terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os Filmes Morreram? O Que Há De Novo?

Mais uma resenha do crítico A. O. Scott publicada no NYTimes. 
Parece que leu nas entrelinhas do meu post "Restauração".
http://www.nytimes.com/2011/11/20/movies/film-technology-advances-inspiring-a-sense-of-loss.html?_r=1&scp=1&sq=film%20is%20dead&st=cse
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Os Filmes Morreram? O Que Há De Novo?
(Por A. O. Scott, publicado em 18 de Novembro de 2011 no NYTimes)

Poucas semanas atrás eu viajei para uma faculdade em Long Island para fazer uma leitura - em outras palavras, ficar em pé àfrente de uma sala cheia de gente, divagar por alguns minutos sobre filmes e crítica cinematográfica e depois passar o resto do tempo respondendo algumas questões. No meio do dia o público
parecia estar composto em números equitativos por estudantes ainda não graduados e de velhos estudantes matriculados em cursos de extensão. Metade das pessoas tinha 25 anos ou menos e a outra por volta dos 65, deixando-me descoberto no meio de duas gerações e, como aconteceu, saltando vertiginosamente de uma pergunta para outra, entre o futuro e o passado. 
O 3D vai durar? Qual será a próxima novidade do cinema globalizado? O que estarão fazendo as novas estrelas daqui a 10 ou 20 anos? Perguntas muito difíceis de responder, posto que o trabalho de um crítico não é nem de profecia ou revelação de surpresas.
Mas outro tipo de questão - que nem sempre vinha das pessoas mais velhas na multidão - não foi totalmente surpreendente: Por que não existem mais bons filmes?
Não adianta responder que de fato, atualmente eles existem. Fornecer evidências para sustentar esta afirmação - citando  "Margin Call", "Moneyball" ou "Mysteries of Lisbon"? - é igualmente infrutífero porque não se trata só de uma pergunta, mas de uma reclamação generalizada. É amplamente assumido, quase ao ponto de configurar uma sabedoria convencional, que os filmes sofreram um declínio geral de qualidade e que as exceções são ocasionais, remanescentes ou acidentes bem sucedidos. O passado está cheio de glórias, sejam as jóias preto-e-branco do velho sistema dos estudios ("Casablanca", "A Malvada", vários deles), tesouros importados dos anos 60 (Antonioni, Godard!), ou os diamantes brutos da nova Hollywood dos anos 70. Seja qual for a sua era dourada preferida, uma coisa é certa: Não se faz mais nada como antigamente.
No que se refere à técnica isto é um fato consumado. A atual engrenagem de produção e distribuição dos filmes está no meio de uma mudança de épocas, parte da rápida e convulsiva digitalização de tudo em baixo do sol. Se você vai a um cinema estará cada vez menos propenso a ver um filme da forma tradicional, literalmente. Latas e rolos estão sendo substituidos por placas-mães, HDs e arquivos digitais e algumas velhas marcas tradicionais e típicas do cinema - o redemoinho granulado da emulsão projetada pela luz que atravessa o celulóide, o ocasional estremecimento das engrenagens dos rolos deslizando para o seu lugar, o zumbido e o clique do projetor - estão rapidamente sendo tomados por uma aura de antiguidade. Filmes estão sendo feitos e exibidos digitalmente e cada vez mais distribuidos também nesta forma, navegando no telão da sua sala de TV ou em algo na sua mão.
Estas mudanças inspiram entusiasmo, um sentimento de extrema confusão e também um sentimento de luto. Numa recente resenha de "Tower Heist" e "Melancholia" - uma comparação que pode imediatamnete refutar e confirmar a desesperança de cinéfilos retrógrados -  Anthony Lane do The New Yorker lamenta a iminência do eclipse do ato de ir ao cinema, um ritual coletivo ostensivamente ameaçado pela ascendência da exibição residencial privada. "Aproveite enquanto existe", ele conclui, (oferecendo por meio de uma citação de "Melancolia") um epitáfio preventivo pra esta forma de consumo cultural construida nas cercanias da "compulsão" e da "comunhão", com raizes na antiga Atenas e, aparentemente, sem futuro a que se referir. 

