quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Abrigo

O ABRIGO
(Take Shelter) de Jeff Nichols, Estados Unidos, 2011
Aquele céu que nos protege e projeta para o futuro a visão de mundo que temos quando nossos corações estão cheios de esperança e confiança na vida, a despeito de todas as vicissitudes que nos afligem, tal como o céu nostálgico entrevisto quando se está no lado de dentro do arame farpado em "Aqui É O Meu Lugar" de Paolo Sorrentino (vide resenha aqui neste blog), é o mesmo céu que de repente pode desabar sobre nós inclemente e sem qualquer consideração.
Este céu traiçoeiro, em constante mutação, que carrega em si ameaças não totalmente digeridas em nossa relaxada atividade diária, é a mola propulsora que vai deflagrar em "O Abrigo" um processo assombroso da escalada do medo na psique de um homem comum numa pacata cidade do interior dos Estados Unidos.
No plano de abertura a chuva que cai é viscosa ao tato de Curtis LaForche, o personagem protagonista em que Michael Shannon, ator de teatro cujas habilidades interpretativas encontram aqui uma fonte inesgotável de estímulos faz de sua atuação um excelente espetáculo.
A estranheza que nos mobiliza a respeito do fato desta chuva cair sobre uma pequena comunidade é levada adiante ao verificarmos que a natureza constitui um problema, e nessa altura isto já está em franco processo de transformação. Assalta-nos a espectativa de estarmos começando a assistir um destes filmes-catástrofe de premissa básica bioética qualificada e que depois resvalam para o show de efeitos especiais que acabam assumindo o primeiro plano das produções (e às vezes sua razão de existir). Vemos deslumbrantes imagens de um bom gosto especial nas cumulações de nuvens, fulgores atmosféricos, tempestades elétricas, tornados e movimentos de aves migratórias que fazem do seu vai-e-vem no espaço a palheta soturna de uma estranha volatilidade aquarelada.
Curtis LaForche é uma testemunha a mercê destes fenômenos e por eles a cada dia mais ensimesmado. Seu comportamento vai-se tornando mais esquivo, suas relações familiares caminham em acelerada marcha ladeira abaixo e só se sustentam na firmeza e lucidez com que sua mulher - senhora absoluta da intuição de que algo muito especial está assaltando a personalidade de seu marido, transformando-o - gerencia a necessidade de mantê-los unidos e coesos em face das adversidades que ela vislumbra no horizonte. A atuação de Jessica Chastain defendendo esta mulher, Samantha, emociona em meio às fragilidades de seu temperamento e características físicas, totalmente desprovidos de artificialismos de composição e macetes de mise-en-scene que nos deixam suspensos com sua reação quando seu marido revela, após muito postergar, a dimensão de seus medos. Samantha se indaga se este ainda é o homem que ela ama.
Dewart, colega de Curtis, camarada compreensivo e colaborador, também sente que há algo diferente acontecendo; em troca oferece solidariedade tentando fazer com que Curtis se abra com ele, mas tudo que obtém é seu compromisso em aceitar participar na tomada irregular por empréstimo da companhia perfuradora em que trabalham, as máquinas que os ajudarão num fim de semana a cavar uma extensão considerável no abrigo anti-tornados e tempestades que Curtis começou a viabilizar em seu jardim, após fazer por um outro lado outro empréstimo temerário a despeito de todas as evidências da também atual falta de saude financeira da família.
Curtis acredita que poderá abrigar sua família do fim do mundo. Sua crença que chegou a hora do apocalipse é irrefutável e a partir de então, começa a ter aterrorizantes visões que nos são transmitidas tanto pela intensidade do olhar triste de Shannon em contraste com sua fisicalidade imponente, quanto pelas representações físicas dos fenômenos horripilantemente manifestados que assolam sua mente, como a levitação momentânea da mobilia que logo após desaba. Tudo isso com uma competência técnica de tirar o chapéu e de uma agressividade tão assustadora na sua capacidade de extrair
ângulos de uma violência inusitada de objetos e ações cotidianos comuns,  que sentimo-nos acuados como se o pânico de Curtis por um momento fosse se apoderar da platéia absorta na fruição desta galeria de negras poesias absurdas. 
Veja entrevista com Jeff Nichols em
http://video.nytimes.com/video/2011/09/29/movies/100000001081761/jeff-nichols-on-take-shelter.html
Talvez o que as visões de Curtis reivindicam seja a reação a uma suposta instabilidade pessoal nesta época de acentuado mal-estar generalizado, o tal "mal estar da civilização" que vivemos hoje em meio a cataclimas industriais, naturais e econômicos. Surpreendentemente, dentro da perspectiva globalizante esta suposta fraqueza se transforma em energia transformadora, revertendo a situação em vários parâmetros, inclusive naquele que paradoxalmente o faz um herói dotado de certos poderes de concretização de utopias pessoais em prol da proteção, da manutenção e sobrevida de sua família, esta a palavra mágica de um milhão de dólares, para a qual convergem todas as afluências interpretativas deste filme.
Curtis não consegue lidar com o processo inconsciente de inadaptação à realidade circundante, e quando estas circunstâncias configuram um momento de confrontação, ele faz do seu pânico a ferramenta que o impulsionará à consecução de seus planos. Este abrigo é como um buraco cavado por uma avestruz em perigo: o corpo permanece exposto na ilusão de uma proteção conceitual. Este medo gigantesco e insensato é liberado em crise quando ele se sente na iminência de romper (ou após ter rompido, como no caso da religião) os laços emocionais que o unem à familia, à comunidade, à religião e ao trabalho. 
