sexta-feira, 14 de outubro de 2011

De Como Um Baiacu Merecido Vale Trocentas Vezes Um Jabuti Atravessado


Admiro este escritor, simples, econômico, inspirado e refinado.

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Meu gato e os búlgaros

14 de outubro de 2011 | 3h 07

Milton Hatoum - O Estado de S.Paulo

O leitor talvez conheça o baiacu, ou os sabores desse peixe de água doce e salgada. Eu conheço outro: o Baiacu de Ouro, um prêmio literário que recebi em Manaus, há uns 20 anos.                                                                                                                                                  
Um dia alguém me telefonou e deu a notícia. Agradeci com duas palavras e soube, aliviado, que eu não ia fazer um discurso na solenidade da entrega. Minha surpresa maior foi o envelope balofo que recebi junto com o Baiacu. Não era um cheque, era dinheiro mesmo, um monte de notas velhas e amassadas, como se recebe no garimpo. Mas como a inflação naquele ano beirava a obscenidade, a ponto de desmoralizar os brasileiros, meu ânimo arrefeceu. O valor do prêmio era segredo, e este garimpeiro de palavras não ia contar em público o valor do trabalho privado. Tive que ouvir um discurso, que felizmente foi breve, e mesmo brevíssimo, sem firulas e salamaleques. Depois quatro músicos interpretaram o Quarteto n.º 1, de Villa-Lobos.                                         

Eram músicos búlgaros, todos loiros e rosados, e todos usavam um traje a rigor na noite abafada. O envelope gordo não entrava no meu bolso, tive que segurá-lo o tempo todo enquanto ouvia o primeiro movimento do Quarteto do grande compositor. Depois do "Canto Lírico" me entreguei a um devaneio: não fosse a queda do Muro de Berlim, esses virtuosos das cordas não estariam interpretando com esmero "Melancolia" diante de um escritor emocionado, que apalpava um envelope obeso. Esses músicos são a maior contribuição da queda do Muro para o Amazonas, pensei, prestando atenção à harmonia, vendo mãos búlgaras movimentar arcos e beliscar cordas, o suor escorrendo de faces e orelhas do país dos Bálcãs, até gotejar no assoalho de uma cidade amazônica. Aplaudi de pé, o coração disparado.                                                                                                
Quando saí da sala, abri o envelope, contei as cédulas de cruzados e cheguei a um valor que dava para alimentar meu gato por três meses e ainda levá-lo a um bom veterinário. Leon, Leon, meu querido e inesquecível felino de rua, agora aos meus cuidados e, de agora em diante, com a pança cheia e uma consulta marcada. A pelagem da cor de açafrão, o olhar aceso e misterioso, o miado rouco e indômito, tudo nele lembrava um filhote de onça vermelha.                                                                                                                         
Algo dentro de mim - talvez minha esperança teimosa - dizia que a estatueta do Baiacu de Ouro fosse realmente de ouro. Bom, o peixe inteiro de ouro maciço seria pedir muito, mas de ouro pelo menos as barbatanas, de ouro uma pontinha da cauda ou um dos olhos. Mas não: era uma estatueta de latão, toda dourada: mera fantasia para um escrevinhador de mundos fantasiosos.                                                                                               
Comprei muitos jaraquis para o meu Leon, dei-lhe uma cama digna e um colchão novo: pedrinhas brancas e polidas, que nem ovos de codorna. Enfim, dei a Leon o próprio Baiacu, para que ele sonhasse com um peixe enorme, fora d'água. A estatueta, cravada num cubo de madeira, prendia a porta aberta do balcão, assim evitaria o barulho quando o vento enraivecia. O bater de portas é um dos grandes traumas da minha infância, quando esse barulho seco, terrível e inesperado me sobressaltava em noites de tempestade. E como a porta do balcão era a única rebelde do meu lar, designei a estatueta para ser sua sentinela diuturna. Lembro que Leon aproximava-se do baiacu, eriçava as orelhas e afiava as garras, ensaiando o salto certeiro. Quando entardecia, os raios de sol, mais amansados, incidiam magicamente sobre o latão, criando reflexos estranhos que enfeitiçavam o felino. Penso que ele não via apenas um baiacu, via também cardumes cintilantes, refletidos no vidro da porta; talvez visse uma possibilidade real de nunca mais passar fome, como milhões de gatos de rua, seus semelhantes paupérrimos, sem prêmios, sem consultas, afagos ou jaraquis. Sem nada. E quando Leon decidiu dar o bote fatal e abocanhar sua presa, percebeu que esse peixe era de mentira, como se dissesse que os prêmios, de algum modo, são apenas fantasias fugazes.                                                                                                                                                  
 O tempo passou, Leon ganhou um epitáfio escrito pela minha pena, e a estatueta de latão extraviou-se numa de minhas mudanças. E a vaidade daquele tempo, uma vaidade tão grande que parecia inchada, secou por completo.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Cavalo De Turim

