segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Dublê Do Diabo

Estava como sempre animadíssimo à espera da edição 2011 do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e brochei geral ao verificar que os filmes que eu mais aguardava estavam fora do certame, ou seja, 
"Faust", de Alexander Sokurov,
"Pina", de Win Wenders,
"Shame", de Steve McQueen,
"Rampart", de Oren Moverman,
"The Descendants", de Alexander Payne,
"Footnote", de Joseph Cedar,
"Once Upon A Time In Anatolia" de Nuri Bilge Ceylan,
"The Artist", de Michel Hazanavicius,
"The Kid With A Bike", dos irmãos Dardenne,
"Sleeping Sickness", de Ulrich Köhler,
"Carnage", de Roman Polanski,
"360", de Fernando  Meirelles, etc., etc., etc., ...
Contornada a frustração, embarquei no ...
Resto:

1 - O DUBLÊ DO DIABO
(The Devil's Double)
de Lee Tamahori, USA, 2011


Filme de ação americano ambientado durante a guerra do Kuwait, caracterizando a mafiosa - à moda dos criminosos italo-americanos - famíla de Saddam Hussein, seus desmandos, apresentando personagen estereotipados e sem profundidade (o caso mais evidente é o dos dois protagonistas interpretados pelo ator Dominic Cooper, caricaturas de próteses, voz chapada e falsa introspecção, tudo à vez e conforme a necessidade) e lançando mão de uma heroína improvável, mistura de femme fatale com puta triste que no final tenta redimir o herói da moral positiva, o indefectivel arroz de festa do cinema roliudiano.
Um filme extensivo, recheado de planos de localização, o beabá da mais batida cartilha narrativa.
Se fosse podado de todos seus excessos sobraria um curta-metragem sem muito sentido que, involuntariamente, talvez resultasse em algo interessante.
Tudo ali pega pesado, não só em relação à operação de retratar situações e personagens como também nas concepções plástica e fotográfica (em que pese a horrenda estética recém pós-moderna em voga nos anos 90 onde qualquer diretor de arte ou de fotografia teria que fatalmente navegar num produto com esta ambientação). 
Não aprofunda o tema do duplo, e aqui não há cobrança de algo no nivel de "Quando Duas Mulheres Pecam" (Persona, de Ingmar Bergman, 1966) o que seria uma crueldade, mas que se aproximasse pelo menos de um vizinho de quarteirão, se tivesse um pouco mais de boa vontade, como "A Outra Face" (Face/Off, de John Woo, 1997). O duplo aqui só se justifica  enquanto ferramenta para justificar correrias, tiroteios e luxúria.
O contexto político não passa de pano de fundo: há farta exibição de documentos daquela que foi a primeira guerra "ao vivo" da história, a guerra do Golfo (invasão do Kuwait pelo Iraque), ou guerra do video-game como também ficou conhecida, e que a propósito este filme faz jus pela limitação operacional do seu alcance. 
Não se trata aqui da discussão ou do retrato das relações criminosas e de espionagem de corporações do mundo ocidental com a industria do petróleo e das parcerias nem sempre limpas deste bloco com os paises produtores como em "Syriana - A Industria do Petróleo" (Syriana, de Stephen Gagham, 2005), mas somente da exploração de um evento e situação como matéria para justificação da ideologia imperial dominadora disseminando-se pelo mundo através do cinema, ao demonizar culturas não enquadradas em seu catálogo de referências positivas de bajuladores internacionais.
Depois de muito extender a narrativa com uma profusão de peripécias escabrosas e esgotar todos seus maneirismos exaustivamente repetidos, lá pelos quinze minutos finais é enfiado goela-abaixo dos espectadores a história da puta redimida que proclama - após ter passado quase duas horas trocando perucas, modelitos provocantes, fodendo, cheirando e cobiçando o pau grande do dublê de seu patrão - quando o herói a pergunta, em meio a uma fuga improvável, se tem algum dinheiro na bolsa: "Eu não sou prostituta!". Onde e quando, cara-pálida? Au-de-là des nuages?
Este enredo tardio poderia ter sido espalhado em meio aos desmandos do filho de Saddam, e como opção para eles, mas o roteirista, cansado, optou por um deus-ex-machina - uma filha, coitadinha dela - entregue aos cuidados de uma mãe desprotegida lá nos confins do deus-me-livre. Nesta altura o dublê dá o tiro de misericórdia no filme: "E você só veio me contar isto agora?" 
É de rolar de rir.
Assim expõe-se a miséria humana em configurações mais imediatas de leitura para jogadores de play station, pois aquela vida no grand monde, aquele pó a rodo, os rolex, os breitlings, as sedas e os automóveis que são oferecidos como apelos inalienáveis para uma existência permeada por valores consumistas,  este filme à guisa de crítica subliminar acaba por ratifica-los como um little help for his friends do andar de cima, lugar habitado pelas famílias, sempre elas, em função das quais se travam as guerras, negociam-se os interesses, salvaguardam-se as mães sempre ameaçadas pelos cafetões que facultarão o verdadeiro orgasmo aos seus maridos sanguinários, e onde só existem dois tipos de mulheres: as santas sofredoras, as excluídas, mártires (a noiva estuprada que se suicida em meio à festa do casamento) e as putas aproveitadoras e parceiras que ao fim da jornada são obrigadas a fugir a cavalo para escapar de um destino miserável.
De cinco estrelas, duas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Exortação a danilogo


