroll) também foi o cenário do "...Translation". Naturalmente eu precisava juntar estas inquietações basiquinhas num projeto de emancipação sangue-azul: Quem melhor poderia acomodar minha trilha sonora e fetiches arianos do que aquela vaporosa rainha decapitada que amava os doces? Só ela mesma!
E lá fui eu de novo como uma tola procurar o desconsolo que cansei de conhecer:  E deu no que deu.
Desta vez a reação foi unânime, até no terceiro mundo. Não dava para esconder meu despreparo para evocar mesmo como se fosse um telão pintado ao fundo ou um leit motiv singelo e facilmente absorvido a revolução que nos concedeu este status que até hoje a banda ocidental do mundo usufrui (alguns mais outros menos segundo suas inclinações e oportunidades) da prática da egalité, da fraternité e de la liberté.
Muito aqui entre nós - e que ninguém se aperceba - estas três palavrinhas mágicas sempre me evocaram mais os peitos saltitantes daquela senhora guiando o povo do que a possibilidade de outros credos comungarem na mesma doutrina, mesmo que sob uma burca ou com lenços a esconder os cabelos.

Aquilo para mim era mais o território da patisserie do que da política, da alienação com que eu e todos os eleitos pela vontade divina (que segundo suas próprias leis e designações arbitrárias) nos libera para viver no melhor dos mundos, do que da luta pela emancipação popular. 
Desisti de me tornar rainha, pois que este projeto ainda remontava àquelas aulas que o Sr. Hearst assombrava como um projeto de imperador que nada tinha de ingênuo. Minhas melhores expectativas naquela época e que até hoje acalento salivando, era aquele momento lindo em que tocava o sinal liberando a turma para o recreio e eu corria orgulhosa, sequiosa e devoradora para comer meus doces na cantina do colégio. Bastante adequado para a performance de uma rainha louca, mas engordante demais para suportar toda aquela parafernália fashion barroca.

Entendi que depois destas experiências eu só poderia seguir filmando se demonstrasse estar pisando num tapete preso de tal modo que não pudessem me sacudir para o alto novamente.
Foi quando num dia de tédio e chuva estava eu à frente de um monitor revendo aquele seu filme em que uma garotinha muito esperta viaja de volta para casa e, perdida das referências de sua família (apesar de em seu próprio país) por não contar mais com a guarda da mãe em crise existencial que resolveu dar um tempo na América, a eterna grande-mãe de desorientados e serial killers que não conseguiram seguir carreira em filmes de ação, deixou-a entregue nas mãos de um recém-conhecido. 

Lembro-me de que ainda menina papai fazia questão que eu assistisse a este filme, talvez na esperança de me inocular o desejo de me tornar atriz ou algo equivalente. Mal sabia ele que este veneno iria me corroer por vias menos ilustres ou convencionais.                                      

Apesar de não termos, entre o senhor e eu, laços de parentesco, de origem nem acordos pró-forma de lealdade, senti que no seu filme multiplicava-se o vírus de algo de difícil digestão a princípio para ser traduzido em palavras, mas acomodavam-se cnfortavelmente dentro de mim aqueles deslocamentos que se processam numa velocidade infinitamente maior agora do que a dos personagens da década de 70 - uma geração analógica, a película, o 35, o 16mm e o super oito como ferramentas, e principalmente dando conta do recado com tanta bravura ao antecipar muitas das questões que hoje são moedas correntes disso que se tornou o nosso insensato mundinho.

Fiquei tão pesada e chapada no sofá que quase foi necessário chamar um guindaste para me arrancar dali. O golpe fatal foi a forma simples com que o senhor colocava tantas coisas a respeito das culturas da América e da Europa, traçando um paralelo entre as duas assim como lamentava sua desilusão com o fim dos sonhos, jogando sem piedade em minha cara o abundante material sobre as raízes e a consciência do tempo, desdobrando-se através da história de uma criança e um homem em crise criativa a tecer considerações sobre as aventuras de se viver num mundo real ou ideal.                                        
Eu me projetei ali integral e desestruturada, centrada e rarefeita, perdida na leitura das legendas. Mesmo o meu amiguinho rocknroll soava estranho. Não consegui dormir apesar daquela berceuse ficar bombando exaustivamente em minha consciência por dias a fio.  Perguntava-me como um gringo a alguns anos da globalização pudesse intuir tanto a respeito do meu país e de um novo mundo ainda em processo embrionário.