Ao mesmo tempo uma manchete no blog de Roger Ebert anunciou: "A Repentina Morte do Filme". Neste ensaio Mr. Ebert tempera sua tristeza com resignação: "O sonho do celulóide continuará existindo em minhas esperanças mas o video comanda a arena", ele escreve. Sr. Ebert, que com freqüência (e eloquentemente) defendeu a superioridade estética do filme sobre o vídeo, reconhece que "minha guerra acabou, meu time perdeu, e é importante considerar isto no mundo real". E ele conclui com uma irônica elegia sobre a máquina de escrever, uma máquina que se tornou, junto com o projetor de cinema e os toca-discos, fetiche e emblema de uma obsoleta modernidade. Sr. Ebert geralmente é imune ao preconceito de uma idade do ouro que se tornou uma posição crítica padrão, ele abraça o velho e o novo com igual ardor. Mas o sentimento de perda que expressa em face da evolução tecnológica ressoa naquela melancolia que encontrei em Long Island.
Pode ser difícil de escapar, e ainda mais difícil argumentar contra a sensação de que algo que se costumava amar está indo embora, ou já se foi. Isso é menos uma posição crítica ou um insight histórico do que um estado de espírito induzido por comparações seletivas habituais e palpites subjetivos. Naquela época (enquanto existia) as estrelas foram as mais glamourosas, os roteiros mais exatos, as histórias mais convincentes e os críticos mais poderosos.
Os filmes são essencialmente uma coisa do passado? Fazem tudo o que temos agora, digital ou analógico, na melhor das hipóteses representar uma pálida sombra daquela glória?
Entre os volumes recém-chegados nas livrarias - falando de obsolescência! - estão duas coleções de escritos de críticos proeminentes que dizem o mesmo em seus títulos. Um volume de ensaios e opiniões de Pauline Kael na Library of America é chamado de "A Era Do Cinema", um período que evidentemente durou de meados dos anos 50 até início dos anos 90, quando Kael abdicou de sua autoridade no The New Yorker. Enquanto isso, um livro de Dave Kehr (que escreve uma coluna de vídeo doméstico para The New York Times), intitulado "Quando Os Filmes Eram Importantes", reúne seus artigos dos anos 70 e 80, quando escreveu principalmente para The Chicago Reader. Não que devamos julgar um livro pela capa. O ar de nostalgia na embalagem - a era dos filmes não é obviamente agora, quando eles já não importam - está comprometida pela prosa assertiva e muitas vezes emocionalmente situada no presente. Ou seja, mesmo que Kael e o Sr. Kehr por vezes olhem para trás na história do cinema, eles compartilham uma preocupação com o que está acontecendo ao seu redor, os novos trabalhos de atores e diretores que alimentam e frustram a sua fé nesta midia. Ler Kael sobre Robert Altman ou Kehr sobre o Sr. Blake Edwards não é apenas revisitar argumentos passados, mas também encontrar e absorver o vigor desses argumentos, como se estivessem acontecendo hoje. 