Prezado sr. danilogo
Ia passando e não me contive ao ver anunciado na minuta de seu cardápio estes fragmentos de email do seu amigo Bernardo Soares que, pelo visto era entusiasta de um muito antigo colega meu francês a quem devo muita inspiração e respeito, mas não a ponto da apropriação de seu conteudo de forma eufemistica (ma non troppo) como ele...
No mesmo instante me veio à baila o título de um capítulo de Metrôdoros, primeiro discípulo de Epicuro onde se lê :"A causa que reside em nós mesmos contribui muito mais para a felicidade do que aquela advinda das coisas".
Com efeito, no que se lê destas linhas que comentam seus não-atos nesta sua atual passagem, lembrando-me da analise que realizei a respeito desta matéria, gostaria de exortar sua ilustre pessoa sobre a cautela devida em relação ao que à primeira vista um post bem-intencionado pode significar, ou induzir, posto que assim como nosso corpo está envolto em vestimentas, nosso espírito está revestido de mentiras. Nossos dizeres, nossas ações, todo nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestimentas se adivinha a figura do corpo.
Portanto seguirei procurando meu rumo assim como desejo que o seu traçado o faça defrontar-se com a absoluta clareza a respeito das máscaras que o convívio entre as gentes faz cair no badalar das últimas horas do entardecer.
Trago aqui algumas considerações :

Bastar-se a si mesmo; ser tudo em tudo para si, e poder dizer "trago todas as minhas posses comigo" (Cícero), é decerto a qualidade mais favorável para a nossa felicidade. Sendo assim nunca é demais repetir a máxima de Aristóteles "A felicidade pertence àqueles que bastam a si mesmos" (...) Pois, por um lado, a única pessoa com quem podemos contar com segurança somos nós mesmos e, por outro, os incômodos e as desvantagens, os perigos e os desgostos que a sociedade traz consigo são inúmeros e inevitáveis.
Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grand monde, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Antes de mais nada, toda sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é. Ademais, qunato mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente.
(...) A paz verdadeira e profunda do coração e a perfeita tranquilidade mental, esses bens supremos da terra depois da saude, são encontráveis unicamente na solidão e, como disposição duradoura, só no masi profundo retraimento.
(...) Cada homem é apenas uma pequena fração da idéia de humanidade, e assim precisa ser complementado em muito pelos outros para constituir, em certa medida, uma consciência humana plena. Ao contrário, aquele que é um homem completo, um homem par excellence, expõe uma unidade, não uma fração; por conseguinte, tem o suficiente em si mesmo.
(...) O amor à solidão não pode existir como tendência primitiva, mas nasce apenas como resultado da experiência e da reflexão, dando-se conforme o desenvovimento da própria força intelectual e concomitantemente ao avanço da idade. Disso resulta, de modo geral, que o instinto de sociabilidade de cada um está na proporção inversa da sua idade.
(...) Entretanto, em cada indivíduo, a aumento da inclinação para o isolamento e a solidão ocorrerá em conformidade com o seu valor intelectual. Pois tal tendência, como dito, não é puramente natural, produzida diretamente pela necessidade, mas, antes, só um  efeito da experiência vivida e da reflexão sobre ela, sobretudo da intelecção adquirida a respeito da miserável índole moral e intelectual da maioria dos homens.
(...) Embora haja muita coisa ruim neste mundo, a pior delas ainda é a sociedade(...) salvo raras exceções, no mundo há apenas uma escolha: aquela entre a solidão e a vulgaridade.
É por isto que eu também te observo, entendo e, creia-me, minhas palavras nunca lhe faltarão.

Abraços afetuosos de
 
Arthur Schoppenhauer

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Bernardo Não Me Abandona



Meu amigo Bernardo Soares me conhece bem e parece não querer me abandonar. Insiste em que eu prossiga com esta joça, coisa a que não me obrigo e nem tenho intenção, pois aderir ao langor do devaneio ou da meditação, à troca sazonal da casca da personal jararaca até a exaustão das forças energéticas são minhas metas e devoção até ao limite do possível, ali onde nos encontraremos frente a frente, eu e moi même. Sorrateiramente me envia emails na certeza de que não resistirei à adição deste impulso advindo do negror de tempos pregressos a tornar público seus ditames e observações em relação ao que vê, de onde?, sobre minhas ações, ou não-atos, aqui.
Hoje ofereceu-me um espelho:

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A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigues a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam o amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres da suas vitória para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e num momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha a interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. 