(A Torinói Ló)
de Bela Tárr, Hungria, 2011




A princípio uma voz gutural enuncia a história na qual Nietzche , morando em Turim em 1889, foi buscar sua correspondência no correio deparando-se  no caminho com um cavalo sendo brutalmente espancado após empacar atrelado numa carroça. Repentinamente o filósofo saltou com todo seu corpanzil e vasto bigode sobre o animal vertendo lágrimas convulsivas, abraçando seu pescoço. Foi socorrido e conduzido para casa onde ao chegar bradou para sua mãe: "Eu sou um idiota!". Depois não emitiu uma só palavra durante dois dias e viveu “louco” seus últimos dez anos, envolvido em silêncio, cuidado pela mãe e pelas irmãs.
na mais completa escuridão.

A partir de então este cavalo fustigado carrega seu carroceiro por uma estrada tomada por densas brumas e uma ventania infindável que soprará incansavelmente durante as mais de duas horas da projeção deste filme, "um vento seco sobre a terra estéril"  - se não for o principal, certamente um dos principais personagens deste filme admirável em vários sentidos:
Na sua opção de ater-se ao side show da propalada loucura do filósofo privilegiando o irracional em detrimento do gênio atormentado (ou seriam equivalentes?); na deliberada opção em isolar-se num ermo com três seres que contemplam o fim do mundo que se precipita (o cavalo, um pai e a filha); e pela forma como as mesmíssimas ações rotineiras são repetidas num intervalo de seis dias sem que um único plano se repita ou uma única sequência se apresente da mesma forma, deixando-nos a impressão de que não há limites para a criatividade cinematográfica de Bela Tárr. 

Fica evidente o quanto as lições da maestria com que seu conterrâneo Miklós Jancsó realizou seu  esplêndido "Os Sem Esperança" (Szegénylegények, Hungria, 1966) foram devidamente assimiladas: aqui não há nenhum fim de mundo pasteurizado e embrulhado em imagens-clichês como em "Melancolia" (Melancholia, de Lars Von Trier, Dinamarca, 2010).
No primeiro dia expõe-se o cotidiano ritualizado em que as ações são executadas, uma existência esvaziada de sentido afora os afazeres iminentemente práticos de susbsistência: desatrelar o cavalo, recolhê-lo ao estábulo, alimentá-lo, guardar a carroça, trocar a roupa do pai, o cozimento e a degustação das batatas - único alimento -, a manutenção dos equipamentos domésticos, do vestuário, do trabalho e acima de tudo e principalmente, a obssessiva contemplação do vento lá fora, uivando incansavelmente em sua obstinada viagem de varrer os últimos recursos de um planeta que tornou insustentável a vida sobre si, dentro dos  próprios corpos de seus habitantes ou mesmo de suas almas. 

