sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Restauração

Continuando aqui a resenhar alguns filmes exibidos no último Festival do Rio (2011) já passado, e ao final da Mostra paulista tradicionalmente de melhor qualidade que terminou ontem. Como não tenho compromissos com temas, datas, escolhas, critérios e faço tudo absolutamente por diletantismo, pode ser que num dia ainda dê cabo da organização de todas as observações gravadas à saida das sessões, primeiras impressões desordenadas e de inferências variadas suscitadas pelos filmes assistidos.


RESTAURAÇÃO
(Boker Tov Adon Fidelman, de Yossi Madmony, Israel, 2011)
Muito se tem discutido sobre a relação entre pais e filhos em todas as midias, primeiramente nas manifestações da literatura, passando pelas artes plásticas para desembocar com toda força no cinema.
Um aspecto relevante se impõe no que concerne à parceria pai e filho. Quem não se lembra das dores e sofrimentos que estes suportaram em "O Campeão" (The Champ, Franco Zeffirelli, EUA, 1979), da afetividade beirando o homoerotismo de "Pai E Filho" (Aleksandr Sokurov, Russia, 2003), da descoberta de verdades ocultas do pai ausente em  "Nunca Fomos Tão Felizes" (Murilo Salles, Brasil, 1984), ou ainda o cumprimento dos rígidos protocolos empresariais que permeiam negócios criminosos em família como em "O Poderoso Chefão" (The Godfather, Francis Coppola, EUA, 1972/4 e 1990)? Este é um manancial em permanente efusão e sua abrangência não tem limites tanto dentro da perspectiva histórica quanto à da história do cinema.
Houve um tempo em que o cinema europeu, como modo de sobrevivência e para se distinguir da massificação e esvaziamento intelectual representados por Hollywood, produzia pequenos filmes, obras-primas de acabamento simples, de alcance metafórico e humanístico ímpares, e raramente a experiência de assistir a um desses filmes não agregava valores consistentes em nossa experiência existencial. Não que o cinema americano, além do nicho escapista e empurrado por várias contingências, principalmente as do esgotamento de suas fórmulas, não houvesse reservado a alguns expoentes um espaço expressivo diferenciado, delimitado por orçamentos, temas e algumas moedas de troca, como a realização de grandes filmes comerciais de massa como garantia para a realização daqueles projetos anelados na alma de realizadores com algo mais do que a obrigatória massa encefálica nas caixolas.
Muito menos recrudesceu o hoje cada vez mais competitivo (adoção de recursos sitematizados pelo mainstream industrial) cinema europeu na feitura destes enxutos pequenos filmes, simples e de acabamento adequado que fazem a festa durante algumas semanas em cinemas voltados a um público específico e depois têm uma relativa sobrevivência no mercado de homevideo. Devemos graças a Deus quando ainda temos a oportunidade de conferi-los em seu formato original de 35mm. num desses templos.
Este é o caso deste "Restauração" (Boker Tov Adon Fidelman, de Yossi Madmomy, Israel, 2011), uma pequena jóia incrustrada num certame diversificado e nem sempre de boa qualidade como o do último Festival Do Rio, 2011.
Fugindo das temáticas políticas e alegóricas encontráveis em grande parte da produção cinematográfica judaica contemporânea, temos aqui um drama de tintas íntimas e sombrias girando aparentemente em torno da aspereza de uma relação conflituosa entre pai e filho, num filme orientado a partir do desenvolvimento de personagens de compleições humanas e principalmente dotados de alma, e que não os transforma em receptáculos de idéias formuladas para ilustrar ou ratificar teses ou em heróis míticos dotados de poderes supra-humanos a garantir a continuidade da espécie, principalmente de homens obedientes, cordatos, omissos, humildes, pagadores de impostos escorchantes, amantíssimos e que fazem vista grossa às péssimas condições a que estão subjugados seus desejos e metas:
Um negócio de restauração de móveis e antiguidades num bairro afastado de Tel Aviv vai de mal a pior financeiramente quando um de seus dois sócios, Malamud - aquele encarregado das relações públicas e do provimento eventual de capital necessário para tocar a firma através de empréstimos no mercado - vem a falecer na cama de uma prostituta em pleno ato sexual gravado digitalmente segundo suas ordens expressas. Deixa o outro sócio, Fidelman, artesão dedicado e apaixonado pelo trabalho, em maus lençóis, como se levando consigo a parte mundana que lhe falta. Na tentativa de resgatar esta parte solapada, Fidelman faz um périplo pelas pegadas deixadas por Malamud, frequentando suas prostitutas mas seus esforços quixotescos não o levam a solução alguma.Noah, o filho de Fidelman também era considerado um filho por Malamud, e o carinho, atenções paternas e a camaradagem que os unia supriam grande parte do vazio verificado na relação dos verdadeiros pai e filho. Noah lê a oração fúnebre tradicional no enterro de Malamud e logo resolve botar as unhas as unhas de fora, insistindo sem consentimento em vender a loja para uma construtora erguer um edifício de apartamentos em seu lugar. Logicamente enfrenta a oposição do pai que insiste em encontrar uma solução conciliatória que não o distancie daquilo que foi o motor, a motivação e a razão de ser de toda uma vida voltada a dar nova chance àquelas peças avariadas, tal como agora procura resgatar da depressão a última chance de não sucumbir ao pior.
Todos os personagens são progressivamente revelados e sem pressa, num ritmo circunspecto tal como a leitura exterior que fazemos de Fidelman, valentemente defendido pela primorosa composição do veterano ator israelense Sasson Gabay, que nunca trai suas intenções secretamente introjetadas, nem as dificuldades a princípio omitidas de seu personagem, externando emoções tão genuinas que algumas vezes somos tentados a avaliá-las em outro contexto, à luz da vida real, um anti-herói que vai aplacar nossa sede catártica da dignidade de existir.
O desnorteamento de Fidelman está paradoxalmente na contra-mão da segurança de como o diretor deste filme conduz sua fábula a conta-gotas, oferecendo uma sucessão de camadas de informações e interpretações, com tanta sutileza de significados para elementos a princípio aleatórios que são introduzidos na trama, quanto no vigor das premissas subjetivas à complementação deste desatamento de nós que levará o filme a um bom (excelente) termo.