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Admirável Mundo Novo

Deu no Estadão em 18 de Setembro de 2011:
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Romantismo offline

Por Redação Link
Tom Rachman lançou no ano passado, aos 35 anos, seu livro de estreia, ‘The Imperfectionists’, inédito no Brasil. Aclamado pela crítica, o best-seller, um romance sobre um grupo de jornalistas, teve seus direitos de adaptação para o cinema comprados por Brad Pitt. Em crítica ao ‘New York Review of Books’, o também escritor Christopher Buckley diz que teve de ler o livro duas vezes “para entender como ele conseguiu fazer isso”. Neste ensaio inédito no Brasil, Rachman imagina um momento, em 2021, em que a nostalgia do passado analógico levará a uma fuga do digital
Por Tom Rachman, The International Herald Tribune
Tela. ‘Caminhante Sobre o Mar de Névoa’ (1818), do alemão Caspar David Friedrich. FOTO: Reprodução
As previsões para o futuro tomam como base uma falácia: a ideia de que o amanhã será como hoje, mas um hoje ainda mais atual. O que escapa às adivinhações é o evento singular que transforma tudo. Imagine a opinião que os especialistas manifestavam a respeito da década seguinte no dia 10 de setembro de 2001.
Até 1984, obra-prima da ficção futurista, descrevia o período em que foi escrito, tendo como pano de fundo um país semelhante à Grã-Bretanha dos racionamentos de 1948, e a trama dava vazão aos pesadelos totalitários daquele momento. (O romance transcende a própria época graças à genialidade de seu autor, George Orwell, e à triste persistência do seu tema central; basta lembrar da Coreia do Norte nos idos de 2011.)
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Quanto à década seguinte, minhas expectativas são uma projeção das ansiedades e fantasias contemporâneas – em particular, a ascensão das máquinas. Não no sentido habitual da ficção científica, com robôs renegados disparando lasers por aí. Em vez disso, daqui a dez anos, as maravilhas da tecnologia terão alterado ainda mais o nosso cérebro e o nosso próprio ser, provocando uma feroz reação.
Toda grande mudança social é correspondida por um efeito contrário. A globalização levou aos embates mais violentos da última década, entre os que prosperavam dentro deste sistema e aqueles que o consideravam desalmado. Antes disso, a Revolução Industrial levou ao surgimento do romantismo, cujos adeptos criticavam a urbanização e a frieza do comércio moderno, ansiando por uma alternativa idílica às fábricas e às novas tecnologias do século 19.
A próxima década testemunhará rejeição semelhante, com a ascensão dos românticos offline. Esses saudosistas do mundo desconectado criticarão aquilo que consideram ser a degradação da consciência humana: a capacidade cada vez menor de prestar atenção, a dificuldade de concentração, o zumbido da excitação digital invadindo a vigília.
Quando chegarmos a 2021, haverá governantes, pais e concidadãos insistindo para que sejam tomadas medidas contra os perigos enxergados por eles nos computadores – que, construídos para nos ajudar e nos divertir, acabaram corrompendo a programação do cérebro humano.
Esses saudosistas, ou offliners, defenderão que nossa resposta inicial aos milagres tecnológicos do início do século 21 terá sido ingênua – como a de crianças que descobrem uma máquina mágica de balas e jujubas e se recusam a admitir que empanturrar-se constantemente tem consequências.
Quando o assunto é comida, o exagero leva ao sobrepeso. No caso da tecnologia, dirão os offliners, leva a cérebros flácidos. Eles destacarão que os seres humanos de antes faziam mais do que simplesmente apertar botões à espera de recompensas – sua consciência era exigida, e não apenas satisfeita. Eles tinham memórias internas. Eram capazes de se concentrar numa única tarefa, em vez alternar aos trancos e barrancos entre seis atividades simultâneas. Eram também mais calmos, levando uma existência livre das constantes injeções de adrenalina da excitação digital.
Se essa Nostalgia pelos Dias Desconectados será verdadeira, pouco importa – afinal, esses serão os românticos, para quem a verdade emocional é sempre mais relevante do que a exatidão empírica. De acordo com a sua fervorosa opinião, haverá algo de muito errado na vida que levaremos em 2021.
Os fanáticos vão deixar seus aparelhos eletrônicos desligados por dias, fecharão suas contas de e-mail, sairão das redes sociais, tentarão se apagar do mundo online – um seleto grupo de românticos mais dedicados pode chegar ao extremo de viver sem assistir aos vídeos virais com gatos tocando teclado.
Os moderados consignarão partes de cada dia à vida como costumávamos vivê-la, recorrendo, por exemplo, a conversas cara a cara. Chegarão até a buscar períodos de tédio – aceitando momentos que transcorram na ausência de fones de ouvido, de óculos especiais e de todas as outras formas de entretenimento. Os programadores de software vão explorar esse mercado, desenvolvendo programas que permitam desativar aparelhos, possibilitando que os mais virtuosos se concentrem na vida por algumas horas sem serem sugados pela rede. Os mais autoritários usarão produtos do tipo para impor seus desejos de desconexão a cônjuges, filhos, colegas.
A ironia do romantismo offline está no fato de que ele será promulgado na rede, sendo impossível conceber os movimentos do futuro desprovidos de um intermediário digital. Seus opositores citarão essa história da sua origem (bem como o irritante nome atribuído a esses nostálgicos offliners) para caçoar deles, caracterizando-os como elitistas, reacionários, sonhadores.
Esta última acusação será aquela que mais os incomodará. Afinal, olhando para a sociedade como fizeram os românticos do século 19, os offliners saberão que a disputa já terá chegado ao fim. Em 2021, os sonhos não serão mais a respeito do futuro da tecnologia; os sonhos evocarão um modo de vida anterior, mais lento, mais desajeitado e cada vez mais difícil de ser lembrado.
/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Meu Ouvido Atento Para Uma Mensagem