A cada dia subsequente as mesmas ações vão-se esvaziando, a  câmera dança terminando sempre detida em deslumbrantes composições de naturezas-mortas dos objetos cotidianos; o cavalo que resiste ao trabalho, empacado, sem sair do estábulo e que já não come, assim como as batatas de seus donos que parecem não mais apetecê-los, restando abandonadas sobre a mesa rústica. Estes seres estão cada dia mais mobilizados pela iminente catástrofe que se avizinha. 
No terceiro dia chega uma espécie de emissário do apocalipse, que ao proferir a única fala de fôlego em mais e duas horas de projeção recebe como réplica do pai a constatação do fim: "Sim. E daí?". 
Qual a novidade daquela anunciação? Ali dentro, a obstinada repetição já configura a ausência do sentido transformador e de continuidade da espécie. Tudo já secou, inclusive o poço cuja água, fonte da vida, exaurida após a passagem de uma carroça de ciganos gozando na esbórnia os últimos estertores de suas existências claudicantes como a da leitura bíblica que anuncia a punição e a ira divina aos homens que  atentam contra as leis divinas .
Acossados, um dia pai e filha tentam fugir e não conseguem, voltando sem explicações do meio do caminho, encerrando-se novamente em seu bunker.
De repente no último dia  o vento cessa e a escuridão açambarca tudo. São inúteis as tentativas de iluminá-la, o fogo não obedece, os combustíveis são funcionam, as brasas se apagam. Estão devastados todas as esperanças, todos os sonhos e ilusões que houveram um dia. Não há mais como nem com o que remediar os personagens ou a história contada neste filme, muito menos seus espectadores, irremediavelmente condenados a sucumbir às trevas de um fade out.
A delicadeza em que se encerram estes magníficos planos de contrastantes imagens preto-e-branco, e os frequentes momentos em que  nos aprofundamos em suas trevas, somados à cantilena monocórdica minimalista que perpassa tudo incessantemente, oferece-nos oportunidades para que além da fruição daquilo que nos é oferecido possamos digerir uma cadeia de significados e sugestões que se impõem de forma tão espontânea e orgânica, que saímos deste filme com a nítida impressão de que este nos seguirá acompanhando e não esquecidos dele na primeira esquina,  como se nos tivéssemos transformados em anjos (como diria Tarkovski em relação às modificações que sofremos quando nos deixamos subjugar e alimentar pela experiência da arte e os ideais que ela expressa), ou confrontando a força de nossas consciências com essa escuridão, como num certo dia nelas mergulhou aquele ilustre, louco e genial pensador.

Cinco estrelas são muito poucas para este filme e nem sei se cotação é algo que se preste a uma aproximação com ele.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Dublê Do Diabo

Estava como sempre animadíssimo à espera da edição 2011 do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e brochei geral ao verificar que os filmes que eu mais aguardava estavam fora do certame, ou seja, 
"Faust", de Alexander Sokurov,
"Pina", de Win Wenders,
"Shame", de Steve McQueen,
"Rampart", de Oren Moverman,
"The Descendants", de Alexander Payne,
"Footnote", de Joseph Cedar,
"Once Upon A Time In Anatolia" de Nuri Bilge Ceylan,
"The Artist", de Michel Hazanavicius,
"The Kid With A Bike", dos irmãos Dardenne,
"Sleeping Sickness", de Ulrich Köhler,
"Carnage", de Roman Polanski,
"360", de Fernando  Meirelles, etc., etc., etc., ...
Contornada a frustração, embarquei no ...
Resto:

1 - O DUBLÊ DO DIABO
(The Devil's Double)
de Lee Tamahori, USA, 2011


Filme de ação americano ambientado durante a guerra do Kuwait, caracterizando a mafiosa - à moda dos criminosos italo-americanos - famíla de Saddam Hussein, seus desmandos, apresentando personagen estereotipados e sem profundidade (o caso mais evidente é o dos dois protagonistas interpretados pelo ator Dominic Cooper, caricaturas de próteses, voz chapada e falsa introspecção, tudo à vez e conforme a necessidade) e lançando mão de uma heroína improvável, mistura de femme fatale com puta triste que no final tenta redimir o herói da moral positiva, o indefectivel arroz de festa do cinema roliudiano.
Um filme extensivo, recheado de planos de localização, o beabá da mais batida cartilha narrativa.
Se fosse podado de todos seus excessos sobraria um curta-metragem sem muito sentido que, involuntariamente, talvez resultasse em algo interessante.
Tudo ali pega pesado, não só em relação à operação de retratar situações e personagens como também nas concepções plástica e fotográfica (em que pese a horrenda estética recém pós-moderna em voga nos anos 90 onde qualquer diretor de arte ou de fotografia teria que fatalmente navegar num produto com esta ambientação). 
Não aprofunda o tema do duplo, e aqui não há cobrança de algo no nivel de "Quando Duas Mulheres Pecam" (Persona, de Ingmar Bergman, 1966) o que seria uma crueldade, mas que se aproximasse pelo menos de um vizinho de quarteirão, se tivesse um pouco mais de boa vontade, como "A Outra Face" (Face/Off, de John Woo, 1997). O duplo aqui só se justifica  enquanto ferramenta para justificar correrias, tiroteios e luxúria.
O contexto político não passa de pano de fundo: há farta exibição de documentos daquela que foi a primeira guerra "ao vivo" da história, a guerra do Golfo (invasão do Kuwait pelo Iraque), ou guerra do video-game como também ficou conhecida, e que a propósito este filme faz jus pela limitação operacional do seu alcance. 
Não se trata aqui da discussão ou do retrato das relações criminosas e de espionagem de corporações do mundo ocidental com a industria do petróleo e das parcerias nem sempre limpas deste bloco com os paises produtores como em "Syriana - A Industria do Petróleo" (Syriana, de Stephen Gagham, 2005), mas somente da exploração de um evento e situação como matéria para justificação da ideologia imperial dominadora disseminando-se pelo mundo através do cinema, ao demonizar culturas não enquadradas em seu catálogo de referências positivas de bajuladores internacionais.
Depois de muito extender a narrativa com uma profusão de peripécias escabrosas e esgotar todos seus maneirismos exaustivamente repetidos, lá pelos quinze minutos finais é enfiado goela-abaixo dos espectadores a história da puta redimida que proclama - após ter passado quase duas horas trocando perucas, modelitos provocantes, fodendo, cheirando e cobiçando o pau grande do dublê de seu patrão - quando o herói a pergunta, em meio a uma fuga improvável, se tem algum dinheiro na bolsa: "Eu não sou prostituta!". Onde e quando, cara-pálida? Au-de-là des nuages?
Este enredo tardio poderia ter sido espalhado em meio aos desmandos do filho de Saddam, e como opção para eles, mas o roteirista, cansado, optou por um deus-ex-machina - uma filha, coitadinha dela - entregue aos cuidados de uma mãe desprotegida lá nos confins do deus-me-livre. Nesta altura o dublê dá o tiro de misericórdia no filme: "E você só veio me contar isto agora?" 
É de rolar de rir.
Assim expõe-se a miséria humana em configurações mais imediatas de leitura para jogadores de play station, pois aquela vida no grand monde, aquele pó a rodo, os rolex, os breitlings, as sedas e os automóveis que são oferecidos como apelos inalienáveis para uma existência permeada por valores consumistas,  este filme à guisa de crítica subliminar acaba por ratifica-los como um little help for his friends do andar de cima, lugar habitado pelas famílias, sempre elas, em função das quais se travam as guerras, negociam-se os interesses, salvaguardam-se as mães sempre ameaçadas pelos cafetões que facultarão o verdadeiro orgasmo aos seus maridos sanguinários, e onde só existem dois tipos de mulheres: as santas sofredoras, as excluídas, mártires (a noiva estuprada que se suicida em meio à festa do casamento) e as putas aproveitadoras e parceiras que ao fim da jornada são obrigadas a fugir a cavalo para escapar de um destino miserável.
De cinco estrelas, duas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Exortação a danilogo


Prezado sr. danilogo
Ia passando e não me contive ao ver anunciado na minuta de seu cardápio estes fragmentos de email do seu amigo Bernardo Soares que, pelo visto era entusiasta de um muito antigo colega meu francês a quem devo muita inspiração e respeito, mas não a ponto da apropriação de seu conteudo de forma eufemistica (ma non troppo) como ele...
No mesmo instante me veio à baila o título de um capítulo de Metrôdoros, primeiro discípulo de Epicuro onde se lê :"A causa que reside em nós mesmos contribui muito mais para a felicidade do que aquela advinda das coisas".
Com efeito, no que se lê destas linhas que comentam seus não-atos nesta sua atual passagem, lembrando-me da analise que realizei a respeito desta matéria, gostaria de exortar sua ilustre pessoa sobre a cautela devida em relação ao que à primeira vista um post bem-intencionado pode significar, ou induzir, posto que assim como nosso corpo está envolto em vestimentas, nosso espírito está revestido de mentiras. Nossos dizeres, nossas ações, todo nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestimentas se adivinha a figura do corpo.
Portanto seguirei procurando meu rumo assim como desejo que o seu traçado o faça defrontar-se com a absoluta clareza a respeito das máscaras que o convívio entre as gentes faz cair no badalar das últimas horas do entardecer.
Trago aqui algumas considerações :