Mas afinal pelos meus direitos adquiridos no que concerne ao meu país - longe da xenofobia, vamos deixar claro, afasta de mim esse cale-se - e  encontrando-me novamente em apuros neste momento crucial de dar um novo passo nas minhas carrière e derrière, resolvi deixar os escrúpulos de lado e acelerar a marcha rumo a uma variação daquilo que me deu um Oscar: 

Mudei a paisagem, troquei os laços sanguíneos, viajei terras longínquas e economizei nos diálogos, não porque não tivesse nada a dizer, mas por que em minha garganta um grito sufocava em pânico. 
Ao final tinha um roteiro - não sei se merecedor deste nome, talvez uma visita aos quadros de uma exposição, talvez um encadeamento das estrofes de uma música ou poema - que de longe evocava o retrato de uma geração privilegiada que recebe tudo de bandeja sem precisar mover uma palha  além da obrigatoriedade de satisfazer o apetite da máquina que mantém a prensagem do dinheiro em atividade: Basta estar no lugar certo e com as pessoas certas, tudo uma questão de sincronicity como começaram a gritar no rock dos anos 1980 e não pararam mais.

Como prender a atenção de uma platéia, qual a possibilidade de um conflito real num panorama destes? Quais as ações evidenciadas, por exemplo, numa pintura de Edward Hopper que o senhor tão bem traduziu em imagens das estradas, lanchonetes e motéis da metade americana do seu filme? Qual o filme possível afora uma variação daquele responsável pela minha gloriosa premiação?  
Foi assim que rodei este "Somewhere", 2010, procurando ser o mais econômica possível, evocando o que o mundo me espremia contra a parede. Estava emparedada como o ator que tira o molde de sua cabeça para uma máscara de efeitos especiais. Sentia-me perdida dentro dos limites de um hotel ou à beira de uma piscina  ao ar livre.

Mas preciso levar esta minha vida, ops!, meu filme adiante, não é mesmo? Não vou fazer como muitos por aí, botar um termo na situation, até porque minhas indagações cabem com folga no espaço de um tweet e não comportam desmedidos gestos old fashioned. Afinal não posso trair os traços mais evidentes e contemporâneos da minha geração. Sem eles estaria vivendo - ops! novamente - filmando uma história antiga, articulada, cheia de palavras nobres e profundas, arrematada com ou sem happy ending.

Agora o que me resta é seguir a receita, exceto se algo de muito ou profundo ou novos ingredientes me acontecerem, o que a curto prazo confesso a impossibilidade: A celebridade a serviço dos interesses dominantes, sua solidão, sua adesão sem questionamentos à manutenção do status das elites dominantes, uma rápida passagem em terras estrangeiras para não perder o fio da globalização e da imposição de nossa indústria do entretenimento em verdejantes quintais abroad.That's it.

Na minha próxima encarnação virei como um cineasta decadente que comerá aquela mulata bossa-nova num balneário brasileiro, serei entrevistada pelo Baú da Felicidade e ganharei o troféu Contigo no Copacabana Palace logo após uma indigestão de feijoada e caipirinha, atrapalhando a evolução de minha escola de samba cujo enredo será ... "Alice Nas Cidades". 

Fade Out.        

Sincerely Yours,

Sofia Carmina Coppola




P.S.:
Apesar de tudo e contra todos os inevitáveis revezes das vozes dissonantes, meu mundo não caiu e me fez continuar filmando assim: 
Cenário: minha Los Angeles querida, meu berço esplêndido; 
Plot: a loucura consumista e o messianismo da cultura das celebridades. 
Em suma: nada de novo capaz de despertar da minha letargia juvenil já um tanto tardia e clamando por mudanças. 
Resultado: “Bling Ring”. 