Deu no JB em 12 de Setembro de 2011

11/09 às 20h56

sábado, 10 de setembro de 2011

Comentário Ao Post "Adoro Filme-Pipoca"



Estimado danilogo:
Não posso me furtar à participação em seu tão concorrido e apreciado blog, até porque não resisto a um filme-pipoca, ao contrário do que muitos pensam, dadas as dimensões e repercussões dos trabalhos filosóficos que em vida ainda venho publicando. 
Estes fragmentos que seguem como comentário à matéria original da sua postagem faz parte de uma publicação mais ampla voltada à discussão da Ética - artigo muito em desuso, praticamente banido e da mais alta necessidade em seu país nesta altura dos acontecimentos. 
Resta-me aguardar seu convite para uma possível sessão-pipoca sempre que os MacGuffins  se prestarem à nossa diversão. 
Atenciosamente, 
Peter Singer




3
Igualdade para os animais? 


Racismo e especismo 


No capítulo 2 apresentei razões para pensar que o princípio fundamental da igualdade no qual a igualdade de todos os seres humanos assenta é o princípio da igualdade na consideração de interesses. Somente um princípio moral básico deste tipo pode permitir-nos defender uma forma de igualdade que abarque todos os seres humanos, com todas as diferenças que existem entre eles. Defenderei agora que, embora este princípio proporcione uma base adequada para a igualdade humana, essa base não se pode limitar aos seres humanos. Por outras palavras, argumentarei que, se aceitarmos o princípio da igualdade como uma base moral sólida das relações com os outros representantes da nossa espécie, teremos também de o aceitar como base moral sólida das relações com aqueles que não pertencem à nossa espécie - os animais não humanos. 
Esta proposta pode parecer à primeira vista bizarra. Estamos habituados a encarar a discriminação contra membros pertencentes a minorias raciais ou contra as mulheres como fazendo parte dos temas morais e políticos mais importantes com que se debate o mundo de hoje. Estes problemas são sérios, merecedores do tempo e da energia de qualquer pessoa responsável. Mas que dizer dos animais? Não estará o bem-estar dos animais numa categoria totalmente diferente, que só interessa às pessoas loucas por cães e gatos? Como 
pode alguém gastar o seu tempo com a igualdade dos animais quando a verdadeira igualdade é negada a tantos seres humanos? 
Esta atitude reflecte um preconceito popular contra a ideia de levar os interesses dos animais a sério um preconceito tão infundado como aquele que levou os esclavagistas brancos a não considerar com a devida seriedade os interesses dos seus escravos africanos. É fácil para nós criticar os preconceitos dos nossos avós, de que os nossos pais se libertaram. É mais difícil distanciarmo-nos das nossas próprias perspectivas para podermos procurar desassombradamente os preconceitos que as nossas crenças e os nossos valores escondem. É preciso estarmos agora dispostos a seguir os argumentos até onde eles nos conduzirem, 
sem a ideia preconcebida de que o problema não merece a nossa atenção. 
O argumento para alargarmos o princípio da igualdade além da nossa própria espécie é simples - tão simples que basta para isso uma compreensão clara da natureza do princípio da igualdade na consideração de interesses. Vimos que este princípio implica que a nossa preocupação pelos outros não depende do seu 
aspecto nem das suas capacidades (embora o que esta preocupação exige que façamos em concreto varie de acordo com a características daqueles que são afectados pelos nossos actos) _é nesta base que podemos dizer que o facto de algumas pessoa não pertencerem à nossa raça não nos dá o direito de as explorar, tal como o facto de algumas pessoas serem menos inteligentes que outras não significa que os seus interesses possam ser ignorados. Mas o princípio implica também que o facto de certos seres não pertencerem à nossa espécie não nos dá o direito de os explorar e, do mesmo modo, o facto de outros animais serem menos inteligentes que nós não significa que os seus interesses possam ser ignorados. 
Vimos no capítulo 2 que muitos filósofos advogaram a igualdade na consideração de interesses, de uma forma ou de outra, como um princípio moral fundamental. 
Só alguns reconheceram : que o princípio tem aplicações para além da nossa espécie - sendo Jeremy Bentham, o pai do moderno utilitarismo, um desses filósofos. Numa passagem visionária, redigida numa altura em que os escravos africanos nas possessões britânicas ainda eram tratados de uma forma muito semelhante àquela como tratamos hoje os animais não humanos, Bentham escreveu: 
Talvez chegue o dia em que a restante criação animal venha a adquirir os direitos de que só puderam ser privados pela mão da tirania. Os Franceses já descobriram que o negro da pele não é razão para um ser humano ser abandonado sem remédio aos caprichos de um torcionário. É possível que um dia se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da pele ou a terminação do osso sacrum (*) 
(*) Osso situado entre o cóccix e as vértebras lombares. A terminação do sacro é, precisamente, o cóccix, que nos animais não humanos corresponde à cauda. 
são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser sensível ao mesmo destino. Que outra coisa poderia traçar uma linha insuperável? Será a faculdade da razão ou, talvez, a faculdade do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um animal mais racional, assim como mais sociável que um recém-nascido de um dia, de uma semana ou mesmo de um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não está em saber se eles podem *pensar* ou *falar*, mas sim se podem *sofrer*. 