Bastar-se a si mesmo; ser tudo em tudo para si, e poder dizer "trago todas as minhas posses comigo" (Cícero), é decerto a qualidade mais favorável para a nossa felicidade. Sendo assim nunca é demais repetir a máxima de Aristóteles "A felicidade pertence àqueles que bastam a si mesmos" (...) Pois, por um lado, a única pessoa com quem podemos contar com segurança somos nós mesmos e, por outro, os incômodos e as desvantagens, os perigos e os desgostos que a sociedade traz consigo são inúmeros e inevitáveis.
Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grand monde, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Antes de mais nada, toda sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é. Ademais, qunato mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente.
(...) A paz verdadeira e profunda do coração e a perfeita tranquilidade mental, esses bens supremos da terra depois da saude, são encontráveis unicamente na solidão e, como disposição duradoura, só no masi profundo retraimento.
(...) Cada homem é apenas uma pequena fração da idéia de humanidade, e assim precisa ser complementado em muito pelos outros para constituir, em certa medida, uma consciência humana plena. Ao contrário, aquele que é um homem completo, um homem par excellence, expõe uma unidade, não uma fração; por conseguinte, tem o suficiente em si mesmo.
(...) O amor à solidão não pode existir como tendência primitiva, mas nasce apenas como resultado da experiência e da reflexão, dando-se conforme o desenvovimento da própria força intelectual e concomitantemente ao avanço da idade. Disso resulta, de modo geral, que o instinto de sociabilidade de cada um está na proporção inversa da sua idade.
(...) Entretanto, em cada indivíduo, a aumento da inclinação para o isolamento e a solidão ocorrerá em conformidade com o seu valor intelectual. Pois tal tendência, como dito, não é puramente natural, produzida diretamente pela necessidade, mas, antes, só um  efeito da experiência vivida e da reflexão sobre ela, sobretudo da intelecção adquirida a respeito da miserável índole moral e intelectual da maioria dos homens.
(...) Embora haja muita coisa ruim neste mundo, a pior delas ainda é a sociedade(...) salvo raras exceções, no mundo há apenas uma escolha: aquela entre a solidão e a vulgaridade.
É por isto que eu também te observo, entendo e, creia-me, minhas palavras nunca lhe faltarão.

Abraços afetuosos de
 
Arthur Schoppenhauer

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Bernardo Não Me Abandona



Meu amigo Bernardo Soares me conhece bem e parece não querer me abandonar. Insiste em que eu prossiga com esta joça, coisa a que não me obrigo e nem tenho intenção, pois aderir ao langor do devaneio ou da meditação, à troca sazonal da casca da personal jararaca até a exaustão das forças energéticas são minhas metas e devoção até ao limite do possível, ali onde nos encontraremos frente a frente, eu e moi même. Sorrateiramente me envia emails na certeza de que não resistirei à adição deste impulso advindo do negror de tempos pregressos a tornar público seus ditames e observações em relação ao que vê, de onde?, sobre minhas ações, ou não-atos, aqui.
Hoje ofereceu-me um espelho:

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A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigues a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam o amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres da suas vitória para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e num momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha a interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. 

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Admirável Mundo Novo

Deu no Estadão em 18 de Setembro de 2011:
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Romantismo offline