Levei-o, toda animada, para a abertura de uma seção do Festival de Cannes e saí de lá com o rabo entre as pernas, qual cadela escorraçada pelo silêncio constrangedor que se abateu sobre este meu novo deja vu. Estou perdida. 

Fui.
 





segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Bispo do Balaco Joga No Meu Time



Bispo recusa comenda e impõe constrangimento ao Senado Federal.


Num plenário esvaziado, apenas com alguns parlamentares, parentes e amigos do homenageado, o bispo cearense de Limoeiro do Norte, dom Manuel Edmilson Cruz impôs um espetacular constrangimento ao Senado Federal.
Dom Manuel chegou a receber a placa de referência da Comenda dos Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, das mãos do senador Inácio Arruda (PCdoB/CE).
Mas, ao discursar, ele recusou a homenagem  em protesto ao reajuste de 61,8% concedidos pelos próprios deputados e senadores aos seus salários.
“A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi dom Hélder Câmara. Desfigura-a, porém. De seguro, sem ressentimentos e agindo por amor e com respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la”.
O público aplaudiu a decisão.
O bispo destacou que a realidade da população mais carente, obrigada a enfrentar filas nos hospitais da rede pública, contrasta com a confortável situação salarial dos parlamentares.
E acrescentou que o aumento “é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão contribuinte para bem de todos com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”.
Parabens Dom Manuel!!!!





sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Revolução


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Om Kalsoum foi a maior expressão da música egípcia de todos os tempos mas infelizmente nos deixou ainda nos anos 70 do século passado. Foi responsável por muitas travessias do mediterrâneo empreendidas por Maria Callas e Onassis para assistir às suas  performances. Aqui não foi devidamente divulgada por motivos vários que qualquer frequentador do SAARA no centro do Rio de Janeiro poderá esclarecer com os membros mais idosos da comunidade. Influenciou meio mundo de Natacha Atlas à trance music que filtra,  pasteuriza e encapsula em ecstazy suas influências, mas chegou a hora dessa gente bronzeada revelar as genuínas vozes do mundo árabe, sufocadas pelas ditaduras e pelos fundamentalismos religiosos. 
Que a atual vitória dos anseios e empenho do bravo povo egípcio, para os quais aqui deixo meus parabéns e solidariedade - exaltando a grande emoção sem paralelos do júbilo popular quando se liberta das ditaduras e das arbitrariedades de seus algozes - libertem  as manifestações culturais daqueles povos.  
Façamos votos que esta nova promessa de democracia não repita os vícios e as falácias de outras que, como nos Estados Unidos da América e seus quintais mundo afora, existem para privilegiar as elites em detrimento da educação, da saúde e dos direitos civis da grande maioria traída e contrafeita que os colocou no poder.
O You Tube tem vários vídeos de Om Kalsoum.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