Nesta passagem, Bentham aponta a capacidade para sofrer como a característica vital que confere a um ser o direito à consideração igualitária. A capacidade para sofrer - ou, mais estritamente, para sofrer e/ou para a fruição ou para ser feliz - não é apenas mais uma característica, como a capacidade para a linguagem ou para a matemática avançada. Bentham não diz que aqueles que tentam traçar a "linha insuperável" (que determina se os interesses de um ser devem ser considerados) escolheram, por mero acaso, a característica errada. A capacidade de sofrer e de gozar as coisas constitui um pré-requisito para ter quaisquer interesses, uma condição que tem de ser satisfeita antes de podermos falar de interesses com algum sentido. Seria descabido dizer que não é do interesse de uma pedra levar um : pontapé de uma criança numa rua. Uma pedra não possui interesses porque não sofre. Nada do que lhe possamos fazer tem qualquer importância para o seu bem-estar. Um rato, pelo contrário, tem de facto um interesse em não ser molestado, porque os ratos sofrem se forem tratados desse modo. 
Se um ser sofre, não pode haver justificação moral para a recusa de tomar esse sofrimento em consideração. Independentemente da natureza do ser, o princípio da igualdade exige que o sofrimento seja levado em linha de conta em termos igualitários relativamente a um sofrimento semelhante de qualquer outro ser, tanto quanto é possível fazer comparações aproximadas. Se um determinado ser não é capaz de sofrer nem de sentir satisfação nem felicidade, não há nada a tomar em consideração É por isso que o limite da senciência (para usar o termo como uma abreviatura conveniente, ainda que não estritamente precisa, da capacidade de sofrer ou de sentir prazer ou felicidade) é a única fronteira defensável da preocupação pelo interesse alheio. Marcar esta fronteira com alguma característica como a inteligência ou a racionalidade seria marcá-la de modo 
arbitrário. Por que motivo não escolher uma outra característica qualquer, como, por exemplo, a cor da pele? 
Os racistas violam o princípio da igualdade atribuindo maior peso aos interesses de membros da sua própria raça quando há um confronto entre os seus interesses e os de outra raça. Os racistas de ascendência europeia não aceitavam geralmente que a dor conta tanto quando é sentida pelos Africanos, por exemplo, como quando é sentida pelos Europeus. Do mesmo modo, aqueles a quem chamo "especistas" atribuem maior peso aos interesses dos membros da sua própria espécie quando há um conflito entre esses interesses e os das outras espécies. 
Os especistas humanos não aceitam que a dor sentida por porcos ou ratos seja tão má como a dor sentida por seres humanos. 
Na realidade, este é, pois, o argumento completo para alargar o princípio da igualdade aos animais não humanos; mas surgem algumas dúvidas sobre o que esta igualdade implica na prática. Em particular, a última frase do parágrafo anterior pode levar algumas pessoas a responder: "é claro que a dor sentida por um rato não é tão má como a dor sentida por um ser humano. Os seres humanos têm maior consciência do que lhes está a acontecer e este facto torna o seu sofrimento mais intenso. Não se pode comparar a dor de uma pessoa, digamos, que morre de cancro numa agonia prolongada com a de um rato de laboratório que sofre o mesmo destino.
"Aceito perfeitamente que, no caso descrito, a vítima humana de cancro sofre mais que a vítima não humana. Este facto não põe em causa a igualdade na consideração de interesses dos não humanos. Significa antes que temos de ter cuidado quando comparamos os interesses de diferentes espécies. Em algumas situações, um membro de uma espécie sofrerá mais do que o de outra. Neste caso devemos continuar a aplicar o princípio da igualdade na consideração de interesses, mas o resultado dessa atitude consiste, é claro, em dar prioridade ao alívio do maior sofrimento. Um exemplo mais simples pode ajudar a esclarecer esta questão.
Se eu der uma forte palmada na garupa de um cavalo, este pode sobressaltar-se, mas é de presumir que sinta pouca dor. A sua pele é suficientemente espessa para o proteger de uma simples palmada. Porém, se eu der a mesma palmada a um bebé, este chorará e é de presumir que sinta dor, porque a sua pele é mais sensível. Logo, é pior dar uma palmada a uma criança do que a um cavalo, se ambas forem administradas com igual força. Mas tem de haver algum tipo de golpe -- não sei o que poderá ser, mas talvez uma pancada com um pau pesado - que cause ao cavalo tanta dor como a que provocamos a uma criança com uma simples palmada. É isto que pretendo dizer com "a mesma quantidade de dor". E, se considerarmos um mal infligir uma dada quantidade de dor a um bebé sem motivo, temos de considerar igualmente um mal infligir a mesma quantidade de dor a um cavalo sem motivo - a não ser que sejamos especistas. 
Entre os seres humanos e os animais há outras diferenças que causam outras complicações. Os seres humanos adultos normais possuem capacidades mentais que os levarão, em certas circunstâncias, a sofrer mais do que os animais nas mesmas circunstâncias. Se, por exemplo, decidirmos efectuar experiências 
científicas extremamente dolorosas ou letais em adultos : humanos normais, raptados para o efeito ao acaso em parques públicos, os adultos que entrem nos parques terão medo de serem raptados. O terror resultante representará uma forma de sofrimento adicional à dor provocada pelas experiências. As mesmas 