Um dia Anton aparece do nada, um jovem se oferecendo para ajudar no trabalho em troca de alojamento num canto da oficina. Seu passado obscuro não se ilumina apesar da visita de um irmão que o procura a mando de sua família preocupada e bem posicionada. Esta deliberada falta de informação a seu respeito e seu consequente mistério é a mola propulsora de frágeis vínculos emocionais que vão se consolidando e unindo um pai negligenciado a seu novo filho adotivo.
Fidelman passa a ensiná-lo técnicas de restauro, o cuidado necessário, a paciência e principalmente o apreço que se deve devotar àqueles objetos cujo valor afetivo suplanta em muitas vezes a sua cotação em dinheiro. Como a progressiva adaptação de Anton é flagrante e sua sensibilidade reservada salta aos olhos de seu novo pai, não demora que a imediata interação com a família de Fidelman traga novos elementos de preocupações e conflitos quando este se apaixona por sua nora grávida de oito meses e em processo de separação do marido Noah.
Agora aquele núcleo familiar que se encontrava disperso e conflitante parece se aglutinar na desagregação trazida por um elemento exterior aparecido de maneira avessa à do visitante de "Teorema" (Pasolini, Italia, 1968), deixando fora disso quaisquer elementos tradicionais de messianismo ou tradições judaicas baseadas em revelações ou outros aspectos místicos de caminhos para a redenção do mundo.
À medida em que instaura um processo, Anton tenta resolvê-lo ao resgatar a paz para a consciência conturbada de Fidelman descobrindo, assim como nós em relação aos seus talentos, um velho piano Steinway do século XIX empoeirado sob uma pesada carga de entulhos nos fundos da oficina. Esta peça, com sua estrutura de ferro quebrada (tal como o coração partido de seu dono), se devidamente restaurada será a solução para os problemas financeiros pendentes do velho. A partir daí unem-se as forças do bem numa sociedade (Fidelman, sua nora grávida e Anton) em busca da substituição da peça quebrada por outra talvez encontrável em algum antiquário da cidade, ou quiçá talvez onde?
A forma sutil como isto é colocado nos pega de surpresa quando inferimos as óbvias associações oferecidas. Após muito pesquisar chegam à conclusão de fabricar uma peça nova numa fundição. Assim o piano que salvará a situação está pronto, resistiu à afinação, ao estiramento de suas cordas (seus tendões, seus músculos, sua perseverança).
Em sua simplicidade, este admirável filme dialoga com os valores que sucumbiram ao imediatismo, à ganância, ao mercado, à "modernidade", à falta de educação e ao relaxamento da cultura como critério de bom gosto e elegância verificados em "Horas De Verão" (L'Heure D'Eté, Olivier Assayas, França, 2008) e com a crise de valores exposta nas reflexões crepusculares impulsionadas por elementos semelhantes em "Violência e Paixão" (Gruppo Di Famiglia In Un Interno, Luchino Visconti, Italia, 1974). 