Por Redação Link
Tom Rachman lançou no ano passado, aos 35 anos, seu livro de estreia, ‘The Imperfectionists’, inédito no Brasil. Aclamado pela crítica, o best-seller, um romance sobre um grupo de jornalistas, teve seus direitos de adaptação para o cinema comprados por Brad Pitt. Em crítica ao ‘New York Review of Books’, o também escritor Christopher Buckley diz que teve de ler o livro duas vezes “para entender como ele conseguiu fazer isso”. Neste ensaio inédito no Brasil, Rachman imagina um momento, em 2021, em que a nostalgia do passado analógico levará a uma fuga do digital
Por Tom Rachman, The International Herald Tribune
Tela. ‘Caminhante Sobre o Mar de Névoa’ (1818), do alemão Caspar David Friedrich. FOTO: Reprodução
As previsões para o futuro tomam como base uma falácia: a ideia de que o amanhã será como hoje, mas um hoje ainda mais atual. O que escapa às adivinhações é o evento singular que transforma tudo. Imagine a opinião que os especialistas manifestavam a respeito da década seguinte no dia 10 de setembro de 2001.
Até 1984, obra-prima da ficção futurista, descrevia o período em que foi escrito, tendo como pano de fundo um país semelhante à Grã-Bretanha dos racionamentos de 1948, e a trama dava vazão aos pesadelos totalitários daquele momento. (O romance transcende a própria época graças à genialidade de seu autor, George Orwell, e à triste persistência do seu tema central; basta lembrar da Coreia do Norte nos idos de 2011.)
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Quanto à década seguinte, minhas expectativas são uma projeção das ansiedades e fantasias contemporâneas – em particular, a ascensão das máquinas. Não no sentido habitual da ficção científica, com robôs renegados disparando lasers por aí. Em vez disso, daqui a dez anos, as maravilhas da tecnologia terão alterado ainda mais o nosso cérebro e o nosso próprio ser, provocando uma feroz reação.
Toda grande mudança social é correspondida por um efeito contrário. A globalização levou aos embates mais violentos da última década, entre os que prosperavam dentro deste sistema e aqueles que o consideravam desalmado. Antes disso, a Revolução Industrial levou ao surgimento do romantismo, cujos adeptos criticavam a urbanização e a frieza do comércio moderno, ansiando por uma alternativa idílica às fábricas e às novas tecnologias do século 19.
A próxima década testemunhará rejeição semelhante, com a ascensão dos românticos offline. Esses saudosistas do mundo desconectado criticarão aquilo que consideram ser a degradação da consciência humana: a capacidade cada vez menor de prestar atenção, a dificuldade de concentração, o zumbido da excitação digital invadindo a vigília.
Quando chegarmos a 2021, haverá governantes, pais e concidadãos insistindo para que sejam tomadas medidas contra os perigos enxergados por eles nos computadores – que, construídos para nos ajudar e nos divertir, acabaram corrompendo a programação do cérebro humano.
Esses saudosistas, ou offliners, defenderão que nossa resposta inicial aos milagres tecnológicos do início do século 21 terá sido ingênua – como a de crianças que descobrem uma máquina mágica de balas e jujubas e se recusam a admitir que empanturrar-se constantemente tem consequências.
Quando o assunto é comida, o exagero leva ao sobrepeso. No caso da tecnologia, dirão os offliners, leva a cérebros flácidos. Eles destacarão que os seres humanos de antes faziam mais do que simplesmente apertar botões à espera de recompensas – sua consciência era exigida, e não apenas satisfeita. Eles tinham memórias internas. Eram capazes de se concentrar numa única tarefa, em vez alternar aos trancos e barrancos entre seis atividades simultâneas. Eram também mais calmos, levando uma existência livre das constantes injeções de adrenalina da excitação digital.
Se essa Nostalgia pelos Dias Desconectados será verdadeira, pouco importa – afinal, esses serão os românticos, para quem a verdade emocional é sempre mais relevante do que a exatidão empírica. De acordo com a sua fervorosa opinião, haverá algo de muito errado na vida que levaremos em 2021.
Os fanáticos vão deixar seus aparelhos eletrônicos desligados por dias, fecharão suas contas de e-mail, sairão das redes sociais, tentarão se apagar do mundo online – um seleto grupo de românticos mais dedicados pode chegar ao extremo de viver sem assistir aos vídeos virais com gatos tocando teclado.
Os moderados consignarão partes de cada dia à vida como costumávamos vivê-la, recorrendo, por exemplo, a conversas cara a cara. Chegarão até a buscar períodos de tédio – aceitando momentos que transcorram na ausência de fones de ouvido, de óculos especiais e de todas as outras formas de entretenimento. Os programadores de software vão explorar esse mercado, desenvolvendo programas que permitam desativar aparelhos, possibilitando que os mais virtuosos se concentrem na vida por algumas horas sem serem sugados pela rede. Os mais autoritários usarão produtos do tipo para impor seus desejos de desconexão a cônjuges, filhos, colegas.
A ironia do romantismo offline está no fato de que ele será promulgado na rede, sendo impossível conceber os movimentos do futuro desprovidos de um intermediário digital. Seus opositores citarão essa história da sua origem (bem como o irritante nome atribuído a esses nostálgicos offliners) para caçoar deles, caracterizando-os como elitistas, reacionários, sonhadores.
Esta última acusação será aquela que mais os incomodará. Afinal, olhando para a sociedade como fizeram os românticos do século 19, os offliners saberão que a disputa já terá chegado ao fim. Em 2021, os sonhos não serão mais a respeito do futuro da tecnologia; os sonhos evocarão um modo de vida anterior, mais lento, mais desajeitado e cada vez mais difícil de ser lembrado.
/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Meu Ouvido Atento Para Uma Mensagem




Deu no JB em 12 de Setembro de 2011

11/09 às 20h56