mooreround

 
Em 2005 ou 06 estive numa exposição de esculturas e desenhos do grande Henry Moore na Pinacoteca em São Paulo. 
Tive a sorte de terem liberados fotos e filmagens para talvez algum órgão de imprensa ou divulgação e resolvi pegar uma carona na situação acionando minha camereta digital tudo-em-um que jazia há muito no fundo da mochila.
Fascinado com as formas opulentas e algo expressionistas daquele escultor, vi-me impelido a dialogar com aquelas imagens de forma a captar todas as suas faces e ângulos circulando ao seu redor. 
Quando finalmente, depois de esquecer alguns dias estes registros na câmera resolvi montá-los, me decidi pela decupagem destas imagens enfatizando seu processo de desconstrução. 
Montei a sequência colocando as primeiras obras que ainda guardavam certa inteireza e dialogavam com o mundo tal como vemos para fragmentá-las progressivamente até ao nível da abstração. Daí surgiram dois filmes, o outro ilustrando um poema de Bertolt Brecht. 
Na época eu mantinha uma conta no You Tube, lonelycopacabana
onde postava alguns filmetes experimentais, montagens de algumas sequências de materiais aleatórios que de certa maneira formavam algum tipo de narrativa. 
Este vídeo aí, mooreround, com a colaboração de alguns compassos de um movimento da 6ª sinfonia de Beethoven, a "Pastoral", baixada com licença gratuita para uso no site da BBC 
que na época hospedava uma integral deste compositor pela orquestra sinfônica de Londres, foi o mais foi assistido 
- mais de 700 exibições - o que no meu caso é uma enormidade. 
Houveram também comentários de apreciação que me entusiasmaram, mas que com o passar do tempo caíram no esquecimento assim como o lonelycopacabana, hoje inexistente.
Mas eis que de repente outro dia, comendo uma pizza  em baixo de um desses monitores ligados full time na TV Globo por vício, indolência ou lavagem cerebral dos funcionários da casa, 
me surpreendi ao testemunhar no fim dos créditos de encerramento 
de uma dessas novelas barangas, um dispositivo muito similar ao que eu havia concebido para mooreround, uma escultura sendo mostrada com uma câmera que a circundava. 
Como não deu tempo de perceber do que se tratava em detalhes e sabedor por anos de experiência própria que naquela emissora 
nada é mais do que mero pastiche e contrafação das propriedades intelectuais e da vidas alheios, quando não de si mesmas, 
resolvi exumar este video que por acaso ainda se encontrava por aqui num velho cd.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Dois Coelhos Numa Caixa D'Água Só: "Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" de Apichatpong Weerasethakul, Tailândia, 2010 e "Biutiful" de Alejandro González Iñárritu, Espanha/México, 2010


Encontrei alguns fantasmas errantes em duas sessões distintas e recentes em cinemas da zona sul do Rio de Janeiro. Numa, eles comiam, conversavam, escolhiam seus modelitos de inteiração com os mortais e até se replicavam enquanto seres ainda viventes.
Nada excepcional se confrontarmos este tipo de animismo tendo-se em mente que são produtos de uma cultura fortemente baseada na religiosidade do único país do sudeste asiático que não foi colonizado pelos europeus e que não deixou suas tradições serem diluídas pelas ocidentais: a Tailândia, antigo Sião, que em 1939 trocou o nome para este atual que significa "Terra dos Homens Livres".
A Tailândia nunca entrou em guerras e sempre soube manter sua neutralidade na geopolítica daquela região. Apesar de ter sofrido algumas invasões das cobiçosas garras de alguns vizinhos (Birmânia e Japão após ter perdido a 2ª guerra - vide "A Ponte Do Rio Kwai" de Davis Lean, 1957), 
esta estrutura centrada no budismo Therevada, fortemente arraigado em 95% da população sempre soube, em sua inteireza, forte autoconhecimento e serenidade pessoais advindos da prática da meditação, manter seus ecossistemas e patrimônio cultural sob uma monarquia constitucional cujo rei Rama IX é o decano dos monarcas do mundo, no poder há mais de 60 anos, subindo ao trono em 1946.  
A meditação, conforme ensinava o mestre com quem pratiquei um pouco em determinada fase da minha vida, também é um exercício que propicia a pessoa olhar para si a partir de um ponto de vista exterior. É uma forma de projeção da materialidade física pessoal de forma a lançar num espaço atemporal e multidimensional a consciência de sua estrutura que momentaneamente se vê "abandonada".
De uma cultura que tem esta prática como um dos principais baluartes da sua identidade, não causa estranheza que em suas fabulações os homens possam também interagir com seus entes já falecidos sob a forma de seres-receptáculos daquilo que no catolicismo é conhecido como suas "almas", definidos conforme suas ações em vida. A reencarnação é entendida não como uma série de novos nascimentos, mas uma revitalização da pessoa, um amadurecimento no decorrer na vida atual. 
A metempsicose do filho desaparecido que abandonou a casa paterna, voltando transformado num macaco externando suas preocupações quanto à saúde precária do pai, a aparição de uma princesa que vai chorar suas máguas para um peixe
à beira de um lago e acaba dando para ele, causa só uma primeira sensação de estranheza, mas passa a ser aceita com naturalidade uma vez que as mentes estão abertas a este tipo de pensamento anímico, o mesmo que transformou progressivamente o soldado que se embrenha na floresta em "Tropical Malady" do mesmo cineasta, 2004, num tigre. 