experiências executadas em animais não humanos provocariam menor sofrimento, uma vez que os animais não antecipariam o pavor de serem raptados e vítimas de experiências. É claro que isto não significa que seria um *bem* realizar essas experiências em animais, mas apenas que existe uma razão não especista para preferir usar animais em vez de adultos humanos normais, se é que essa experiência se deva alguma vez fazer. Note-se, contudo, que este mesmo argumento nos dá razões para preferir utilizar bebés humanos - talvez 
órfãos -- ou seres humanos com deficiências intelectuais profundas em vez de adultos, uma vez que os bebés e os seres humanos com deficiências intelectuais profundas não fariam nenhuma ideia do que lhes iria acontecer. No que diz respeito a este argumento, os animais não humanos, os bebés e os deficientes 
intelectuais profundos estão na mesma categoria; e, se usarmos este argumento para justificar experiências em animais não humanos, temos de perguntar a nós próprios se também estamos preparados para permitir experiências em bebés humanos e deficientes intelectuais profundos. Se fizermos uma distinção entre os animais e estes seres humanos, como poderemos fazê-lo senão com base numa preferência moralmente indefensável em favor dos membros da nossa espécie? 
Há muitas áreas em que as capacidades mentais superiores dos seres humanos adultos normais fazem diferença: antecipação, memória mais pormenorizada, maior conhecimento do que está a acontecer, etc. Estas diferenças explicam por que motivo um ser humano a morrer de cancro sofre provavelmente mais que um rato. É a angústia mental que torna a posição do ser humano muito mais difícil de suportar. No entanto, estas diferenças não apontam todas para um sofrimento maior por parte de um ser humano. Por vezes, os animais podem sofrer mais devido à sua compreensão limitada. Se, por exemplo, estivermos a fazer prisioneiros em tempo de guerra, podemos explicar-lhes que, embora se tenham de sujeitar à captura, ao interrogatório e à reclusão, não sofrerão outros agravos e serão postos em liberdade uma vez terminadas as hostilidades. No entanto, se capturarmos animais selvagens, não lhes podemos explicar que não ameaçamos as suas vidas. Um animal selvagem não pode distinguir uma tentativa de subjugar e prender de uma tentativa de matar; tanto uma como outra provocam o mesmo terror. 
Pode objectar-se que é impossível comparar o sofrimento de diferentes espécies e que, por esta razão, quando os interesses de animais e de seres humanos entram em conflito, o princípio da igualdade não serve de orientação. É verdade que a comparação do sofrimento entre membros de diferentes espécies não se pode fazer com precisão. Nem se pode comparar com precisão, pelos mesmos motivos, o sofrimento de seres humanos diferentes. A precisão não é essencial. Como veremos em breve, mesmo que quiséssemos evitar infligir sofrimento aos animais apenas quando os interesses dos seres humanos não fossem afectados, seríamos forçados a efectuar mudanças radicais na forma como tratamos os animais, o que teria implicações relativamente à nossa alimentação, aos métodos de criação de animais, aos processos experimentais em muitas áreas da ciência, à nossa atitude perante a vida selvagem e a caça, as armadilhas e o uso de peles e relativamente a certas áreas do entretenimento, como circos, touradas e jardins zoológicos. Em consequência disso, a quantidade total de sofrimento causado seria grandemente reduzida; seria tão reduzida que é difícil imaginar outra mudança de atitude moral que causasse uma redução tão grande da soma total de sofrimento no universo. 
Já disse muitas coisas sobre a questão de infligir sofrimento em animais, mas nada disse quanto à questão de os matar. Esta omissão foi deliberada. A aplicação do princípio da igualdade à inflicção de sofrimento é, pelo menos em teoria, bastante fácil de entender. A dor e o sofrimento são maus e devem ser evitados ou minimizados, independentemente da raça, sexo ou espécie do ser que os sofrem. O maior ou menor sofrimento provocado por uma dor depende de quão intensa ela é e de quanto tempo dura, mas as dores da mesma intensidade e duração são igualmente más, quer sejam sentidas por seres humanos, quer o sejam por animais. Quando consideramos o valor da vida, já não podemos dizer com tanta confiança que uma vida é uma vida e que é igualmente valiosa quer se trate de uma vida humana quer se trate de uma vida de outro animal. Não seria especismo defender que a vida de um ser autoconsciente, capaz de pensamento abstracto ou de planear o futuro, de actos de comunicação complexos, etc., é mais valiosa que a vida de um ser sem essas capacidades. (Não estou a dizer que esta perspectiva é justificável ou deixa de o ser, mas apenas que não pode ser simplesmente rejeitada enquanto especista, porque não é com base na espécie 
em si que se pode sustentar que uma vida é mais valiosa que outra.) O valor da vida constitui um problema ético notoriamente difícil e só podemos chegar a uma conclusão racional sobre o valor comparativo da vida humana e da vida dos animais depois de discutirmos o valor da vida em geral. Entretanto, podemos extrair conclusões importantes do alargamento, para além da nossa espécie, do princípio da igualdade na consideração de interesses, independentemente das nossas conclusões acerca do valor da vida. 