"Nashville" e "10" até agora pertencem à categoria de filmes antigos, e o ato de republicar antigas obras da crítica pode parecer uma forma de escorar os monumentos do passado contra as deficiências da atualidade.
A transição da tecnologia analógica para a digital tem o efeito paradoxal de fazer estes monumentos mais numerosos e imponentes. Como uma plataforma para a crítica, a internet se presta a intermináveis circulações de listas, e também se tornou um local de encontro para antiquários cinematográficos de todos os tipos e sensibilidades. Ao mesmo tempo, a história do cinema está agora mais fácil e mais rapidamente acessível do que nunca. Podemos lamentar o fim dos cine-clubes e das sociedades universitárias que apresentavam cópias sofríveis de grandes filmes, mas no que concerne a qualquer padrão estético (ao contrário do padrão sentimental), a alta qualidade das cuidadosas restaurações e transferências para o digital de clássicos e curiosidades agora disponíveis em DVD e Blu-Ray, oferecem uma maneira muito melhor de encontrar o cânone.
Aproximar-se muito deste cânone contribui para a desvalorização do presente. Aquelas caixas da Criterion Collection ou da Warner Brothers - de Ozu e Rossellini, de westerns e filmes noirs e cinema avant-garde - olham das prateleiras reprovando-nos , assim como os filmes da Turner Classics espreitam na consciência do DVD, silenciosamente xingando os espectadores que apenas querem recuperar o atraso com "Modern Family" ou "Bored to Death."
Não deveríamos estar,
de todas as maneiras, dando a nossa devida atenção para os filmes que provaram sua dignidade ao longo dos anos?  
A alternativa é uma aceitação acrítica do novo por si só, um desprezo raso pela tradição e uma cegueira para suas belezas. Mas finalmente há o mesmo risco de ser cegado por essas belezas com as energias que nos cercam, e incorrer no erro da ligação afetiva a um padrão de julgamento. É claro que nenhuma estrela de cinema moderno pode coincidir com a resistência de Humphrey Bogart cansado da vida ou a brilhante sagacidade de Bette Davis e, claro, nada nos filmes de hoje se parece ou ecoa do jeito que se costumava fazer.
Mas por que - ou como - deveria?
Toda arte muda de forma, muitas vezes pagando taxas exorbitantes ou maneiras que causam desconforto aos seus devotos. Mas as artes também têm uma notável capacidade para suportar e absorver essas mudanças e para provar o erro das profecias de sua morte.
Atualmente ainda há filmes que se ressentem de serem especialmente frágeis ou perecíveis. Isso acontece porque o cinema é muito mais jovem do que as outras formas da grande arte, que tiveram séculos para desaparecer, polir, sofrer mutações e polinizar-se. Mas há também algo sobre o caráter essencialmente moderno do cinema que o torna vulnerável aos temores da obsolescência. A câmera possui uma incrível capacidade para captar a vida como ela é, aproveitar os eventos tal como eles acontecem e também evocar visões do futuro. Mas no momento em que as imagens chegam aos olhos do espectador, elas já pertencem ao passado, assumindo o status de algo recuperado. Quanto a essas ousadas projeções do que está por vir, elas têm o hábito de parecer curiosamente defasadas tão logo se apresentam.
A nostalgia, em outras palavras, está edificada no fato de ir-se ao cinema, razão pela qual esta ação em si mesma tem sido, quase desde o início, o objeto da nostalgia. Não parece ser um acidente que tantos filmes abracem esta disposição agridoce: 

Esta semana, "Hugo" de Martin Scorsese que revisita os primórdios do cinema, estreará no mesmo dia que "The Artist", filme silencioso de Michel Hazanavicius sobre o cinema mudo. Ambos recuperam um pouco da magia inebriante dos velhos tempos, e ambos fazem uso da mais recente tecnologia.
"Hugo", cheio de efeitos digitais e visualização em 3-D, leva o público de volta para o tempo de Georges Méliès, o cineasta visionário cujo inventivo senso do espetáculo fez dele um pioneiro dos efeitos especiais na virada do século 20. "The Artist", um filme preto e branco, em formato de tela pequena, narra o conto agridoce de um ídolo cuja carreira é ameaçada pela incorporação do som nos filmes. O cinema falado, escusado será dizer, representa a primeira morte do cinema, uma tragédia que o Sr. Hazanavicius tem a sensibilidade de reconhecer e zombar dela com sagacidade.
Os filmes sobreviveram ao som, assim como à televisão, ao videocassete e a cada diagnóstico terminal. E eles vão sobreviver às turbulências atuais também. 

Como posso ter certeza? 
Porque em 10, 20 ou 50 anos a partir de agora haverá certamente alguém reclamando que eles não são feitos como antigamente. 
O que significa dizer, como são feitos agora.

A version of this article appeared in print on November 20, 2011, on page AR1 of the New York edition with the headline: Film Is Dead? What Else Is New?