Fico me perguntando se aquele tio brasileiro, o de Guimarães Rosa, não seria um parente distante deste, compartilhadores que são dos mesmos talentos e preferências.

O fato é que em todas as latitudes o mistério da reencarnação e da vida após a morte sempre foi matéria controversa principalmente de cunho religioso, quando não filosófico ou parapsicológico. Mas sempre anexada ao conceito de "salvação", que na Tailândia moderna é entendida como uma conversão da pessoa, como a anulação total do egoísmo de cada um, ao passo que em quase todas as outras religiões a salvação é conseqüência de certas adesões e ritos executados com vistas a este fim.
A possibilidade de projetar a consciência num espaço exterior desonera os votos seculares de um monge de participar dos rituais do mundo laico através da adesão voluntária a sistemas  informativos, dos hábitos de higiene ou consumo de alimentação industrializada. Ele não vai deixar de ser o monge que sempre foi porquanto ao estar comendo um Big Mac vestido diferentemente de seu hábito, pode estar ao mesmo tempo assistindo entre duas mulheres a um documentário sobre a invasão do país pela televisão e ao mesmo tempo meditando (as mulheres continuam marginalizadas na vida civil tailandesa e não podem se acercar dos monges).
 Esta última seqüência é bastante emblemática ao exteriorizar de forma bastante clara todo um manancial de idéias culturais e comportamentais que à primeira vista são conflitantes, mas que podem ser contornadas pela natureza simples e tolerante de uma civilização que ultrapassou algumas barreiras impostas pelo consumismo, política e pela cobiça.
Vê-se no semblante dos personagens o estoicismo e a serenidade deste povo. O sorriso está sempre ali mesmo quando a chapa esquenta. A simplicidade que frui deste filme, desde o roteiro, passando pelas interpretações, assim como pela fotografia básica e sem luxos é um produto cultural de recuperação e reconstrução de um país que com o empenho ativo da população e do governo recuperou as áreas devastadas pelo tsunami de 2004 em tempo recorde dadas as proporções da tragédia.
Tio Boonmee sofre dos rins, que na medicina chinesa (e em grande parte da compreensão da teoria dos órgãos oriental) é o órgão que armazena a "Essência". Ele está se preparando para a morte pela perda de sua essência, de sua vida, e agora suas preocupações e procuras são alcançar o lugar em que sua passagem vai se efetuar de forma não-traumática. Nisto é auxiliado pelos fantasmas de seu filho e sua falecida mulher que voltam dos mortos para confortá-lo e guiá-lo neste momento crucial de sua jornada. Este local é uma espécie de Éden, através do qual suas preocupações quanto à subsistência de seus entes queridos na terra são contempladas de forma a deixá-lo em paz no momento de abrir seu cateter implantado, deixando purgar a seiva da vida, consciente de que a fonte de riquezas materiais a que foi conduzido pelos seus fantasmas os proverá.
Este filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes, 2010 e em seu país natal foi cercado de controvérsias justamente egressas dos sistemas que justamente são sua matéria expositiva. Um prêmio internacional lançou esta cinematografia antes reduzida a festivais e guetos cinéfilos numa escala global que suscita o conhecimento, a curiosidade e a discussão de uma realidade que trás à tona várias contradições: eis que o sagrado cenáculo dos monges tailandeses se encontra envolvido em escândalos de malversação das doações que o sustentam, de acúmulo de bens materiais através de contas secretas em paraísos fiscais tal como soe acontecer em repúblicas de bananas a milhares de quilômetros dalí. A palma de ouro foi consignada no dia seguinte da dissolução pelos militares de um mega protesto na cidade de Bangkok que deixou 90 mortos e milhares de  feridos, enxotando a juventude sem perspectivas das zonas rurais do país (onde a ação do filme acontece) que protestavam contra a péssima distribuição de renda, um golpe violento na idéia que se tem daquele país harmonioso.
Mas o budismo na Tailândia aproxima-se do cristianismo em muitos aspectos e principalmente pelo profundo sentimento de dedicação ao próximo e por ter dado início a muitas obras sociais.
É justamente este sentimento de ajuda ao próximo que faz de Uxbal, personagem interpretado soberbamente por Javier Barden em "Biutiful", de Alejandro González Iñárritu, Espanha/México, 2010,  um dos heróis trágicos mais evidentes da atual cinematografia mundial. 