sábado, 3 de setembro de 2011

Adoro Filme-Pipoca!

Convenci a duras penas Bernardo Soares assistir comigo "Planeta Dos Macacos: A Origem" (de Rupert Wyatt, USA 2010).
Afirmava que não se sujeitaria a tamanho desprospósito - o que, imagine-se, dirão seus fiéis admiradores auferidos a custo, trabalho árduo e duras penas, ou  mesmo com que roupa? E também, que mania é esta de pagar para sonhar de olhos abertos quando a natureza nos legou a ancestralidade de fazê-lo espontaneamente dentro do mais absoluto livre-arbítrio ou mesmo induzido por alguma reflexão, criação ou ingênuo projeto de utopia revolucionária? E grátis! 
Mas, para atender ao meu pedido insistente de devoto e inconteste amigo, cedeu.

Depois da sessão, que assistiu de olhos arregalados, respiração entrecortada e alguma taquicardia, Surpresa! Acaso! ou - mãe de todas as disposições controversas do destino, Epifania! - não conseguiu conter o impulso de registrar algumas impressões advindas do tal despropósito, que a seguir reuni alguns fragmentos salvando-os de um longo e-mail que me enviou dois dias depois:

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(...) mas que a humanidade sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não é mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, parece-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fico, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

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Muitos têm definido o homem, e em geral o têm definido em contraste com os animais. Por isso, nas definições do homem, é frequente o uso da frase "o homem é um animal..." e um adjetivo, ou "o homem é um animal que ..." e se diz o que. "O homem é um animal doente" disse Rousseau, e em parte é verdade. "O homem é um animal racional" diz a Igreja, e em parte é verdade. "O homem é um animal que usa de ferramenta", diz Carlyle, e em parte é verdade. Mas estas definições e outras como elas, são sempre imperfeitas e laterais. E a razão é muito simples: não é fácil distinguir o homem dos animais, não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. As vidas humanas decorrem na mesma íntima inconsciência que as vidas dos animais. As mesmas leis profundas, que regem de fora os instintos dos animais, regem, também, de fora, a inteligência do homem, que parece não ser mais que um instinto em formação, tão inconsciente como todo instinto, menos perfeito porque ainda não formado.
"Tudo vem da sem-razão", diz-se na Antologia Grega. E, na verdade, tudo vem da sem-razão. Fora da matemática que não tem que ver senão com números mortos e fórmulas vazias, e por isso pode ser perfeitamente lógica, a ciência não é senão um jogo de crianças no crepúsculo, um querer apanhar sombras de aves e parar sombras de ervas ao vento.
E é curioso e estranho que, não sendo fácil encontrar palavras com que verdadeiramente se defina o homem como distinto dos animais, é todavia fácil encontrar maneira de diferençar o homem superior do homem vulgar.
Nunca me esqueceu aquela frase de Haeckel, o biologista, que li na infância da inteligência, quando se lêem as divulgações científicas e as razões contra a religião. A frase é esta, ou quase esta: que muito mais longe está o homem superior (um Kant ou um Goethe, cerio que diz) do homem vulgar que o homem vulgar do macaco. Nunca esqueci a frase porque ela é verdadeira. Enre mim, que pouco sou na ordem dos que pensam, e um camponês de Loures vai, sem dúvida, maior distância que entre este camponês e, já não digo um macaco, mas um gato ou um cão. Nenhum de nós, desde o gato até mim, conduz de fato a vida que lhe é imposta, ou o destino que lhe é dado; todos somos igualmente derivados de não sei quê, sombras de gestos feitos por outrem, efeitos encarnados, consequências que sentem. Mas entre mim e o camponês há uma diferença de qualidade, proveniente da existência em mim do pensamento abstracto e da emoção desinteressada; e entre ele e o gato não há, no espírito, mais que uma diferença de grau.