Por isso faz toda a diferença ainda ter-se a oportunidade de ver este filme, assim como todos os outros, em 35 mm., este dinossauro em extinção que num breve futuro será substituido por algum outro processo ainda mais barato, empurrando cada vez mais os cinéfilos mais exigentes aos guetos em que desfrutarão de seus tesouros na forma original em que foram concebidos e que lhes confere total inteireza e dignidade. A linguagem cinematográfica, dentro desta perspectiva de mercado e atualização tecnológica está tendo sua evolução solapada e a finalidade artística deturpada. Até quando vamos suportar ver instituições como Centro Cultural Banco do Brasil, a Caixa Cultural e outros órgãos patrocinadores de cultura através de leis de incentivo anunciarem festivais de cinema que ocultam os formatos em as obras serão exibidas? Já tenho saudades de um futuro também não muito distante (e que aqui esteja eu para gozá-lo), em que a nostalgia dos tempos analógicos serão a tônica e a panacéia para o embotamento da anemia cultural em que os povos estarão submetidos.
Fidelman precisa escolher entre um de seus filhos em relação ao que vai orientar o futuro de seu neto? Não penso que deva, mas Fidelman faz a coisa certa, aquilo que seu coração agora restabelecido manda: aquele piano, cavalo de batalha, alvo de tantas moções e dedicadas horas de restauro, não cumprirá o cruel destino que lhe foi atribuido, o de salvar um negócio da bancarrota, mas continuar existindo como ferramenta para a consumação de uma arte que iluminará futuras
gerações, hoje ainda incipientes.
Cotação: todas as estrelas possíveis.

2 comentários:

  1. Meu querido Danilogo,

    Devia ser proibido postar comentários tão provocadores da nossa curiosidade... o filme já não está em cartaz depois do término do Festival; vamos ter que ficar esperando e torcendo para que entre no pequeno circuito, e breve.
    A mim a história do filme interessa, para além da questão aparentemente central da relação pai-filho, também pelas ocorrências colaterais (?) como o confronto entre a tradição e o progresso, a ditadura da decretação da obsolescência em detrimento da adoção "indiscutível" da praticidade e do moderno. O velho e o novo, a eterna roda que gira fora e dentro de nós.
    Parabéns pelo texto, vc escreve muito bem, é sensível, direto e demonstra uma cultura invejável.

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  2. E aí, doutora: Obrigado pelas palavras.
    Quanto a escrever muito bem ainda tenho minhas dúvidas e dívidas com a gramática e o vocabulário. Mas como nos expressamos em português graças ao bom Deus, isto não invalida a prática capenga, até porque nos acostumamos a fazer coisas certas por linhas tortas, não é assim? Ou ao contrário (que aqui vestiria como uma luva)? Não se esqueça que no enunciado dete blog estão previstas pistas que tanto podem iluminar como e principalmente, desorientar. Vale dar uma conferida. De qq modo, a senhora é o máximo e sua sensibilidade lhe dá aquele algo mais que seus pacientes devem usufruir. Superbeijo.

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