Ele vive às voltas com as tarefas ingratas de acolher e gerenciar no mercado negro o trabalho de imigrantes foragidos de ditaduras (chineses) e da miséria (nigerianos). Estas atribuições encontram-se sobrecarregadas com um processo canceroso pessoal em evolução terminal e a preocupação de deixar aos filhos que estão sob seus cuidados (a mãe incapacitada sofre de distúrbio bipolar) uma modalidade sustentável de guarda e subsistência.
Aqui, Tio Boonmee e Uxbal comungam o mesmo credo: o cuidado com seus entes queridos. Mas as diferenças culturais os fazem trilhar este caminho de formas bastante diferentes. À serenidade do "Tio", que alcança seu objetivo de forma simples pela aceitação da vida após a morte sob a forma da metempsicose, contrapõem-se as estações da paixão do católico espanhol, numa via crucis de sofrimentos, privações e abominável trânsito pelos extratos mais baixos da classe média de uma Barcelona a mil anos-luz das atrações culturais que a caracterizam.  E ambos têm uma visão edênica de onde se encontram os elementos que trarão conforto às suas passagens do mundo dos vivos para o além.
No caso tailandês, em oposição aos parâmetros budistas de desapego aos bens materiais, este espaço é uma caverrna de pedras preciosas e no caso de Uxbal, apesar de todo barroquismo da secular herança cultural espanhola, este lugar é tão simplesmente uma fatia dos Pirineus, forrada de neve, onde ele encontra com o, digamos, fantasma?, anjo? de seu pai morto precocemente após ter imigrado (o que explica a atividade do personagem) a lhe apontar o caminho através do qual sua passagem se dará também de forma menos traumática. É o que ele recebe em troca dos favores remunerados que sua mediunidade (como se não bastassem suas atribulações) arrecada na vida terrena por guiar as insatisfeitas e culpadas almas recém-falecidas em seus caminhos para o além.
É lamentável que o empenho deste grande ator venha a serviço de um filme cujo roteiro deixa muitas brechas de desenvolvimento de personagens coadjuvantes, numa estrutura melodramática que alguma sutileza na forma de filmar (graças a Deus) destituiu dos componentes lacrimosos, neste acúmulo de sofrimentos páreo duro para qualquer Jesus Cristo de plantão, este sim, sempre tradicionalmente interpretado não sei por quais cargas d'água por atores muito abaixo das expectativas, exigências e responsabilidades do personagem, exceto pela em todos os aspectos irretocável criação de Martin Scorcese "A Última Tentação de Cristo", um filme que fez a proeza de colocar em termos de uma narrativa refinada e contemporânea aspectos de uma história muitas vezes negligenciada para torná-la palatável à instituição Igreja, coadjuvada por umas das trilhas sonoras mais bem sucedidas da atualidade (Peter Gabriel) e a interpretação prodigiosa de Willem Dafoe, algo que Buñuel quase logrou realizar com o seu Jesus socialista de "La Voie Lactée", França, 1969. ou o marxista
assumido de Pasolini.


Às variações espaciais e cronológicas dos filmes anteriores de Alejandro González Iñárritu, encontramos aqui contrapostos uma só cidade onde algumas etnias lutam por um lugar à mesa ou sob um teto num encadeamento lógico. "Biutiful" parece concentrar com pirotecnia, múltiplos recursos narrativos e fotografia luxuosa a espacialidade e temporalidade que Tio Boonmee espalha aos sete ventos com facilidade, planos pouco elaborados e de eficácia ímpar. Se Apichatpong nos apresenta uma visão religiosa de narrativa cinematográfica, Iñárritu parece não se entender com a manipulação de alguns dogmas do cristianismo que purgam os pecados através do sofrimento. 
Se ambos estivessem afogando-se numa caixa d'água só, qual destes coelhos, através da ascese, chegaria primeiramente (antes da classe operária) ao paraíso?