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Deu no Estadão em 29 de Abril de 2012:
Os melhores filmes de todos os tempos ainda não foram feitos
29 de abril de 2012| 18h01|Por Alexandre Matias

O cinema não vai acabar, mas mudar.
Há uma semana, durante o encontro Global Inet, realizado em Genebra, na Suíça, o fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, deu uma declaração no mínimo polêmica. Entusiasmado com a recente notícia de que seu site fez a vetusta Encyclopedia Britannica, que era impressa desde 1768, aposentar sua versão em papel, ele profetizou sobre o futuro da indústria do cinema: “Ninguém se dará conta quando Hollywood morrer. E mais, ninguém vai se importar”.
Não é uma continuação do velho discurso deslumbrado com o digital que o transformava em carrasco final de velhas mídias e tecnologias. Ao contrário do que foi alardeado por todo o século 20, o rádio não matou o jornal, como a TV não matou o cinema, nem o telefone matou a conversação. E quando o tema é internet, tais “mortes anunciadas” parecem apenas provocações – afinal, a internet não “mata” a indústria da música, do audiovisual, da fotografia ou das notícias, mas agrega cada faceta destes universos dentro de sua interface.
A questão, frisou Wales, não é tecnológica, mas social, citando a própria filha, Kira, de 11 anos, como exemplo: “Ela maneja com total desenvoltura uma câmara de alta definição, que usa para captar, editar e produzir seus próprios filmes na internet”. E continuou: “Quando essa geração completar 22 anos realizará filmes com mais qualidade que os de Hollywood. Esses mesmos filmes serão mais populares e destruirão o modelo de negócio vigente. Ocorrerá o mesmo que ocorreu com a Wikipedia, que fez que a Encyclopaedia Britannica deixasse de ser impressa 11 anos após a criação (da Wikipedia)”, declarou. E ao finalizar, cravou: “Há uma grande possibilidade que todo o modelo de produção esteja completamente ultrapassado em muito pouco tempo.”
Isso não quer dizer que o cinema vai acabar – longe disso. Wales falava especificamente da indústria cinematográfica norte-americana, concentrada nos estúdios de Hollywood, em Los Angeles. O modelo funcionou por décadas e foi se adaptando aos tempos: das salas de exibição à chegada da locação (primeiro o VHS, depois o DVD, outros candidatos a “assassinos do cinema”, cada um em seu tempo), passando pela TV a cabo e seu pay-per-view, filmes exibidos em voos até a tecnologia 3D. Tudo isso ficava concentrado na mão de alguns executivos, uma panela de técnicos, uma turma de atores e outra de autores. Mas eis que chegam as mídias digitais e, de repente, qualquer um pode fazer cinema. A princípio apenas alguns filminhos, feitos às vezes com o celular. Acontece que aos poucos outros truques típicos de uma indústria centenária (do figurino aos efeitos especiais, da iluminação à direção de arte, do roteiro à fotografia) são absorvidos por uma geração que nem sequer chegou à maioridade, como a filha de Wales.
Quando chegarem, em menos de dez anos, assistiremos a filmes completamente diferentes, que não se limitam a apostar no que é certo e fugir do que for mais ousado (este sim, o grande erro da indústria tradicional).
Falando de outra indústria, a da música, o ex-guitarrista do grupo inglês Oasis, Noel Gallagher, disse que “o consumidor não queria Sgt. Pepper’s (o clássico disco dos Beatles), nem Jimi Hendrix, nem Sex Pistols”, ao reclamar que a indústria havia se tornado uma imensa pesquisa sobre as vontades do público. 

Ele ecoava uma frase de Henry Ford muito repetida por Steve Jobs: “Se perguntássemos o que os consumidores queriam, eles não iriam querer o carro, e, sim, um cavalo mais rápido”.
A mídia não vai morrer, mas precisa se reinventar para se adequar. E se a indústria que toma conta disso não assumir logo estas rédeas, outros vão fazer isto por ela, criando uma nova indústria. A melhor analogia sobre a mudança remete à invenção da fotografia, que, teoricamente, acabaria com a função dos retratistas, uma vez que ninguém pagaria para ter um retrato pintado. O que aconteceu? Os pintores da virada do século 19 para o 20 criaram o impressionismo e o modernismo. E isso deve acontecer com o cinema, e logo. Como diz um amigo meu, ainda não vimos os melhores filmes de todos os tempos.
 

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