Somos informados quando Curtis - seguindo pistas de aconselhamentos psicológicos (e de sedativos)- resolve visitar a mãe num sanatório após anos de dolorosa distância, que ela foi vítima de um processo de esquizofrenia-paranóica, mantendo-se internada desde então, uma aparição prodigiosa de opacidade emocional induzida por medicamentos da atriz Kathy Baker. Desconfiamos automaticamente da inserção do personagem na cadeia hereditária que poderá ter levado este protagonista a enfrentar a crise que o assola.
Todos este personagens convergem para a identificação da desintegração pessoal de um homem acossado por conflitos e problemas de todos o lados (a necessidade de realizar uma intervenção cirúrgica para corrigir a surdez de sua filha quando perdeu o seguro-saude ao ter sido demitido após usar as máquinas da empresa sem autorização) e que luta para suplantá-los.
Aqui o antagonista mora dentro do personagem principal e as dificuldades que impulsionam a história são de ordem puramente internas e subjetivas. 
Poucas vezes uma platéia ficou tanto a mercê de ter de optar por configurar particularmente um filme, juntando todas as possibilidades fornecidas pelos elementos que compõe esta obra milimetricamente concebida, no tom exato e sem vacilações de timing em que Jeff Nichols magistralmente nos oferece em "O Abrigo".
A cena central, a mais tocante e intensa do filme, onde se estabelece a ambiguidade da caracterização de Curtis como louco, profeta, iluminado ou algo entre estas categorias, surtando numa reunião social da comunidade, está tão carregada de eletricidade quanto o céu ameaçador que vai desabar de um momento para outro sobre todos. É quando Curtis percebe que sua única opção é assumir suas limitações e conflitos, praticando integralmente o ser que ele se transformou a despeito das intolerâncias e problemas que sua situação especial conjura neste mundo adverso.
A cena em que os pássaros que ondulam aquela aquarela volátil e sombria no céu vão caindo mortos na trilha em que Curtis carrega sua filha é de uma comovente e arrepiante poesia que raramente encontramos em representações de pesadelos na história do cinema: merece destaque especial e figuração em listas das mais sugestivas e também nos fornece uma medida do quanto já foi depurada a representação cinematográfica da loucura, desde o desastre hitchcokiano em "Quando Fala O Coração" (Spellbound), de 1945, macaqueando alguma cartilha de linguagem cifrada psi hoje completamente datado, e as perturbadoras, teatrais e primitivas imagens da loucura em "Repulsa Ao Sexo", de Roman Polanski, 1965, hoje ainda impactantes.
Existe aqui uma fotografia em tela grande muito adequada ao tom sombrio da narrativa, com uso diferenciado de enquadramentos, distribuição de pesos e tensões, e também uma cumplicidade musical tão afinada  que vai da grandiloquência ao pianíssimo, para dar vez à total falta de orquestração naqueles momentos mais íntimos e afetivos que Nichols nos brinda como zonas de conforto em meio à odisséia rumo ao apocalipse.
Este apocalipse é a presença do homem no mundo com sua ação destruidora, representando o catastrofismo e o medo. A ação deste homem sobre a terra representa a possibilidade da autodestruição. Mas apesar de todas  evidências amplamente propaladas, e que meu wishful thinking elegeria como a variante mais consequente para a abordagem deste filme, esta consideração bioética não se concretiza pois o sr. Nichols - sem julgar Curtis ou apontar para alguma solução para sua patologia enquanto uma das vítimas que ajudou a erguer uma civilização na tentativa de diminuir seu desamparo frente às forças da natureza, dos enigmas da vida e sobretudo da própria morte (ou ainda de inseri-lo como elemento na ordem catastrófica universal) - contextualiza o medo como parte constituinte e inevitável de nossa existência para afirmar o quanto a instituição familiar é uma fortaleza que pode resistir a este estado de coisas mesmo quando confrontada com o desastre.
Quatro estrelas, principalmente os fulgores advindos de Michael Shannon.
A estrela que falta é a opção pela caretice da glorificação familiar como se esse tipo de influência e raio de ação pudesse conter nosso processo catastrófico mesmo em nivel pessoal. Sabe-se que entre dez pessoas, quatro fatalmente se verão às voltas com problemas mentais em algum momento de suas vidas, de fontes e modelitos os mais variados, de posicionamentos sociais diversos e histórias de vida idem. O que de concreto existe atualmente é uma ameaça que nenhum poder ou ciência constituida, seja de que nivel for - familiar, educacional, política, psicanalítica - vai conter a aceleração, seja através da lerdeza de resoluções democráticas em seu compromisso com as maiorias, ou das primitivas xenofobias inexpugnáveis imiscuidas em tribos rivais de nações ainda investidas de podres poderes.
Nenhuma instituição vai conseguir nesta altura dos acontecimentos freiar a grande cagada da humanidade sobre a natureza, a angústia despertada pelo desabamento da ilusão de um ideal protetor onipotente e a superação do mal estar resultante do excesso de ordem e escassez das liberdades individuais e coletivas que permeiam a desestruturação dos seres humanos e o equilibrio do meio ambiente.

Um comentário:

  1. Danilo querido,
    Adorei as resenhas!
    Sobretudo de Polissia!
    E a galinha fodona como rainha da bateria é o maximo!
    Mabel Petazzi

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