Louros em Cannes e Batalhas em Casa
Por THOMAS FULLER
Publicado no New York Times em 13 de Setembro de 2010
Khon Kaen, Tailândia

O tapete vermelho do Festival de Cannes é um mundo para além das aldeias rurais da Tailândia, mas Apichatpong Weerasethakul desliza facilmente entre os dois.
Sr. Apichatpong surpreendeu o mundo do cinema em maio ao vencer a cobiçada Palma de Ouro em Cannes por seu filme mais recente, "Tio Boonmee que pode se recordar das suas vidas passadas." Ele trará o filme para o New York Film Festival, que começa 24 de setembro, mas sua primeira parada em uma turnê mundial para promover o filme esteve aqui em sua cidade natal, Khon Kaen, uma pequena cidade tailandesa de pobres plantadores de arroz no platô nordeste daquele país.
"Tio Boonmee", um filme impressionista não convencional sobre um homem que está morrendo e seus encontros com fantasmas,
foi filmado nas selvas e terras do nordeste da Tailândia, usando atores amadores com um orçamento de menos de US$700.000.
Sr. Apichatpong que ganhou dois outros prêmios em Cannes por filmes anteriores, ganhou uma certa visibilidade como cineasta.
Ele tem uma base pequena, mas fiel de fãs internacionais que vêem seu trabalho como um contraponto inovador para o que se condena como a padronização hollywoodiana.
"Ele é um dos poucos diretores que pode fazer filmes que falam aos sentidos", disse Anocha Suwichakornpong, um diretor premiado tailandês que faz parte da nova onda de cineastas tailandeses independentes: "Se eu vou em um cinema  assistir a seus filmes, não importa o que o filme se trata, é uma experiência sensorial. "
O diretor Tim Burton, o presidente do júri que concedeu a Palma de Ouro a "Tio Boonmee", chamou o filme "um sonho bonito, estranho." Outros simplesmente acharam estranho. Ou confuso.
O jornal francês Le Figaro o descreveu como "impenetrável e lento"
e alfinetou algumas de suas cenas mais peculiares: em uma, filho do morto do Tio Boonmee retorna e se junta a ele na mesa de jantar como um macaco com olhos vermelhos brilhantes; em outra, uma princesa aparece para copular com um peixe.
A vitória em Cannes foi a primeira vez que um diretor tailandês ganhou a Palme d'Or, mas o Sr. Apichatpong, que completou 40 anos em julho, foi recebido em casa com  ambivalência por muitos
e ataques de seus críticos mais ferozes. Ele também é uma figura polarizadora na Tailândia, menos por seus filmes,
que até recentemente eram pouco conhecidos pelo público em geral, do que por sua defesa dos manifestantes antigovernamentais e sua crítica mordaz do establishment político.
"É melhor ficar calado, porque quando você fala pode mostrar sua estupidez", foi um post entre os 550 que apareceu em Julho no site manager.co.th de um jornal de língua tailandesa ferrenhamente contra as recentes manifestações de protestos antigovernamentais.
Num popular site de mensagens, Pantip.com, tinha cerca de 100 comentários sobre o Sr. Apichatpong, metade dos quais eram críticas: "Nós não o consideramos mais Tailandês"  alguém com o nickname Noom Suá Ball escreveu. "Lamentamos muito que uma vez o admiramos." Outro post no mesmo local,  defendeu Sr. Apichatpong: "Eu pensei que todos os que trabalharam na indústria do entretenimento foi um escravo do governo: Eu estou feliz por ter um diretor independente, que se desvia o pensamento dominante."
A agitação na Tailândia é complexa, mas uma das suas principais fontes tem sido uma luta pelo poder político entre a região de infância do Sr. Apichatpong  e a elite monarquista estabelecida em Bangkok.
"Tio Boonmee" não se apresenta como um filme político nem em seu subtexto. No entanto é acentuada a simpatia do Sr. Apichatpong pelo nordeste da Tailândia, dos tradicionais trabalhadores braçais e agricultores. As personagens do filme estão distantes da vida da cidade grande e falam um dialeto próximo ao idioma do Laos,