O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse "sei só que nada sei", e o estádio marcado por Sanches, quando disse "nem sei se nada sei". O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra.
Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse "Conhece-te" propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que a Esfinge. Desconhecer-se conscientemente, eis o caminho. E desconhecer-se conscientemente é o emprego activo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registro consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica da sombras autónomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.
Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isso que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.
Ergo-me da cadeira de onde, fincado distraidamente contra a mesa, me entretive a narrar para mim estas impressões irregulares. Ergo-me, ergo o corpo nele mesmo, e vou até à janela, alta acima dos telhados, de onde posso ver a cidade ir a dormir num começo lento de silêncio. A lua, grande e de um branco branco, elucida tristemente as diferenças socalcadas da casaria. E o luar parece iluminar algidamente todo o mistério do mundo. Parece mostrar tudo, e tudo é sombras com misturas de luz má, intervalos falsos, desniveladamente absurdos, incoerências do visível. Não há brisa, e parece que o mistério é maior. Tenho náuseas no pensamento abstracto. Nunca escreverei uma página que me revele ou que revele alguma coisa. Uma nuvem muito leve paira vaga acima da lua, como um esconderijo. Ignoro como estes telhados. Falhei, como a natureza inteira.

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(...) A vida seria insuportável se tomássemos consciência dela. Felizmente o não fazemos. Vivemos com a mesma inconsciência que os animais, do mesmo modo fútil e inútil, e se antecipamos a morte, que é de supor, sem que seja certo, que eles não antecipam, antecipamo-la através de tantos esquecimentos, de tantas distracções e desvios, que mal podemos dizer que pensamos nela.
Assim, se vive e é pouco para nos julgarmos superiores aos animais. A nossa diferença deles consiste no pormenor puramente externo de falarmos e escrevermos, de termos inteligência abstracta para nos distrairmos de a ter concreta, e de imaginar coisas impossíveis. Tudo isso, porém, são acidentes do nosso organismo fundamental. O falar e escrever nada fazem de novo no nosso instinto primordial de viver sem saber como. A nossa inteligência abstracta não serve senão par fazer sistemas, ou ideias meio-sistemas, do que nos animais é estar ao sol. A nossa imaginação do impossível não é porventura própria, pois já vi gatos olhar para lua, e não sei se não a quereriam.
Todo mundo, toda a vida, é um vasto sistema de inconsciências operando através de consciências individuais. Assim como dois gases, passando por eles uma corrente eléctrica, se faz um líquido, assim como duas consciências - a do nosso ser concreto e a do nosso ser abstracto - se faz, passando por elas a vida e o mundo, uma inconsciência superior.
Feliz, pois, o que não pensa, porque realiza por instinto e destino orgânico o que todos nós temos que realizar por desvio ou destino inorgânico ou social. Feliz oque mais se assemelha aos brutos, porque é sem esforço o que todos nós somos com trabalho imposto; porque sabe o caminho de casa, que nós outros não encontramos senão por atalhos de ficção e regresso; porque, enraizado como uma árvore, é parte da paisagem e portanto da beleza, e não, como nós, mitos da passagem, figurantes de trajo vivo da inutilidade e do esquecimento.