que não é falado por pessoas nascidas e criadas em Bangkok.
O establishment de Bangkok, durante décadas viu as pessoas do nordeste, ou Isaan como a região é conhecida, como rudes, incultas mas trabalhadoras.
Sr. Apichatpong, que cresceu ao lado do hospital em Khon Kaen, onde seus pais trabalhavam como médicos, disse que rodou o filme no Nordeste, porque ele estava tentando recapturar os rostos e modos de vida rústicos do povo que ele havia convivido durante a sua juventude. Em uma entrevista no campus da universidade onde o Sr. Apichatpong estudou arquitetura (uma profissão que abandonou para o cinema), ele disse que suas raízes étnicas eram chinesas, e que os seus pais tinham se formado em universidades da elite em Bangkok antes de ir para o Nordeste.
Apesar desse pedigree, Sr. Apichatpong disse que sentia um grande complexo de inferioridade quando viajava para Bangkok.
"Se você dissesse que era de Khon Kaen, eles ririam de você", disse ele. "Eu tentei esconder de onde eu vim e isso não foi há muito tempo - 20 anos atrás ".
Para o mundo exterior "Tio Boonmee" é um filme tailandês,
mas os espectadores em Bangkok precisam de legendas tailandesas para entender o vernáculo do nordeste. Sua vitória em Cannes veio logo depois de uma ofensiva dos manifestantes anti-governamentais em Bangkok, muitos deles do nordeste, mostrando-se fazer parte da narrativa política do país.
Em 19 de maio os militares tailandeses varreram  os manifestantes para fora de suas trincheiras no centro de Bangkok. A repressão foi o clímax de dois meses de tensões e de luta na cidade que deixou cerca de 90 pessoas mortas e milhares de feridos, a grande maioria deles manifestantes.
Sr. Apichatpong trocou este tumulto pela Riviera Francesa, mal conseguindo obter seu visto de funcionários consulares europeus, que haviam fechando seus escritórios por conta da propagação da violência. Em 23 de maio quando, derrotados e humilhados, os manifestantes voltaram às suas aldeias, "Tio Boonmee" ganhou a Palme d'Or.
Mr. Apichatpong descreveu os protestos como a "Revolta dos pobres". "A idéia da  Tailândia como uma sociedade suave e harmoniosa é errada", ele disse: "A Tailândia é violenta e cheia de desigualdades".
Esses tipos de declarações enfureceram monarquistas na Tailândia,
que afirmam que os protestos não tinham nada a ver com a má distribuição de renda no país e que foram orquestrados por Thaksin Shinawatra, um magnata bilionário deposto como primeiro-ministro pelos militares em 2006.
Os críticos do Sr. Apichatpong  têm usado o anonimato da Internet para sugerir que ele estaria melhor morto, uma declaração  que ninguém leva impunemente na Tailândia nos dias de hoje, depois de vários assassinatos de altas patentes e tentativas de atentados a figuras políticas.
Toda essa amargura acarreta problemas ao Sr. Apichatpong, que fala suavemente, mesmo quando sincero. Ele disse estar preocupado com o poder dos militares na Tailândia, com as campanhas do governo, a censura após a repressão de Maio e com a "frustração e raiva" dos jovens do meio rural que não têm oportunidades.
"Eu espero que não seja pessimista demais dizer que estamos vivendo um tempo de bombardeios", disse ele: "Muitas pessoas dizem que se você tem dinheiro, você deve colocá-lo em contas bancárias suíças. Ou comprar ouro. Isso mostra que as pessoas sentem vivem inseguras ".
Sr. Apichatpong estudou cinema em Chicago e depois ganhou uma bolsa como artista-residente em Paris. Mas os acontecimentos na Tailândia, ao mesmo tempo preocupantes e fascinantes, estão mantendo seu foco em sua terra natal.
"Eu não perderia a oportunidade", disse ele, "de testemunhar o que vai acontecer."